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Então, meu lindo, a festa rolando lá em cima e você aqui escondido, porra? Entre e fecha a porta, queres? Meu irmão, é bem mais do que eu pensava. Não é? Um gajo imagina a quantidade na cabeça, mas depois ver tudo junto, espalhado numa mesa. É do caralho! E agora, onde é que você vai guardar tudo isso? Se eu te disser, vou ter que te matar a seguir. Tenho um spot ali na garagem. Meu pai quase não vem cá. Já não tem tempo pra trazer gajas cá a casa, nem metê-las na cama. Tu já imaginaste o que era se a polícia viesse cá hoje e encontrasse isto?
"O Zé faz 25" é um podcast ficção para ouvir em oito episódios, uma coprodução com o Yotabadio e Observador, da autoria de David Neto e Manuel Pureza. Com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Paulo Calatré, Carla Maciel, Sara Matos e a minha, Beatriz Godinho. A música do genérico é de Artur Costa. Episódio cinco: Furo Lento.
Querem mesmo saber o que aconteceu ao Zé? Nós também queremos. Foi por isso que entramos nesta aventura. Deixamos a ficção para os guionistas e os atores. A nossa parte é fazer com que seja possível viver uma aventura todos os dias. Foi por isso que criamos o Citroën C3 Air Cross, um SUV pronto para tudo, confortável para todos. Citroën C3 Air Cross. Ninguém resiste ao conforto.
E o mais estranho é que ambas as coisas aconteceram na mesma semana. Claro que o gajo também já deve estar a preparar a candidatura há algum tempo. Estas coisas não se preparam de um dia pra outro. Mas o filho ter desaparecido no mesmo dia, porra. Pra mim não há coincidências.
Tu fazes ideia se a notícia do desaparecimento do puto já chegou a mais algum lado, algum dos teus colegas jornalistas já fruiu isto?
Não, que eu saiba, não. Isto também é o tipo de coisas que não se aguenta muito tempo em segredo. Se outro jornal ou agência soubesse, acho que a notícia já tinha saído. Mesmo eu, só não publiquei porque tu me pediste.
Não publicaste porque não fazes ideia do que se passou. Aliás, pra dizer a verdade, nem tu, nem eu.
Mas isto cheira a esturro, pá. Não te parece?
Hum.
Olha, e o gajo, como é que ele é?
Quem? O Valbom?
Uhum.
É aquele típico, clássico empresário conservador e durão, mas que pesa as palavras com muito cuidado. E depois destila charme.
É, charme e dinheiro. Não lhe falta dinheiro.
Podes crer.
Tá com o quê? Cinquenta obras a acontecer só em Portugal? E agora candidato à Câmara de Lisboa. Achas que ganha?
Vê lá, não faço ideia.
Eu só ainda não percebi por que o Zé está a dever dinheiro.
Dinheiro? Como assim?
Ok. Eu só vim parar a esta história por causa de um telefonema muito estranho.
Desculpem, vão querer mais alguma coisa?
Não, obrigada.
Não, obrigado, eu estou bem também. Estavas a dizer?
Houve um gajo que me ligou há coisa de, sei lá, duas semanas. O gajo dizia imensos palavrões, estava um bocado aflito, mas ele queria me dizer que o herdeiro do Vicente Valbom, o filho, o José Valbom, que devia uma batelada de dinheiro a malta lixada. E estava a me pedir que eu o denunciasse num artigo. E que queria que eu denunciasse o José no dia do aniversário dele.
Espera aí, mas ele explicou o motivo de ele estar a dever dinheiro ou a quem?
Não, disse que não podia explicar, que se ia queimar se explicasse. Não me lembro bem. Entretanto, eu pensei: "Ok, vou ligar ao Zé e tentar espremer melhor esta história". Mas o gajo apanhou-me no bluff e pronto, fiquei sem saber o que se passava. Tu fazes ideia do que poderá ser?
Isto fica entre nós?
Sim
Os miúdos que estavam na festa falaram todos em drogas quando eu os interroguei. Portanto, até ver, é a minha melhor suposição.
Eu tenho de conseguir chegar à conversa com o Vicente Valbom. Eu aposto o que quiseres que ele está metido nisto do desaparecimento do filho. Não achas?
