Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Há uma greve a atrapalhar o início da concentração dos jogadores da seleção convocados para o México 86. Ainda não é um protesto dos próprios atletas. É uma paralisação de ferroviários que bloqueia os comboios há mais de 30 dias seguidos. Os jogadores do Futebol Clube do Porto, entre os quais Fernando Gomes e Paulo Futre, deslocam-se de carro até Lisboa, numa penosa viagem pela Estrada Nacional um, cinco anos antes de ser concluída a autoestrada. Tinham conquistado na véspera o nono título nacional, com uma vitória frente ao Sporting da Covilhã. A festa na cidade do Porto estendeu-se até de madrugada. É segunda-feira, 21 de abril de 1986. Os novos campeões nacionais convocados para a seleção estão atrasados para a primeira reunião entre os jogadores que vão ao mundial e a equipa técnica da federação. É no maior hotel do país, o Hotel Penta, junto ao Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Numa sala cheia de cinzeiros de pé alto, o coordenador das seleções, Amândio de Carvalho, não pode esperar mais. Os jogadores do Benfica têm de sair entretanto para um treino do clube às 16h, para preparar a final da Taça de Portugal, que se joga no domingo. Amândio de Carvalho divulga o regulamento da seleção e entrega uma cópia aos jogadores. Têm ali as regras que devem ser seguidas, mas explica que a federação está disponível para ouvir sugestões. Logo depois, desvenda o valor e o plano de prêmios e diárias que vão ser pagos aos jogadores. Era o que todos queriam mesmo saber e sobre isso não haverá diálogo. Os valores tinham sido aprovados pela direção e não se admitia qualquer alteração. Cada jogador vai receber quatro contos por cada dia de trabalhos com a seleção, mais 100 contos por cada um dos três jogos da primeira fase e ainda mais 200 contos de publicidade por toda a campanha do mundial, pagos por Joaquim Oliveira, da Olivet Desportos, a dar os primeiros passos nos negócios do futebol. Um jogador que alinhasse nos três jogos podia ambicionar receber cerca de 700 contos. Dá para comprar um Fiat Uno, por exemplo, mas não chega para metade de um Mercedes, nem para um BMW. Dá para sete televisões a cores topo de gama, mas só cobre um quinto do valor de um T2 nos arredores de Lisboa. É muito dinheiro para qualquer português, numa altura em que o salário mínimo é de 22 contos e 500 escudos, mas para a escala do negócio do futebol, sabe a pouco. A Federação de Futebol recebe 115 mil contos com esta participação no mundial e apenas 15 mil contos vão para os jogadores. Os futebolistas não gostam do que estão a ouvir. É notório e é esperado. David Borges, jornalista do jornal Record, ajuda a explicar a insatisfação.

Era muito notório o facto de haver rios de dinheiro a passar pela direita, pela esquerda, por cima e por baixo dos jogadores, e os jogadores não caía nenhuma moeda.

