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Bem-vindos a mais um "Pop Up", o único programa da Rádio Observador que junta Maria Ramos Silva, o Bruno Vieira Amaral e o Pedro Goucha Mendes. Três mentes esclarecidas e entendidas nas coisas da cultura pop e em muitas outras, como é evidente. Esta semana vamos tentar perceber o que se passa com um dos documentários mais vistos dos últimos dias em Portugal, mas antes vamos ver o que se passou no domingo nos Emmys com a Bodica. Os prêmios da televisão americana foram entregues no último domingo. As séries "The Watchmen" e "Succession" foram as grandes vencedoras da noite. Duas séries que em Portugal podemos ver na HBO. Isto além de "Schitt's Creek", uma comédia que levou todas as estatuetas para as quais estava nomeada, coisa inédita, e uma série que, pelo menos por enquanto, não podemos ver em Portugal. Em destaque, esteve também a própria cerimônia, que não teve público, não teve uma passadeira vermelha como é habitual, e teve, sim, convidados e premiados à distância, cada um no seu sofá e a internet a juntar toda a gente. Pelo meio, Jimmy Kimmel, o apresentador, disse algo como: "Por que é que estamos a ter uma cerimônia de prêmios a meio de uma pandemia?" Maria, vamos começar por ti, tu tens sido especialista em cerimônias a meio de pandemias. Esta pergunta faz algum sentido numa altura em que tentamos andar para frente de alguma maneira? A alternativa encontrada para substituir aquele formato mais habitual não foi uma boa opção?
Diria que, no essencial, o formato acaba por ser muito parecido àquele que nós já conhecemos. Tem uma dimensão mais virtual, naturalmente. Acabamos por ter um vencedor mais ou menos aceitável. Nós não conhecemos ainda bem o conteúdo da série, eu pelo menos ainda não vi, mas parece que foi mais ou menos consensual. Há aqui alguns formatos que são mais ou menos recorrentes. Há umas piadas com piada, outras nem tanto. O product placement do costume, eu vi publicidade pelo meio. Eu acho que temos os mesmos ingredientes. Eu acho que talvez o detalhe mais engraçado no meio disso tudo é que nas cerimônias convencionais nós costumamos muitas vezes ver as carinhas dos nomeados, em cada categoria. E tens um vídeo, ou tens pelo menos a pessoa filmada na assistência, quando está lá, e depois tens as pessoas, os ausentes, aparece só com retrato. E neste caso, em que tu tinhas a oportunidade de ter toda a gente em casa por Zoom, nem assim tu conseguiste que uma série de pessoas aparecessem. Tu não viste a Meryl Streep, a Cate Blanchett, a Laura Dern. As pessoas tiveram claramente algo melhor para fazer do que participar e do que seguir os Emmys. Acaba por dizer muito do que é uma cerimônia destas. Agora, sendo o primeiro grande evento do gênero nesta fase de pandemia, em termos de entrega de prêmios de Hollywood, eu acho que sim, é um pouco bola pra frente. Ainda por cima, nós vimos uma altura em que as pessoas tiveram, e continuam em casa, a consumir altamente séries e formatos televisivos ou nas plataformas. Não sei até que ponto fará muito sentido suspender ou de repente criar aqui um hiato, porque estás em tempo de pandemia, ajustas o possível.
Aliás, provavelmente há muito menos gente a ver filmes no cinema do que a ver séries. Se esta questão fosse levantada, até teria mais gente nos Emmys.
Nos Oscars. Provavelmente vamos falar disso nos Oscars.
Não me parece que os Oscars sejam suspensos. De certeza que não vai aparecer ninguém a dizer: "Não, este ano não há Oscars."
Sim, e mesmo aqueles detalhes mais físicos, que funcionam claramente melhor offline, no caso da passadeira vermelha, tu tiveste uma série de celebridades a recriar, a vestirem-se mesmo, a rigor, em casa. A fotografarem-se, a interagirem através das redes. Mesmo esse lado, que à partida se poderia perder mais, acabou por não se perder. No geral, a cerimônia foi bastante previsível. Não houve ali nada que de repente fosse uma alteração, uma virada gigantesca em relação àquilo que nós conhecemos dos Emmys.
Pedro, ajuda-nos a perceber aqui uma parte mais ligada à indústria. Estes prêmios ou os prêmios fazem diferença para uma série, para uma produtora ou para um canal ou uma plataforma de streaming, para quem os ganha? Ou vale pelo prestígio, mas depois, em termos de números ou de público, não há aqui grande importância, não há um grande efeito?
