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Jogo de Cabeça. Bom dia, bem-vindos a mais uma edição do Jogo de Cabeça. A temporada está a aproximar-se da reta final, o campeonato já terminou, mas não é por isso que deixam de existir puzzles mentais para resolver e para isso contamos, como é hábito, com a ajuda do professor Jorge Silvério. É doutorado em Psicologia do Desporto e colabora também com várias federações, além de integrar a equipa técnica nacional de futsal que, entre outros títulos, conquistou também o Campeonato Europeu em 2018. Bom dia, professor.

Bom dia, Miguel, e bom dia aos nossos ouvintes.

Vamos nos aproximando deste final de temporada, mas ainda assim com vários motivos para analisar e com uma competição por jogar. É por isso que hoje começamos pelo balneário. No balneário temos a Taça de Portugal à porta depois do Campeonato Português e eu perguntava-lhe como é que Benfica e Porto mudam o chip de uma competição que é jogada por jornadas para um jogo de tudo ou nada que encerra a época.

É, um jogo de tudo ou nada que é o último jogo de uma temporada particularmente longa e difícil devido a todas estas consequências da pandemia. E, de facto, uma competição muito diferente. Ou seja, enquanto o campeonato se foi jogando em jornadas, agora temos um jogo para decidir um título. O chip, digamos assim, em relação aos jogadores, em relação aos treinadores, é relativamente fácil de mudar, porque isto é uma competição que faz parte do calendário, portanto, já está previsto e eles já estão a contar que isso aconteça. Ainda por cima, sendo a última competição da época, para depois haver um período de férias mais curtas ou menos curtas, em função da próxima época, vai ser relativamente fácil, entre aspas, digamos assim, para os jogadores mobilizarem todos os seus recursos para conseguirem ganhar mais um título.

Mas ainda assim há diferenças entre Benfica e Porto. Isto porque o Porto vem de uma vitória de campeonato e o Benfica de uma época particularmente atípica, com um treinador interino que já conhece o sucessor e, portanto, a preparação é diferente, o objetivo a alcançar é diferente, apesar do título ser o mesmo.

É, há claramente diferenças. Temos, por um lado, a época do Porto, em que a determinada altura se chegou a pensar que o campeonato estaria perdido, pelo menos as pessoas fora da estrutura. Aquilo que nos é dito, e creio que o Sérgio Conceição reforçou bastante isso, é que nunca desistiram e, portanto, esse espírito de luta deu mais força, mais dinâmica e aquele chamado tradicionalmente de espírito balneário, pelo facto de terem conseguido uma conquista que a determinado momento parecia perdida. Portanto, muita confiança da parte do Porto. Aqui, no entanto, algum cuidado e o Sérgio Conceição tem também demonstrado isso nas declarações que tem feito para não haver aqui um relaxar, um descontrair, porque ainda há mais um título para jogar, apesar de já terem ganho o campeonato. E do outro lado, um Benfica que está quase ao contrário, ou seja, chegou a determinado momento da época com sete pontos de avanço, em que já se dizia quase que seria campeão e de repente perdeu esse avanço e acabou por perder o campeonato, com a consequente mudança do líder e, portanto, um estado de espírito muito diferente, embora possa aqui ser reforçado por dois fatores. Por um lado, o facto de já haver treinador para a próxima época, portanto, os jogadores, digamos assim, estarem sob escrutínio. E todos sabemos o efeito que isso tem no sentido de melhorar ainda mais o rendimento desportivo dos jogadores. E por outro lado, o facto de poderem ainda ganhar um troféu esta época e, portanto, não ser uma época do ponto de vista de títulos, completamente perdida. Portanto, é um pouco este estado de espírito que domina as duas equipas.

É também um bocadinho limpar de imagem para os atletas do Benfica e para o treinador que está a fazer esse trabalho de forma interina. Perguntava-lhe se neste caso é importante, por exemplo, ter um dia de folga entre o final do campeonato e o início da preparação ou se o ideal, e tendo em conta o contexto particular deste ano, é como disse o Sérgio Conceição, levar já tudo de enfiada e não deixar a descontração entrar na cabeça dos jogadores.

Depende muito do espírito que o grupo e que os jogadores demonstram. Se calhar para alguns faz sentido uma folga e se calhar para outros não. Portanto, como já falámos aqui, tem que ser muito adaptado casualmente em função daquilo que quem lidera, obviamente o treinador, os dirigentes, vão sentindo que o grupo está a revoar e, portanto, pode fazer sentido haver uma pausa para haver um descanso para retomar a última competição e noutros grupos de trabalho pode fazer sentido, de facto, continuar, até para não dar essa ideia da tal descontração. Portanto, se calhar no Porto faz todo sentido isso e daí essa afirmação do Sérgio Conceição.

