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Bem-vindos ao "Porque sim não é resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França e hoje falamos de um relatório governamental do Reino Unido que quer obrigar as escolas primárias a identificar, logo aos quatro anos, crianças em risco de se tornarem jovens inativos, sem estudar nem trabalhar a partir dos 16 anos. O objetivo é combater o absentismo escolar e a pobreza infantil, mas a medida está a gerar polêmica por antecipar a pressão do mercado de trabalho, no fundo, pra primeira infância. Olá, Eduardo. Ao etiquetar uma criança de quatro ou cinco anos como em risco de desemprego futuro, não estamos a condicionar a forma como pais e professores olham pra ela?

Olá, Judite, nós estamos a condicionar completamente esse olhar. Sabe o que me preocupa, Judite? A forma como nós partimos de leituras retrospectivas e ao fim de um percurso, nós temos a noção do que é que funciona ou não funciona. Dou-lhe, por exemplo, a manchete do Público, recentemente, quando disse: "Atenção, o elevador social parou", quando abordou as questões no ensino superior e disse: "Olha, reparem que são por normas, dos quase 50 mil alunos que entraram no ensino superior, 1500 vêm de extratos socioeconômicos muito desfavorecidos". O que nos ajuda a perceber que, de fato, desde muito cedo começa a criar uma clivagem muito significativa. Mais, quando nós chegamos a esta altura e temos a noção que entre tudo aquilo que é material escolar, livros, sapatilhas, etc, tudo aquilo que é necessário pra voltar à escola, as famílias portuguesas gastam entre 250 e 600 € por criança, nós percebemos que a escola não é o elevador social. E portanto, nestas circunstâncias, aquilo que me preocupa não é que nós façamos um percurso no sentido de dizer assim: "Olhe, vamos lá ver então, ao fim do primeiro ano ou do segundo ano de escolaridade, ou do primeiro ciclo, por hipótese, quem são as crianças que nos preocupam em relação à escolaridade", porque isso seria muito importante no sentido de dizer o que nós vamos fazer pra reverter isso tudo. Mais, quando a escola, quando estes números nos dizem que o elevador social não existe, o que é que o governo e o Parlamento entendem levar a efeito para que ele passe a existir, porque de outra forma, o que nós estamos a dizer? Que sim, que as creches e os jardins de infância custam mais do que universidades privadas e, portanto, há muitas crianças que quando entram no ensino básico já estão discriminadas em termos de um conjunto significativo de recursos, que depois a escola não consegue esbater. Não porque a escola não queira, é porque as discrepâncias já são muito significativas. E portanto, etiquetar as crianças desta maneira, eu acho uma parvoíce de todo o tamanho. Termos a consciência disto, que a escola não é um elevador social e que há uma porcentagem assustadora de jovens adultos que não estudam nem trabalham, isto dever-nos-ia obrigar a perguntar onde é que a escola falha, e falha muito. Os relatórios dizem que as pessoas que fazem uma escolaridade obrigatória depois dos 30 não conseguem interpretar um texto, não conseguem fazer cálculos complexos. Portanto, a escola não corresponde àquilo que nós queremos que ela dê. O problema não são os professores, o problema é a maneira como se organiza o ensino, esta ideia pateta de vamos lá trabalhar pros rankings. E tudo é números, a torto e a direito, sem que a escola pare cinco minutos a dizer qual é a necessidade educativa especial de cada criança e como é que nós vamos ajudá-la a que se reverta pra que ela apanhe o comboio e faça aquilo pro qual está amplamente capacitada. E, portanto, eu tenho medo que, de fato, aquilo que sejam as atitudes de humanidade, de promoção da educação e de sensatez, se converta numa espécie de discriminação encapotada, que não nos leva pra lados muito bonitos da humanidade. Isso eu fico triste, claro, ficamos todos.

Aqui, no fundo, há algoritmos de risco, olhando pras dificuldades de adaptação, também com a assiduidade. E como é que se faz disso um preditor de inatividade laboral aos 16 anos?

