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Todas as segundas-feiras à tarde, em directo, recebemos o Martim Sousa Tavares. Esta é a primeira edição do ano de "Encontro com a Beleza". Olá, Martim, bem-vindo.

Verdade. Está bem.

Bem-disposto?

Sempre bem-disposto.

Olha o título da tua crônica desta semana: "O Senhor Martenot é Boa Onda". Já percebi que nos vais falar de um instrumento bem esquisitoide e também, de alguma forma, é um instrumento que tem o nome do seu criador, o que não é muito habitual.

Exatamente. Maurice Martenot. Devo dizer que a culpa de hoje estarmos a falar disso é do ouvinte Francisco Pimentel. Eu adoro receber correio do ouvinte e correio do leitor, e recebo sugestões disto e daquilo, umas mais estapafúrdias, outras mais entusiásticas, e achei esta interessante porque o Francisco, que eu não conheço de lado nenhum, mas a quem mando um grande abraço, dizia que adorou os episódios sobre a viola de arco, que guitarra é uma coisa, viola de arco é outra.

Também gostei desses.

E depois sobre a guitarra também clássica, e dizia: "Agora queremos instrumentos mais estrambólicos". E eu disse: "É? Então espera aí que eu já vou". Arrecei as mangas e pensei: "Vou trazer aqui um instrumento que é certamente pouco conhecido das pessoas, embora muito provavelmente já o tenham ouvido num contexto não da música clássica". Este é um instrumento que, tal como imensos avanços tecnológicos, vem de uma experiência obtida durante a guerra, neste caso, a Primeira Guerra Mundial, em que a tecnologia rádio e as comunicações via rádio cresceram imenso. O Maurice Martenot era um jovem violoncelista francês que tinha sido recrutado para ir para a linha da frente como operador de rádio. Quando a guerra termina, ele está fascinado com as experiências que obteve a trabalhar o rádio e com o som das ondas das sinusóides, um som muito puro, muito estranho.

Disseste sinusóides?

Exatamente.

Isso é uma coisa no nariz, não é? Quando se tem um problema.

É, exatamente, podes tomar um Helvicou, uma coisa assim, ficas logo sem a sinusóide.

Um Nazuomet.

Exatamente. A sinusóide é a forma da onda, no fundo. Quem percebe de Física está a bater palmas neste momento.

Não somos nós. Nem eu.

Por isso é que aqui ninguém bate palmas.

Ciências humanas e sociais.

Certo. Uma sinusóide é um som muito puro, sem ruído, sem nada a estragar. E ele achou aquele som muito interessante e queria fazer um instrumento eletrónico, estamos a falar dos anos 20 do século passado, que tivesse a expressividade do seu violoncelo, porque ele era um violoncelista. Então põe-se a inventar, ele era um engenhocas, e em 1928 dá a conhecer ao público um instrumento ao qual ele chamou as ondas Martenot. Vai ser muitíssimo bem acolhido este instrumento. Vai ser tão bem acolhido, na verdade, que em 1947, em Paris, já era um instrumento que se ensinava no conservatório.

Instituiu-se.

Exatamente, no espaço de 19 anos, passa de ser uma invenção completamente nova para uma coisa já canonizada quase no conservatório, onde, de resto, ele era o professor da disciplina.

Mas era completamente eletrónico?

É mesmo de ligar à ficha.

Sem eletricidade isto não há.

Não funciona. Exatamente. Isto não tem nada acústico ali dentro.

Isto é um teclado, não é?

É. Isto é uma coisa engraçada, porque o que ele faz é: ele tem umas teclas, como se fosse um piano, que correspondem às notas do piano, mas depois tem uma espécie de uma anilha por baixo, e a anilha escorre por baixo das teclas, vai ao longo das teclas. Portanto, ela coordena a nota, e a nota pode deslizar diretamente de uma tecla pra outra. Faz uma espécie de chama-se um glissando. O que é engraçado é que nestes anos, de facto, o instrumento é muito bem acolhido. Uma data de compositores modernistas começam a incluí-lo nas suas composições. Ele entra em peças de orquestra, entra em peças solistas. Há uma geração, mas só uma, de tocadores, de ondistas, como se chamavam.

Chamavam ondistas?

Exatamente. Tocadores de ondas Martenot. E este instrumento começa a entrar em declínio na altura em que se dá a ascensão dos sintetizadores, já na década de 1960.

Os sintetizadores travaram este instrumento, não?

De certa forma, travaram porque eram melhores, tinham outras possibilidades, mas não teriam sido possíveis sem a invenção do Martenot, que cria aqui o primeiro teclado eletrónico. E o Martenot morre em 1980, na altura em que os sintetizadores já vieram para ficar.

Jean Michel Jarre dominava sintetizadores.

