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Apito inicial neste jogo de cabeça, é a rubrica de psicologia do desporto da Rádio Observador. Semanalmente vamos analisar a forma como a cabeça dos jogadores tem que se adaptar a um final de campeonato inédito. São 10 jornadas a um ritmo intenso, depois de uma paragem de dois meses. Para nos ajudar a completar estes puzzles mentais, vamos contar semanalmente com a presença de Jorge Silvério. É doutorado em psicologia do desporto, colabora também com várias federações desportivas e integra a equipe técnica nacional de futsal que conquistou o Campeonato Europeu em 2018. Bom dia, Jorge Silvério, bem-vindo à Rádio Observador nesta primeira edição desta nossa rubrica semanal.

Bom dia, é um prazer estar aqui convosco.

Jorge Silvério está mais do que habituado a lidar com atletas, sejam eles de modalidades individuais ou coletivas, e desta vez proponho que comecemos pelo princípio, só desta vez. Os jogadores foram enviados para casa há cerca de dois meses, alguns com a obrigatoriedade de trabalho físico, outros acabaram mesmo por ter férias forçadas dadas pelos clubes. E agora tiveram rapidamente que mudar este chip para voltar com todas estas indecisões, com notícias diferentes todos os dias. Um dia era uma coisa, outro dia outra. E eu ia se calhar dividir em duas partes esta minha pergunta inicial, que é: como é que se mantém, por um lado, a sanidade, a cabeça erguida, por maiores que sejam as casas dos jogadores, por melhores que sejam as condições, mas sem aquele cheirinho ao relevado durante dois meses e que tanta falta faz a quem vive o futebol há vários anos e todos os dias?

É verdade. Aliás, essa foi uma das principais queixas, digamos assim, dos atletas com quem trabalho, que foram referindo, por um lado, a falta de bola para aqueles que tinham casas com menos condições de treino e não podiam utilizar a bola, e por outro, de facto, a questão do cheirinho a relva, e também o poder estar com os colegas no balneário. Mas começando mesmo pelo princípio, Miguel. Eu acho que todos nós percebemos um pouco isto que eu vou falar a seguir, todos nós, mesmo os não atletas, porque daquilo que eu tenho falado com os atletas, que eu tenho falado com os meus colegas, sobretudo a nível internacional, e do que eu tenho lido até em termos de investigações científicas, embora isto obviamente não estávamos habituados, e foi completamente inédita esta pandemia, mas parece-me que basicamente passámos por quatro grandes fases neste processo. Uma primeira fase de choque. Ninguém sabia o que era isto, portanto ficámos todos um bocado-- ninguém estaria a contar com o impacto que o Covid-19 teve, e portanto, claramente, choque. Depois, numa segunda fase, uma habituação, ou seja: "OK, temos que ficar em casa. Isto até é engraçado, porque é uma coisa nova que não estamos habituados, como é que nós vamos adaptar a isto?" E depois, com melhores ou piores condições, lá nos fomos adaptando. Entrámos numa fase de habituação e passou a ser a nossa nova vida. A seguir, ao fim de algum tempo, começamos a entrar numa fase de cansaço e de saturação. E sobretudo para os jogadores, mesmo com a possibilidade de fazer treino, e muitos clubes foram fazendo treino, foram fazendo inclusive treinos através de plataformas de comunicação isolados, mas em grupo, para tentar aliviar aqui um pouco o facto de não se poder trabalhar em grupo e não se poder trabalhar com as condições ideais.

E tentar também manter rotinas, não é? Ou seja, fazer essas comunicações sempre à mesma hora ou à hora do treino, por exemplo.

Exato. Aliás, as rotinas foram e são, se voltar a haver algum confinamento, esperemos que não, muito importantes também na nossa saúde mental. E portanto, de alguma forma, traziam alguma normalidade àquilo que era o nosso cotidiano confinados. Mas tudo isto não evitou, de facto, uma saturação e um cansaço. E portanto quando houve a hipótese de recomeçar ao nível da primeira liga, quando se começou a haver mais algumas definições, porque outra coisa que nós sabemos é que a incerteza, as dúvidas sobre aquilo que vai acontecer provocam ansiedade. E era o que o Miguel estava a dizer há bocado, uma vez vinha uma notícia, outra vez vinha outra, vai arrancar, não vai, quando é que vai, quando é que não vai ser. Portanto, todas estas dúvidas e estas incertezas trouxeram muita ansiedade. E depois quando se começou a falar na retoma, de facto passou-se uma quarta fase, uma fase de esperança. Que os jogadores começaram a pensar: "Vamos voltar. Vamos voltar a fazer aquilo que nós gostamos". Mas esta esperança misturada com algum receio. Receio não tanto pelos jogadores, porque daquilo que se vai sabendo, eles não fazem parte do grupo de risco, primeiro pela idade, depois por praticarem exercício físico e por estarem em excelente forma, portanto, à partida, não farão parte desse grupo, mas muitos deles vivem com pessoas mais idosas ou com pessoas que têm doenças e fazem parte desses grupos de risco. Portanto, esta retoma foi vista nestes dois aspectos.