A reunião continua. A direção da Federação Portuguesa de Futebol transmite outros aspectos importantes sobre as condições no México. Amândio de Carvalho explica que os telefonemas para Portugal são caros, muito caros. Para além do preço da chamada internacional, é preciso ainda pagar uma taxa de 25%. Por isso, os jogadores são aconselhados a combinar com os familiares chamadas de Lisboa para o México, que saem muito mais baratas. Já a reunião vai longa quando chegam os jogadores do Norte, ainda com os futebolistas do Benfica na sala. Amândio de Carvalho repete tudo o que tinha acabado de dizer. Fica claro que todos os pontos são negociáveis, menos um. Os prêmios e diárias estão fixados. Não se admite qualquer alteração. Há três jogadores do Benfica que pedem para falar. Carlos Manuel, o herói do gol de Estugarda; Bento, o guarda-redes titular e capitão; e Diamantino, médio ofensivo, que vai assinar um dos poucos momentos gloriosos da seleção no México. Os três benfiquistas lamentam que, mais uma vez, os jogadores não tenham sido ouvidos sobre condições financeiras, diárias e prêmios. E exigem mais dinheiro, principalmente da publicidade. Amândio de Carvalho não lhes dá qualquer hipótese. Diz que a decisão está tomada. Sobre os prêmios, não há espaço para qualquer discussão. Justifica a posição com um estudo económico da federação que avaliou as condições e possíveis receitas do Campeonato do Mundo. Os jogadores não ficam convencidosNeste primeiro dia têm de tirar medidas para os fatos e camisas a fornecer pela Tripomar Fel. Mas querem já clarificar as contas ao que terão direito a receber. Exigem falar com o presidente da Federação, Silva Resende, um líder polémico, inflexível e ausente nos momentos mais quentes que se aproximam. Começa assim o estágio de preparação para o Mundial de 1986. É o primeiro dia das semanas mais atribuladas de sempre da Seleção Portuguesa de Futebol. O Mundial de 86 marca um dos piores momentos da história do desporto português. Neste episódio, reconstruímos a viagem atribulada de Portugal rumo ao México. Os primeiros dias em Saltillo, com treinos num campo inclinado, os jogos de preparação contra amadores, as negociações sem resultados e as reuniões à porta fechada que levam ao protesto público dos jogadores. "O escândalo que destruiu a seleção" é um podcast especial do Observador em quatro episódios sobre a participação portuguesa no Mundial de 1986. Eu sou a Carla Jorge Carvalho e este é o episódio dois: do campo de treinos inclinado ao ultimato.

A federação era liderada pelo Antero da Silva Resende e quando chega à federação, ele tem uma ideia de uma liderança forte, em que não admite interferências, nem influências, nem pressões da parte dos jogadores. Os jogadores são funcionários, têm que obedecer, estão a cumprir um dever para com a pátria, é um pouco isto que está em causa, e como tal, não têm que nos estar aqui a interrogar e a pressionar sobre quanto é que vão ganhar.

Antero da Silva Resende é presidente da Federação Portuguesa de Futebol desde 1983. O jornalista Vítor Serpa, do jornal A Bola, descreve-o como um homem difícil. José Carlos Freitas, que escreve para o jornal O Jogo, sublinha o pulso firme do presidente da federação.

Silva Resende era uma pessoa com uma formação religiosa muito forte e que achava que o pai de família tinha sempre a última palavra. E ele entendia que era o pai de família na Federação Portuguesa de Futebol. E que os filhos tinham que obedecer ao pai, portanto, os jogadores tinham que obedecer à federação. E não percebeu que os jogadores na seleção não são nem empregados, nem funcionários, nem nada que seja. Pessoa muito educada, bem formada, mas que achava que havia uma hierarquia e quem estava no topo da hierarquia não tinha que dialogar com quem estava abaixo.

Silva Resende não está presente na reunião que inicia o estágio da seleção. Na verdade, está quase sempre afastado da equipa. Vai continuar a ser assim durante as próximas semanas. Durante todo o estágio, é o diretor Amândio de Carvalho o representante máximo da federação junto dos jogadores. A relação de Amândio de Carvalho com os jogadores vai tornar-se complicada. Os futebolistas querem negociar com o presidente. Amândio de Carvalho tem ordens de Silva Resende para se manter intransigente. Nas declarações aos jornalistas, no primeiro dia de estágio, surge mais uma polêmica. O selecionador José Torres tem de responder às críticas de João Rocha, presidente do Sporting, que não perdoa a ausência da convocatória do avançado Manuel Fernandes, melhor marcador do campeonato. E ainda surge mais um contratempo. O Sporting comunica ao departamento médico que o defesa Venâncio não está em condições físicas. Tem de ser substituído por António Oliveira, do Benfica. Em Lisboa, a seleção arranca os trabalhos num ritmo de treino leve. Chega a final da taça. O Benfica vence o Belenenses por 2 x 0. Leva para a Luz a sua 20ª taça. É o fim oficial da época. A partir daqui fica finalmente completa a seleção nacional. Dias depois, no 1º de Maio, Dia do Trabalhador, a direção da federação volta a perceber que os jogadores não estão em paz com os valores dos prémios.

