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Bom dia. Hoje é terça-feira, é dia de Jogo de Cabeça com o jornalista Miguel Viterbo e também o psicólogo do esporte, Jorge Silvério. Hoje falamos do lançamento de novos talentos, não é assim, Miguel?

Bom dia. É isso mesmo, vamos falar da revolta da juventude neste regresso do campeonato. Isto porque têm sido os mais jovens a estar em destaque nesta retoma do Campeonato Português. E como é hábito, contamos para isso com a ajuda do professor Jorge Silvério, é doutorado em Psicologia do Esporte, colabora com várias federações desportivas, integra também a equipe técnica nacional de futsal, que entre outras alegrias, nos deu também o Campeonato Europeu de 2018. Bom dia, professor, bem-vindo mais uma vez ao Jogo de Cabeça.

Bom dia, ouvinte.

Vamos então falar desta revolta da juventude e para isso começamos pelo relevado. Nesta revolta da juventude, professor, os jovens têm estado em destaque, em especial no Sporting e também no Futebol Clube do Porto, com o técnico dos Dragões, Sérgio Conceição, a garantir que estas oportunidades não são por dificuldades financeiras, mas sim por mérito.

Não damos e não metemos jogador da formação ou que pertenceram à formação, porque neste momento estão aqui pertencendo à equipe principal, para parecer bem. O Fábio Vieira entrou, porque está há muitos meses a treinar conosco. E não é nenhum prêmio por nada, é porque tem qualidade. E porque eu acho que a formação do Futebol Clube do Porto, nomeadamente jogadores jovens que pertencem à cantera do Futebol Clube do Porto, são jogadores de extrema qualidade.

São jogadores de extrema qualidade, é isso que diz Sérgio Conceição, a assegurar que conquistaram este lugar por mérito, mas há sempre aqui uma vertente econômica que acaba por estar ligada. Aquilo que lhe perguntava, professor, é que importância é que pode ter tido esta paragem para motivar, para dar também mais confiança aos jovens que agora estão a aparecer desta forma?

Eu diria que sobretudo aqueles atletas, sejam jovens ou não, que foram capazes durante esta paragem de se autoanalisar, de perceber exatamente aquilo que estão a fazer bem e de melhorar aquilo que estão a fazer menos bem, entraram depois neste recomeço da competição de uma forma melhor e mais positiva. Isto envolve, obviamente, sobretudo os aspectos mais mentais, uma vez que os aspectos físicos seriam mais difíceis de serem trabalhados, porque obviamente houve a questão do confinamento e as dificuldades em relação ao treino físico, que já tínhamos falado. Agora, claramente esta aposta na formação, eu acho que o caminho para todos os clubes de Portugal é irem por aqui. Claramente. Toda a gente, cada vez mais, em todo o mundo, reconhece o valor da formação portuguesa. Temos jogadores espalhados por todo o mundo e, portanto, esta aposta eu acho que é decisiva também pelo fator econômico. Eu acho que o Sérgio Conceição fez muito bem em ter dito que a aposta não era só por causa disso, era pelo valor que os jovens têm, porque também obviamente lhes passa essa confiança e é extremamente importante eles sentirem da parte do treinador esse voto de confiança. E obviamente, depois, claro que isso se traduzirá, será, digamos assim, um efeito secundário desejado, porque se traduzirá em transferências e em dinheiro, obviamente, a entrar.

E já aqui falámos disso, mas esta é também uma oportunidade diferente, porque com os estádios vazios, estes jogadores podem entrar no jogo de forma mais tranquila. Ou seja, não ficam sujeitos àquele crivo imediato do adepto, do passe falhado, da defesa mal feita. Isso dá-lhes também outra tranquilidade para enfrentarem agora esta retoma do campeonato.

É isso, Miguel, porque muitas das vezes os nossos adeptos são muito impacientes. Parece tudo fácil quando se está de fora e quando não se acompanha o processo. Mas é completamente diferente estar a jogar na formação ou estar a jogar ao nível profissional. E também é diferente estar a jogar com adeptos e estar a jogar sem adeptos. Portanto, no fundo, estes 10 jogos vão dar uma preparação excelente para que estes atletas mais jovens se habituem e, portanto, depois, quando retomarmos, digamos assim, esperamos nós, a normalidade com adeptos, eles já estejam mais habituados, já tenham feito um pouco a transição e, portanto, seja muito mais fácil eles continuarem a mostrar o seu valor, independentemente, já nessa altura, de haver adeptos ou não.

