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De cabeça. Bom dia, bem-vindos a mais uma edição do "Jogo de Cabeça", com a temporada em Portugal terminada, há ainda futebol para jogar, mas vamos olhar também para a próxima temporada. E para isso contamos, como tem sido habitual ao longo das últimas semanas, com o psicólogo do esporte, Jorge Silvério. É doutorado em Psicologia do Esporte, colabora também com várias federações desportivas, além de integrar a equipe técnica nacional de futsal que conquistou o Campeonato da Europa em 2018. Boa tarde, professor. Bom dia.
Bom dia, Miguel. Exatamente. Bom dia, Miguel.
Já me estava a adiantar.
Exatamente.
E começamos com a atualidade, começamos pelo Balneário. No Balneário desta semana, o assunto não podia deixar de ser Jorge Jesus, o treinador do Benfica que foi apresentado ontem. E antes de falarmos de Jorge Jesus, eu ia pegar numa frase que ele disse ontem, que acho que pode ser um bom ponto de partida.
"O Benfica tem que jogar o dobro, porque se não jogar o dobro, a gente volta a não ganhar. Foi o que aconteceu este ano. Agora temos todas as condições para fazer uma equipa muito forte, toda a estrutura que envolve, neste caso, o futebol, porque a estrutura clube normalmente eu divido em duas partes: a estrutura clube e a estrutura futebol. Tudo isso é um todo, mas com autonomias diferentes. E a estrutura do futebol comandada pelo presidente, certeza que vai reunir um leque de jogadores com os que cá estão, que vamos fazer uma grande equipa e não vamos jogar o dobro, vamos jogar o triplo".
É precisamente isto, não vamos jogar o dobro, vamos jogar o triplo. Eu perguntava-lhe se isto é uma das maiores vantagens de Jorge Jesus, esta capacidade de mexer logo com toda a estrutura do clube.
É, seria de esperar uma declaração deste gênero, até tendo em atenção a história e aquilo que foi o início da primeira passagem do Jorge Jesus pelo clube. Portanto, é claramente uma afirmação no sentido de tentar galvanizar, até porque sabemos que existem alguns anticorpos, alguns adeptos e alguns sócios que estão descontentes, sobretudo com a maneira como o Jorge Jesus saiu e depois com aquilo que se foi passando com a ida para o Sporting e algumas declarações. E portanto, seria de esperar esse tipo de declaração no sentido de galvanizar e de unir a todos.
E com isso que referiu, que é um treinador já com histórico no Benfica, tenho aqui duas questões. Uma, primeiro, se isto traz algum ascendente sobre os adversários, porque Sporting e Porto sabem que passaram dificuldades enquanto Jorge Jesus estava no Benfica, esta era a primeira questão. E depois, como é que os jogadores que já lá estavam há uns anos atrás olham para o regresso de um treinador extremamente exigente?
Em relação à primeira questão, é evidente que o histórico é o histórico. Não deixa de ser um indício, mas os clubes partem todos com zero pontos na próxima época. Portanto, creio que não haverá um tal ascendente, embora, obviamente, o percurso do Jorge Jesus com os títulos que tem conquistado, seja um percurso já com alguma relevância e com alguma importância. Em relação aos jogadores, depende muito, sobretudo para os que já lá estão e que já estão habituados, já tiveram o Jorge Jesus como treinador.
Desculpe só interrompê-lo, mas ontem também Eliseu, que esteve presente, acabou por dizer: "Bom, ele é um treinador um bocadinho difícil, mas tem muita qualidade". Já naquela de não é fácil trabalhar com Jorge Jesus.
É isso mesmo. Há esse histórico. Aliás, os jogadores do Flamengo também se referiram a isso. Portanto, é quase uma marca. Os jogadores já estão à espera que isso vá acontecer. E estava eu a dizer que aqueles que já trabalharam com ele, já conhecem, já sabem quais são os métodos de trabalho. Portanto, se calhar, têm a vida um pouco mais facilitada e aqueles que não conhecem terão rapidamente que se adaptar com a ajuda destes, a tudo aquilo que são as diferenças e os métodos novos que ele seguramente vai implementar no Benfica.
E também tendo em conta já algumas indicações deixadas ontem, por exemplo, sobre a formação. De alguma forma, os jogadores da casa podem sentir-se diminuídos, porque Jorge Jesus tem o discurso de: "Ok, nós vamos criar bons jogadores, mas não precisam necessariamente vir do Seixal". Há muito aquela estratégia de ir buscar fora e depois potenciá-los no Benfica. Isso pode criar ali alguma indecisão, sobretudo nos jogadores que fazem a carreira nos escalões de formação do Benfica?