A federação iria receber muito dinheiro de participação e também de publicidade e nós jogadores sentimos que se nós éramos figuras, não palhaços, tínhamos que ter alguma coisa, algum direito em relação a termos de publicidade. Que éramos nós que íamos dar a cara, não fazia sentido que nós também não tivéssemos uma participação, nem que seja pequena, daquilo que era os contratos da federação, porque naquela altura não havia organizações nenhumas. Éramos nós que falámos entre nós: "Epá, mas eles ganham a pasta toda e nós não vamos ganhar nada, é tudo por eles."

Augusto Inácio é um dos mais experientes da equipa e tem vontade de resolver o problema ainda em Portugal.

Nós queríamos falar tudo isto aqui em Portugal e eu tive a ideia também, com muitos colegas meus, de dizer assim: "Antes de irmos pro México, as coisas têm que estar resolvidas aqui, porque é aqui que se resolve." E o Armando Carvalho só dizia assim: "O presidente não está cá, esses problemas nós vamos resolver lá." Eu digo assim: "Não, vamos resolver cá, porque lá vai ser uma grande confusão." "Não se preocupem, porque vocês têm razão e de certeza absoluta que isto vai ser fácil de solucionar."

José Eduardo lidera o Sindicato dos Jogadores e sabe tudo o que se passa no estágio. Tem uma espécie de agente infiltrado no grupo.

Nós tínhamos dentro do sindicato um elemento da direção, que era o Frederico, que jogava na altura no Boavista e que tinha sido convocado pra seleção e foi ao México e que, portanto, era diretor do sindicato. A questão é abordada nos treinos, conforme diz, e começou, e que se prolongou no tempo, a haver uma não resposta. Ou seja, a questão era tratada com os diretores, diretamente nos treinos, e a resposta é: "Sim, senhor, vamos tratar." É o costume, como se costuma dizer, empurrar com a barriga o problema. E o problema foi crescendo, e a insatisfação dos jogadores foi crescendo. Porque é sempre uma má solução deixar crescer um problema.

Depois da reunião no centro do relvado do Estádio do Jamor, Carlos Manuel é o mais inconformado. Chega a ameaçar abandonar o estágio. Só é demovido por alguns colegas de equipa. Mas todos estão insatisfeitos. Continuam a treinar, mas sempre a aguardar por uma solução para um problema que dura há meses. É só disso que falam. Nos treinos, nos balneários, em conversas paralelas. E isso há de contaminar tudo. É um dia movimentado no aeroporto de Lisboa e há 22 passageiros muito especiais que se preparam para embarcar, vestidos impecavelmente com blazer escuro, calças claras, gravata às riscas. Pela segunda vez na história, a seleção portuguesa de futebol vai participar num mundial. Destino da viagem: México. Todos os jogadores estão prontos. Todos, exceto um.

Penso que os próprios jogadores ficaram um bocado surpreendidos, porque na véspera estava tudo normal. Eu não sabia o que se tinha passado e só soubemos no aeroporto o que se tinha passado, que o Veloso tinha dado positivo no controle antidoping.

José Carlos Freitas, do jornal O Jogo, fica surpreendido pela troca em cima da viagem. Nas análises à urina feitas uns dias antes, Veloso acusou positivo a uma substância proibida. Os resultados só saíram na véspera da viagem para o México. O jogador do Benfica é afastado da equipa e substituído por Bandeirinha, da Académica. Ribeiro Cristóvão, da Rádio Renascença, explica que este caso foi incômodo.

