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Olá, seja bem-vindo a mais um episódio do podcast "O Valor da Floresta", uma iniciativa Observador e Navigator. Eu sou a Maria João Simões e nos próximos minutos vou conversar com Cristina Mágoas, professora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, especialista em ecologia. Bem-vinda, professora, é um gosto tê-la conosco.

O gosto é meu de ter esta possibilidade de partilhar convosco e com todos aqueles que nos estão a ouvir sobre os grandes desafios da floresta em Portugal e nos outros locais.

Exatamente. Esta semana vamos falar sobre a relação entre produção florestal e conservação das áreas naturais. O objetivo é tentarmos desmistificar a ideia que as duas não podem coexistir. Cristina Mágoas, há, de facto, esta ideia de que as florestas plantadas são inimigas das naturais, mas não é bem assim, na verdade, plantar é proteger. Sem florestas plantadas, haveria mais destruição de florestas naturais? É por aí?

Em primeiro lugar, eu acho que, vindo da área da ecologia, onde todos têm um lugar, obviamente que há um lugar para a floresta plantada e há um lugar para a floresta natural. E como nós sabemos que os desafios societais e a expectativa de que, por exemplo, em 2050, o que é necessário em termos de produtos florestais, produtos lenhosos, é uma percentagem tão ou mais elevada, vamos ter uma necessidade maior, que não faz sentido não pensar que nós não temos que ter uma floresta plantada. Obviamente que temos. A questão agora é pensar como é que, por um lado, elas vão existir, e devem existir, porque nós temos que continuar a plantar, mas temos que proteger as florestas naturais e aqui nas nossas latitudes, mas também ao nível global, porque como nós sabemos, cerca de 70% da biodiversidade está nas florestas, em particular nas florestas tropicais. E portanto, o que nós estamos aqui a fazer também vai ter uma implicação, por exemplo, na capacidade que eu tenho de utilizar material lenhoso e evitar a desflorestação, porque às vezes temos esta tendência de pensar: "O que eu estou aqui a fazer em Portugal não tem impacto". Claro que tem.

O ambiente é um todo, não é?

É verdadeiramente uma estratégia global. E portanto, as florestas plantadas têm um valor, têm uma posição, para além de, no nosso caso particular, até tem um impacto muito grande no PIB, mas também é fundamental para que não haja não só destruição nas nossas latitudes, no nosso país, das florestas nativas, as chamadas florestas nativas, mas também ao nível global, porque a necessidade de produtos lenhosos é crescente, não diminui. E por isso, o que nós temos que fazer é este compromisso, são estas duas atividades que se têm que reconciliar. Agora, é evidente que, por um lado, eu acho, eu e muitas outras pessoas, que a ideia das florestas plantadas servirem só como fábricas de madeira, essa ideia é um bocadinho para eliminar, porque os nossos desafios são tão grandes, quando nós pensamos nos serviços dos ecossistemas, na crise climática e na crise da perda de biodiversidade, esta área florestal tem que acomodar todas estas outras necessidades.

E isso leva-me aqui à segunda pergunta, mas conclua.

Não, é isso mesmo. Ou seja, nós deixamos de ter um produtor florestal como o produtor naquela visão mais antiga que nós tínhamos, que vai produzir fibra, vai produzir madeira, para ser aquilo que eu digo, um prestador de serviços.

Professora, aqui a questão é esta ideia de que plantar árvores para produzir madeira ou papel é o oposto de proteger a natureza. Como é que estas duas ideias se conciliam?

É que nós agora temos uma visão muito mais, para além de integradora, uma visão diferente do que é uma floresta, mesmo uma floresta comercial, uma floresta plantada, tem que ter objetivos, objetivos da questão da biodiversidade, tem que ter objetivos, por exemplo, dos serviços dos ecossistemas. Eu vou dar um exemplo, é o exemplo que eu dou aos meus alunos. Uma das primeiras vezes que se protegeu oficialmente uma floresta, foi uma floresta que estava ao pé de Nova Iorque, exatamente porque aquela floresta estava a purificar a água que iria ser fornecida para Nova Iorque. Ou seja, nós temos que acabar com esta visão. Claro que integrar o seu valor também na floresta, que esse é o grande desafio, porque nós temos que integrar este valor, mas todos os serviços, a questão da água, nós temos um país em que, particularmente, não é só ao sul do Tejo, mas de uma maneira geral, todos nós falamos, e agora vamos entrar no período estival, a questão da seca. Ora, a floresta tem uma função fundamental na retenção da água e no aprisionamento dessa água, que pode ser utilizada para muitas outras atividades, até a atividade agrícola e a nossa própria subsistência como sociedade humana. Depois, há a questão do carbono. Todos nós agora falamos da descarbonização.

Foi o tema do nosso primeiro programa.

Exatamente. As florestas têm essa enorme habilidade de integrar, mas não integrar de uma maneira qualquer. Não sei se estou a cumprir com os objetivos das perguntas, mas isto também vem mostrar que o que nós sabíamos das práticas de silvicultura, das práticas florestais, também tem que ficar um bocadinho mais adaptado a estas necessidades. Por exemplo, o solo Quando nós plantamos, e para realmente, por exemplo, esta floresta cumprir com os objetivos de retenção da água, da retenção do carbono, nós temos que proteger e conservar o solo, a biologia do solo, os micro-organismos.

É muito mais complexo do que nós imaginamos, não é?

É muito mais complexo, mas é mais desafiante.

Mas é possível, claro, também.