Aqui há uns anos, não muitos, estes prêmios foram fundamentais para que a ideia de plataformas de streaming vingasse de vez, quando a Netflix ganhou finalmente o primeiro Emmy para uma série dramática, acho que foi com o "House of Cards". Ou seja, que era uma série que não era de um canal de televisão, que não era de uma network. Já antes, os chamados canais de cabo de luxo, premium, como a HBO, a Showtime, já tinham ganho. De maneira que os prêmios foram importantes porque assinalaram o reconhecimento e a aclamação da indústria de players não tradicionais. Hoje em dia, com os fenômenos de consolidação, em que os canais são donos também de plataformas, ou pelo menos em alguns casos, acho que a Netflix, pensando bem, é a única que é independente disso tudo. Todas as outras ou são proprietárias ou co-proprietárias de vários canais, ou várias estações. Os prémios têm um bocadinho menos de importância, porque as séries já não se vendem para esse mundo fora. Antigamente, nós, nas televisões europeias, a princípio, tenderíamos a comprar as séries mais premiadas do que as menos premiadas. Quanto mais não seja por isso, era um bom argumento para as televisões americanas poderem escoar produtos para a Europa. Agora, tem um bocadinho menos de importância. Certamente são um signo, um carimbo de qualidade ou de alguma qualidade. Mas este "Schitt's Creek", por exemplo, é um bom exemplo, é uma ótima série, mas é um bom exemplo, porque apareceu num canal que eu nem sequer me lembro do nome. Nem faz parte das plataformas, nem faz parte dos principais canais. Até acho que não sei se não foi num canal canadiano.
Foi. Exatamente.
É um completo outlier. É um exemplo de como às vezes os prémios reconhecem, mesmo que um bocadinho tarde, fenômenos que ainda acontecem à margem do chamado establishment, porque hoje em dia as plataformas e os canais tradicionais já comem todos à mesma mesa, sem problema nenhum, e já não há grande distinção. Para o espectador, não há distinção nenhuma, mas mesmo em termos de indústria já não há grande distinção entre umas coisas e outras. Mas os prémios são claramente importantes, sim. É melhor ganhar do que não ganhar.
Sim, sou forçado a concordar. Mas diz-me uma coisa, pegando neste exemplo específico deste "Schitt's Creek", que não passa em Portugal, como não deverá passar noutros países. O facto de ter ganho estes prémios quer dizer que neste momento estarão certamente a acontecer negociações para, por exemplo, esta série chegar a Portugal? Ou não é assim tão matemático?
Sim, mas o que está acontecendo na maior parte dos casos é que as séries não estão disponíveis para serem vendidas. Muito provavelmente, "Schitt's Creek" não está numa plataforma em Portugal ou noutros sítios, porque eles venderam a série para alguns territórios, para alguns canais e, portanto, eles não conseguem ter os direitos todos, da Europa toda, imagina, de forma a poderem ser vendidos só à Netflix ou só à Amazon, ou à plataforma que nós conhecermos como HBO. Agora, um canal português de cabo, por exemplo, como a SIC Radical, interroga-se sempre se vale a pena gastar dinheiro numa série destas, na medida em que muita da população portuguesa vê plataformas. E antigamente, haveria mais a ganhar em ter uma série destas. Hoje, obviamente, que há qualquer coisa a ganhar, há sempre qualquer coisa a ganhar, quanto mais não seja o interesse do espectador e a adesão à marca SIC Radical, neste caso, o exemplo que eu estou a dar. Mas talvez já não haja a lógica financeira, digamos assim, para tomar uma opção destas, porque antigamente fazia sentido claramente comprar um "Sopranos" ou comprar um "Seinfeld". Nós chegamos a ter na SIC Radical o "Seinfeld" todos os dias, mas hoje em dia não há dinheiro que consiga pagar isso, porque essas séries são tão valiosas para as plataformas que ou não estão disponíveis ou os direitos para televisão são um absurdo de dinheiro.
E aí é sempre a possível audiência que vai determinar se vale a pena o investimento ou não.
Sim, audiência ou publicidade. Mas nós e outros canais por esse mundo fora e por este país fora, digamos assim, no line up de canais que nós vemos, há imensas séries excelentes que se estivessem numa plataforma seriam vistas. Vou dar outro exemplo, uma das séries mais vistas neste confinamento na Netflix em Portugal foi o "Vis a Vis". Uma série espanhola. Essa série passou toda na SIC Radical, por exemplo. Mas ao passar na Netflix, que são agora as plataformas que estão, vou usar a expressão na moda, mas é mais do que isso, obviamente, que estão em voga e as pessoas gostam de aderir às coisas que estão em voga e as pessoas querem fazer parte daquilo que acham que é o futuro, que é a modernidade. Ao estarem nessa plataforma é quase como que um sinónimo de qualidade e de valor. Outras marcas e outras plataformas vão perdendo carga porque são ultrapassadas nesta voragem, parece rumo ao infinito. Novas coisas, novas marcas, novas ofertas, esta excitação constante em que parece que vivemos hoje em dia.