E perguntava-lhe por este ano também, pelo fato da final não ser jogada no Jamor, se há aqui também uma diferença. O peso do Jamor é diferente de outro estádio?

O Jamor tem aquela tradição mítica. Foi consagrado ao longo dos anos, aquele espírito, sobretudo entre os adeptos. Não havendo adeptos, perde um pouco esse caráter mais de tradição e essa importância. Portanto, creio que sendo esta uma época atípica, também o facto de se jogar noutro estádio não terá a importância que teria, se calhar, noutras alturas.

É mais um fator. Veremos se Sérgio Conceição, que tanto tem perseguido uma Taça de Portugal no Jamor, se a conseguirá conquistar fora do Jamor. Este ano vai ser jogado em Coimbra. Passamos agora para a cabin. E na cabine falamos do fim de carreira de dois árbitros com vários anos em Portugal, Carlos Xistra e Jorge Sousa. E eu começava pelo Jorge Sousa, isto porque ele tem sido apontado como um dos melhores árbitros este ano em termos de desempenho e mesmo assim decidiu sair quando estava no topo da carreira. Uma decisão que o árbitro disse no final do último jogo ter sido muito ponderada.

As coisas são feitas de forma muito ponderada. Nada é feito a ânimo leve e esta decisão foi muito pensada, nada foi feito a correr. E nós temos que pensar, sobretudo, naquilo que é a nossa carreira e as condições que temos para poder oferecer ao jogo, oferecer à arbitragem e oferecer ao futebol. Eu olho para aquilo que são as competências e as valências de um árbitro, eu acho que em 80, 90% delas eu estou na plenitude das minhas capacidades. O problema é que há outras em que eu sinto que já não posso oferecer ao jogo aquilo que o jogo precisa. E é preciso ter essa coragem de assumir e dizer: "É melhor ficarmos por aqui".

E Jorge Sousa ficou mesmo por aqui. Eu perguntava-lhe isto, que num árbitro a experiência é capital acumulado que pode ser utilizada nas situações de jogo e por isso também esta racionalidade de Jorge Sousa de saber que se calhar no próximo ano já não ia ter a mesma disponibilidade que teve esta época.

É, eu diria num árbitro e na maior parte das profissões, de facto, a experiência também acaba por ser muito importante. E aqui, racionalmente, o Jorge Sousa já nos habituou também a essa racionalidade, aquilo que ele usa também enquanto árbitro, a analisar todos os fatores, todas as componentes daquilo que é o seu rendimento desportivo e a reconhecer que nalgumas já não está no valor que gostaria e, portanto, a tomar a decisão. Revela que é uma decisão bem pensada, que já foi maturada e refletida. Normalmente, os árbitros não deixam de ser também atletas. E não deixam também de procurar o máximo desempenho.

É um pouco essa a mensagem que ele passa, não é? Da disponibilidade física ainda estar lá, mas pode já não ter outras coisas.

Exatamente. E portanto, quando olha para aquilo que é o rendimento, para as componentes do seu rendimento, sente que já há ali áreas em que já não está nos 100%, ele fala nos 90. E portanto, a tomar esta decisão, que é de facto ponderada. É uma decisão importante. Normalmente não se dá muita importância à questão da transição de carreira, que é para os jogadores, que é para os árbitros. Quando acabam a carreira, o que fazer? Os árbitros têm aqui a vantagem da maior parte deles terem outra função e, portanto, rapidamente se conseguirem integrar e se calhar estar a 100% nas outras funções que desempenham, portanto, se calhar é um pouquinho mais fácil esta transição. E quando é pensada e refletida com tempo, torna as coisas mais fáceis, porque obviamente, estamos a falar de, com 45 anos, deixar uma carreira que normalmente só se deixa aos 65 anos, quando há reforma.

Sim, mas os árbitros também por não serem profissionais, lá está, têm sempre esse backup de carreira. Nos jogadores, essa transição é sempre mais dura, porque a dedicação é exclusiva ao futebol. O que os árbitros mais jovens, e porque ganham mais espaço com a saída destes mais experientes, podem trazer também de novo? Estão mais preparados, tanto a nível físico, como mental, como das situações de jogo. Há agora uma literatura maior em termos académicos que lhes permite uma maior preparação enquanto atletas.

Claro, obviamente.