Era essa a minha segunda fase da pergunta, que é: como é que se vai mentalizando os jogadores para esse regresso? Ou seja, esse trabalho vai sendo feito já durante o confinamento, especialmente nas equipes maiores que têm esse acompanhamento mais presente. A adaptação para a qualquer momento se poder voltar aos treinos é algo que vai sendo conversado entre a equipe técnica, a equipe psicológica e os jogadores ou acaba por ser mais surpreendente do que essa preparação?

Não, faz sentido que não se esteja só à espera de saber quando as coisas estão definidas, OK, vamos retomar no dia 3 e vai ser assim. Faz sentido que seja feito logo, até porque um dos fatores que foi claramente posto em causa com o confinamento foi, se podemos designá-lo assim, a saúde mental. Os jogadores começaram a pensar: "Isto agora acabou, como é que vai ser o futuro?" Alguns acabavam contrato, outros estavam a pensar eventualmente até em mudar de clube. Portanto, houve aqui uma série de fatores que afetaram, do ponto de vista mental, os jogadores. Teve que se trabalhar logo de início em todos esses aspectos, não só nos aspectos provocados Pela própria pandemia, sobretudo em relação ao receio que falavas há bocado, mas também em relação ao futuro. E aqui, claramente, a principal estratégia, embora na altura não se sabendo quando é que as competições iam retomar, foi claramente tentar normalizar e tentar encontrar um objetivo a que os jogadores pudessem agarrar. Não sabemos quando vão retomar a competição, mas sabemos que ela, em algum ponto, vai retomar, seja daqui a um mês, seja daqui a dois, seja daqui a três. Portanto, tentar transmitir essa normalidade.

E há clubes que utilizaram, por exemplo, esta estratégia, não sei se será uma estratégia, mas a de voltar aos treinos só com mais um colega ou com mais dois colegas para voltar a essa habituação à normalidade.

Exato. Aliás, os jogadores referiam isso quando começaram a treinar, primeiro, a grande maioria deles individualmente, mas já na relva, apesar de haver uma estranheza, porque não são as condições a que estavam habituados. Muita gente tem falado nisso, uma nova normalidade, digamos assim, dentro desta anormalidade. Mas para os jogadores já foi importante este regresso. E depois os seres humanos têm uma incrível capacidade de adaptação, rapidamente se adaptaram. Não podemos ir ao balneário, não podemos ter aquele ambiente que havia de convívio antes do treino começar e depois do treino entre todos nós, mas pelo menos já estamos aqui a fazer alguma coisa que nós gostamos, já estamos a treinar na relva e, portanto, isto já é um primeiro passo no caminho da normalização. Isso foi extremamente importante para eles.

Sim, ainda por cima numa modalidade coletiva, há também essa questão do balneário que se vai construindo e que é também importante. Jorge Silvério, neste regresso ao campeonato há também uma característica que não tem passado despercebida, tanto aos jogadores como aos adeptos, e introduzo também esta variante, que são os jogos à porta fechada. Para um jogador é completamente diferente poder contar ou não com o apoio dos adeptos. E perguntava-lhe se isso facilita a tarefa às equipes que acabam por jogar fora, porque não vão ter do outro lado os adeptos adversários.

