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"Gabinete de Guerra" na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos de atenção geopolítica. Hoje contamos com a análise de Ana Cavaliero, especialista em assuntos internacionais. Boa noite, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. Vladimir Putin reiterou hoje que a Rússia não pretende atacar a Europa, mas reforçou a ameaça já feita à NATO. Avisa que se a Aliança Atlântica tentar isolar o enclave russo de Kaliningrado, que faz fronteira com a Polónia e com a Lituânia, a resposta do Kremlin será devastadora e admite mesmo recorrer a armas nucleares. Pergunto-lhe que leitura é que faz destas ameaças e como é que a NATO deve olhar para estas ameaças e de que forma é que deve responder, se é que há alguma forma de responder?
Eu penso que há duas considerações que podemos já fazer a partir do momento em que nós percebemos que Putin sentiu a necessidade de fazer este tipo de comentários. Primeiro, é a vulnerabilidade geográfica estratégica daquilo que é aquele enclave Kaliningrado. Não tem sido coincidência o facto de a NATO ter feito determinados exercícios, nomeadamente aéreos, e também o facto do Báltico, com a Suécia e a Finlândia terem se juntado à NATO recentemente, e temos a Lituânia e a Polónia que poderá distanciar Kaliningrado da Bielorrússia. Isso significa que há ali um cerco, que se a NATO começa a exacerbar os exercícios militares com base em tentar estancar, ou pelo menos a projetar a possibilidade de poder trancar as linhas de abastecimento para Kaliningrado, preocupa Putin. É interessante porque nós pensamos que Putin está a tentar demonstrar poder, projecção de poder, mas no fundo, o que está a demonstrar é a sensibilidade de vulnerabilidade que isto aparenta, porque para ele sentir esta necessidade de fazer esta afirmação, é porque percebe que Kaliningrado está exposta e que os aliados da NATO estão a se preparar para todas as circunstâncias. Depois, também, eu penso que cada vez que há uma ameaça nuclear, não é ameaça nuclear, mas que há um alerta, uma espécie de recordação ou memória de que: "Esperem, nós temos arsenal nuclear, não se esqueçam, NATO, que vocês estão a planear determinadas estratégias de dissuasão", que Putin interpreta como ofensivas contra uma potência nuclear. Isto é sempre um registo que é abordado quando as coisas não estão a correr bem naquilo que tem sido a perseguição dos objetivos militares da Ucrânia, nomeadamente o facto daquela linha da frente na Ucrânia estar não só completamente estanque, mas com a operação Vivaldi que a Ucrânia tem desenvolvido nas últimas duas semanas, significa que os ucranianos até têm conseguido conquistar determinado território em Lugansk e em Donetsk, nomeadamente na zona de Lyman. Isso significa que, mais uma vez, juntamente com outras estratégias de ataques híbridos, aquilo que a Rússia e Putin estão a tentar fazer é elevar, em termos de discurso político, o potencial de escalada, no fundo, tentar dissuadir ou prejudicar o compromisso dos países da NATO em manter a ajuda da Ucrânia. No fundo, é fragilizar aquilo que são os incentivos ao compromisso que os aliados da NATO possam querer conceder à Ucrânia. Eu penso que será esta a interpretação, pelo menos que eu faria.
Vamos também olhar para o conflito no Médio Oriente. Donald Trump voltou hoje a admitir a possibilidade de aniquilar o Irão e assinou que é possível que os Estados Unidos voltem a bombardear o Irão depois das eleições intercalares. Como é que devemos ler esta calendarização associada à política interna norte-americana? Estamos perante uma estratégia de cálculo eleitoral ou a indicação real de que a administração norte-americana prevê, de facto, uma escalada militar depois das eleições?