Bruno, tu que és o nosso perito em história e trivia dos Emmys. Esta cerimônia vai ficar inscrita nessa lista ou tens na memória trivia bem mais interessante?
Acho que dificilmente ficará na história. Há o caso do "Schitt's Creek", que bate um recorde, mas de resto não creio que seja comparável a outros anos, mas também é preciso deixar que o tempo passe para percebermos a importância. Mas creio que olhando para outros anos, para outros vencedores, para a importância de séries que ganharam anteriormente, não parece um ano particularmente favorável ou muito propenso a ficar na história. É curioso que antes nós não ligávamos muito aos Emmys, aqui em Portugal, porque muitas das séries que estavam nomeadas e ganhavam, não estavam a ser exibidas cá naquele momento. Nós não sabíamos do que tratava a série. Provavelmente mais tarde acabavam por chegar cá, mas muitas nem sequer chegaram ou chegaram e não tiveram grande sucesso. E hoje, se calhar, não nos prendemos tanto aos Emmys, porque a nossa atenção está a ser bombardeada, está a ser solicitada por todos os lados e não é possível acompanhar tudo aquilo que vai sendo produzido. E este será até um ano atípico, o de 2020, por causa da pandemia, como se dizia há pouco, porque provavelmente as pessoas têm tido mais tempo para ver séries. Uma das coisas curiosas, olhando para as listas de vencedores, encontramos muitas séries que foram grandes sucessos em Portugal. A Balada de Hill Street, por exemplo, ou na comédia Uma Família às Direitas. Mas o que eu achei interessante é a ideia de que a partir de 1999, 2000, com Os Sopranos e outras séries que apareceram nessa altura, voltamos a viver uma nova idade de ouro televisiva. Eu acho que os anos 90, olhando nós para a lista de vencedores dessa década, é uma idade de ouro televisiva, não ainda nos formatos que depois vieram a consagrar-se através das plataformas, mas há excelentes séries, desde o Peaky Defencers ao X-Files, até comédias como o Seinfeld, o Frasier, o Serviço de Urgência, Lei e Ordem, a Balada de Nova York, que são muito boas. Essas séries são todas magníficas, passaram cá em Portugal e obrigam-nos um pouco a relativizar esta ideia da segunda idade de ouro ou terceira idade de ouro televisiva, desprezando um pouco a produção dos anos 90. E outra coisa também que é muito interessante verificar é que esta ideia, que é verdade, que os atores de cinema estão cada vez mais disponíveis para trabalhar em televisão, não tem correspondido a um grande impacto na lista de vencedores. Ou seja, se olhares para a lista de vencedores nas categorias de representação, não vês uma prevalência de atores vindos do cinema ou atores com muito sucesso no cinema e que tivessem vindo depois para a televisão. Tens a Julia Louis-Dreyfus, que é recordista de prêmios, que é uma atriz de televisão, essencialmente. Mas mesmo outros atores, como o James Gandolfini, Edie Falco, Bryan Cranston, apesar de terem trabalhado também em cinema, conseguiram os grandes sucessos e tornaram-se conhecidos graças ao seu trabalho em televisão. Isso também nos obriga a olhar um pouco para os Emmys como uma tentativa de distinguir aqueles que são especificamente do meio televisivo. Ou que aí se destacaram mais. Haverá algumas exceções na história dos Emmys. A maior talvez seja a do Michael J. Fox, que no auge da sua fama no Regresso ao Futuro, ganhou ali uma série de Emmys pelo Quem Sai aos Seu.
Muito bem. Antes do intervalo, vamos às sugestões da semana com o Post-it. Bruno, já falamos aqui, acho que foi o Pedro que sugeriu aqui há umas semanas, mas agora é que vi isto com atenção, que é o All or Nothing, a série documental que acompanha a época do Tottenham, treinada por Mourinho.
As primeiras séries desta série, All or Nothing, foram dedicadas a equipes de futebol americano. Há dois anos saiu um documentário sobre uma época do Manchester City e este ano, ou seja, este ano saiu uma série sobre o Tottenham. E começa logo com uma chicotada psicológica, que é uma chicotada psicológica para o clube e para a série, para o documentário, que é a saída do Mauricio Pochettino e a entrada do José Mourinho. Mas os efeitos não foram muito felizes para o Tottenham e também não são muito felizes para a série, ainda que o Mourinho seja das coisas mais interessantes que a série documental tem para oferecer. Mas não chega, acho que fica sempre num registro um pouco morno. E depois tem um problema, que é o problema destes documentários desportivos, é que tu não consegues controlar o resultado final. E o resultado, se conquistas ou não títulos, ou se a época é tão catastrófica que se torna espetacular, não está nas mãos dos produtores.