Nós, na altura, tínhamos todos, embora eu particularmente, a convicção de que muitos jogadores tomavam algumas coisas antes dos jogos para parecerem mais fortes e para serem mais fortes. Isso terá acontecido numa daquelas operações em que o Veloso foi apanhado.

9 de maio, e é com Bandeirinha na comitiva, em vez de Veloso, que começa a longa viagem para o México. Longa. Muito longa mesmo. Mais de dia e meio de viagem. Rui Águas fala de uma viagem que parece não ter fim.

Na altura não havia, imagino eu, os charters, as organizações e as possibilidades que hoje existem. Mas lembro-me, sim, que foi um bocadinho discutido mesmo, nessa altura, o itinerário e o porquê. Foram demasiados voos. Foi superlongo, sim. Isso até hoje dá pra me lembrar. E o ambiente era tudo já era aceitável. Tudo já era aceitável, não, tudo já era esperado da federação. Por isso nós estamos ali em condições que esperávamos que fossem aquelas. No fundo, não havia grandes expectativas em relação àquilo que nós conhecíamos e em relação àquilo que esperávamos.

De Lisboa para o México, a seleção portuguesa faz duas escalas. Primeiro, em Frankfurt, na Alemanha, e depois em Dallas, nos Estados Unidos. Em Frankfurt, a comitiva dorme num hotel, mas ao longo da viagem é preciso passar várias horas em aeroportos e outras paragens. Ribeiro Cristóvão, jornalista da Rádio Renascença, está nos mesmos voos que a equipa e recorda-se dos pormenores

Fomos daqui para a Alemanha, da Alemanha fomos para os Estados Unidos e dos Estados Unidos fomos para o México. Na Cidade do México, apanhamos depois o avião para Monterrey e de Monterrey apanhamos o autocarro para Saltillo. Eram 60 km, lembro-me perfeitamente disso. E é curioso que o autocarro era conduzido por um mexicano que, na altura, teve que ir perguntar a companheiros seus onde é que ficava Saltillo e como é que se ia para Saltillo. Portanto, realmente logo isso nos fez criar algumas dúvidas em relação àquilo que era Saltillo.

Depois dessa maratona, a chegada ao destino final também não seria calma. Há um forte controle policial.

Se não eram mais de 100 carros da polícia, se não eram CHIMES ou o que era aquilo. Eu só sei dizer que a gente ia no meio deles, uma data de carros e de motas da polícia na esquerda, na direita, à frente e atrás. Estávamos mesmo ali no meio.

Augusto Inácio fica impressionado com o aparato. É de madrugada, está tudo escuro. Dentro do autocarro, os jogadores seguem atentos ao percurso. Têm medo que possa acontecer alguma coisa.

E nós cada vez passávamos por uma espécie de sítios mais altos, em que a gente deixava de se calhar de ver mais o lado direito ou mais o lado esquerdo e dizíamos: "Baixem a cabeça, é capaz de vir aqui algum tiro e a gente não sabe de onde é que isto vem."

No percurso até Saltillo, os jogadores sentem-se inseguros, impacientes e, sobretudo, exaustos. Só querem chegar e descansar. Têm reserva no Hotel La Torre. Vítor Serpa já sabe o que os jogadores vão encontrar. É dos poucos jornalistas que não viaja no avião da equipa. Tinha chegado dois dias antes.

Portugal reservou o hotel que havia, que era uma adaptação de uma antiga prisão. Mesmo à volta do complexo, havia uma série de arames farpados e de muros muito altos.

À frente do hotel, existe apenas uma estrada. David Borges, do jornal Record, descreve um edifício no meio do deserto, um motel tradicional americano.

A seleção não ficou na cidade, ficou um pouco fora da cidade, num motel. Um motel clássico, um motel ao estilo americano, com uma torre e depois edifícios rasos, rasteiros, separados entre si.

Os jogadores não se queixam muito. São colocados em duplas, em pequenos apartamentos. Têm uma piscina comum a todos os quartos. À porta, há controle policial e há também seguranças dentro do hotel, mas estes têm um comportamento estranho.