Sim, curiosamente, nós realizamos um estudo sobre a vantagem de jogar em casa na Primeira Liga, para confirmar se ela, de facto, existia ou não, porque fala-se muito, mas em termos científicos, digamos assim, ela não estava estudada. Nós partimos de uma definição, que é a que normalmente é utilizada a nível científico nos estudos sobre a vantagem de jogar em casa, que é o número de pontos que são obtidos em casa sob a forma de porcentagem em relação ao número de pontos total ganhos. E se isto for acima de 50%, há a vantagem de jogar em casa. E claramente verificamos que sim. Num conjunto alargado de anos, em cerca de 18 anos, há a vantagem de jogar em casa na primeira liga de futebol em Portugal. Tal como acontece em muitas outras ligas espalhadas por esse mundo afora, não só de futebol, mas também de outras modalidades coletivas. Há uma série de aspectos que permitem explicar a vantagem de jogar em casa. Um dos aspectos principais é precisamente o apoio da multidão, que não vamos ter. Os jogadores costumam se referir muitas vezes a esse apoio que é passado dos adeptos para eles, sobretudo quando as coisas não estão a correr tão bem ou quando já se está a aproximar o fim do jogo e o resultado não é favorável, e de repente, aquilo que normalmente se costuma designar o 12º jogador, tem ali um acréscimo. Claramente, agora não vai existir isso, não vai existir para todos. Vai ser mais um fator dentro dessa tal nova normalidade que vai ser diferente, a que os jogadores vão ter que se habituar. Há aqui dois fatores que me parecem importantes. Por um lado, aquilo que eu dizia há pouco em relação à nossa capacidade para nos adaptarmos. Portanto, os jogadores depois vão acabar por se adaptar. E de alguma forma, eles já estão preparados para isso, porque a grande maioria das equipes, na grande maioria dos treinos, são à porta fechada. Claro que os treinos são diferentes da competição. Mas aquilo que se faz no treino é preparar os jogadores para a competição. Portanto, eu diria, desse ponto de vista, eles já estão preparados, embora a grande maioria deles não tenha ainda tido a experiência de ter jogos sem adeptos. E de facto, quando se fala com jogadores ou treinadores que já passaram por essa experiência, eles referem sobretudo a estranheza. Aquilo que é diferente, mas vai haver uma série de coisas que vão ser diferentes. Portanto, vai ter que haver aqui uma adaptação muito grande da parte dos atletas, dos treinadores, a esta nova normalidade de não termos público nos estádios.

Sim, e quanto maior o estádio, maior deverá ser essa estranheza. E também nessa adaptação, eu puxava aqui os adeptos que também não vão poder ir ao estádio, era disso que estávamos a falar, e sofrem também aquilo que é um bocadinho o paradigma de ver o futebol, não é? O não poder abraçar-se ao colega que está ao lado na bancada, o não poder comentar aquele jogo. E eu antes de lhe lançar a pergunta, sugeria que ouvirmos um registo até da diretora-geral da saúde, que no briefing de ontem reconhece essa importância social do futebol em Portugal.

Foi muito importante, foi uma luta e uma conquista começar o campeonato de futebol. Reconhecemos todos que era uma atividade importante do ponto de vista econômico, do ponto de vista social, do ponto de vista até da nossa vida coletiva, porque faz parte dos nossos hábitos de lazer, mesmo não indo aos jogos assistir. Portanto, foi um esforço enorme que foi feito por todos para que possam existir jogos. E portanto, todos temos que garantir que a época acaba e que acaba em segurança. E que nem adeptos, nem jogadores, nem equipes técnicas se infectam por causa dos jogos de futebol. Acho que foi muito importante ter se conseguido a retoma e, portanto, o nosso apelo, mais uma vez, e aqui obviamente todos de acordo, é a responsabilidade social. Não vamos deitar a perder aquilo que conquistamos com tanto esforço.

Este registo da diretora-geral da saúde. Era isso que lhe perguntava, Jorge Silvério, afastando-nos aqui um bocadinho, por breves minutos, dos relevados. É importante para a saúde mental dos portugueses este regresso do futebol, que é o desporto mais apoiado em Portugal?

É. A senhora Diretora-Geral da Saúde focou aqui um ponto que me parece extremamente importante. Neste regresso a esta tal nova normalidade, é importante que haja um retomar da normalidade antiga, embora obviamente com as devidas adaptações e com os devidos cuidados. E ela falou aqui no papel essencial que o futebol, eu diria o desporto, mas obviamente no nosso país mais o futebol, tem neste regresso à normalidade. A importância que tem para muitas pessoas, como o Miguel dizia. Podemos partilhar um lance, podemos discuti-lo, podemos falar com os nossos amigos, mesmo que sejam de outros clubes, sobre aquilo que se vai passando e isso acaba por ser extremamente importante também, até numa perspectiva de lazer, para a manutenção da nossa saúde mental. E depois, obviamente, aqui estamos a falar muito dos jogadores, dos treinadores, mas de facto em relação aos adeptos também é importante que haja esta retoma, porque para muitos deles, ter estado sem jogos criou um enorme vazio, até em termos emocionais e portanto, por aí também é extremamente importante. Agora, a questão da responsabilidade social que a Diretora-Geral de Saúde também mencionou, é extremamente importante. Há regras a cumprir. Já percebemos que houve, no início da pandemia, alguns jogos que foram realizados, sobretudo alguns jogos das competições europeias, que depois conduziram, aliás, já há estudos feitos sobre isso, a um conjunto de mortes que seria perfeitamente evitável. Portanto, é preciso ter muito cuidado e não nos esquecermos de cumprirmos as regras que estão instituídas, pelo menos até podermos ganhar uma nova normalidade mais próxima daquela que era a antiga.

