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Esta é mais uma edição do Gabinete de Guerra. Os serviços secretos da Alemanha têm apontado o dedo à contraofensiva ucraniana. Este será um dos temas em análise aqui no Gabinete de Guerra de hoje, com a ajuda da Daniela Nunes, doutoranda do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Uma conversa onde também participa o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz.

Daniela Nunes, bem-vinda ao Gabinete de Guerra. Não está a ser feita corretamente essa contraofensiva, é o que aponta a Alemanha. A Ucrânia está a perder uma oportunidade, tendo em conta que Putin ainda poderia estar nesta altura a digerir a rebelião do grupo Wagner. Parece-lhe que, apesar desse contra, a Rússia até tem conseguido impor-se e definir melhor os alvos?

Olá, boa tarde e obrigada pelo vosso convite. De acordo com aquela que foi a leitura do presidente Putin sobre esta contraofensiva, o que está a falhar aos olhos dele, para a Ucrânia, essencialmente, é o esgotamento do seu arsenal, ou seja, são questões associadas à escassez de material. Essa leitura, por muito que seja a Putin, não parece estar completamente desviada da realidade dos factos, até porque o próprio Zelenskyy veio confirmar também que esta contraofensiva estava efetivamente a acontecer de forma mais lenta do que aquilo que era previsto e confirmou ainda que esta lentidão se devia a alguma falta de armamento, por um lado, e por outro, também à necessidade de proteger o armamento ainda disponível. Portanto, estas duas coisas juntas oferecem à Rússia um pequeno intervalo temporal que pode ter contribuído, ou contribuiu, certamente, para um reforço e para uma reorganização da sua estratégia militar, por um lado, e depois também por outro, do ponto de vista moral e psicológico, para uma renovação da esperança das forças russas e das tropas russas neste esforço de guerra. Há aqui também que ver uma coisa, que é: temos que ter em linha de conta que Zelenskyy está sempre a fazer o seu papel no que diz respeito a pedir mais e melhores materiais aos seus aliados no Ocidente e, de alguma maneira, o desacelerar desta contraofensiva e um eventual falhanço desta contraofensiva obrigam indiretamente os aliados a apressar a ajuda e a enviar o maior número possível de abastecimentos bélicos para a Ucrânia. Ou seja, o que eu estou a tentar dizer aqui é que esta também pode ser uma estratégia ucraniana para desobstruir vias em matéria de ajuda ocidental.

O dia de hoje fica marcado pela visita do ministro da Defesa russo à Coreia do Norte. Trata-se da primeira visita estrangeira desde a pandemia a este país asiático, o que é simbólico. Perguntava-lhe, Daniela Nunes, até que ponto podem ser fortalecidos os laços militares entre os dois países e se a guerra se prolongar, será possível ver a Coreia do Norte a apoiar diretamente a Rússia?

Sim, eu ia justamente começar pela sua pergunta. Este é realmente um momento muito importante, não apenas porque estamos no contexto da guerra na Ucrânia, mas também porque a Coreia do Norte representa possivelmente o país mais desconhecido e isolado no planeta Terra. E sobretudo desde a pandemia, e desde que houve um reforço por causa da pandemia, relativamente a este isolamento que já era característico, não se ouviu falar de nenhuma outra visita diplomática com a dimensão e com o mediatismo desta que vemos agora. Portanto, trata-se claramente de um momento importante e de um momento simbólico e, sobretudo, trata-se de um momento do qual poderão surgir novidades importantes para o contexto da guerra. O que não é uma novidade é que as relações da Rússia com a Coreia do Norte são relações amistosas de há vários anos para cá. Portanto, o que estamos à espera não é, por certo, do estabelecimento de novos laços. O que estamos à espera poderá, sim, ser um possível estreitamento de laços e que, em particular, possa beneficiar a Rússia em matéria de abastecimento logístico e material bélico. A história também nos demonstra que a Coreia do Norte tem poucas reservas e pouca preocupação no que respeita a questões de armamento nuclear e em mostrar que dispõe deste tipo de armamento. Portanto, não sabemos também se este ponto em concreto será sequer um tema durante esta visita diplomática do ministro da Defesa russo, mas é obviamente uma preocupação e um problema para todos nós, se eventualmente as ideias e as temáticas entre a Rússia e a Coreia do Norte descambarem neste sentido.

E Daniela Nunes, começou hoje também a segunda cimeira Rússia-África e o Fórum Econômico. A sedução que Vladimir Putin tem tentado levar a cabo no continente africano pode dar frutos, sendo que este é o continente mais prejudicado com a suspensão do acordo de cereais também.

Sim, Putin realmente, essa é uma boa palavra. Putin realmente tem aqui uma tarefa de quase sedução em mãos, porque tendo em conta a posição de vulnerabilidade em que deixou boa parte dos seus parceiros africanos, muitos deles países em desenvolvimento e com graves dificuldades de um ponto de vista básico, que é a alimentação das pessoas, ele terá realmente que colmatar aqui, de alguma forma, a péssima atitude que teve ao sair do acordo dos cereais. Vai certamente ter que oferecer a estes parceiros algum tipo de garantias, e eu não vou muito além de garantias que não tenham diretamente a ver com a questão alimentar, porque ela é uma questão basilar e é importantíssima para estes países mais desfavorecidos. Portanto, acredito que o tema cereais e o tema bens alimentares Associado à potencial subida de preços nestes países, que as pessoas obviamente não vão poder suportar, serão os principais temas em cima da mesa nesta segunda cimeira, que começa amanhã. Hoje mesmo, num discurso de saudação aos participantes deste fórum, Putin sublinhou que quer manter e cuidar das relações com África e falou especificamente na questão das relações comerciais. É óbvio que ainda não sabemos o que isto pode querer dizer em concreto, até porque o fórum só começa amanhã, mas pelo menos parece ser um bom prelúdio relativamente a algum tipo de flexibilidade ou de abertura da parte de Moscovo sobre a exportação e sobre o fornecimento de cereais para estes países.