Começamos a ver umas beatas no chão. Aquilo eram charros. Os seguranças fumavam charros. Pronto, tudo bem.

Augusto Inácio nota o uso constante de cannabis pelos seguranças do Hotel La Torre, principalmente à noite e sem qualquer tipo de pudor.

Nós às vezes íamos para a varanda para passar o tempo entre o jantar e irmos dormir. Jogávamos ali às cartas. Normalmente era à lerpa que a gente jogava. E de vez em quando a gente olhava, lá estava o segurança a fumar a erva e eu dizia: "Pelo menos estamos aqui bem seguros, porque ele com aquela erva, de certeza absoluta que não têm noção do perigo, mas tudo bem, se eles estão aqui é porque nós estamos bem também."

Depois da primeira noite no Hotel La Torre, é preciso treinar. O campo de treinos não é junto ao hotel. É necessária uma viagem de autocarro de 15 minutos. A equipa está pronta para trabalhar, mas não estão preparados para aquilo que os espera. O autocarro para à entrada do complexo desportivo de Saltillo. O próprio preparador físico Monge da Silva fica estupefacto com as condições que encontra.

Desilusão completa, porque o que nos diziam é que tinha um campo de treino relvado, tinha uma sala para musculação, tinha tudo. Não tinha nada. Aquilo era um ervado que nem sequer tinha terraplanagem. Era pequenino, estava inclinado e era um relvado espontâneo.

Monge da Silva tem o primeiro treino para dar e sabe que os próximos também estão marcados para aquele campo. Os jogadores apontam para mais um problema no plano da federação. Rui Águas leva mesmo as mãos à cabeça.

Porque aquilo era um declive que eu nunca tinha visto antes. Uma coisa é a relva ser má, que também era, outra coisa é não ser plano o espaço em que uma equipa profissional no mundial se está a preparar. E aquilo teve que ser visto antes de ser usado. Por isso a organização da federação escolheu ou permitiu que aquele campo fosse o nosso campo.

A inclinação do campo é tanta que os jogadores tentam sempre ficar na equipa que joga a descer. Além disso, há buracos e zonas completamente secas, com o piso muito duro. Augusto Inácio está entre os jogadores que protestam, mas a solução é pior que o problema inicial.

A gente fez queixa à organização de que realmente o campo não estava em condições. Além de ser inclinado, estava cheio de buracos. A organização disse que ia tratar do assuntoA inclinação nunca tratou porque não tinha que tratar, isto é evidente, mas os buracos realmente estavam tapados. Já não havia buracos, só que eram tapados com cimento, não eram tapados com relva. E eu assim: "Mas o que é isto?" Eles sempre com aquela, desculpem a expressão, tanga: "Amanhã a gente resolve, amanhã." E andamos sempre nisto e estamos lá há 40 dias.

Avolumam-se as falhas da organização, mas há um aspecto que não falta, nem no campo de treinos, nem em nenhum local de trabalho da seleção: publicidade. Joaquim Oliveira está no México. É o fundador da Olivet Desportos, a empresa pioneira na comercialização de publicidade no desporto em Portugal. É uma empresa recente e é o próprio Joaquim Oliveira quem trata de tudo.

O Joaquim Oliveira transportou com ele as placas publicitárias e era ele próprio que carregava com elas para o campo e as dispunha depois à volta do campo, consoante os ângulos ideais do treino da seleção portuguesa.

David Borges, que está em Saltillo em reportagem para o Record, apercebe-se do esforço de Joaquim Oliveira para que nunca faltem marcas junto aos jogadores.

E espantava-me, de facto, essa capacidade de trabalho do Joaquim Oliveira. Era também uma coisa nova para nós, porque não tínhamos ainda bem a noção da forma como a publicidade estava a crescer e estava a ganhar uma força extraordinária no ambiente do futebol.