E é pôr o conhecimento, é colocar o conhecimento científico existente ao serviço da produção florestal.

Cristina Magalhães, existem dados ou estudos que mostrem que as florestas plantadas aliviam a pressão sobre os ecossistemas considerados frágeis?

Vamos lá ver. Vou dar aqui um exemplo, que eu não sei bem se é exatamente esta a questão. Um colega meu, que coordenou o Wild Forests, mostrou que a questão da biodiversidade, que é uma questão que a todos nos deve preocupar, mas a quem está a trabalhar na área da ecologia, mostrou que, por exemplo, os eucaliptais e estas zonas são zonas de refúgio de, por exemplo, o lobo ibérico e de uma enorme quantidade de grandes mamíferos, que são importantes ou são fundamentais, não só para toda a cadeia trófica, mas para a própria biodiversidade. Ou seja, estas áreas têm também este papel. Podem ter este papel. O que também nós sabemos é que talvez as práticas florestais, como nós as conhecíamos no passado, têm que ser ajustadas. Por exemplo, estou a lembrar em vários sítios, não é só por ser da Navigator, mas outras empresas que têm uma preocupação muito grande das linhas d'água. As nossas linhas d'água têm que ser muito bem geridas e muito bem protegidas e conservadas. Por quê? Porque normalmente essas linhas d'água têm uma biodiversidade que não existe noutro lado.

Claro.

Então o que nós temos que fazer é não só preservar, estimular para que essas áreas fiquem com as suas características funcionais nativas, mas até, e esta agora os colegas do florestal e da silvicultura talvez não achem muito fácil, mas também ninguém nos impede, às vezes, no meio dos eucaliptais, termos manchas de matos ou termos manchas de outras espécies, porque, na verdade, nós cada vez mais temos que trazer a biodiversidade, a parte bio, por óbvio motivo, eu sou bióloga.

E a diversidade.

E a diversidade para estes sistemas. Isto tem que ser acomodado nas práticas florestais. Este é que é também o desafio.

Desafio, pois, claro.

Porque não é fácil, obviamente.

E não corremos o risco de termos florestas plantadas a mais, ou seja, há aqui um limite?

Com certeza que há limites. Agora, que mais não seja limites territoriais, porque nós somos finitos na área florestal. O que me parece que ainda é mais importante do que pensar se nós podemos ou não estender mais, que também não me parece que seja bem a questão, é: e o que nós estamos a ocupar? Estamos a ocupar do melhor modo? Estamos a fazer a melhor gestão? E aí é que, de certeza absoluta, que nós estamos.

Que não vamos gostar de ouvir as respostas.

Então, o que nós temos que fazer é: algumas áreas, porque a questão da gestão do território para uma floresta plantada é exigente. Nós temos que conhecer bem, não só o solo, mas também, por exemplo, o declive, o sol, o clima. Temos que ter vários fatores para entender bem se esta floresta, deste tipo, será o mais adequado ou não. E isto vai obrigar a que, pelo menos nas áreas onde ele já existe, o que nós temos que fazer é o melhor possível. E por isso, muitas vezes, eu também acho que às vezes os consumidores e as pessoas estão focadas, por exemplo, nas produções da Navigator ou as produções da Altri. Então e todos os outros? A grande quantidade de floresta que nós temos são de outros. O problema, na verdade, é o custo econômico que tudo isto tem, que pesa. Por isso, nós temos que realmente integrar valor na floresta, não há outra maneira. Por exemplo, nós tivemos um trabalho, uma doutoranda que mostrou claramente que o problema do fogo e do eucaliptal, e até que ponto é que ele pode até expandir para outras zonas, e que nós às vezes vemos aí na televisão, tem claramente uma razão: é a não gestão. Porque quando há gestão, o fogo fica muito controlado. Então, nós temos uma obrigação de estimular com políticas públicas para uma gestão correta e, ao mesmo tempo, eficiente, colocar o conhecimento científico e da prática florestal ao serviço, porque onde ele está, ele tem que ser o melhor que nós podemos ter.

Falava há pouco dos consumidores. O que nós podemos fazer para garantir que os produtos que usamos vêm de florestas plantadas sustentáveis e não de áreas destruídas?

A certificação florestal, eu acho que devemos confiar, porque os produtos quando estão certificados, e a certificação florestal é exigente, tem padrões internacionais, tem standards que são a diferentes níveis sociais, econômicos, ambientais e são exigentes. Comprar, adquirir produtos, imaginar um soalho, não é? "Ai, é muito bonito porque é exótico e vem não sei de onde". E isto é um exemplo, mas haverá muitos outros. Sem este selo. Às vezes, nós podemos pensar: "Ah, é mais um selo". Não é bem assim.

Mas significa muito esse selo, não é?

Significa muito. Vou vos dar um exemplo. Eu trabalho com espécies invasoras e até na questão da gestão das espécies invasoras nestas florestas, a certificação florestal exige. Exige que realmente haja um cumprimento claro, que não pode ser escamoteado em diferentes áreas. E por isso, eu acho que é a melhor segurança.

Cristina Magalhães, passou a correr, foi um gosto conversar consigo. Muito obrigada por partilhar os seus conhecimentos, a sua visão. Obrigada.

Muito obrigada, o gosto foi meu.

Obrigada. Eu sou a Maria João Simões. Obrigada pela companhia. Marcamos encontro daqui a 15 dias para um novo episódio do "Valor da Floresta", uma iniciativa Observadores e Navigators.