Eu penso que não podemos, neste momento, com todas as afirmações que Trump tem feito sobre a preparação ou o plano de fazer um ataque devastador ao Irão. Ele alega sempre isso cada vez que quer puxar o Irão para as mesas da negociação. No fundo, sempre que há uma projecção de ameaça, aquilo que é o grande objetivo, juntamente com algumas condições de terreno, é tentar pressionar a outra parte, neste caso o Irão, a Guarda Revolucionária, a conceder coisas na mesa de negociação que até agora ainda não tem concedido. A falta de credibilidade de Trump a este ponto, nos planos e nas ameaças que propõe, já não é positiva, já não existe, porque ele já diversas vezes alega que está preparado a fazer um ataque mais devastador ao Irão. E eu reitero para a audiência que o ataque devastador seria, acima de tudo, ter como alvo, nestas operações militares, as chamadas instalações duplo uso, nomeadamente pontes e centrais elétricas e muito daquilo que são as infraestruturas ligadas a sustentar a vida civil, mas que naturalmente, como é duplo uso, é fundamental para sustentar também aquilo que são as potencialidades militares do Irão. Sendo certo que, agora para clarificar, o objetivo primordial nunca seria fazer uma ação devastadora da vida civil, mas nós sabemos que muito daquilo que são as pontes e as centrais elétricas que promovem o abastecimento militar da Guarda Revolucionária, têm que ser atingidas se queremos pôr pressão máxima. Só que isso tem sempre consequências muito difíceis. Eu volto a lembrar, por exemplo, que o Bill Clinton, naquilo que foi os ataques à NATO para tentar destruir ou abolar o regime do Milosevic Na Sérvia, a Jugoslávia, foi quando a NATO começou a atacar instalações de duplo uso, que naturalmente levou à impossibilidade de Milošević continuar. E até agora, Donald Trump sabe que dando esse passo, aquilo que iria acontecer era a Guarda Revolucionária fazer uma espécie de último ato de sobrevivência, de ataques contra vários países do Golfo, nomeadamente as estruturas de duplo uso e centrais de dessalinação e também centrais elétricas dos países do Golfo. E naturalmente ainda não há condições políticas para esses países do Golfo aceitarem essa consequência. E eu penso que nisso nada se alterou. Se Trump não fez antes, também não irá fazer depois das intercalares, este tipo de escalada, na medida em que, naturalmente, se ele quisesse fazer isso, não faria naturalmente agora em setembro, mas poderia ter feito em março ou em abril, quando haveria a possibilidade ainda de salvar este conflito, apressar aquilo que seriam as consequências ao ponto de salvar estas eleições intercalares. Eu penso que mesmo depois das intercalares, será difícil Trump dar esse passo por causa das consequências relativamente aos países do Golfo, que são ainda aliados na estrutura securitária americana. Todavia, eu penso que a retoma de ações militares à escala que nós nos habituámos nos meses a partir de não só de fevereiro e março, que eram mais intensos, mas desde abril, eu penso que isso então, depois das intercalares, Trump não tem tido espaço político nos últimos 30 a 60 dias para fazer esses ataques mais cirúrgicos, mas mais de retaliação a determinados ataques que a Guarda Revolucionária tem feito a determinados petroleiros e a navios mercantes. Eu penso que aí, depois das intercalares, haverá mais flexibilidade política. Aquilo que Trump está a contar neste momento é o facto de termos tido nos últimos dois dias boas notícias relativamente ao fluxo daquilo que é a quantidade de petróleo que tem saído do Estreito de Ormuz, o que significa que mesmo a alto custo, por parte daquilo que tem sido a Marinha, a Força Aérea e os fuzileiros, os Marines americanos, parece que têm conseguido, pelo menos, voltando a reiterar, a alto custo, dar alguma segurança para haver as operações de transporte de vários navios petroleiros. Isso tem sido positivo. Acho que neste momento tem estado o fluxo mais elevado desde o início da guerra, mas isso tem duas consequências. Primeiro, é possível, e é por isso que talvez o preço do petróleo em bruto, o crude, ainda não tenha refletido esse aumento de quantidade, porque o mercado sabe que isso provavelmente vai despoletar uma reação militar forte por parte da Guarda Revolucionária. Porque não só existe petróleo dos países do Golfo a sair, mas o petróleo do Irão não está a sair, porque está a haver um bloqueio naval