Sofia, eu acho que tu não devias falar com ele sem teres a certeza do que queres perguntar, mas quem sou eu? Tu é que és a jornalista. Bom, acho que já chega desta conversa. Não há nenhuma boa razão para eu estar aqui a discutir o caso contigo.
Nenhuma?
Joana, se alguém da Polícia Judiciária me vê aqui a conversar com uma jornalista, fodem-me. Aliás, e não são só eles, a minha mulher sabe que eu estou aqui a falar contigo num café, também me fode e não é no bom sentido.
E ainda assim quiseste vir.
Mas eu já fiz as perguntas que queria fazer. Pagas o café? Obrigado. Tchau.
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Como estás? Tomaste a medicação?
Cala-te, só. Estou a ver televisão.
Com a televisão apagada. Sofia, eu só queria saber como é que tu estás.
Sim, e se tomei os comprimidos.
Sim, e?
E estou ótima. Não dá para ver? Melhor do que nunca.
Sofia, eu estou a tentar. Aliás, estamos os dois a tentar lidar com isto o melhor que sabemos.
Mas tu lidas o dia todo fora de casa enquanto eu fico aqui fechada a trepar paredes.
Estás aqui por opção. Eu tive de voltar a trabalhar. Eu preciso de alguma normalidade.
Normal era ajudares-me a superar o luto, João!
Porque não tenho mais tempo, porra!
Outra vez esse sacana. Essa jornalista de merda. Caga nisso.
Sim?
Engenheiro Valbom? Desculpe incomodá-lo, eu sou a-
Eu peço desculpa, mas de momento ainda não estou a prestar declarações a jornalistas. Terá que falar com a comunicação do partido, sim?
Como é que sabe que eu sou jornalista?
Vê-se logo. Com licença.
Espere. Eu queria-lhe só fazer umas perguntas sobre-
Não, eu estou na minha residência particular e vou fechar a porta, não me leva a mal. Com licença.
Faz ideia de onde é que poderá estar o Zé?
Desculpe?
Sabe do paradeiro do seu filho?
Mas o que você sabe sobre o meu filho?
Talvez mais do que o senhor. Deixe-me entrar por cinco minutos para conversarmos um bocado. É que está frio cá fora.
Onde é que eles andam? Eu quero aqui um calor. Qual calor, Zé? Que conversa é essa?
Eu quero para achar um puto a uma pita, guecho. Qual é a tua cena? Estão 100 pessoas na minha festa e ninguém me traz um calor pra eu brincar?
Cala-te, Zé. Já estás outra vez todo zarolho.
Tu, tu aí, anda cá. Como é que te chamas?
Ricardo.
Ricardo, e tu sabes quem é que eu sou?
Tu és o Zé.
E como é que tu vieste parar à minha festa de aniversário, se é que me permites perguntar?
Eu sou do ano da Luísa. Disseram-me para aparecer.
Ricardo, tu já alguma vez provaste fezes?
Como?
Comes, pois! Fezes. Já alguma vez comeste barduno? Caca? Põe-a no espeto.
Deixa estar o gajo, Zé.
Calma. Relaxa, que eu vou fazer alguma coisa. Ricardo, é o teu dia de sorte! Vai!
É uma mera formalidade. Toda a gente usou o telemóvel, mas eu gosto de ter as coisas separadas, à antiga.
Ya.
Se houver alguma coisa que queira deixar de fora, avise-me que eu desligo o gravador, ok?
Ok.
Engenheiro Vicente Valbom, quando é que foi notificado do desaparecimento do seu filho, José Valbom?
Na noite da sua festa de aniversário.
E está envolvido na investigação da Judiciária a decorrer neste momento, liderada pelo inspetor João Durães?
Eu pedi ao inspetor Durães e à sua equipe que me pusesse a par mal tivessem novidades sobre o Zé.
Já foi interrogado, então.
Já respondi às perguntas que o inspetor Durães tinha para me fazer, sim.
O senhor Valbom é considerado suspeito no caso?
O quê? Mas o que vem a ser isto?
É só uma pergunta, senhor Valbom. Não tem de responder, se não quiser. Sabia que o seu filho devia dinheiro a criminosos?
O que o meu filho faz não é nada da sua conta. Disse-me que sabia mais do que eu sobre onde está o Zé, por isso é que a deixei entrar. Por isso e por respeito à sua profissão. Agora desembuche.
