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Está no ar o Explicador da Rádio Observador, hoje na edição das manhãs 360 de fim de semana. Falamos sobre como é que Vouzela está a combater o incêndio que dura há mais de 48 horas e é, neste momento, aquele que mais preocupa as autoridades. Para isso recebemos Carlos Oliveira, presidente da Câmara Municipal de Vouzela. A condução deste Explicador é do Miguel Videira.

Começou na madrugada de quarta pra quinta-feira em Vouzela e galgou fronteiras até os concelhos vizinhos de Oliveira de Frades, Tondela e Águeda. É o primeiro grande incêndio desta época de maior risco de fogos florestais, a coincidir com a onda de calor que atinge o país. Motivo de preocupação e seguramente lamento para os autarcas dos concelhos atingidos. É precisamente o nosso convidado este Explicador, o presidente da Câmara Municipal de Vouzela, Carlos Oliveira. Bom dia, bem-vindo e obrigado pela disponibilidade. Começava por lhe perguntar, enquanto não ficamos a conhecer este balanço global feito pela Autoridade Nacional de Proteção Civil do combate aos grandes incêndios que afetam Portugal continental, perguntava se foi uma noite mais tranquila ou nem por isso.

Muito bom dia a todos. Aparentemente, estamos com mais tranquilidade, mas como diz o ditado, as aparências às vezes podem iludir. Temos ainda várias frentes ativas. Temos uma extensão muito grande, quer ao nível da área, quer ao nível do perímetro do incêndio. Temos muitos pontos quentes ou muito quentes ainda. Temos reacendimentos constantes em vários locais. Temos todas essas preocupações. A que acresce a questão da temperatura. Esta noite, para ter uma ideia, a temperatura não baixou dos 25 graus. Estamos já bem acima dos 30, chegaremos seguramente perto dos 40 durante o dia. O vento já sopra com alguma intensidade. Prevê-se alguma rotação também durante o dia do vento, o que traz aqui problemas acrescidos, que temos que estar todos obviamente sempre atentos para que os problemas, esta aparente maior acalmia, não seja contraditória.

Falava de um perímetro muito grande, o incêndio. Há pouco li algures que as últimas informações apontavam para cinco frentes deste incêndio. Mantém-se esse número?

São muitas frentes ainda, quer no conceito de Vouzela, quer nos outros conceitos. São várias, a lavrar com intensidades obviamente diferentes. Mas o que nos preocupa também, além dessas frentes, é a questão dos reacendimentos constantes que vão existindo.

Muito por causa do vento a que aqui fazia referência. Houve casas ameaçadas durante a noite, a necessidade de evacuar localidades ou não?

Durante a noite, pelo menos no concelho de Vouzela, não. Nós não podemos nunca dizer que não estão em perigo. Cada uma das frentes que existe de incêndio tem na sua linha de progressão, aldeias. E essa primeira aldeia é a nossa primeira preocupação maior. A prioridade principal do posto de comando, dos elementos que estão no trabalho, é a segurança das pessoas e dos seus principais bens. Estamos aqui a falar do principal bem, é a sua casa de habitação. É aí que nós temos os meios que estão principalmente concentrados, além de todo o outro trabalho que têm que fazer nas ações de rascal, de monitorização, de vigilância, de pós-vigilância, todas elas que têm que fazer no terreno. Mas como dizia na sua apresentação, já foi há 48 horas, já foi há mais de 50 horas que temos este incêndio, ou estes vários incêndios, que entretanto se vão formando pelos vários concelhos, no terreno. Já há também muita fatiga dos homens e das mulheres que estão espalhados por este teatro de operações. É preciso ir refrescando, é preciso ir mudando. Temos muitos meios no terreno.

São suficientes os meios que aí estão no terreno?

São mais de mil homens, são mais de 400 viaturas. Temos meios aéreos, que é uma janela de oportunidade que temos agora a ter, que foi a entrada dos meios aéreos, que também por vezes é dificultada pela ação do vento e pelos tetos dos fumos, que prejudicam a sua eficácia da ação. Agora, os meios nunca são suficientes. Precisamos sempre mais meios, precisamente também pelo que eu estava a dizer. A fadiga, o cansaço natural de quem está a trabalhar há tantas horas, é preciso ir fazendo render estes homens para o trabalho ser mais forte e para não haver problema.

Mas está a acontecer essa rendição de bombeiros que têm estado aí no combate, sim.

Sim, está a haver rendição. Temos várias equipas também de reforço que vieram de vários pontos do país. Inclusive chegou também ontem à noite a unidade de Espanha, também já está no terreno. Temos muitos meios, mas isso também faz parte da nossa natureza, pedimos sempre mais para acudirmos a mais frentes também.

Já aqui nos deu conta de algumas das condições climatéricas que aí se fazem sentir. O que se perspectiva para as próximas horas? Será um excesso de otimismo pensar que há a possibilidade deste incêndio ser pelo menos dominado este sábado?

Não podemos garantir que o seja. A temperatura vai aumentar muitíssimo, vai manter-se elevadíssima durante o dia. O vento vai rodar, o que é muito preocupante. A umidade relativa é baixíssima. Todo este triângulo acrescido da carga combustível que existe no território, associado ainda à orografia desta serra do Caramulo O sobe e desce constante, a existência de manchas de árvores, quer eucaliptais, quer também algum pinhal, são uma preocupação constante.

Há um tema que se repete a cada ano, a cada verão, a cada grande incêndio, o ordenamento da floresta. As imagens que nos chegam dos incêndios em curso mostram grandes manchas de eucalipto, sendo que esta é uma zona que já havia sido atingida por grandes incêndios em 2017. Falhou o ordenamento no pós-incêndios de 2017? Têm as autarquias instrumentos que permitam esse mesmo ordenamento?