E há aqui uma outra questão nisto da formação, que afeta em particular o Sporting, que tem sofrido nos últimos anos e que parece também deixar dúvidas ao novo treinador, Rúben Amorim.

Agora, não sei que comportamento teriam. É uma grande diferença, sinceramente. Nós tentamos pressioná-los todos os dias, eu tento pressioná-los todos os dias para que estejam preparados quando for essa altura. Eu não sei, não consigo adivinhar isso, mas é um mundo completamente diferente e nós queremos prepará-los, porque eles fizeram toda a carreira a lutar por títulos, sabem que é na formação, mas é um hábito que se cria. Mas sim, eles têm que estar preparados para um dia, e um dia tem que ser breve, intermeter-se nessa luta, porque é a história do Sporting e, portanto, eles têm que estar preparados para isso. E cabe a nós, aos adeptos também, ter paciência com eles, mas pressioná-los dia a dia para serem melhores.

Ora, a questão que aqui falamos é a questão do milhão de euros, se a formação é capaz de ganhar campeonatos. Rúben Amorim diz que é um mundo diferente. Eu perguntava-lhe se para ganhar campeonatos é mesmo preciso mais do que os jogadores da formação e como é que se pode também fazer esse trabalho mental de ajudá-los a dar o clique para ganhar.

Para ganhar a este nível, é óbvio que quando um jogador tem valor, ele vai entrar na equipa, mas é importante também que haja uma aculturação e uma adaptação que seja proporcionada por jogadores mais velhos, com mais experiência. Porque ainda há aquela ingenuidade dos jogadores da formação, que precisa depois de ser temperada, ajudada e moldada por jogadores mais velhos. Portanto, esta transmissão muitas vezes até da mística do próprio clube, este ensinar de muitas estratégias que normalmente são usadas no futebol mais profissional, e obviamente também a preparação mental. Ou seja, há um conjunto de coisas e de estratégias educacionais que podem ser feitas de maneira a facilitar a adaptação do atleta. Nós não precisamos, por exemplo, de passar pela experiência de jogar um jogo com adeptos para conseguir antever isso. Portanto, tal como é feito o treino físico de maneira a preparar os jovens atletas para aquilo que vão encontrar depois no jogo, também do ponto de vista mental isto pode ser feito. Nomeadamente, uma das estratégias que nós, enquanto psicólogos do desporto usamos, é a visualização, ou seja, a antecipação daquilo que pode acontecer durante o jogo. Todos estes fatores são importantes e curiosamente, o Rúben Amorim nestas declarações falava precisamente que ele tem no equilíbrio entre a pressão que ele tem feito e a paciência que pediu aos adeptos. Mas de alguma forma, ele diz que tem feito uma pressão sobre os atletas no sentido de os preparar. E aqui o papel importante do treinador. Uma vez que não existe essa pressão da parte dos adeptos, o treinador vai pondo essa pressão nos jogadores, de maneira a quando eles tiverem que render o máximo, estejam preparados para isso.

E isso pode contar com a ajuda, por exemplo, de figuras de balneário. Estou a lembrar, por exemplo, do Luizão no Benfica ou até o regresso do Nani ao Sporting, que trazem um lastro completamente diferente para dentro do balneário e que podem ser especialmente importantes com esses jovens.

É isso mesmo, Miguel. Esses jogadores mais experientes, com muita tarimba, são extremamente importantes na adaptação. É quase um regime de tutoria. E muitas das vezes vemos jovens jogadores que falam nisso, da importância que teve um jogador mais velho ajudá-los na adaptação quando eles chegaram ao plantel principal. E portanto, quer o Luizão, quer o Nani, são jogadores que têm muitos anos de clube e seguramente, pelas declarações que temos ouvido, tiveram esse papel de adaptação e de promoção daquilo que é o rendimento desportivo dos jovens atletas. Portanto, os clubes têm também que pensar nisto. A aposta na formação é excelente, cada vez se fala mais nisso, mas convém que seja temperada justamente para facilitar esta adaptação também com essa experiência dos jogadores mais velhos que são referência no plantel e no balneário também.

E com isto terminamos o nosso segmento do relvado, vamos até ao gabinete. O Benfica voltou ao trilho das vitórias, bateu o Rio Ave por 2 x 1, tem também jogo marcado para hoje. E este acabou por ser o encontro do Benfica frente ao Rio Ave, especialmente importante para Bruno Lage.