Sim, é um risco.
É um risco e que neste caso acaba por não compensar, por quê? Porque o Tottenham teve uma época medíocre. Os objetivos que se propôs, e que foram sendo reformulados ao longo da época, não foram atingidos. Nem conseguiram lugar de acesso à Liga dos Campeões, nem ganharam o troféu, que é uma coisa que perseguem já desde 2008. E então aquilo acaba assim numa nota um pouco insatisfatória, a exemplo da época do Tottenham. De qualquer das formas, para se acompanhar um pouco do dia a dia de um grande clube, neste caso um dos maiores clubes ingleses, acho que mesmo assim é recomendado.
Pedro, esta é uma minissérie documental sobre o vaivém Challenger, que explodiu em janeiro de 86, assim que foi lançado.
Sim, é mais uma viagem ao meu passado e ao passado da humanidade, obviamente.
E ao nosso, nós vimos na televisão.
Sim, eu lembro-me perfeitamente disto. Isto era um vaivém espacial, e as suas descolagens eram sempre transmitidas em direto no Jornal da Tarde, acho que é assim que se chamava, da RTP. O jornal da hora do almoço. Porque coincidia ali mais ou menos a primeira manhã americana, coincidia mais ou menos com a nossa hora do almoço, e então já era mais ou menos corriqueiro, e eu lembro-me perfeitamente de achar aquilo um bocado maçante, porque era sempre a mesma coisa. Lá se via a nave e os tipos faziam a contagem e a nave fazia muito fumo e pronto, e depois desaparecia no céu azul. E eu tinha 15 anos nesta altura e esta explodiu.
Menos desta vez, exato.
Sim, e esta explodiu. E foi uma coisa absolutamente extraordinária, porque pronto, explodiu. Não se está à espera de se ver uma transmissão em direto qualquer coisa e a coisa explode. No 11 de setembro, as emissões ligaram, foram interrompidas e ligaram a Nova York naquela altura. Este caso, este vaivém espacial levava uma civil, uma professora acho que primária, que ia dar uma aula no espaço, dentro do vaivém. E morreu, obviamente, na explosão. E o documentário, não sendo o melhor documentário do mundo, conta muito bem a história, ou pelo menos a história oficial, tentando explicar o que causou a morte, o que causou a explosão do vaivém. Supostamente, foram umas anilhas de borracha que com o imenso frio que fez nessa noite, manhã, não vedaram qualquer coisa e isso contribuiu para que houvesse uma fuga de combustível e explodissem as unidades que tinham o combustível e explodisse o vaivém todo. Mas conta bem a história e mostra como o mundo era, se quiserem, em 1986. Aqueles fatos espaciais que eles tinham hoje parecem-nos uma espécie de fato estranho, uma feira qualquer.
Sim, parecem imaginados por alguém que nunca foi ao espaço.
Isso. E enfim, foi uma das grandes tragédias americanas desta altura, deste tempo. Claro que o 11 de setembro seria ainda pior. E acrescento só isto, ficamos a saber vagamente no fim que o vaivém Columbia, portanto outro vaivém, em 2003, 17 anos depois, também explodiu. E é incrível como esta de 1986 está completamente no nosso imaginário e a merecer documentários. E a outra, em que toda a gente morreu também, toda a tripulação morreu, é uma espécie de nota final do documentário. Mas é um documentário altamente recomendável para ver como é fantástico o progresso da espécie humana e que obviamente as coisas correm mal de vez em quando. E este foi um bom exemplo disso.
Maria, muito rapidamente, um filme que estreou esta semana na Netflix, em português tem o título "Sempre o Diabo".
Sim, é o título do filme que é baseado na obra com o mesmo nome do Donald Ray Pollock. O livro já tem uns anos, quase bem uma década. É uma versão mais ou menos aceitável. Ele segue uma série de personagens no Ohio desde a Segunda Guerra até aos anos 60, por aí. Enfim, personagens que vivem a religião na sua vivência mais extremada, mais radical, e para as quais parece não haver redenção possível numa cadeia de horrores e de maldade absolutamente inescapável. Com o Robert Pattinson, com o Tom Holland, e mesmo que não tenham lido o livro, acho que vale a pena. Sendo que recomendo essencialmente a leitura do livro, porque apesar de tudo consegue ser ainda mais vívida.
Ler sempre o livro primeiro.
Ler sempre.