É, e ontem o Jorge Jesus voltou a reforçar isso. Quando foi questionado sobre a questão da formação, voltou a referir o impacto dos jogadores que vêm de fora também. Portanto, não só os jogadores da academia. Para os jovens jogadores da academia, lá está, temos aqui outra imagem, outra ideia que se foi criando. Algumas vezes com razão, outras se calhar sem, de que não há uma grande aposta na formação. Eu diria, aquilo que os jogadores têm que fazer com Jorge Jesus ou sem Jorge Jesus é trabalharem, esforçarem-se, darem o seu máximo para serem melhores jogadores e depois, em termos daquilo que é a ascensão ao futebol profissional, logo se verá. Mas obviamente, se eles trabalharem, se conseguirem dar o máximo, ficam mais perto de ultrapassar esse, eu costumo chamar-lhe um bocado quase um funil. A passagem para o futebol profissional, muito poucos conseguem. E é extremamente importante todos os fatores Obviamente, aqui reforço o fator psicológico para se conseguir essa transição com sucesso. Porque esse é o grande objetivo de todos os jovens jogadores.
E é também a fase da decisão. Há muitos que tinham muito talento e acabam por ficar por aí, nessa fase, no tal funil que estava a falar.
Exatamente. Porque muito poucos passam. Mas isto não é só no Benfica, é em todos os clubes, faz parte. É uma pirâmide e as pirâmides vão estreitando. E portanto, quanto melhor eles trabalharem, mais perto ficam de integrar a equipe profissional, que é o sonho para muitos, seja o treinador Jorge Jesus ou não. É um pouco como acontece na escola. Normalmente quando começam os anos letivos, há sempre as ideias sobre os professores, sobre as matérias e sobre as disciplinas, aquela é mais fácil, aquela é mais difícil. Mas isso é muito subjetivo. E portanto, se o jovem atleta conseguir trabalhar ao máximo nível, a probabilidade de ele conseguir ultrapassar o tal funil é maior.
Esse foco no trabalho diário é que pode aproximar essas distâncias e aproximá-los também dessa chegada ao futebol profissional. E ainda sobre o Jorge Jesus, ele entrou no Benfica há 10 anos, depois saiu, teve várias experiências, Sporting, também um clube da Arábia Saudita e depois o Flamengo. É um Jorge Jesus diferente que vamos ter agora no Benfica, mais evoluído, com mais mundo, com outro futebol?
Claramente. Aliás, viu-se ontem na apresentação. Com alguns traços distintivos, nomeadamente a afirmação que nós já falamos, do Benfica ir jogar o triplo, mas também com algum cuidado nalgumas afirmações. Notou-se a preocupação de falar da estrutura, de falar da equipe técnica, portanto, não pôr só a ênfase nele próprio, como às vezes no passado aconteceu, mas pôr a ênfase no clube, no grupo, na importância que o grupo tem. Portanto, creio que aí foi uma mudança que me parece positiva. E obviamente que as pessoas vão evoluindo. Estamos a falar de 10 anos, estamos a falar de experiências variadas em diferentes culturas, com diferentes métodos de trabalho e, portanto, seguramente que o Jorge Jesus neste momento é um treinador diferente e para melhor, e que também está mais valorizado com os recentes êxitos que obteve num clube como o Flamengo.
Eu não sei se partilha desta leitura, mas pareceu-me também um treinador mais preocupado em unir. O discurso muito da união e nem sequer houve nenhuma antagonização, nem treinadores adversários, nem clubes adversários. Foi muito à volta desta necessidade de: "eu sei que não sou bem-vindo por todos e, por isso, o meu principal objetivo agora é unir os benfiquistas".
É verdade. A tônica também posta aí na união.
Isso também é alguma maturidade, que acaba por revelar.
Sim, exato. Justamente por aquilo que falamos há bocado. E ele sabe exatamente o que aconteceu. Obviamente que acompanha o que se vai dizendo e o que se vai passando e, portanto, sentiu essa necessidade de apelar a que todos os benfiquistas se unam neste projeto que ele lidera. E sabemos nós que, de facto, só assim é que se conseguem os grandes sucessos.
E agora é hora de esperarmos pelo trabalho de Jorge Jesus neste regresso ao Benfica. Passamos agora para o relvado. E no relvado não podíamos deixar de falar daquele que foi o último jogo da temporada em Portugal, a Taça de Portugal conquistada pelo Porto por 2-1. Um Porto a jogar com menos um durante uma grande parte do jogo, ou diria até menos dois, porque Sérgio Conceição foi também expulso. E era nisso que ia pegar, Jorge Silvério, se essas expulsões, e conhecendo o Porto como foi construído por Sérgio Conceição, se essas expulsões acabaram por dar mais força à equipe para a entrada na segunda parte, que foi onde o jogo acabou por se decidir.