Claro, eu compreendo. Tem alguma coisa a dizer sobre uma possível acusação de desvio de fundos europeus em nome da Pinheiro e Valbom para seu usufruto pessoal?
O quê?
Terá alguma coisa a ver com o despedimento de Ana Oliveira, do departamento de contabilidade da sua empresa?
Que conversa é esta? Tem alguma prova daquilo que está a dizer? Vá-se embora daqui, faz favor. Saia da minha casa! E aí de si que se até vá publicar alguma coisa a meu respeito ou da minha família, ouviu? Leva com um batalhão de advogados que nunca mais se levanta.
Engenheiro Valbom, eu sugiro-lhe alguma moderação nas palavras, que aliás estão a ser gravadas.
Saia já daqui, faz favor.
Diz lá. É ela outra vez. Diz-me!
Sim, é ela. Qual é o mal? É uma jornalista que arranjou o meu número pra me fazer perguntas sobre o caso. Como é alguém que está a investigar fora da polícia, também me convém saber o que ela sabe. Porra! Como é que se põe isto em silêncio?
20 chamadas. Só sobre o caso.
Sim.
Então não tens qualquer problema em pôr a tocar em voz alta essa áudio que acabaste de receber dela.
João, eu preciso que venhas ter comigo ao café onde estivemos hoje. É urgente. Valbom... Tu não vais acreditar no que aconteceu. Eu preciso mesmo de te contar pessoalmente. Estou agora a ir pra lá. Encontramo-nos em meia hora, pode ser? Vá, até já.
Vês? Era sobre o caso. Eu-
Nem penses.
Sofia, é só uma hora.
João, é muito simples. Se saíres de casa pra ir ter com essa gaja, nunca mais voltas a entrar.
Ei, Siri, call Cândido.
"I cannot search for that subject. I'm sorry. Try again later".
Não, porra! Siri, call Candido.
"Calling Kelly Morgado".
Porra, não! Stop.
Estou?
Épa, de cada vez que entro no carro e quero pedir a esta porcaria pra te ligar rápido, é um filme do caraças.
Eu sei. Quando quero ligar pro Lobão, tenho o mesmo problema. Tenho que dizer mesmo Lobão, pá, senão uma vez liguei pro chefe do Almir.
Pá, ya. Olha lá.
Diz.
Tu já falaste alguma vez com o Vicente Valbom?
Sim, uma vez.
E?
É uma besta, mas tu não conheces o gajo. Tu falaste com ele por causa daquela cena das barragens?
Não, não falei, não cheguei a falar com ele. Mas agora acabei de sair de casa dele e tu não vais acreditar no que aconteceu.
O quê?
O gajo mandou-me o gravador ao chão. Assim, do nada.
Ya, do nada. Conta lá.
A sério. Nós estávamos a falar e de repente o gajo passa-se, agarra no meu gravador e pau! Espatifa-me com aquela merda no chão. E fui posta na rua no minuto seguinte.
Joana, eu já te disse. Tu tem que cuidar com essas merdas. E o que lhe perguntaste?
Dos fundos europeus.
Porra, mas tu és estúpida, Joana? Então quiseste entalar o gajo assim, logo agora?
Épa, desculpa lá, mas logo agora é que o gajo tem que ser entalado. Estás a brincar? Olha, e se eu quiser, até te digo mais, se eu quiser, eu com esta atitude de merda dele, acabo com a campanha.
Ficaste com o gravador?
Ya, fiquei.
E a cassete?
Não.
Então, queres o quê?
Não tenho nada, não é?
Claro, então vais fazer o quê? Vais fazer uma entrevista a ti própria a perguntar o que é que aconteceu?
Não, claro que não. Mas espera lá. Não, espera lá. Basta que eu comece com esta história do rapto, que também estupidamente ainda não saiu em lado nenhum. Se eu começar por aqui, estás a perceber? Se eu começar por aqui, eu ganho elã pra provocar suficiente reação do lado do pai, muito mais do que do lado do candidato. A emoção vai começar a toldar-lhe a noção e depois é que eu faço isto vir à baila. A sério, ainda estou a tremer com isto. Muito honestamente, eu estava a pensar que o gajo tinha mais noção do que estava a fazer. Ele é um candidato, porra. O gajo não tem noção. Isto pode acabar com a campanha dele. E tu tinhas que ter visto o gajo. É que nem sequer me deixou acabar. Pegou naquela merda e tau!