Eu trabalhei com o Carlos Carvalhal e com o João Mário durante seis anos no Dubai e Inglaterra. Vivemos como uma família. Ou seja, no Rio Ave está a minha família, está o meu sangue, que é o meu irmão, e ninguém nesta casa tem mais motivação de amanhã os vencer. É nisso que está o meu foco, é nisso que é a minha orientação e é nisso que eu penso.

Foram as declarações de Bruno Lage antes do encontro do Benfica com o Rio Ave. Este seria um jogo quase decisivo para Bruno Lage, mas ainda assim, professor Jorge Silvério, eu perguntava-lhe se estes jogos com dimensões especiais, se há aqui realmente um extra de motivação. Neste caso, era de ganhar quase contra o mestre com quem Bruno Lage treinou vários anos em Inglaterra e que constituiu essa família de que ele falou. Há aqui uma motivação extra?

No futebol ou no desporto, sendo profissional, quer-se sempre ganhar. E este jogo com o Rio Ave assumia um caráter muito importante para a equipa do Benfica. E depois claramente haverá aí alguns fatores, pela relação que o Bruno Lage tem com o Carvalhal e com outros elementos da equipa técnica e também pelo facto de estar lá o irmão, haverá também algum fator de motivação extra no sentido de depois nas discussões em família ou quando se encontrarem enquanto amigos, falarem sobre isso e isso ser motivo para haver ali uma picardia especial. Provavelmente esses fatores aqui a contarem também e referidos, de facto, pelo Bruno Lage e a serem importantes nesta afirmação do Benfica enquanto a manter-se na corrida ao campeonato.

O Benfica que joga também hoje, voltou às vitórias e aproveitou mais uma escorregadela do Porto. Eu perguntava-lhe se agora é extremamente importante para os encarnados manterem esta vitola, isto porque os problemas não fugiram, só com uma vitória é preciso dar alguma consistência e tranquilidade ao grupo.

De qualquer maneira, para quem acompanhou, obviamente pela televisão, foi muito importante perceber a reação dos jogadores e ver até o não verbal depois de obtido o gol da vitória, depois de o jogo ter acabado. Do meu ponto de vista, por aquilo que fui observando, pode ser um momento decisivo em termos de união de grupo, que pode catapultar agora o Benfica para uma ponta final de campeonato, no sentido de conseguir os seus objetivos. Desse ponto de vista, pareceu-me extremamente importante

Perguntava-lhe se para esse incremento de confiança pode ter também contribuído o escorregão do Porto. Se isso ajuda, até por essa linguagem não verbal que falou, se ajuda a dar outra confiança.

É verdade. Normalmente, e os treinadores têm focado isso, eu foco muito isso no trabalho que faço com os atletas e com os treinadores que acompanho. É muito importante esta questão de nós nos focarmos em nós próprios, mas obviamente que não vivemos numa bolha e, portanto, o resultado dos clubes, neste caso do Futebol Clube do Porto, não quero que o Benfica esteja em rota direta, também é importante. E vice-versa. Isto deu um acréscimo de confiança. O próprio Bruno Lage dizia que é muito diferente trabalhar sobre vitórias, e é verdade, mas convém não esquecer que esta retoma, por todos aqueles fatores que nós já temos vindo aqui a falar, vai ser difícil e os jogos a seguir também vão ser. Convém analisar o que ainda se pode melhorar, manter aquilo que o clube fez de positivo ou que os atletas fizeram de positivo, mas analisar aquilo que pode ser feito de forma a melhorar ainda mais o rendimento esportivo de cada um dos atletas e da equipe no seu conjunto.

E para terminar esta edição, vamos até casa para o futebol de sofá. E neste capítulo, no futebol de sofá, há um assunto que me despertou curiosidade. Falamos disso ligeiramente na semana passada. O Benfica, na primeira jornada da retoma, fez um estágio maior, até por motivos de segurança, mas o treinador encarnado falou numa das últimas conferências de imprensa sobre este regresso à rotina anterior.

Houve uma altura em que se fez estágio, em função também da situação que se viveu aqui, de primeiro, sobre estarmos juntos, estarmos concentrados, não estarmos expostos ao vírus e estarmos aqui todos juntos para trabalhar e estarmos conscientes da importância que é este momento. Eu acredito muito naquilo que é o bem-estar de toda a gente, porque uma pessoa que tenha uma energia positiva, que tenha uma capacidade de trabalhar diferente de uma pessoa que está com energia negativa. Por isso é que eu digo repetidamente: fecha um jogo, arrumar um jogo e partir para o jogo seguinte. E onde é que se renovam energias? É a treinar com a intensidade com que nós treinamos.