Fazemos agora um curto intervalo, voltamos já a seguir. Segunda parte do Popup, estamos de volta. Depois dos Emmys, continuamos pela televisão. Agora com um documentário. Servimos o pop de arroz desta semana com "The Social Dilemma". A ideia deste documentário, que está disponível na Netflix, é simples: explicar como as redes sociais, Facebook à cabeça, mas não só, estão a amealhar a informação dos utilizadores para, de alguma forma, os formatar comercialmente, socialmente e também politicamente. Ou como o algoritmo é a ferramenta mais valiosa que existe por estes dias. Para isto, o documentário, que se não estou enganado, foi realizado por Jeff Orlowski. Ele já tinha realizado outros filmes em jeito de alerta, chamados "Chasing Ice" e "Chasing Coral", mais dedicados ao ambiente. O realizador recorre a testemunhos de antigos responsáveis e funcionários de algumas das redes sociais mais utilizadas em todo o mundo, portanto, com inside information. Pedro, até que ponto ficaste com vontade de apagar as contas das tuas redes sociais com este documentário?
Não sei. Dá um pouco a ideia que nós, enquanto coletividades organizadas, chamemos o que quiser, quando a coisa está a correr bem, parece que precisamos rapidamente de: "Ipa, isto está a correr bem demais, deixa cá arranjar aqui qualquer coisa pra gente se sentir mal." Dou exemplo, eu quando acabei o liceu ou quando estava a acabar o liceu e para mim ir estudar para fora, por exemplo, obrigaria a ir, neste caso, ao British Council ou não sei como é que isso se chamava. Portanto, ir fisicamente a um local, falar fisicamente com alguém, trazer folhas de papel.
Que coisa pré-histórica.
E eu até viveria mais ou menos perto da cidade. Agora imaginem que alguém vivia em Mafra ou em Torres Verdas ou em Viana do Castelo. Hoje é perfeitamente possível nós investigarmos todas as universidades estrangeiras deste mundo e do outro e conseguirmos matricular-nos através da internet. Só para vermos as potencialidades que os meios digitais permitem. As redes sociais permitem-nos, ou a mim permitiram, suponho que a muitos de vocês também, reencontrar pessoas que não via há imenso tempo. E conhecer pessoas novas, os chamados amigos virtuais, muito interessantes. Ou seja, o meu mundo é muito mais rico, muito mais diversificado, aprendi muito mais coisas, partilhei muito mais coisas e houve pessoas que partilharam comigo muito mais coisas. E falo apenas do ponto de vista puramente intelectual, porque noutras dimensões, questões mais de amizade ou questões mais ligadas à sensibilidade, também aconteceu. Mas só do ponto de vista intelectual. Pessoas com afinidades que eu nem sequer sabia que existiam e que se calhar moram no Algarve ou moram em Helsínquia, e que sem redes sociais não seria possível. Quer dizer, tudo o resto para mim, comparado com os ganhos Que é possível obter, ou que eu obtive, e que imagino que outras pessoas obtiveram. Claro, o algoritmo, sim, é verdade. Sim, é uma chatice, mandam os anúncios. Sim, é uma chatice, nós compramos um par de sapatos e depois estamos sempre a ver os anúncios com o mesmo par de sapatos a seguir. Por exemplo, no Nonio, que toda a gente fala mal. Eu normalmente quando me inscrevo no Nonio, digo que sou uma mulher e que nasci em 1972.
Mas vamos enquadrar, o Nonio que é aquela plataforma que te permite ler uma série de jornais online. Faz um registro e tens uma assinatura.
Tu tentas ludibriar o algoritmo.
Não, só para me divertir, acabar sabendo o algoritmo. Não penso nisso sequer. Claro que para algumas idades, sobretudo os mais novos, as crianças, adolescentes e os pré-adolescentes, a carga será completamente diferente.
Mas reconheces que algumas das questões que são levantadas neste documentário não são uma fantasia. Agora, o que queres dizer é que colocas o ônus na pessoa, na forma como utiliza as redes sociais, é isso?
Não estou a querer concluir nada. Repara, só estou dizendo que lá em minha casa há imensas facas. Lixívia. Apesar de nós vermos em imensos filmes que há pessoas que morrem esfaqueadas, continuamos a usar facas lá em casa. Às vezes a malta corta-se. Estou só a dizer que a ideia de uma vida em que existe qualquer coisa que é 100%, mesmo bebendo água, que é qualquer coisa que é 100% positiva, às vezes um tipo engasga, e tosse, espirra e suja tudo. A ideia de que na vida há qualquer coisa que é 100% positiva e isenta de qualquer malefício ou efeito secundário, é uma utopia. Claro que há quem esteja a enriquecer à conta dos algoritmos ou dessas coisas todas, mas não é coisa que me preocupe muito enquanto utilizador das ditas redes sociais. Se quiseres, preocupa-me mais que o jornalismo, por exemplo, embarque em: "António Costa foi não sei onde e é arrasado". E o arrasado normalmente é um comentário de alguém numa rede social. Percebes? Isso irrita-me mais ou preocupa mais do ponto de vista do jornalismo, mas também cá estamos nós para discernir aquilo que é ser arrasado e aquilo que não é ser arrasado. Certo?
