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E hoje a Carla Jorge de Carvalho recupera aqui uma notícia que nos chega de Itália.
De Itália, mas que está a passar fronteiras e começa com uma decisão da Justiça, mas que está a ganhar enormes contornos políticos, com muitas reações a nível político. Tudo começa com um assalto a uma ourivesaria. Foi em abril de 2021. Mário Rogério geria uma pequena loja, uma ourivesaria, a cerca de 70 km de Turim. Um grupo de assaltantes entra na loja, agride a mulher, ameaça a filha, mantém as como reféns, acabam por roubar joias, fogem e quando fugiam, o homem pegou numa arma, perseguiu-os, disparou contra o carro em fuga, acabou a matar dois dos assaltantes e a ferir o terceiro. Tudo isto foi gravado pelas câmeras de videovigilância. Claro que o caso foi a julgamento. A sentença final, porque houve recursos, condena o ourives a 14 anos e nove meses de prisão. Aqui a interpretação da Justiça italiana diz que a resposta não foi proporcional aos fatos, foi sim uma retaliação, daí a pena de prisão pesada, que não convence, sobretudo a direita, e com Matteo Salvini e Giorgia Meloni a condenarem publicamente esta condenação. A primeira-ministra diz que não se podem condenar pedófilos a oito anos de prisão ou mesmo a menos, em casos de violação, quando se está a condenar um ourives a morrer na prisão. E aqui a questão é muito importante também por causa da idade, porque este homem tem agora 72 anos. Se cumprir a pena na íntegra, vai sair da cadeia com quase 87 anos. Matteo Salvini já visitou este homem várias vezes na prisão. Na última, que foi no último sábado, até disse que o partido está a avaliar a possibilidade de o candidatar a um cargo político como o representante dos italianos que trabalham e se defendem. Como é que um condenado a cumprir pena de prisão se pode candidatar? Porque há vários políticos que neste momento estão a tentar explorar uma saída, que é pedir ao presidente italiano que conceda um indulto ao ourives. O caso, como eu dizia, já passou fronteiras. O próprio Elon Musk já descreveu esta sentença como uma loucura e diz que é o juiz e o procurador.
Desculpa, o Elon Musk falou sobre isso?
Falou sobre isto num tweet. Agora não sei exatamente. Está de fato a este nível, com a possibilidade também por parte da estratégia da defesa, de recorrer ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Portanto, este caso não vai ficar por aqui e está a marcar o verão a Itália e na vida de Elon Musk também.
Olha, eu trago aqui uma notícia muito curtinha, não há muito pra dizer, apenas para refletir. Está concluído um negócio de 500 milhões de dólares, ao que parece, Ben Affleck, o ator norte-americano, tinha uma empresa de inteligência artificial que fundou para tornar o cinema mais humano. Parece uma contradição. O que ele queria, basicamente? Usar a inteligência artificial em algumas fases da produção, da pré-produção e da pós-produção de um filme. Há ali uma série de funções que a inteligência artificial poderia acelerar, fazendo com que o custo dos filmes também ficasse um pouco mais baixo. Ora, a Netflix achou muita piada a esta ideia, fazer filmes mais baratos. Daí, deu 500 milhões de dólares a Ben Affleck e comprou esta companhia. É uma notícia que estive a ler no LA Times, mas que está um pouco por todos os jornais mais dedicados ao entretenimento, este investimento da Netflix numa empresa de inteligência artificial que é completamente voltada para o cinema, para a televisão, e que nasceu com esse intuito: tornar, diz Ben Affleck, o storytelling mais humano. Parece uma contradição, mas interessava, claro, isso faz baixar o preço da produção dos filmes e foi por isso que a Netflix deitou a mão a esta empresa.
E por falar em tornar mais humanos os filmes, agora a propósito da estreia de Odisseia, do Christopher Nolan.
Parece que já é a melhor estreia do Nolan de sempre.
E está a gerar muitas discussões a propósito de vários temas, mas uma das características do filme que foi sublinhada pelo protagonista, pelo Matt Damon, grande amigo do Ben Affleck, foi precisamente o fato de a produção não ter recorrido a certos truques, a certas utilizações não só da inteligência artificial, mas também de efeitos especiais, e defender quase que um regresso ao passado. Ele sublinhava precisamente isso. Quando se veem mil pessoas na imagem, é porque estavam mil pessoas nas filmagens. Quando se vê um barco, os barcos que se veem ao fundo são barcos reais e não são criações de efeitos especiais. Eu, honestamente, gosto. Muitas vezes é difícil ver a diferença, conseguir fazer essa distinção, ver as diferenças, sobretudo quando estamos a falar de efeitos especiais, que são extraordinários. Mas a verdade é que quando as produções usam certos efeitos especiais, acabam por desumanizar um pouco e parece demasiado fake.
A ideia é ficar falso. O que não gostamos é isso. Quando se nota que é falso.
É, e que não dá aquela impressão de realidade. E aqui no filme, pelo menos eu ainda não vi o filme, não vou comentar a qualidade do filme, mas eu gosto desta ideia Por exemplo, fazendo uma comparação que foi muito criticada na altura dos primeiros Indiana Jones, os primeiros filmes em relação ao quarto, em que havia claramente um excesso de efeitos especiais que retiravam aquela ideia de autenticidade, por muito estranho que possa às vezes parecer falar de autenticidade em filmes de grande espetáculo, mas a verdade é que o uso excessivo de efeitos especiais muitas vezes retira essa dimensão humana, também até do trabalho das equipes técnicas, em comparação com aquilo que acontecia anteriormente.
Eu estive a ler que o filme pagou-se no primeiro fim de semana de estreia. É a terceira melhor estreia do ano na América, atrás de Toy Story e Super Mario.
E o Christopher Nolan, de quem eu não sou mesmo grande fã, tem tido essa virtude de pegar em histórias originais, alguns dos argumentos escritos por eles, ou outro, por exemplo, como o do Oppenheimer, que claro, é um biopic de uma figura célebre. Mas ele tem essa capacidade de não recorrer, apesar de também ter feito o Batman, ao chamado IP, à propriedade intelectual, às histórias que no fundo já estão prontas a ser servidas, e conseguir mesmo assim levar muita gente ao cinema. Aliás, o Oppenheimer foi também um grande sucesso de bilheteria e ele tem essa virtude. Talvez seja dos poucos realizadores, a par do Tarantino, que conseguem levar pessoas ao cinema por ser um filme dele.
Mas este não foi barato, custou entre 200 a 250 milhões.
Nunca são baratos os filmes.
Fez 264 no primeiro fim de semana, por isso safou-se. Está feito o Não Se Fala de Outra Coisa, notícias que estão aí pelo mundo e que destacamos sempre nas manhãs 360 do Observador.