Eu penso claramente que sim. O facto de ter sido expulso primeiro o primeiro jogador e depois a seguir o Sérgio Conceição, penso que terá sido decisivo. Foi perto do intervalo e, portanto, seguramente que no balneário, o Sérgio Conceição, e penso que por aquilo que nos foi dado ver, o presidente Pinto da Costa, que nós vimos a descer da bancada.
Exatamente, desceu do camarote para o balneário.
Seguramente terão passado a mensagem de que era muito importante cada jogador dar ainda mais, porque obviamente estavam a jogar com menos um, e apelar àquilo que normalmente se considera a mística do balneário do futebol clube do Porto. Todos juntos para lutarem contra tudo e todos. E isso viu-se depois na retomada da segunda parte, logo com um gol e, portanto, a balança pendeu, digamos assim, depois para o futebol clube do Porto, mas eu penso que isso terá sido decisivo para esta vitória na Taça.
E por ponto oposto, o facto do Benfica estar a ser liderado nesse jogo por um técnico interino, que era Nelson Veríssimo. Isso numa altura de dificuldade pode retirar força ao papel do treinador, porque os jogadores já sabem que o futuro não é aquele, que aquele treinador não estará lá para o ano. Isso num momento de apertada dificuldade pode retirar alguma força, ainda que involuntariamente, ou a concentração é tão elevada que isso nem sequer entra nas contas dos jogadores?
Pode. Todos os fatores contam. Aquilo que nós muitas vezes definimos como um pormenor, neste caso, pode ser um por maior. Portanto, todos estes fatores contam. É evidente que perante um treinador que é o último jogo que está a fazer e que os jogadores sabem que não vai continuar, a força, a autoridade é diferente, embora isto obviamente varie de acordo com a personalidade de cada treinador e com a experiência que cada um tem. Mas fica sempre mais enfraquecido, porque não deixa de ser um treinador a prazo. E um líder, quando os liderados sabem que está a prazo, acaba por ter esse efeito. Não é que seja de propósito, mas esse é um efeito secundário.
Que é uma questão quase involuntária, não é?
É, exatamente, Miguel. É assim que se sente.
Daí até, por vezes, aquela jogada que se faz, diria eu, até mais psicológica, que é a renovação de contratos dos treinadores apenas para dar esse sinal ao grupo de que o técnico está para continuar.
Um reforço da autoridade que acontece muitas vezes. Exatamente.
Exatamente. E na questão do Futebol Clube do Porto, e isto é uma ideia que eu tenho de treinadores intensos como o Sérgio Conceição, como é que fica um plantel no final de uma época destas? Fica totalmente espremido porque foi um ano muito duro e muito a apelar ao sentimento, à raça, ou é um plantel que está com o treinador 100%? Enfim, dependerá também de cada jogador, se calhar. Como é que olharam para esta época.
Exatamente. Ainda por cima esta época foi claramente atípica. Muito mais prolongada por causa das questões da pandemia, muito mais desgastante. E seguramente que se chega ao fim da época extremamente desgastados, quer os jogadores, quer os treinadores, e a precisar de férias, mas sobre isso falaremos mais à frente. Mas claramente um plantel extremamente espremido e que deu tudo. E também do ponto de vista emocional, não só do ponto de vista físico, obviamente, mas também do ponto de vista emocional. Eles chegam completamente estourados. Mas ok, a próxima época será a próxima época e começará do zero também.
Mas há jogadores, e por exemplo, aqui Jorge Jesus também pode ser uma boa comparação, que há jogadores que não conseguem estar muitos anos com o treinador com esta forma de trabalhar, pela pressão que coloca.
É. Isso também é verdade. Depende da personalidade e da experiência de cada um e de facto há jogadores que não conseguem aguentar esta pressão. E que acabam por sair para outros clubes e mudar a sua carreira.
Até para poderem alcançar outros objetivos e trabalharem também de formas diferentes. E para terminarmos esta edição de hoje, vamos falar precisamente disso que estávamos agora já a referir ligeiramente, que é as férias. Para isso vamos para o sofá. E aqui era aquilo que o professor já estava a dizer, esta questão da necessidade de ir de férias, ainda para mais depois de um ano atípico destes. Em especial na alta competição, este é um período importante. Aqui o descanso também faz parte do trabalho para fechar um capítulo e poder abrir outro.
