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Bem-vindos ao "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França e hoje vamos falar das dúvidas de uma mãe que escreveu ao Eduardo na dúvida sobre se deve ou não deixar a filha ir sozinha de autocarro para a escola. Olá, Eduardo. Esta mãe está na dúvida sobre se a filha, que vai para o quinto ano, deve ou não ir de autocarro sozinha para a escola e sente-se nessa dúvida por causa de notícias sobre tentativas de rapto ou de assédio, e isso deixa-a muito preocupada. Ora, como é que se resolve este dilema?

Olá, Judite. Deixando ir e fazendo aquilo que as mães fazem. As mães e os pais fazem muito bem, que é nas primeiras viagens, fazem de agente secreto.

Exato, atrás dos carros.

Estão ali, exatamente, escondidos, a perceber se fala com este, se fala com aquele, se apanha o autocarro certo, se não apanha, etc. Sendo certo que, em condições normais, nós estamos a falar de uma cidade, em princípio de uma grande cidade. Eu percebo o medo e eu percebo os perigos. Todavia, talvez os perigos não sejam tantos quanto na cabeça dos pais. Eles acontecem na cabeça dos pais, eles são sempre muito pequeninos e, portanto, nunca estão habilitados para ter estes saltos no seu crescimento. É verdade que enquanto não tiverem estes saltos, uns mais pequenos, outros maiores, evidentemente que nunca ficam capazes de ganhar a autonomia indispensável. Eu chamo, no entanto, a atenção para um pormenor, que não é um pormenor tão insignificante, Judite. À boleia destas conquistas, eles crescem imenso. Ou seja, de repente, eles percebem muito bem que estão a dar ali um pulo dos grandes e, portanto, ao darem um pulo dos grandes, apanham a onda e apanham em relação à escola, às compras no supermercado, às pequenas e às grandes coisas que acabam por ser capazes de fazer e, portanto, isso tudo junto acaba por reverter em favor do seu crescimento. Se calhar os 10 anos do quinto ano de escolaridade acaba por ser uma idade razoável. Imagina-se que não seja um salto de uma enormíssima complexidade, mas todavia é muito importante para eles irem pé ante pé, dando estes pequenos saltos, porque é assim que eles conquistam toda a sua autonomia, ficam mais robustos, mais seguros de si. E essa segurança é transversal a todos os níveis, na relação com os outros, na relação com a escola, na relação com os colegas, na relação com as coisas que não sabem fazer, nomeadamente quando se trata de darem este salto para vários professores que passam a acompanhá-los e, portanto, feitas as contas, é capaz de valer a pena o risco.

Há consequências no desenvolvimento de uma criança quando se cresce sem nunca ter tido estes momentos de autonomia, como ir sozinha à escola ou ficar sozinha em casa.

Imensas, Judite. E eu percebo que os pais e as mães, os pais não são diferentes, assumem, às vezes, um estar mais distraído, quase como se dessem a entender que as mães é que são muito aflitas nesse contexto todo. Os pais são todos muito parecidos. Mas quando nós os protegemos muito, em vez de os tornarmos mais fortes, tornamo-los mais frágeis. E, portanto, há aqui uma relação de custo-benefício. Nunca vai acontecer, nunca, em circunstância nenhuma, uma situação em que os pais estejam absolutamente descansados em relação a qualquer passo que possam dar, nem uma noite que passem em casa de um amigo, nem isto ou aquilo, até nas festas de aniversário. E, portanto, eles nunca podem estar blindados. Não têm como estar. O que é importante é que os pais percebam que há aqui uma relação de custo-benefício, ou seja, quanto maiores são os custos, menores serão os benefícios e vice-versa. E nesta autonomia, nós temos muito mais hipóteses de ter benefícios do que custos e, portanto, depois de uma semana de agente secreto para a mãe, para o pai, claro que vão ficando progressivamente mais descansados. Depois já são os dias de chuva que os assustam, etc. Mas é verdade que à medida que podem viver a cidade dentro do que é razoável, eles são muito compenetrados, são muito sensatos e portanto não são assim tão voláteis em relação a alguém que os chame, que faça um comentário ou que de alguma forma os aborde de forma menos adequada.