que tem sido muito eficaz relativamente à capacidade do Irão exportar. E então, há o risco de haver uma escalada militar por parte do Irão, porque estão a ver a sua situação económica a ficar insustentável e também a perder aquilo que é o controle estratégico da sua grande arma, que é o Estreito de Ormuz, por um lado. E o segundo problema é que os indícios de volume de petróleo que estão a passar pelo Estreito de Ormuz estão a subir, mas qual é o objetivo por parte da administração Trump em termos estratégicos? É tentar provocar uma mudança de regime ou uma mudança de comportamento do regime, que é aquilo que a administração americana alega relativamente à Guarda Revolucionária? Não se antecipa que, mesmo com esta dor económica tão gritante que está a ser imposta ao Irão, que a Guarda Revolucionária esteja a sinalizar qualquer tipo de concessões, nomeadamente aquilo que seria talvez a figura racional mais apta a fazer determinadas concessões, que era Ghalibaf, apoiados também com a parte política de Aratchi e Pezeshkian, continuam a não ter controle naquilo que são capazes de conceder ou prometer. Quem está a ter o controle militar ainda, que é no fundo o que interessa, é Wahidi, Jalili, que são os líderes da Guarda Revolucionária. E parece ainda não haver sinais dessa transferência de controle. Parece que Jalili, Wahidi continuam a ser quem verdadeiramente está a mandar. Isso é um problema, porque o volume de petróleo que está a passar pelo Estreito de Ormuz está a aumentar, mas a um elevado custo financeiro e também operacional por parte dos Estados Unidos. Conseguem manter essa estrutura até finalmente fazerem o regime da Guarda Revolucionária colapsar? Essa dúvida ainda não há resposta.
E precisamente também a propósito do que falava, Donald Trump hoje insistiu que o maior problema para o preço do gasóleo é a guerra na Ucrânia. Tendo em conta a atual situação no Médio Oriente, faz algum sentido esta afirmação?
Faz algum sentido se pensarmos que ele não está a dizer que é exclusivamente a guerra da Ucrânia. O grande drama neste momento em termos de combustíveis está-se a prender muito relativamente ao gasóleo. E o gasóleo é um produto refinado, o que significa que tem a ver com o constrangimento das refinarias e todas essas infraestruturas conseguem processar o petróleo em bruto. E então aquilo que Trump está a tentar sinalizar é que a partir do momento em que a Ucrânia, na minha perspectiva, de forma absolutamente irracional, começou a atacar aquilo que são as refinarias Que fazem esta transformação para gasóleo da Rússia, e a Rússia tem, relativamente à sua capacidade de fazer refinação, é uma componente importante de mercado. Podemos observar que é o gasóleo, de forma mais específica, que está a ter determinado o descontrole de preços. Isso não quer dizer que naturalmente, e é uma questão óbvia, o facto de haver constrangimentos relativamente ao produto em bruto, que está a ser possível de escoar ou não no Estreito Ormuz por causa do conflito médio-oriental, também terá impacto, com certeza. Mas eu penso que aquilo que Donald Trump está a fazer em termos políticos é tentar sinalizar ao eleitorado: isto não é culpa daquilo que eu iniciei, mais do que iniciou, porque o que ele vai dizer é que quem iniciou foi o Irão com a sua tentativa de tentar instrumentalizar o programa de armamento nuclear. Mas o que ele vai tentar dizer é: "Ok, não foram as minhas decisões de atacar o Irão", por mais objectivos que Donald Trump possa dizer que sejam razoáveis. "Não foi essa a minha decisão que provocou o descalabro, neste momento, do preço, porque o petróleo até está a escoar pelo Estreito Ormuz e mesmo que não seja ao nível pré-guerra, o facto de os países do Golfo estarem a arranjar alternativas para escoar também através do Mar Vermelho", mas aqui também podemos falar dos Houthis, não vamos por aí. Mas o que o Trump está a dizer é: "Ok, não é isto, é a guerra entre a Rússia e a Ucrânia". Não é exclusivamente a guerra da Rússia e a Ucrânia, mas é verdade que aquilo que tem sido a estratégia da Ucrânia, e muito bem, a meu ver, de atacar as capacidades de refinação da Rússia, tem tido um impacto brutal naquilo que tem sido a capacidade de ter oferta de gasóleo no mercado.
Ana Cavalheiro, especialista em assuntos internacionais, muito obrigada pela sua análise.
Muito obrigada.
Fica por aqui o Gabinete de Guerra, está de regresso amanhã.