Não se faz. E de uma vez por todas, nós temos que ter a noção que converter a vida em algoritmos pode não ser das coisas mais razoáveis que nós temos à disposição. É muito importante isso. Voltemos à questão da classificação de perigo, porque o que o Estado diz? As crianças que não vão à escola estão em perigo. É verdade Há uma diferença grande entre um adolescente que decide ser rebelde e falta à escola para desafiar os pais, e uma criança que não vai à escola por opção dos pais. Mas aquilo que eu acho delicioso é que o Estado diga: "Não, nós somos competentes para dizer que a criança está em perigo". O que não diz é quanto tempo é que ela pode estar em perigo sem uma intervenção consequente. Há crianças que morrem em Portugal, mas estavam classificadas em perigo, quase como se o Estado dissesse: "Não, se estão em perigo, estão seguras". Ou seja, eu acho inacreditável que se faça esta espécie de deriva. Vamos prever quem é que não vai ter sucesso na vida, quando os algoritmos se esquecem de um pormenor: os miúdos que são levados ao colo, muitas vezes com toneladas de explicações para que tenham notas que muitas vezes não correspondem àquilo que efetivamente sabem, quando chegam à universidade, estamos agora a discutir isso, e ainda bem, muitos desistem de estudar e a taxa de alteração de cursos é cada vez maior. O que significa, de facto, que nós criamos a ideia de ter um sistema que funciona com algoritmos, e depois eu pergunto-me sempre: onde é que estão os miúdos que tiraram média 16, 17, 18 e 19, aos dites, que numa escala de 20 são médias muito altas, onde é que eles estão? Aqueles que entraram nas universidades com esse tipo de médias, que são cada vez mais, onde é que eles estão aos 25 anos e o que é que fizeram de relevante aos 30? O algoritmo tinha a obrigação de dizer. Não, eles concluíram o ensino obrigatório e até fizeram um mestrado, se foi o caso. Mas este admirável mundo novo, que parece querer fazer estimativas sem propor soluções, como é que nós vamos pegar nas crianças cujo algoritmo me diz: "Bom, se calhar vamos ter aqui uma dor de cabeça", o que é suposto que se faça para que, de facto, o elevador social funcione e todas as crianças tenham o direito àquilo que nós queremos que os nossos filhos também tenham. E é aqui que eu acho que os Estados estão a perder o pé, a perder a humanidade, e quando se perde a humanidade continuam a ser Estados, deixam é de ser Estados de direito, como deviam, isso é que nos preocupa a todos.

Como é que estes pais britânicos gerem esta ideia de saberem que os problemas dos filhos aos cinco anos estão a ser avaliados em função do seu eventual sucesso aos 16?

Espero que reajam votando de forma sensata. Os votos de protesto nunca são os melhores conselheiros, mas de forma sensata, esperando que, de facto, a Europa, que sempre deu um exemplo de humanidade e de clarividência, não se deixe engolir por esta vertigem de algoritmos a mandarem em nós, porque se a Europa, que muitas vezes reivindica, às vezes bem, às vezes com precipitação, toda a sua tradição humanista se vai deixando ir na onda, evidentemente que a humanidade não vai sucumbir. A humanidade já teve maus-tratos piores, mas nós agradecíamos que isto não acontecesse, porque com isto tudo, há sempre pessoas e estabelecimentos educativos que vão ficar tão conturbados com este tipo de relevância numérica, que de repente não fazem aquilo que deviam fazer. E, portanto, os pais, as associações de pais, as confederações de pais, que são instrumentos tão importantes para interpelar os ministérios da Educação e os governos, eu tenho esperança que elas dessem uma certa passividade e um silêncio que às vezes não se percebe, e que de uma forma firme, clarividente, serena, mas dura, sempre que é preciso, façam o contrapeso que é indispensável e que tragam contraditório à estupidez humana e é tão preciso tantas vezes.

Esperemos que esta ideia peregrina não chegue cá. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

O prazer é meu, Judite. E até amanhã.