Que esta geração de Jorge Sousa e Carlos Xistra apanhou um pouco a transição, não é? Do amadorismo para uma profissionalização.

Sim, exato. A arbitragem é uma profissão que está sempre em constante melhoria e em constantes alterações em termos das leis de jogo e, portanto, exige essa flexibilidade e essa adaptação época a época. E obviamente, em termos de conhecimento científico, também se vai acumulando conhecimento científico, há anos métodos de treino, seja físico, seja mental. Portanto, obviamente que as novas gerações vão trazendo também isso, complementadas com outras ciências, como a fisiologia, como a nutrição. Portanto, desse ponto de vista, vão estando cada vez mais bem preparados para aquilo que é a sua profissão.

É a vantagem da juventude que compensa essa falta de experiência que depois se vai adquirindo. Ainda nesta saída de árbitros, houve um outro que também anunciou o fim da carreira, é Carlos Xistra, e que no final teve uma intervenção, diria eu, pedagógica daquilo que é o papel do árbitro em Portugal.

Nenhum árbitro é masoquista, é maquiavélico, ao ponto de querer que no dia seguinte seja notícia, porque nós só somos notícia quando as coisas correm menos bem. Ninguém é assim. Nós tentamos sempre acertar tudo, nem que seja um lançamento de linha lateral, até porque um lançamento de linha lateral, provavelmente o erro mais ínfimo do jogo, nós ficamos frustrados, quanto mais quando não acertamos pênaltis ou quando não acertamos situações de expulsão ou situações que têm impacto no resultado. As pessoas que percebam disto de uma vez por todas, nós trabalhamos muito, queremos ser ainda melhores, queremos ser mais competentes, queremos defender o futebol e a arbitragem, queremos que o futebol português evolua, fazemos isso diariamente, só que erramos como os jogadores erram e isso faz parte.

Aqui Carlos Xistra a dizer que também é aquele contexto de os árbitros também são atletas, mas acaba por se ir a admitir que os árbitros são um pouco inimigo comum das duas equipes. É uma pressão difícil de lidar, porque quando erram, isso afeta diretamente uma das equipes.

É. E há a admitir também outra questão que é extremamente importante, que é que são seres humanos. E, portanto, sendo seres humanos, erram, não são perfeitos. Obviamente que visam atingir essa perfeição, penso eu que é um objetivo que todos nós na nossa vida profissional devemos ter, sabendo que vai haver alturas em que vamos errar. É importante é depois analisar esses erros, perceber porque eles aconteceram e melhorar cada vez mais. O Carlos Xistra também falou sobre esse aspecto. Mas de facto, aquilo que é importante é as pessoas perceberem cada vez mais que os árbitros não gostam de errar, não querem errar, até porque, como ele disse, se tornam depois notícia.

E esta noção, de que só são notícia mesmo pelas questões negativas, é uma coisa que eles sabem desde o início que lhes vai acontecer, que nunca vão ser notícia pela positiva?

É, e têm que se preparar. Isso faz parte da preparação para exercer esta função. Saber que isso vai acontecer. Será muito raro a vez em que um árbitro será notícia por ter feito uma arbitragem boa, isenta de erros ou pelo menos o melhor possível. E eles têm que ir se preparando. Aqui a importância da preparação mental para lidarem com essas críticas e para saberem que, de facto, vai ser assim. É quase inerente à profissão.

É um pré-requisito essa predisposição para serem criticados. E porque isto está relacionado também com o nosso próximo tema, vamos passar agora para o sofá. E aqui falo, obviamente, do fim dos programas de comentário desportivo com comentadores afetos aos clubes. A SIC foi o primeiro canal a anunciar esse fim desse tipo de formatos. A TVI também se prepara para anunciar oficialmente. Eu perguntava-lhe se este tipo de programas têm contribuído também ao longo dos anos para esta linguagem cada vez mais extremada no futebol.

Eu penso que sim. Eu penso que na gênese, quando estes programas começaram, foi uma excelente ideia, porque no fundo era tentar recriar aquilo que normalmente deveria acontecer nos estádios, que era os amigos de diferentes clubes juntarem-se, irem ver o jogo e discutirem um bocadinho, obviamente, com a respectiva cor clubística, digamos assim, aquilo que se passa durante o jogo e analisá-lo. Mas depois, houve aqui um crescente, eu diria, da agressividade e até de um clima quase de guerrilha entre os vários adeptos dos clubes, que depois, obviamente, chegou ao ponto em que estamos neste momento, que leva, de facto, uma estação de televisão a acabar com este tipo de programas e outra também, se calhar, a pensar nisso, embora ainda não o tendo anunciado.