É um que usa ondas Martenot, nomeadamente no "Lawrence da Arábia". Vocês vão ouvir e vão ver que, de facto, há muito cinema, sobretudo, que usa as ondas Martenot. Ele vai ficar imortalizado no sci-fi, nos "Aliens". Aquele som . Estão a ver? Não sei se imaginam. São ondas Martenot aquilo. É um som meio lunar, meio etéreo, misterioso, estranho, mas extremamente versátil na medida em que se adapta a quaisquer timbres.

A fotografia do instrumento é espetacular. Eu fiquei a olhar para aquilo. Que teclado é este? Mas o som ainda é mais estranho.

O som é muito especial. Vamos ouvir uma composição contemporânea, na verdade, dos nossos dias, de um intérprete e autor que se especializou em instrumentos raros e está a tentar tirar da sombra as ondas Martenot.

É um ondista?

É um ondista, entre outras coisas. Depois já vos digo quem é que adora este instrumento. Então viram extraterrestres?

Sim, ficamos aqui um bocado estranhos.

"Encontro Imediato de Terceiro Grau".

O Spielberg podia ter utilizado isto no "Encontros Imediatos do Terceiro Grau".

É até possível que tenha usado. Se forem à Wikipedia ver todos os filmes em que as ondas Martenot já foram usadas, são centenas.

Faz-me lembrar aquele instrumento que eu não sei o nome, que é só uma vareta e que as pessoas oscilam assim é engraçado.

Estás a falar do theremin.

Theremin? Não tem um som parecido?

Tem. Esse é um instrumento que também funciona com as ondas.

Aproximas a mão.

É, aquele parece assim um para-raios e tu vais com a mão no meio daquilo. Curiosamente, é um instrumento do mesmo ano, de 1928, que também tem o nome do seu inventor, o theremin. E curiosamente também, o autor desta música, que se chama Thomas Bloch, é francês, toca ambos. Ele é especialista em instrumentos raros, portanto, abrir o currículo deste senhor é um maná. Se o nosso ouvinte Francisco Pimenta quiser descobrir instrumentos raros, basta ir atrás do Thomas Bloch, que também toca theremin, também toca harmónica de vidro, toca as ondas Martenot que vimos.

Há pouco o Tiago Pereira estava aqui a falar do projeto The Smile, do Jonny Greenwood e do Thom Yorke, dos Radiohead, e depois percebi que o Jonny Greenwood adora as ondas.

Era dele que eu ia falar. Há muitos músicos que gostam destas sonoridades. O Tom Waits andou dois anos em turné com este Thomas Bloch a tocar ondas Martenot nos concertos dele. Mas o Jonny Greenwood é, de facto, digamos que o homem do renascimento das ondas Martenot.

O Yann Tiersen também, da banda sonora do "Amélie", acho que também usava bastante.

Também. Mas os Radiohead, a coisa engraçada é, e melhor, ele não é do renascimento, ele é de não deixar morrer as ondas Martenot, porque ele tinha um instrumento original, uma ondas Martenot dos anos 60 ou 70. O próprio Martenot nunca quis fazer produção em massa, portanto elas eram feitas uma a uma. Só que aquilo não é um instrumento para se levar em turné, numa flight, como se fosse uma guitarra, uma coisa assim. Ele tinha imenso medo de estragar as ondas Martenot originais. Então mandou fazer em 2000 uma cópia exata, mas moderna, à qual chamou de The French Connection.

Que bom nome.

Que é muito usada. Exatamente, o nome é um piscar de olho bastante óbvio, mas interessante, porque o Martenot era francês. Esta cópia é mandada fazer no ano 2000 e, portanto, o disco "Kid A", que é de 2000, usa as ondas Martenot talvez em metade das músicas do disco.

Mas antes, quando tu estavas a falar logo de início, sem saber nada sobre as ondas Martenot, a primeira banda que eu pensei que poderia ter usado isto, até estava a pensar como o Walkie Computer, eram os Radiohead.

Exatamente. Sim, aquela exploração tímbrica, uma certa estranheza, que há na música deles, que os nossos ouvintes de bom rock e bom pop dos anos 2000 conhecerão. Agora, as ondas Martenot aparecem um bocado por todo lado e já há hoje em dia muitos sintetizadores que têm pré-programado o som das ondas Martenot.

Imagino que sim. O "Encontro com a Beleza" é todas as segundas-feiras com o Martim Sousa Tavares e hoje trouxe-nos um instrumento estranhíssimo, as ondas de Martenot, inventadas pelo senhor Martenot há cerca de 100 anos, quase.

Sim, quase 100 anos, mas era boa onda ele.

Era muito boa onda. Aliás, "Sr. Martenot é Boa Onda" é o título do "Encontro com a Beleza" desta semana, que vão encontrar já daqui a pouco nas plataformas podcast. Para a semana, não sei se com um instrumento estranho ou não, mas contigo certamente. Novo encontro com a beleza.

Sim, mandem opiniões, propostas. Estamos sempre aqui para acolher as melhores sugestões.

Martim, bom ano. Obrigado.

Bom ano.