Sim, é importante assistir aos jogos também em segurança. Têm sido também dados conta nos últimos dias algumas intenções das claques em irem até ao exterior dos estádios, mas a polícia também já garantiu que vai estar atenta a isso. Professor Jorge Silvério, ainda nesta questão dos jogos à porta fechada e pegando nesse estudo de que me falou, há pelo menos, em Portugal, uma equipa que vai sentir isso em maior intensidade, que é o Santa Clara. É uma equipa açoriana, que é até um símbolo da região autónoma e que vai jogar agora este final de campeonato na Cidade do Futebol. É uma mudança, e antes de lançar também a pergunta, é uma mudança que o técnico João Henriques admitiu em entrevista à Rádio Observador durante o mês passado, que vai fazer toda a diferença e vamos ouvir essa opinião do treinador do Santa Clara.

Havendo equipas a jogar nos seus estádios, quando jogam fora noutros estádios, como seria pressuposto acontecer naturalmente, ser mais prejudicados relativamente a outras equipas, com toda a certeza, porque a nossa casa nunca será o Estádio de São Miguel, será sempre o outro qualquer estádio. Agora acredito que as pessoas responsáveis que estão à frente e a pensar a melhor forma de resolver esta situação atípica, é tentarem manter os níveis de igualdade para todas as equipas, para que seja o mais justo possível dentro deste contexto, obviamente.

O técnico do Braga, João Henriques. Professor Jorge Silvério, perguntava isso mesmo, até porque já referiu esse estudo que realizou sobre o fator casa, mas para além da pressão do público, há aqui outras variáveis em jogo. Há fatores biológicos, o jogar num terreno que nos é conhecido, onde se treina regularmente, onde se joga regularmente, que dão uma clara vantagem. Esta equipa em particular precisa de uma atenção especial junto dos seus jogadores para isto de, com ou sem adeptos, nunca jogar na sua casa?

É, vai ser claramente um caso de estudo e um caso a que seguramente vamos estar bem atentos para ver como é que vai ser a reação. É a única equipa, para além do Belenenses, mas o Belenenses está relativamente perto da casa antiga, ao jogar na Cidade do Futebol. O Santa Clara claramente está deslocado. E portanto, vai ser interessante ver como é que isto vai funcionar. Por um lado, as equipas não vão ter, de facto, os adeptos, portanto, estão todas em pé de igualdade. O Santa Clara tem aqui um problema e uma vantagem. O problema é que falta essa familiaridade. Não estão habituados a jogar na Cidade do Futebol, vão ter pouco tempo de adaptação. Claro que à medida que os jogos forem decorrendo, vão cada vez tendo mais essa habituação. Mas há muitas vezes, provavelmente as pessoas que não estão tão ligadas ao futebol não têm esta perceção, destes aspetos de familiaridade, de saberem que o placar televisivo ou que um cartaz publicitário está colocado ali. Portanto, ao fazerem um passe para um colega, já sabem, conseguem calcular a distância também recorrendo a essas pistas externas. Portanto, claramente estes fatores de familiaridade não vão existir, mas o Santa Clara tem aqui uma vantagem, que é não vai realizar grandes viagens quando vem ao continente para jogar com as equipas aqui do continente, porque já cá está. Esse pode ser um fator que lhes pode dar algum equilíbrio no meio de tudo isto. E depois também o trabalho que foi tornado público, que a Federação Portuguesa de Futebol fez na Cidade do Futebol em tentar que o Santa Clara se sentisse em casa, obviamente, dentro do possível. Este recomeço do campeonato coloca questões interessantíssimas e vamos ver como é que tudo isto vai funcionar e como é que os atletas vão reagir. E claramente o fator mental está aqui muito em causa e vai ser muito interessante, e seguramente no futuro, porque serão alguns estudos científicos, ver como é que tudo isto vai funcionar.

Professor Jorge Silvério, está montado este nosso primeiro puzzle, ainda sem a bola ter rolado. É uma antevisão deste regresso do campeonato marcado para quarta-feira, como disse aqui, como foi dizendo aqui que vai ser um caso de estudo garantidamente, vai ser um campeonato jogado de forma muito intensa, com 10 jornadas jogadas em poucas semanas. Nós aqui no Jogo de Cabeça marcamos encontro para daqui a uma semana. Obrigado, professor Jorge Silvério.

Muito obrigado.