Certíssimo, Pedro. Mais que certo. Bruno, há quem descreva o filme dizendo que é o abra olhos que precisávamos. Há outros que dizem que o filme não diz nada de novo, que é tudo que sempre soubemos. Em que é que ficamos? Se é o mesmo de sempre, por que está a fazer tanto sucesso?
Eu na semana passada tinha falado aqui da-
Sim, foi uma das tuas sugestões
...sim, deste documentário e tinha dito que, de facto, para mim, não tinha havido grandes novidades em relação ao comportamento das empresas, das plataformas, das redes sociais. Não sei se será assim para todas as pessoas. Haverá muitas pessoas que não têm consciência, não tinham consciência até verem o documentário.
Muitas pessoas para quem pode haver aqui uma notícia.
De alguns dos mecanismos que visam captar a atenção e obrigar as pessoas, "obrigar" as pessoas, a passar mais tempo nas redes sociais, porque é isso que as redes sociais querem. Antigamente, e creio que ainda hoje se dirá em relação à televisão, havia muito aquela discussão do telelixo e da televisão mais popularucha ou mais popular, ou mais sensacionalista, em que se dizia: "Mas é o que as pessoas querem, nós damos o que as pessoas querem". E isso era parcialmente verdade, porque quando uma estação de televisão decidia lançar um programa, na verdade, não sabia se era isso que as pessoas queriam ou não. O que acontece com as redes sociais e com estas plataformas, é que elas sabem perfeitamente não o que as pessoas querem, mas o que aquela pessoa quer. E sabem perfeitamente por causa do algoritmo. Analisando o comportamento da pessoa online, quanto tempo passa, por exemplo, a ver determinado vídeo, onde é que põe um like, quais são os conteúdos que a fazem passar mais tempo naquela rede. E essa acumulação de informação permite personalizar os conteúdos da rede para aquela pessoa. Nós podemos dizer que há aqui um perigo, que é o de viciar as pessoas. E poderá haver outros perigos que eu também tinha falado na semana passada, por exemplo, à saúde mental, sobretudo dos adolescentes, mas também de pessoas que passam demasiadas horas nas redes sociais. Mas como dizia o Pedro, eu não vejo também nisto, nas redes sociais, o grande papão que o documentário faz. E esta ideia de que as pessoas podem ser manipuladas. É verdade que vão ser expostas a conteúdos de que gostam ou opiniões com as quais concordam, mas cabe também à pessoa sair um bocado dessa bolha. E não reduzir a sua vida e as suas fontes de informação às redes sociais. Essa é uma responsabilidade dos cidadãos. Eu não acredito que haja aqui qualquer tentativa de manipular politicamente, ainda que haja esse risco. Ou de enganar as pessoas, ou de ludibriar e levá-las a cometer determinados atos. Não acho que passe muito por aí. Estamos a falar de empresas Que como os serviços são gratuitos para o utilizador, querem que o utilizador os utilize, esteja lá para que os anunciantes, para quem compra publicidade lá, paga a publicidade e paga as redes, tenha algum retorno. Esta é a questão. Agora, há mecanismos, eles tentam explorar ao máximo esses mecanismos para captar a atenção e obrigar as pessoas, obrigar, uma vez mais, entre aspas, as pessoas a passar mais tempo nas redes sociais. Mas eu não sou apocalíptico em relação às redes sociais. Acho que por uma questão de sanidade, de higiene mental, de equilíbrio, acho que devemos controlar, devemos restringir o nosso uso das redes sociais, não deixar que se torne uma coisa nociva. E essa é uma tarefa nossa, é uma nossa responsabilidade enquanto indivíduos. Agora, poderá haver um lado viciante nas redes sociais, que a certa altura, para certas pessoas também, se pode tornar um vício incontrolável. Isso aí já é um problema.
Maria, o-
Eu posso só acrescentar uma coisa?
Diz, muito rápido.
É rápido. Talvez as pessoas que acham que as redes sociais são assim, assado e cozido, talvez devessem experimentar fazer as suas coisas normais da vida sem redes sociais ou sem internet, enfim, mas só as redes sociais. Por exemplo, procurar casa para arrendar ou para comprar, ou o que for. Experimentem fazer isso só com anúncios de jornal e telefonar para as agências. Eu acho que lhes passava logo a tosse.
Ou mudar-se para a China, também é engraçado a internet.
Pois, não sei, não vivo na China, mas ninguém é perfeito, nem o Ronaldo é perfeito.