A questão florestal é muito complexa. Além da questão do ordenamento, a minha prática profissional antes de autarca deriva da geografia do planeamento regional, do ordenamento do território. O planeamento desta área florestal é complexo porque junta uma série de fatores. Além do fator humano, da propriedade em si, que a pessoa quer a sua propriedade. Nós aqui em Portugal temos essa questão da propriedade ser predominantemente privada, ou muito privada, com micro, nestes territórios, de minifúndio, muito pequena propriedade. A escala de gestão também é curta, o que não traz rentabilidade nenhuma para o seu proprietário. Associado também à estrutura etária da população que trabalha nestas áreas e também à questão da falta de rendimento que se tira, não está lá, mas temos aqui um problema que é também o abandono, a propriedade sem dono, desconhecida. São temas que todos eles conjugados são preocupantes, mas este planeamento deste espaço rural não se faz de um ano para o outro, não se faz a cinco anos, não se faz a 10 anos, faz-se numa escala temporal bastante maior.

Mas não há instrumentos públicos que permitam esse ordenamento de território que supere essas dificuldades que aqui apontava?

Não podemos dizer que não há. Vai e vem também alguns instrumentos. Houve as zonas de intervenção florestal. E neste momento, por exemplo, no território de Vouzela, está em curso a maior área de transformação da paisagem. Temos uma AIGP, uma Área Integrada de Gestão de Paisagem, aprovada pelos vários organismos, financiada no âmbito do PRR, com mais de 6 mil hectares, já tínhamos transformado mais de mil hectares ou bastante mais. Tínhamos feito inúmeras beneficiações de estradões, de caminhos. Todos esses instrumentos estavam a ser feitos, mas a transformação do solo rural exige tempo, exige muita complementaridade dos vários atores que existem no território, que estava a haver, mas que estes grandes incêndios levam grande parte disto por terra.

Exigem-se outro tipo de instrumentos face a esta previsão de que estes fenômenos climáticos extremos vão ser cada vez mais frequentes, criando condições para que os incêndios também sejam, eles próprios, cada vez mais frequentes e mais devastadores?

Temos que aumentar a escala, aumentar o rendimento. Esta questão da Área Integrada de Gestão de Paisagem é fundamental, como é fundamental a inclusão da silvopastorícia. Não é possível face às condições e ao clima destes territórios, muito quente no verão, com ausência de pluviosidade, no inverno com muita chuva. A carga combustível cresce a ritmos muito grandes. Há muito combustível e não há recursos financeiros nem humanos que permitam fazer essa gestão mensal, anual destes territórios. É necessária esta complementaridade, estes usos múltiplos da floresta são fundamentais. A introdução da silvopastorícia é fundamental, como a gestão conjunta com uma escala maior do território, que permita tirar rentabilidade e que permita um ordenamento diferente.

No caso deste incêndio específico de Vouzela, a acidentar este facto, o incêndio começou de madrugada, segundo creio, por volta das 10:00 a.m.

Três da manhã.

Três da manhã. De resto, um facto a que o ministro da Administração Interna também fazia referência nas últimas horas. Há alguma indicação de como é que começou este incêndio, face à possibilidade de ter origem danosa, já há alguma suspeita de quem é que possa ter praticado este ato?

A entidade que vai analisar a causa são as forças policiais. As indicações que nós temos é que o início do incêndio foi por volta das 3:00 a.m., com dois focos de incêndio distintos. O que eu digo, não posso obviamente provar, que não tenho forma de o provar, que teve intenção maléfica ou criminosa. Agora, tenho a certeza absoluta de que às 3:00 a.m. não andavam lá duas motoasserradoras a trabalhar.

Tendo em conta o local da ignição dos incêndios, consegue perceber se há algum interesse económico, possa haver algum interesse económico associado?

Não faço esse julgamento. Ou melhor, não o quero fazer. Não quero ter essa natureza.

Os dados disponíveis sobre a natureza dos incêndios apontam também para um aumento dos fogos por negligência. É um problema também no concelho a que preside, Fozêlo?

Também vai sendo. As pessoas vão fazendo o registro das queimas dos amontoados, que são necessárias fazer no período mais frio, no período de inverno, mas por vezes a negligência leva a que ao fim dessa queima ou dessa fogueira haja a fuga desse incêndio, não seja controlada e dê origem a alguns incêndios.

Deixe-me aproveitar a sua presença neste explicador da Rádio Observador para lhe perguntar um tema associado à necessidade dos concelhos criarem espaços climatizados que possam servir de refúgio à população em dias de maior calor. Em Fozêlo existe este espaço?

No âmbito do nosso plano municipal de emergência, proteção civil, dos instrumentos que temos ao nosso dispor, temos identificadas no território zonas de apoio, chamadas zonas de concentração e reserva de apoio à população, para em caso de necessidade podermos recolocar essas pessoas ou mobilizar essas pessoas, ou mesmo também agora durante o incêndio, na necessidade de fazer alguma evacuação ou levar as pessoas para, por exemplo, IPSS, para os bombeiros, para as igrejas, para os pavilhões das escolas. Todos esses locais estão identificados no nosso plano e serão obviamente monitorizados em função da necessidade.

Carlos Oliveira, muito obrigado pela sua presença neste jornal, tendo em conta a gestão do seu horário, que imagino não seja fácil, e as preocupações que carrega em cima dos seus ombros com estes incêndios que começaram no seu município a que preside, Fozêlo. Obrigado, Carlos Oliveira. Foi o convidado do Explicador desta manhã.

Muito obrigado.