A equipa percebe o que se passa, mas não gosta do que vê. Chega o momento de tomar uma atitude. David Borges percebe logo no treino seguinte.

Eu, pelo menos, comecei a ter a perceção quando os jogadores iam para o campo de treinos e tinham que levar camisolas de treino com a marca da cerveja e em alguns casos eles viravam a camisola ao contrário para esconder a publicidade. Portanto, isso indicou que havia ali algum problema grave. Era um protesto ativo.

Os jogadores tentam atacar onde podem ser mais eficazes para chamar a atenção e responsabilizar os diretores da federação, explica Augusto Inácio.

O que é que a gente fazia? Quem treinava de calças, virava as calças ao contrário, as camisolas virávamos ao contrário. Tudo o que fosse para não dar publicidade visível, nós fazíamos aquilo como protesto. Olhem para nós porque nós queremos conversar.

Esta forma de protesto já tinha acontecido em Portugal, no estágio em Lisboa. Os diretores da federação não gostam. Sabem que há contratos assinados e que o incumprimento pode levar os anunciantes a rescindir. A federação pode ganhar menos dinheiro. Apesar de tantos contratempos, os treinos continuam. Os jogadores nunca interrompem a preparação para o mundial. Além dos treinos, há jogos de preparação para fazer no plano da federação. Estão previstos quatro, mas a federação não consegue chegar a acordo com o Chile. A equipa da América do Sul pede 1200 contos. A federação acha caro. Outros clubes recusam jogar. Há até um jogo marcado, a equipa portuguesa vai para o estádio, mas o adversário não aparece. E assim, de quatro, acaba por restar apenas um jogo particular que ninguém imaginaria. É contra uma equipa chamada Clube Nova.

Quando fomos para o relvado, ainda não estava lá ninguém. Entrámos nós primeiro. Sim, senhor. Árbitros, nem vê-los. Quando vimos as pessoas, depois a vir o adversário, começámos a ver e disse: "Eu conheço aquela cara." Diz esse outro: "Eu também conheço aquela." Quem eram as pessoas que iam jogar conosco? As pessoas que estavam a servir à mesa na gente. Eram os que serviam a comida, os que serviam o vinho. Quer dizer, eram empregados do hotel que iam jogar conosco nesse jogo particular. E a gente reuniu-se e diz assim: "A gente não vai jogar contra estes gajos." E o José Torres fica assim a olhar para nós: "Mas temos que fazer aqui um treino." Fazemos o treino uns contra os outros. Não vamos fazer com estes papalvos que estão aqui assim, que acabam o jogo e daqui a bocado estão-nos a servir o vinho na mesa.

O jornal A Bola escreve que o nacional torreirismo já está a prejudicar a seleção. O record põe em título: "Não é assim que vamos lá". Mas ainda há espaço para piorar. Nas viagens de autocarro, há bocas constantes dirigidas aos diretores, treinadores e médicos. São utilizadas expressões como chulos. O isolamento dos jogadores em Saltillo também leva a outros momentos graves no estágio. Jaime Pacheco, por exemplo, é ouvido várias vezes durante a noite à porta do quarto a gritar: "Ai, deixem-me ir embora, estou farto disto, quero regressar." Num clima de crescente desconforto e de mais e mais ataques dos jogadores à federação, Silva Resende continua sem aparecer. Jogadores e jornalistas estranham esta ausência. Vítor Serpa, do jornal A Bola, sabe que Silva Resende até foi a Saltillo, mas nunca se junta aos jogadores.

Desloca-se a Saltillo para levar a imagem da Nossa Senhora de Fátima. Leva Nossa Senhora de Fátima a uma igreja de Saltillo, mas não está nem um minuto com a seleção, nem com os jogadores.

Os futebolistas estão fartos. O estágio está a ser longo demais e continuam sem resposta para as reivindicações que apresentam dia após dia. Amândio de Carvalho, o representante máximo da Federação Portuguesa em Saltillo, não tem poder de decisão. Querem falar com o presidente, mas Silva Resende não aparece. A 24 de maio, um sábado, depois de 14 dias em Saltillo, decidem que está na hora de tomar uma atitude.