E o que a Rússia pode ganhar com esta abertura com os países africanos?

Neste momento, não sei o que a Rússia pode ganhar, mas perante o Ocidente, alguma abertura e alguma flexibilidade podem beneficiar as relações com a Ucrânia. Não estamos obviamente a falar de relações amistosas, estamos a falar apenas da questão do acordo dos cereais e, de alguma maneira, da continuidade do exercício de exportação destes bens a partir dos portos ucranianos. Ainda assim, não me parece, para já, que seja possível prever algum tipo de estratégia ou de atitude milagrosa para convencer Moscovo a ceder, pelo menos a 100%, ou de alguma forma, perante a Ucrânia e perante o Ocidente nesta questão do acordo dos cereais. E digo isto com base naquilo que tem sido o cenário nos últimos dias em Odessa. Os ataques incessantes na região de Odessa só têm um propósito, para além, obviamente, do propósito da destruição gratuita, que é esvaziar a Ucrânia da possibilidade de exportar cereais. E isso implica, como temos vindo a observar, destruir toda aquela zona portuária, numa ofensiva que tem sido particularmente destrutiva e que inclusivamente chegou recentemente muito perto de território NATO, porque um dos portos recentemente atacados fica situado na fronteira da NATO com a Roménia, e a Roménia, como sabemos, é um membro da NATO. Há poucos dias, tudo isto poderia ter tomado rumos ainda mais complicados do que aqueles que já conhecemos. Vamos ver no que tudo isto resulta e vamos ver, sobretudo, amanhã e depois de amanhã, com o final deste encontro, deste fórum Rússia-África, vamos tentar perceber o que sai daqui e se o que sai deste encontro pode de alguma maneira ser importante para o contexto das relações entre a Rússia e a Ucrânia em matéria de exportação de cereais.

E nesse sentido, perguntava-lhe precisamente então o que esperar da reunião do Conselho NATO-Ucrânia, que está a acontecer hoje, que é uma reunião sobre a suspensão do acordo de exportação de cereais ucranianos no Mar Negro. Poderá sair daqui alguma ideia de como convencer a Rússia a voltar? Poderá haver um acordo sem Moscovo?

Julgo que, obviamente, esta reunião e este Conselho NATO-Ucrânia vão abordar esta questão dos cereais e é possível que esse até seja o ponto central das conversações. Não me parece, e aqui repito-me um pouquinho, que seja possível prever nenhum tipo de estratégia milagrosa para convencer Moscovo a ceder. No entanto, a alternativa, como já tínhamos tido a oportunidade para ouvir da parte do presidente Erdogan, poderia ter sido um trio entre Ucrânia, ONU e Turquia, mas percebemos que essa ideia, como seria de esperar, hostilizou o presidente russo, que rapidamente se preocupou em garantir que essa alternativa não poderia ir avante e resolveu investir na quebra dessa alternativa, atacando incessantemente a região de Odessa, garantindo que a partir dos portos ucranianos não consegue sair nada. Não conseguem sair os cereais e os bens de que estamos a falar em particular, porque o acordo é um acordo de cereais, mas isto obviamente afeta outros bens, outras questões e outras matérias. Não me parece que, para já, seja possível prever nenhuma cedência da parte de Moscovo, e sobretudo com o que tem estado a acontecer em Odessa, mas vamos ver também como é que se posiciona a Turquia. Vamos ver se está mais preocupada em fazer finca-pé e unir-se neste contexto mais comercial ao Ocidente e à Ucrânia, ou se prevalecerá a relação mais próxima com o presidente Putin. Vamos ter que esperar para perceber o que resulta daqui.

Daniela Nunes, permita-me também falar aqui, até porque é uma notícia que tem não muitos minutos e também vamos ter que esperar para ver o que acontece, mas já agora gostava da sua análise. Dilma Rousseff, a antiga presidente do Brasil, que atualmente é presidente de um banco, deve reunir-se ainda hoje com Vladimir Putin, é o que está a avançar o Globo e a CNN Brasil. Em teoria, um dos temas de discussão será o comércio de moedas locais. Como é que olha para este encontro?

Vamos ver o que pode resultar de uma figura que, neste momento, não é exatamente fulcral.

Não tem funções políticas executivas, naturalmente.

Exatamente, era o que eu ia sublinhar. É obviamente uma personalidade conhecida e que vai ter algum impacto mediático. No entanto, não parece que devamos escoar esse impacto mediático para questões diretamente relacionadas com a guerra.

Sendo que sabemos a proximidade que o Brasil tem com a Rússia e, de resto, o Lula da Silva também tem protagonizado alguns momentos a propósito.

Sim, se estivéssemos a falar aqui de um encontro ou de conversações com o próprio presidente Lula, aí estaríamos, eventualmente, a falar de questões oficiais e de uma tomada de decisão e de posição, quer da parte do Brasil, quer da parte da Rússia. Portanto, posições oficiais e decisões oficiais. Assim sendo, não me parece que devamos atribuir demasiada importância a estes encontros secundários com personalidades que, por muito importantes e influentes que possam ser, não são oficiais, não são determinantes, pelo menos do ponto de vista das lideranças, quer no mundo ocidental, quer na Rússia e no contexto dos aliados da Rússia também.

E também para o curso da guerra. Obrigada, Daniela Nunes, por ter vindo ao Gabinete de Guerra. Daniela Nunes é doutoranda do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, estuda a fundo temas relacionados, sobretudo com a Rússia.