Bruno Lage a dar conta desta mudança no estágio da equipa, que passou apenas para o registo inicial, ou seja, na noite anterior ao jogo. Eu perguntava-lhe, professor Jorge Silvério, se esta foi uma mudança de rotina que acabou por correr mal e se é especialmente importante aquela noite extra com a família.

Há aqui uma premissa que é muito importante. As rotinas são fundamentais. Por quê? Porque o fato de nós estarmos habituados a determinados procedimentos faz com que os nossos níveis mentais, seja o nível da motivação, da concentração, da confiança, sejam regrados. Quando as rotinas deixam de existir, no fundo, é um sinal que há aqui qualquer coisa diferente. Por isso é que, por exemplo, quando as equipes estão a discutir objetivos importantes e de repente resolvem alterar aquilo que é a dinâmica habitual, por exemplo, os que não faziam estágio passam a fazer ou o contrário, isso é um sinal de que há ali qualquer coisa que é diferente. E se muitas vezes, por exemplo, quando a equipa está a discutir um objetivo importante, como não descer de divisão, há esta alteração da rotina, aquilo que acontece é: "Ok, então estamos a sinalizar que isto ainda é mais importante". E esta alteração das rotinas, muitas vezes, em vez de ter o objetivo desejado, acaba por se tornar um fator de pressão extra, justamente por causa desta mudança. E percebo que tenha havido aqui uma alteração. Nunca ninguém passou por uma pandemia, portanto, estamos um bocadinho a trabalhar em cima do joelho e a tentar ver o que é que resulta. E a determinada altura, provavelmente, pensou-se que se calhar os jogadores ficando isolados, até em termos de segurança e de saúde, é importante, mas rapidamente, pelos vistos, se percebeu que entre isso e o conforto de estar mais um dia no ambiente natural com a família, se calhar é mais importante. Aliás, o Sporting Clube Braga também teve um procedimento semelhante. No início, quando houve a retoma da competição, ficaram todos concentrados no hotel e depois a determinada altura também chegaram à conclusão que se calhar o melhor era voltarem à rotina habitual e voltarem às famílias. Isto também tem que ser muito avaliado, obviamente, pelo líder da equipa, neste caso o treinador e a sua equipa técnica, em função daquilo que vai acontecendo. Não quer dizer que episodicamente não seja importante haver aqui uma alteração em relação aos estágios. Mas eu diria, como pano de fundo, genericamente, deve-se manter as rotinas que vêm funcionando e parece que foi isso que aconteceu no Benfica agora.

Isto também para nos ajudar a perceber. Há aqui diferenças entre este tipo de estágios, que são regulares, jornada a jornada, e um estágio, por exemplo, para uma fase final, e o Jorge Silvério passou já também por isso, em que aí a mudança de chip é maior porque aquela acaba por ser a família durante um mês ou 15 dias, o tempo que seja a competição. Há diferenças entre esse tipo de estágio e este que é feito de forma recorrente, não é?

É, claramente. Este é um estágio que é feito para uma competição que será semanal, neste caso, um bocadinho alterada por causa das circunstâncias que estamos a viver. E portanto, no fundo, é um estágio em que os atletas se reúnem para um objetivo específico, que é aquele jogo, e depois, passado o jogo, regressam ao seu meio ambiente habitual. Quando se está a preparar uma competição europeia ou mundial, toda a gente já sabe. Portanto, já há esta mudança, digamos assim, em termos de antecipação do que vai acontecer, que vai ser preciso um estágio maior. Mas também é importante aqui, mesmo nestes estágios maiores, sempre que possível, haver aqui uma folgazinha para o regresso à rotina, para estar com a família, para estar com os amigos, enfim, para os jogadores também poderem, de alguma forma, espairecer um pouco, sobretudo em termos psicológicos.

Se calhar é um bocadinho o que está a acontecer com o Santa Clara, não? Porque tiveram que vir para o continente e têm que estar reunidos até ao fim do campeonato.

Exatamente. Nesse caso, a equipa do Santa Clara fez exatamente isto. Não está com a família, não está no seu meio ambiente natural. Assumiram que isto era extraordinário e estão a jogar no continente. Portanto, é um bocadinho isso que está a acontecer com eles, seguramente.

Obrigado, professor Jorge Silvério. Está concluída mais uma edição deste Jogo de Cabeça. Nós temos encontro marcado, como sempre, na próxima terça-feira. Obrigado mais uma vez.

Obrigado e uma boa semana.

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