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"Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo, obrigado e boa tarde.
E queres ir ao tema do momento, é incontornável: os protestos. Não sei se tu preferes a expressão acampamento ou acampada. Eu gosto mais de acampamento, confesso.
Acampada nem conhecia.
Também não.
Mas também é giro. É tipo arruada, não é?
É, pois se calhar é essa.
É o eugismo. Está bem. O que eu devo dizer, ou vou começar por dizer, é que mandaram-me, e também calhou de ver, uma data de declarações às televisões dos participantes nos acampamentos ou nas acampadas de Lisboa e do Porto, e o resultado foi deprimente. Andavam lá os repórteres tentar tirar dali alguma coisa e, por regra, aquelas pessoas não dizem coisa com coisa e são radicalmente incapazes, pareceu-me, de expor um argumento, pelo menos nos casos que eu vi, e vi uma dúzia, dúzia e meia de casos. Nos casos se calhar menos obtusos, eles reproduzem os slogans. E nos casos mais obtusos, não sai dali uma frase que seja compreensível, inteligível, ou sequer compatível com os princípios básicos da língua portuguesa. Isto já é meio caminhado pra coisa não ter grande conteúdo. Mas apesar de não se perceber praticamente nada do que os participantes nos protestos dizem, ou se calhar por causa disso, eu sou capaz de apostar que só uma ínfima minoria dos campistas, dos participantes na acampada, só uma minoria não são filhos do privilégio e estão ali realmente por necessidades habitacionais. E por isso acho altamente enganador que se continue a falar em protestos pela habitação. Eu acho que aquela gente está ali porque estar ali faz parte da luta. O pouco que dizem sobre a habitação, e dizem algumas coisas sobre a habitação, alguns deles, do que se percebe, mas não faz sentido nenhum. Desde logo, eles acham-se com direito à habitação. Ou seja, acham que as pessoas ou o Estado, ou a providência divina, ou lá quem for, têm o dever de lhe oferecer as casas que eles não conseguem ou não querem comprar ou arrendar, ou porque os salários não chegam, ou se calhar, o que é mais provável, porque nem sequer recebem salários, dado que se passam os dias em manifestações e protestos, é provável que não trabalhem de todo. E de qualquer maneira, se o assunto dos acampamentos fosse realmente a habitação e se houvesse coerência naquela gente, os protestantes, os manifestantes tinham que estar aos berros contra as medidas que os partidos de esquerda tomaram ou votaram ou incentivaram e que prejudicam as atuais ou contribuem para as atuais dificuldades em aceder à casa própria ou arrendada: o IVA da construção, os impostos sobre as rendas, os imóveis que o Estado podia converter em residências, imigração descontrolada, e não estou a falar dos vistos gold, estou a falar dos outros 99,9% da imigração. Mas eles não protestam contra isto, eles não berram contra as medidas que distorceram o mercado da habitação em Portugal, porque a habitação é só um pretexto ali no meio de outros pretextos. À Palestina, à Gaza, ao 7 de outubro. Vi defender o 7 de outubro, justificar. Ao feminismo, ao antirracismo, às alterações climáticas, críticas ao senhor Trump. A cartilha do costume. E os objetivos daquilo são todos pretextos para objetivos que são o incentivo à violência, à destruição da propriedade, vandalismo. Até vi invocar guerrilhas armadas, inclusive o PAIGC e o Amílcar Cabral, as guerrilhas anticolonialistas em África. Aquela rapaziada, e são sobretudo jovens, mas nem todos são jovens, tinham a obrigação de ter mais juízo, talvez. Mas aquela rapaziada vive de mitos, de um imaginário um bocado infantil e um bocado alucinado com a supressão armada do capitalismo e dos equilíbrios que vão aguentando ou iam aguentando as sociedades ocidentais, tanto quanto possível. Houve uma ativista que também vi, e tirei aqui uma citação da senhora, que explicou mais ou menos a mistura de pretextos e temas que estão ali em jogo lá nos acampamentos. Diz a senhora ou pergunta à senhora: "Por que é que há bandeiras da Palestina na habitação? Porque são causa do clima e do feminismo e do antirracismo e da comunidade queer e porque somos interseccionais e porque o nosso inimigo é comum, é o sistema capitalista." E é verdade, é esse o inimigo daquela gente. Houve outra ativista que também resumiu os propósitos em jogo: "O que nos resta é intensificar," estou a citá-la, "de forma organizada, democraticamente e focada numa coisa muito simples: destruir o capitalismo e os seus cães fascistas." Fim de citação. E eu acho que destruir democraticamente o capitalismo e os seus cães fascistas é uma possibilidade e legítima, mas em princípio consegue-se apenas pelas urnas. O pior é que nas urnas a esquerda vai encolhendo. E aqui na Europa, em geral, o tempo não está muito propício a que a esquerda alcance o poder através dos votos. Por isso a esquerda tenta obter poder não democraticamente, mas no lugar onde mais gostam de estar, que é na rua. E aliás, a rua ocupa um espaço tão relevante nestas lendas da esquerda que eu nem sei por que as pessoas de esquerda querem casas. Mas esse é outro assunto, ou se calhar não é outro assunto. Agora, para acabar, Ricardo, convém que não haja ilusões. O caos nas ruas cresce em função da fragilidade O poder político convencional, mais ou menos institucional, aparenta ter, e nas últimas décadas, também entretido com aquela ameaça da extrema-direita, a maioria dos poderes políticos europeus, que tem sido fraca e acho que vale a pena dizer, cobarde, tem ignorado a ameaça real da violência da extrema-esquerda, que em certos países é coadjuvada pela violência de jovens islâmicos, como eles dizem, com problemas de assimilação. Agora, nos diversos países europeus, o problema é semelhante. Ou o Estado se faz sentir numa das raríssimas áreas onde eu acho que o Estado é preciso, e que é a proteção dos seus cidadãos, mesmo que seja pela força, ou a violência destes grupelhos vai tender a aumentar até se perder o controle da chamada situação. Em França, por exemplo, e é apenas um exemplo, o controle já se perdeu e a situação é aquela que se sabe. E não é nada difícil que um dia venha a acontecer o mesmo em Portugal.
Até amanhã, Alberto.
Até amanhã, Ricardo.
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