E aqui também a própria retórica dos dirigentes ou até a própria profissionalização da comunicação dos clubes pode ter contribuído para que estes formatos fossem ficando cada vez mais ligados a este extremar de posições e de opiniões.

É, eu penso que sim. Penso que às vezes é muito importante nós termos a noção, quem está no meio desportivo, digamos assim, sejam os dirigentes, sejam os jogadores, os treinadores, que as declarações públicas que são feitas acabam por ter efeito. Porque muitos deles são vistos como modelos e influenciam muita gente. E, portanto, é importante repensar e refletir sobre a comunicação que é feita por causa deste efeito também. Do efeito que vai ter depois em quem ouve. E às vezes fazem-se comentários e fazem-se declarações que são muito mais emocionais, embora, obviamente, se reconheça que as emoções fazem parte do desporto, mas são muito mais emocionais e acabam por ter consequências que acabam por ser mais negativas do que positivas em quem ouve. Estamos a falar de líderes de opinião e mesmo quem representava os clubes neste tipo de programas são considerados líderes de opinião. Portanto, obviamente que sendo líderes de opinião, a sua opinião vai acabar por influenciar o comportamento, as emoções de quem está a ouvir.

E terá a pandemia, por exemplo, contribuído para que os adeptos se apercebessem de que é possível discutir futebol de forma mais pedagógica? Isto porque durante a pandemia pudemos ver muitos jogos antigos que foram comentados apenas do ponto de vista futebolístico. Terá mudado a percepção do adepto, até porque ao nível de audiência, estes programas já não estão nos números que estavam antigamente.

Pois, já antes da pandemia, começou-se a verificar aqui uma tendência de haver programas que só falavam de futebol, digamos assim, que analisavam jogadas, que escalpelizavam do ponto de vista da estratégia, do ponto de vista técnico, o que é que foi feito, o que é que poderia ser feito. E, portanto, esse tipo de programas começaram também a coexistir, digamos assim, com estes programas dos adeptos. E é natural que as pessoas também tenham percebido que temos aqui outro tipo de programas e se calhar também são interessantes e até ajudam mais à compreensão do fenômeno. E as pessoas ficam com, digamos assim, quase que uma estrutura para poder analisar os jogos de outro ponto de vista. E, portanto, penso que sim, que essa existência de outro tipo de programas, obviamente também, se calhar potenciada por esta questão da pandemia, que nos fez refletir um pouco sobre o que está errado e até o que andamos aqui a fazer.

Também deixaram de existir tricas. O objetivo era comum, mesmo a nível do desporto, era poder voltar rapidamente ao relvado, era um objetivo comum a todos os clubes.

Exatamente. E, portanto, se calhar pode ter contribuído aqui para uma união, que é aquilo que já se fala há muito tempo, em torno do negócio, em torno do desporto do futebol. Obviamente, existindo as rivalidades, porque elas são extremamente importantes. Mas baixando aqui um pouco o nível de guerrilha e de conflito, e percebendo que cada clube precisa dos outros para viver e só com os outros é que consegue. E, portanto, esta mudança parece-me extremamente importante para o panorama desportivo português.

E deixe-me só perguntar-lhe para terminar, e porque o Jorge também lida com vários atletas de alta competição. Estas mensagens deste tipo de programas acabam por passar para dentro do balneário. Isto porque depois algumas acabam por se tornar virais, vão parar às redes sociais. Isso é comentado também dentro de um balneário, esse extremar de posições acaba por também passar para os jogadores?

Sim, é impossível. Os jogadores não vivem numa bolha. Mesmo aqueles que se tentam proteger, porque há alguns que o fazem, não tendo redes sociais ou não as consultando de forma muito assídua, acaba sempre por chegar a mensagem, porque alguém comenta no balneário ou porque um amigo refere isso. Portanto, acaba sempre por ser tema de discussão. Mas os jogadores, sendo profissionais, sabem que isto também faz parte da profissão deles e, portanto, não é uma coisa que eu diria que interfira muito, a não ser que seja uma coisa excepcional, mas que interfira muito com aquilo que é o seu normal desempenho desportivo.

Jorge Silvério, obrigado. Terminamos aqui mais uma edição do Jogo de Cabeça. Temos encontro marcado para a semana, à medida que a temporada se vai aproximando do fim, na próxima terça-feira, por volta das 11h30. Obrigado, boa semana e bons jogos.

Boa semana, obrigado.

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