É, pá. Maria, o documentário tem, eu dizia no início, antigos funcionários e responsáveis de redes sociais a dar o seu testemunho, sempre negativo, sempre a apontar o dedo. Ou seja, acaba por não haver contraditório. Não é que eu saiba bem como encaixa o contraditório, porque obviamente aqui o documentário tem uma agenda, tem um objetivo. Mas acaba por ser um pouco ingrato, porque a história não fica completa.
Não, e há ali fatos que exigem, no mínimo, alguma verificação. Por exemplo, quando a páginas tantas dizem que o número de suicídios entre jovens aumentou entre 2010 e 2000 e não sei quanto, claramente devido às redes sociais ou uso das redes sociais. Quer dizer, calma.
Falta um fact check.
Calma, isto é preciso ser devidamente enquadrado. Eu acho que aqui a grande questão, o Pedro e o Bruno já disseram praticamente tudo, falamos de discernimento, como em tudo, na utilização de quase tudo. Eu também não tenho uma perspectiva assim tão catastrofista. Apesar de tudo, acho que é preferível viver num mundo em que nós temos esse acesso livre ao máximo de informação possível, por mais voraz que ela seja e por mais rápido que se dissemine. Depois, naturalmente, pagamos um preço por corrermos esse risco. Eu prefiro correr esse risco do que não ter a hipótese de correr esse risco. Mesmo aquela grande ameaça, aquele problema da desinformação, e que é evidente um problema entre nós neste momento, e cada vez mais galopante, é mais uma vez um risco que eu acho que temos que estar dispostos a correr, porque eu, por exemplo, não me quero imaginar a viver num mundo em que não posso ir ao Twitter dizer: "Hoje acordei e acho que o céu é cor-de-rosa." Eu posso dizer isto, eu posso querer dizer isto, isto não é verdade, mas eu quero que se perceba que do outro lado esteja alguém que tenha a formação suficiente para perceber que a ironia deve passar, para perceber que isto é uma piada, porque no limite há aqui uma série de coisas que tu vais deixar de poder fazer.
E para perceber que também haverá sempre pessoas que não vão perceber a ironia.
Naturalmente.
E saber lidar com isso.
Naturalmente, mas mais uma vez, a questão das grandes ameaças, dos grandes bichos-papões que envolvem as redes sociais, naturalmente há sinais de alerta e há alertas que devem ser considerados. Trabalham-se e nós protegemo-nos fazendo esse trabalho de casa, que mais uma vez é aquela questão muito básica, que é educação. Há um trabalho formal ou mais formal que não começa nem acaba nas redes. Quer dizer, eu não quero acreditar, tu estiveres a correr o teu Facebook e de repente confrontas-te com um grupo de conspiracionistas. Aliás, que também não é uma coisa nova, porque negacionistas e conspiracionistas tens desde que me lembro.
Sempre houve.
Sempre houve. Organizam-se simplesmente de outra maneira. Se de repente aparecerem ali meia dúzia de tipos, ou mesmo mais alguns tipos do que meia dúzia a dizerem que a Terra é plana, não é por isso que tu vais acreditar que a Terra é plana. Ou se acreditares, a culpa não é certamente das redes, ou da escola onde tu andaste, ou do professor que tiveste, ou do trabalho de casa que não fizeste. Quer dizer, a questão não me parece que seja necessariamente que se esgote nas redes. É bastante mais alargada do que isso. E de fato, aquele documentário permite lançar aqui uma série de alertas e nesse sentido poderá ter, não deixa de ser positivo, lá está, como o Bruno dizia, para quem estiver menos desperto para estas questões, e eu acredito que não tenham um grau de literacia tão grande e, portanto, mal também não faz. Agora, é preciso reduzir ali um pouquinho do botão e de fato pensar na imensa quantidade de coisas que as redes hoje nos permitem e que a utilização da internet de maneira geral nos permite. O Pedro deu só alguns exemplos, mas são enormíssimos. Isto sem contar que eu acho que nós criamos muito a ideia e nós próprios viciamos nessa ideia de que o uso insistente ou do telemóvel ou do computador parece que são os chips subcutâneos que nós trazemos conosco e não são. Eu posso sair de casa e deixar o meu telemóvel em casa.
Podes decidir.
Eu posso decidir. E no limite, este trabalho de decisão é que tem que ser mais consistente e essa responsabilidade está em cada um de nós. É dependermos menos do que os outros nos querem impor e mais daquilo que nós queremos decidir para nós próprios.
Antes do final do programa, trazemos à mesa uma data bem redonda no "Isso é que era bom". Em setembro de 1995 era estreado "Se7en", o filme com Morgan Freeman, Brad Pitt, Kevin Spacey e Gwyneth Paltrow, que em português era chamado "Sete Pecados Mortais". O filme que colocou, em definitivo, o realizador David Fincher no caminho dos ilustres de Hollywood, depois de um primeiro filme em 92, o terceiro da saga "Alien". Bruno, ainda paras para ver o "Se7en", se o filme te aparecer pela frente sem aviso?
