Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Bem-vindos ao "Porque Senão é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos da notícia que dá conta de que a Meta foi condenada no Novo México por viciar crianças com algoritmos desenhados para captar a atenção a qualquer custo. Olá, Eduardo. A Meta, dona do Facebook e do Instagram, diz que os pais têm o controle parental nas mãos. Faz sentido esta defesa, ou seja, passar a responsabilidade para cima das famílias?
Olá, Edite. Eu acho que não faz. Francamente, não faz por vários motivos. Primeiro, voltamos àquilo que são as medidas mais recentes em relação aos adolescentes em Portugal e ao uso de redes sociais. Evidente que haver uma baliza em torno dos 15 anos serve para os pais terem coordenadas, para terem uma ideia de que, no final de contas, aquela utilização de redes sociais pelos adolescentes abaixo dessa idade faz mal. É prejudicial, desequilibra-os, não lhes traz tantas coisas de bom. Mas, de facto, quando nós percebemos que houve, por exemplo, o famoso desafio do paracetamol, em que muitos adolescentes portugueses iam consumindo paracetamol pra ver quem é que aguentava mais comprimidos, mais miligramas, sem ir às urgências. Já nem questiono as consequências graves que isso lhes trouxe. A determinada altura, pergunta-se, de forma didática, de quem é a responsabilidade? Dos adolescentes, que todavia têm menos de 15 anos e obviamente deviam ter os pais com o tal controle parental a monitorizar isto tudo? Os responsáveis pelas redes sociais, que sabem muito bem que os algoritmos são desenhados com uma finalidade muito precisa, que tem a ver com fixar, agarrar os adolescentes a esse tipo de redes. Ou, já agora, porque não é uma questão menor, o Estado, que tem a obrigação de ter uma ideia muito precisa sobre as consequências disso tudo e, de repente, fica a assobiar pro ar como se esta não fosse uma questão fundamental de saúde e não implicasse nas consequências que isto tudo desencadeia. Portanto, eu acho que de um ponto de vista simbólico, eu fico muito contente que estas condenações existam. Ninguém quer, não é isso que está em questão, um mundo sem este tipo de propostas e desafios, mas queremos que as coisas sejam reguladas e que os adolescentes não sejam precipitados precocemente para conteúdos que não têm nada a ver com o seu crescimento, mas que os intoxicam em suaves prestações e com isso são tão prejudiciais que, claro, tem que haver responsabilidades, porque de outra forma estamos a trabalhar muito para construir miúdos ótimos e a deixar que depois estas ondas os estraguem todos os dias mais um bocadinho.
O tribunal ordenou ainda limites a chatbots de inteligência artificial que simulavam interações românticas com os menores. O que é que leva um jovem a preferir desabafar com uma inteligência artificial em vez de procurar um amigo ou um adulto?
Edite, às vezes é só a vertigem de chegar no outro dia à escola e dizer: "Eu fiz." E, portanto, claro que o facto de serem jovens os torna particularmente atentos a tudo quanto são desafios, propostas novas e aos relatos mais acutilantes que os colegas lhes tragam no meio de uma conversa no recreio. E, portanto, os adolescentes são pequeninos, mas não são tolos. Percebem que não está ali ninguém a falar com eles e têm a noção que aquele tipo de discursos, na maior parte das vezes, é muito conformista, demasiado normalizado e, portanto, muito pouco a ver com eles. Mas atenção, há um outro tipo de discursos que são feitos à medida dos adolescentes e que, portanto, fazem com que eles levantem voo muito rapidamente. Agora, é sobretudo o desafio, a novidade e esta ideia de que, no fundo, têm sempre mais algumas histórias pra contar, que os torna, aos olhos dos colegas, mais experimentados e, portanto, mais credíveis, digamos assim. Que os adolescentes façam isso, Edite, é a coisa mais natural do mundo, é compreensível, mas lá está, os pais têm que ser, no final do dia, tanto quanto conseguirem, uma entidade reguladora. Quem cria esse tipo de coisas é que, obviamente, tem que perceber que não pode valer tudo, porque por alguma coisa quem cria este tipo de propostas veda o consumo deste tipo de produtos aos seus filhos e, portanto, isso talvez queira dizer o quanto quem os constrói sabe muito bem o mal que traz.
Uhum! Para os pais que se sentem ultrapassados por este tipo de produtos, qual deve ser o primeiro passo para impor limites em casa? Tentando que não se transforme num campo de batalha.
Eu continuo a achar que os pais são pais e, portanto, têm toda a legitimidade para saber o que os filhos andam a fazer. É uma tarefa inglória, no final, porque os filhos têm sempre mais uma solução hábil para contornar aquela ideia de que os pais andam um pouco de olho neles. Todavia, eu acho muito importante para os nossos filhos perceberem que os pais se implicam, que questionam, que querem saber, que se informam, porque isso, de alguma forma, lhes dá um perímetro de coisas que eles podem fazer ou que não devem fazer. Se formos por aí, ótimo. Programas espiões, não acho que tenha grande solução, até porque depois isso não legitima os pais e dá até uma dimensão um pouco voyeur, qualquer coisa que um pai e uma mãe não devem ser. E seguramente não, esta ideia de que depois eles aprendem a autorregular-se, porque há uma tendência que vai falando disso, porque não é verdade. Assim fosse e não havia tantos adultos que muitas vezes têm que solicitar a ser interditados em plataformas de jogo online e outras coisas do gênero. Portanto, a regulação é qualquer coisa que se aprende com o pai e com a mãe a fazerem de agentes de autoridade, com toda a legitimidade que a mãe e o pai têm, e com a certeza de que às vezes acertam, às vezes exageram nos cuidados, mas na maior parte das vezes estão a dizer aos filhos: "Nós gostamos tanto de ti que não dizemos sim a tudo aquilo que tu queres."
E é possível protegê-los, mas sem os isolar do mundo digital?
Ninguém quer criar adolescentes infoexcluídos, porque evidentemente, era insensato, era uma tarefa inglória e obviamente eles têm no bolso um sem fim de enciclopédias. Com tudo o que isso lhes traz de bom e às vezes de escorregadio. Mas evidentemente, eles só, às vezes correndo riscos, às vezes tendo sustos grandotes, às vezes são mesmo grandes. Mas no resto do tempo, criando este tipo de parceria, é que eles vão crescer e os pais não podem demitir-se disso. As escolas têm um papel muito importante, não no sentido de catequizar adolescentes, mas de discutir isto com abertura e com clareza, porque se formos por aí, nós estamos, de facto, a fazer bem, havendo a necessidade de um Estado para quem, de alguma forma, faz malandrices graves, que muitas redes sociais fazem. Assim, haja um Estado que, quando é preciso, interdita os maus, protegendo os nossos filhos daquilo que eles lhes fazem.
Eduardo, hoje ficamos por aqui. Voltamos amanhã com mais um tema. Até lá, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
O abraço é seu, Edite. Até amanhã.