Ia-lhe perguntar onde é que está a fronteira entre a proteção razoável e a superproteção. Como é que um pai sabe se está a decidir com base num perigo real ou no medo daquilo que foi absorvendo nas notícias?

Nas notícias e no seu próprio crescimento. Não estou a dizer que nós vivamos todos num paraíso, mas se calhar, a infância dos pais teria mais riscos potenciais do que propriamente a infância dos filhos hoje. Mas é evidente que esses riscos que os pais terão corrido ajudam a temperar um pouco esta ânsia de ver as crianças crescer. Mas evidentemente a fronteira é a convicção, e os pais não podem fugir a isso, é a convicção com que entendem, bem lá no fundo, que talvez seja aquela a atitude correta. Só isto. Porque se sentem que pode ser e se estão à espera que sejam os filhos a marcar a agenda, não vale a pena, por vários motivos. Primeiro, porque os filhos quando lhes dá para serem uma confederação sindical, são magníficos, portanto, ganhos adquiridos, nem pensar discuti-los. E portanto, se a mãe ou o pai levam a mochila até à porta da escola, idealmente até dentro da sala de aula, como muitos pais gostariam, por que nós vamos deitar fora isso e depois não podem os pais perder de vista o outro pormenor? Os nossos filhos são os valentões da boca para fora, mas são mais medricas do que pode parecer. E portanto, eles apanham muito facilmente as nossas inseguranças e, se for preciso, até carregam nas tintas, para que, de alguma forma, as nossas dificuldades possam não ser as deles e portanto, eles têm sempre maneira de fazer um bocadinho de vítimas. "Eu queria, mãe, é que não deixa." E portanto, eles são muito hábeis nisso. Não vale a pena os pais terem a ideia de que, de repente, eles fazem uma manifestação, uma greve de zelo, e "eu tenho que ir". Não vai acontecer assim. Agora, a partir do momento em que eles sentem que são capazes, e acreditem os pais que as primeiras vezes eles vão muito assustados, porque a cidade parece muito grande e vão muito inseguros e fazem tudo direitinho. É quase como quando os pais começaram a conduzir e tinham o código da estrada milimetricamente na cabeça e nunca pisavam o risco. Eles precisam de dar estes passos para que depois percebam que "surpreendentemente, eu sou capaz". Quando eles são de surpresa capazes, ficam mais robustos. E mais robustos significa mais capazes de ir a jogo em muitas áreas da vida deles. Mais tarde ou mais cedo, nós temos que fazer isso, porque de outra forma, se não for neste intervalo do quinto, sexto ano, já começa a ser um bocadinho tarde, porque depois eles querem ir mais em grupo. Os grupos aí sim, às vezes, são um bocadinho mais acalorados. Mas os miúdos, quando são sensatos, não são assim essas cabeças no ar, que a qualquer momento dão uma reviravolta e contrariam quase metodicamente aquilo que os pais esperam deles. Isso não vale a pena os pais imaginarem. Agora, há sempre uma semana de coração muito apertado, mas essa semana é muito importante para os filhos e para os pais.

Só mesmo para terminar, algum conselho prático para preparar um filho para essa primeira ida sozinho de autocarro?

Os do costume. "Não falas com ninguém, se vires alguém aproximar-se muito, não dás..." Aquelas coisas do costume. Mas quando eles estão no quinto ano, ninguém quer que eles tenham telefones com dados, mas há cada vez mais ofertas no mercado de telefones que dão a localização aos pais e se isso deixa os pais e os filhos mais tranquilos, que não seja por isso. Agora, é importante que as mães tenham a ideia que os nossos pais sempre tiveram. As mães adorariam ser moscas para estarem em todo lado ao mesmo tempo, mas não vale a pena. E também ser mosca não é, de facto, uma grande perspectiva de carreira para uma mãe, portanto, há ali uma dose de confiança. Quanto mais nós confiamos dentro do que é razoável, mais exigimos confiança e mais eles correspondem à confiança que nós lhes damos e, portanto, a autoestima também se faz da confiança que nós damos e não podemos perder isso de vista.

E a autonomia é muito importante. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Pronto, e até amanhã.