Foi numa noite após um jantar, normalmente por volta das 21h30. Depois do jantar, as portas da sala deles abriam-se e tudo circulava, eles vinham para fora. E houve uma noite em que as portas se mantiveram fechadas.

José Carlos Freitas, enviado do jornal "O Jogo" ao Mundial de 86, estranha a situação. Ele e outros jornalistas decidem esperar. Não é habitual encontrarem a porta da sala de refeições fechada àquela hora. Algo grave se passa, concluem entre cigarros.

Aquilo nunca mais saía ninguém lá de dentro, saiu o José Torres e os dirigentes, ficaram os jogadores sozinhos lá dentro e percebemos que se passava qualquer coisa. E ficamos ali à espera.

Os jogadores estão sozinhos na sala de jantar, sem diretores nem membros da equipa técnica. Ao longo de uma hora e meia, votam tudo de braço no ar, cada um dos pontos que querem reivindicar.

Quem é que está de acordo com isto? Levantavam o braço. Ganhava a maioria. Estamos todos juntos.

Augusto Inácio e os restantes jogadores decidem, por maioria, avançar para um protesto público. Tinham feito um ultimato à federação e não têm resposta.

Eles saíram e disseram: "Amanhã não há treino, não fazemos treino." E percebemos que aquilo tinha chegado ao ponto de rutura entre as duas partes.

No dia anterior, Carlos Manuel já tinha colocado no bolso da camisa de Amândio de Carvalho um comunicado dos jogadores. É um ultimato. Dizem que lamentam chegar àquela delicada situação e que já tinham feito tudo para que fosse resolvida. Perante a insatisfação, comunicam que se não forem cumpridas as melhorias que exigem no prazo de dois dias, vão divulgar um comunicado à imprensa e estão dispostos a tomar uma posição que não serve os interesses da Seleção Nacional. Nesta folha colocada no bolso de Amândio de Carvalho, estão também os valores que os jogadores exigem. Querem uma diária de €7,500, em vez dos €4 que lhes estão prometidos. Nos prémios de jogo para a primeira fase, exigem €750, em vez de €100. Em caso de apuramento, querem receber €1500. E nas eliminatórias, em caso de afastamento, exigem 50% do valor que seria pago pelas vitórias. Os jogadores não têm esperança de que as reivindicações sejam acolhidas e estão prontos para demonstrar publicamente a revolta. Nos próximos episódios, vamos desvendar o dia que mudou para sempre a Federação Portuguesa de Futebol e que está na memória de todos os que estiveram em Saltillo.

Nós sabíamos que em Portugal era um escândalo o que estava a acontecer e havia mesmo quem defendesse o regresso imediato da seleção e o abandono do Campeonato do Mundo.

Em pleno Mundial, o segundo de Portugal, os jogadores começam um braço de ferro que vai manchar a participação portuguesa. "O Escândalo que Destruiu a Seleção" é um podcast da Rádio Observador, assinado pelos jornalistas Miguel Cordeiro, Carlos Pedro, João Dias, José Rafael Lopes e Martim Madeira. O guião é do jornalista Miguel Cordeiro. A sonoplastia é do Pedro Oliveira. Eu sou a Carla Jorge de Carvalho. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, foram citadas passagens do relatório da Federação Portuguesa de Futebol sobre o caso Saltillo e artigos dos jornais A Bola, Record e O Jogo. O guião é do jornalista Miguel Cordeiro. A sonoplastia é do Pedro Oliveira. Eu sou a Carla Jorge de Carvalho. Neste episódio foram citadas passagens do relatório da Federação Portuguesa de Futebol sobre o caso Saltillo e artigos dos jornais: A Bola, Record, O Jogo e Diário de Lisboa.