É. Faz sentido também que o descanso, e isso é uma luta, digamos assim, que vamos tendo muitas vezes com os atletas ao longo da época, de lhes explicar que também é preciso descansar. O descanso também faz parte do treino. Isto parece assim um bocado estranho, mas é evidente que para o organismo dos atletas recuperar daquilo que são as cargas diárias, é importante que eles descansem, assim como é importante uma alimentação correta. Mas obviamente que quer durante a época, quando é possível, quer depois no fim da época, faz todo sentido que eles consigam desligar e consigam fazer coisas que normalmente não fazem durante a época, que é deitarem-se um pouco mais tarde, fazerem umas patuscadas com os amigos, estarem com a família durante mais tempo. Embora, lá está, esta época foi um pouco atípica porque eles, sobretudo em relação à família, por causa do confinamento, acabaram por ter esse período extra. Mas é extremamente importante para os jogadores desligarem, sobretudo do ponto de vista mental e para se prepararem para a próxima época. E esta época é ainda mais complicada porque na grande maioria dos clubes, o que vai acontecer é que este período de férias vai ser mais curto. Temos tido uma época mais prolongada, temos um início de época mais cedo, digamos assim, e com um período de férias mais curto, portanto, é ainda mais importante esse descanso.
E aqui com uma questão que é: por causa desse período de férias mais curto, muitos jogadores não vão conseguir, por exemplo, ir para outros continentes, para destinos paradisíacos, que podem fazer. Ou seja, acabam por não sair propriamente do ambiente normal. Acabam por fazer férias no seu país, se calhar, ou no país ao lado, e não conseguem mudar propriamente de ares. Isso pode ter também a sua influência.
É. Estamos a assistir que os clubes estão a fazer essas recomendações, em virtude da situação que ainda estamos a viver, de não haver viagens.
Sim, não só por causa do período de férias, mas também por causa da situação de pandemia, claro, pelas viagens.
Certo. De não haver viagens e o que vai acontecer vai ser que muitos jogadores não vão estar com a família. Há jogadores que aumentaram a família, que tiveram filhos e queriam que os filhos estivessem fisicamente com as avós, com os avós, com o restante da família para os apresentar, digamos assim, que não vão poder fazer isso. É claro que hoje em dia temos as novas tecnologias que ajudam, mas acaba por ser diferente. E vão ser também desse ponto de vista, umas férias atípicas e passadas em casa ou muito perto de casa. Apela-se aqui um pouco à criatividade, digamos assim, no sentido de os jogadores conseguirem desligar, não saindo quase do país onde estão a trabalhar.
Dentro dessa limitação geográfica. E para terminar, porque os treinadores também precisam de férias, consegue um treinador desligar-se 100% durante este período, com a questão da preparação da próxima época, ainda para mais, lá está, tão próxima agora?
Muito difícil. Aliás, eu creio esta época, com estes condicionalismos que acabamos de falar, vai ser muito difícil para os treinadores. Normalmente eles já têm muita dificuldade em desligar, porque há a questão dos contratos, dos novos jogadores. Estão sempre em permanente contacto com os membros da direção que decidem as contratações, portanto acabam por ser umas férias um pouco pontuadas por esta atividade. Mas esta ainda vai ser mais atípica nesse sentido, porque o período é muito mais reduzido, e há aqui um conjunto de tarefas que eles vão ter que fazer e vai ser muito difícil desligar. E é curioso que a maior parte dos ex-jogadores que passam a treinadores, quando depois falam sobre isso, aquilo que referem é essa diferença entre quando eram jogadores, em que não tinham que se preocupar com uma série de coisas e quando passam a treinadores, de repente, passam a ter que se preocupar com muitas outras. Portanto, é completamente diferente e ainda mais absorvente a profissão de treinador.
Eu lembro-me de uma história de um jogador, agora já não me recordo de quem, que contava que no avião de regresso dos jogos internacionais, por exemplo, que os jogadores podiam descansar no avião enquanto o treinador já estava a analisar o jogo para preparar o próximo, e ele dizia que era incapaz de não conseguir desligar nesse momento.
Pois, é muito importante desligar. Mas é um desligar que acaba por não ser um desligar 100%. Os treinadores também são desgastados. Esta época foi desgastante para todos.
E agora serão uns dias de descanso com o computador ao colo, de certeza, para fechar esses detalhes.
E o telemóvel.
Jorge Silvério. E o telemóvel sempre à procura também das melhores oportunidades. Jorge Silvério, obrigado por mais uma edição deste fecho de temporada em Portugal, que foi mais um Jogo de Cabeça.
Muito obrigado.
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