Olha, é a besta de tremes o telefone.
Pois, tem que ser. Mas eu vou arranjar isto.
Boa sorte com isso. Mas olha, agora, acalma-te um bocadinho depois desta, está bem? É que estás a nadar com tubarões e eles estão cada vez com menos paciência pra tua estupidez.
Não. Eu juro-te que este candidato da tanga ainda se vai arrepender disto.
Está bem. E o filho dele?
Nada. Marco, tudo bem? Olha, como é que está essa memória? Tu lembras-te daquela vez que eu te fui lá buscar a Cascos de Rolha, que estavas podre de bêbado e tinhas perdido a chave de casa? E estavas com medo que a tua mulher te desmanchasse se batesse à porta naquele estado Lembras? E também te lembras que ficaste a dormir no sofá lá da minha casa, não foi? E na manhã seguinte, o que é que tu disseste? Que me devias uma. Pois é. Agora, Marco, eu nunca te pedi isto, mas por favor, adia o fecho da edição só até eu conseguir acabar o meu artigo. Não te vais arrepender, eu juro. Eu estou a sapar até casa pra ir pro computador e assim que estiver tudo acabado, eu escrevo tudo e envio-te pra reveres e pronto, vai pra impressão. Pode ser? É que tu não vais acreditar o que aconteceu ao meu gravador. Isto é ouro, Marquito. É ouro!
Vá pra porra.
Então, vai ser mais alguma coisa?
Não, obrigado. Desculpe, eu não sei se se lembra, eu estive aqui de manhã com uma senhora morena, ela estava com um casaco branco e com umas botas. Por acaso não a viu por aqui agora de tarde?
Acho que não vi ninguém assim.
OK, obrigado. Era a continha, foi só.
Calma, já vai. Sim?
Encomenda pra Joana Magalhães.
OK, vou abrir.
Sem grandes surpresas a conquistar o apoio das grandes figuras do partido. Campanha essa que se antecipa difícil e dividida, ainda que uma primeira sondagem realizada pela InfoGlobal revele que o candidato do PDN, Vicente Valbom, lidera neste momento as intenções de voto, com perto de 40% da totalidade dos inquiridos e com o líder do PMN, Gonçalo Brandão Teles, ligeiramente atrás, com 35%.
Pode deixar aí a porta, obrigada.
Eu preciso só aqui de uma rúbrica, por favor. Ana, calma. Fica quieta. Olha, eu vou destapar-te a boca e tu vais ficar caladinha. Estás a perceber? Estás pronta? Então vai. Em um, dois, três. Sabes por que eu estou aqui? Pra te ensinar a não meteres o bedelho onde não és chamada. Se por algum motivo aparecer alguma coisa tua publicada sobre os Valbom, eu volto cá pra te relembrar desta nossa conversa. E não venho com tanta paciência.
Não.
Estás a perceber?
Não.
Estou, Joana. Então? Estou a ligar-te há mais de meia hora.
João, eles vieram cá em casa.
Joana, o que se passa? Quem são eles? Joana, estás a ouvir-me? Joana, consegues ouvir-me? Joana!
"O Zé faz 25" é um podcast de ficção para ouvir em oito episódios, produzido pela Coyote Vadio e pelo Observador. Escrito por David Neto e Manuel Pureza, com realização de Manuel Pureza, direção de elenco de Rita Tristão da Silva e direção de som de Jonathan Costa. A sonoplastia e a música do genérico são de Arthur Costa. Paulo Calatré é João Durães. Beatriz Godinho é Joana Magalhães. Tiago Teotónio Pereira é Zé Valbom. Madalena Almeida é Guigas e José Raposo é Vicente Valbom. Sara Matos é Inês, Vicente Wallenstein é Delgado e Helena Caldeira é Luísa. Rafael Medrado é Guedes e Cristóvão Campos é Pedro. Carla Maciel é Sofia. Miguel Pires é Cândido. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A coordenação do projeto é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. Obrigado por ouvirem. Voltamos no próximo episódio de "O Zé faz 25", disponível no site do Observador e em todas as principais plataformas de podcasts. E se virem o Zé, por favor, avisem.
Este podcast de ficção tem o apoio da Citroën.