Sim, é daqueles que, sempre que está a dar na televisão, eu paro e fico a ver até o final.
Mas eu nunca o apanho. Já apanhaste o Se7en? Apanhas muitas vezes.
Já me aconteceu.
Já?
Já. Desculpem aí.
Estou desencontrada.
Várias vezes. Normalmente apanho já ali a meio. No outro dia, por acaso aí há um mês, estava a dar praticamente desde o início e então lá tive que ver aquilo até ao fim.
Lá teve que ser.
Pois é, é inevitável. Mas o "Se7en" é, na prática, o primeiro filme do David Fincher. Ele que tinha feito muitos videoclipes, alguns dos melhores videoclipes do início dos anos 90, estava a pensar seriamente em não voltar a realizar um filme depois da experiência do terceiro filme do Alien. Voltou com o Se7en e é aí que começa a carreira dele, na verdade. E não só a carreira dele, mas também uma nova vaga de filmes que lidavam com estas questões de serial killer, filmes do chamado neo-noir, uma série de filmes que vieram na esteira do Se7en. E o Se7en também vinha na esteira de algumas experiências anteriores. A mais próxima no tempo seria do "Silêncio dos Inocentes". Também na televisão começaram a surgir muitas séries, de alguma forma relacionadas com este universo do serial killer, como o caso do "CSI", para dar o exemplo mais paradigmático dessa nova vaga, que iam buscar também, até em termos de imagem, algumas referências ao Se7en. E tudo começou há 25 anos com este filme, que continua a ser muito apelativo, mesmo para quem não conheça. Para quem já tenha visto a história e o filme muitas vezes, continua a ser inevitável regressar a ele.
Pedro, rapidamente, o filme termina com a cena da caixa de cartão, não é? Não vamos agora dizer muito mais. Há sempre quem não tenha visto o filme. O que é que interessa? Aquilo que está na caixa era o que esperavas? Tu já sabias que era aquilo que ia acontecer?
Não, claro que não. Pegando no Se7en, no ano anterior tínhamos tido os Condenados de Shawshank, Shawshank Redemption, que tem o Morgan Freeman. Houve uma determinada altura que dava a ideia que o Morgan Freeman entrava em todos os filmes.
Exato.
Mas pegando o tema de há pouco, essa é uma das coisas que se perdeu. O gosto de ir ao cinema sem ter spoilers, como agora se diz, e sem termos lido 44 mil entrevistas com este e com aquele a respeito do filme. Não, não fazia ideia. Lembro-me de ter gostado imenso do filme, como também gostei imenso dos Suspeitos do Costume, que eu acho que também é mais ou menos a mesma altura, com o Kevin Spacey.
Exato.
E esta coisa do Fincher, naquela altura também achava-se que o tipo iria revolucionar o cinema. Não sei se revolucionou ou não, mas curiosamente ele está ligado ao House of Cards. Essa série, sim, que ajudou a mudar um pouco o paradigma das plataformas. Mas eu acho que se confirma que Brad Pitt é um excelente ator. O Morgan Freeman também e o Kevin Spacey, claro. E é um filme extraordinário que resiste muito bem ao teste do tempo. Talvez a explicação para a Maria não o ver muito é porque é um filme para maiores de 16 e, portanto, não dá à tarde.
Está bem, mas eu também vejo televisão à noite.
Não dá para a tua matinê, Maria.
Pedro, deixa-me só dizer que eu acho que resiste muito melhor do que os Suspeitos do Costume. Eu gostei muito mais na altura dos Suspeitos do Costume, e hoje prefiro claramente o Se7en. Acho que é um filme superior. Acho que o Suspeitos do Costume depende muito da força do twist final. E o Se7en, não. Apesar de ter um grande impacto, acho que é muito mais do que esse twist final.
Certo.
Maria, só para terminar, o que é o melhor do filme? Brad Pitt, Morgan Freeman ou Kevin Spacey?
Não sei, talvez uma mistura de tudo. Acho que mostra que, de facto, o Pitt é um tipo interessante. Já na altura se conseguia perceber que era mais do que-
Um tipo interessante.
Mais do que um tipo interessante, nesse sentido que queres atribuir agora. Não, o que é engraçado, um detalhe curioso sobre o final, é que o Pitt insistiu muito com o Fincher para que se mantivesse, de facto, a história da caixa, porque ele vinha do Lendas de Paixão e tinham cortado o final. Ele tinha ficado um bocadinho angustiado com aquilo e fez questão para que aquilo passasse no crivo dos produtores e acabou por sair mesmo.
Talvez um dia falemos sobre o Lendas de Paixão. Final de mais um Popup. Voltamos na próxima semana. Até lá.