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Quem difere na Rádio Observador com Filomena Martins, que nos traz sempre as notícias sobre o tempo, é a nossa bússola, a nossa estrela polar. E Filomena, o que nos trazes para estes dias? O calor está aí, mas é mesmo de despedida.

É, o calor tem os dias contados.

Também. Quer dizer, é dia 15 de outubro. 14, aliás. E estou de calções, por isso também já chega.

Pronto, então fiques a saber que depois de vários dias de calor pouco habitual pra outubro, de facto, Portugal prepara-se pra uma descida bastante acentuada das temperaturas a partir do fim de semana e que será muito notória nas primeiras horas de segunda-feira. Esta sexta-feira ainda poderemos ter 31 °C em Santarém e 30 °C em Lisboa e Beja, mas no sábado começa a aproximação de uma massa de ar polar, e o nome já diz tudo, que deverá provocar uma descida significativa das temperaturas. A mudança será especialmente evidente de domingo pra segunda, portanto, nessa madrugada, e sobretudo no interior norte e centro. Na Guarda, por exemplo, os termômetros poderão baixar dos 25 °C de sexta-feira pra apenas 15 °C no domingo.

Isto de máxima?

Sim, de máxima. Em Bragança, a descida poderá chegar aos 9 °C de um dia pro outro e em Vila Real e Viseu, de 8 °C de queda. E não vai ser só a temperatura a mudar, o vento também vai fazer das suas, porque estará de noroeste, vai intensificar-se, as rajadas vão ficar ali entre os 60 a 65 km/h e isto ainda acentua mais o frio, a sensação de frio. Chuva, essa, é que provavelmente vai demorar mais um dia ou dois, chegará em princípio na quarta-feira, dia 21. E neste momento há muitos cenários, porque a circulação atmosférica está completamente, eu diria, "avariada", é retrógrada, que é muito estranho, está com um bloqueio em Ômega, já lá vamos falar nisso.

Parece que estás a falar de astrologia, mas não é nada disso.

Não, não é. E está com ondulações muito grandes no Jet Stream, que é outra coisa estranha. Portanto, há aqui um caos certo. Aqui em Espanha, na zona do Mediterrâneo do costume, Valência, Barcelona, Baleares, este fim de semana vai ter, por causa dessa chegada de ar frio em altitude e de ventos muito úmidos, vai haver um novo episódio de chuva muito forte, mais uma DANA no fim de semana, eles vão ter cheias outra vez. E os modelos sazonais europeus admitem que esta instabilidade no Mediterrâneo se prolongue por algumas semanas, o que é muito perigoso pra eles. Pode não ser chuva contínua, mas o episódio do fim de semana não vai ficar isolado.

E para Portugal, esse mau tempo chega cá também, ou não?

Às vezes tem efeitos posteriores, porque as DANAs normalmente depois sobem ali da zona de Barcelona e vão pela Andaluzia adentro e chegam ali à zona de fronteira. Mas regra geral, nem isso, porque há ali aquela ponta de Gibraltar a cortar todas as mudanças climáticas e também uma mudança de oceanos que muda a circulação atmosférica. A nossa principal mudança continua a ser esta descida das temperaturas no fim de semana e sobretudo de domingo pra segunda. Quanto à chuva, vai ser preciso esperar pelas próximas atualizações dos modelos, provavelmente amanhã de manhã, pra confirmar exatamente quando chega, onde vai cair e com que intensidade. Pra já, tudo aponta pra alguns algaíceres fracos e até trovoadas dispersas já no fim de semana também, e depois essa chuva mais forte então a partir de quarta-feira.

Ok. E as temperaturas, a descida pode então chegar aos 10 °C?

10, 11 °C. Os cenários do modelo europeu, que são aqueles pelos quais nos regemos, sobretudo, apontam para essa redução expressiva das máximas entre sexta-feira e domingo, embora a mudança seja mais evidente na segunda. E há números que mostram bem a dimensão dessa mudança. Por exemplo, na Serra da Estrela, os termômetros já vão chegar aos 0 °C na manhã de segunda-feira. Na Guarda, a mínima também pode descer aos 4 °C e Em Bragança aos 6 °C. Durante a tarde, as temperaturas também serão realmente muito mais baixas. A Guarda não vai ultrapassar os 15 °C e Lisboa já estará nos 22, 23 °C. E caem os tais 10 °C, por exemplo, Beja, entre sexta-feira e domingo, são 10 °C a menos. Portanto, é uma mudança em dois momentos. Primeiro, descem os termômetros, depois vem a chuva.

Descem bastante os termômetros. E depois só a chuva lá por quarta.

Podes ir buscar o entretão.

Sim, estou deserta, Filomena. E agora vamos ao fenômeno. Bloqueio em Ômega, quando a atmosfera desenha uma letra grega. Explica-nos tudo.

É esta configuração atmosférica mais rara, não tão rara assim, mas mais rara, e é muito particular, porque ajuda a explicar por que razão algumas regiões da Europa passam dias seguidos com sol e calor, como nós temos estado a ver, enquanto outras estão, por exemplo, sob chuva intensa, e está a acontecer, por exemplo, na Turquia. Este bloqueio em Ômega é por causa disto. Como é que se forma isto? O nome pode parecer uma coisa muito complicada, uma coisa muito científica, mas não é. Na verdade, é uma explicação apenas visual. Ômega é a última letra do alfabeto grego, e quando os meteorologistas observam os mapas da circulação atmosférica em altitude, encontram, por vezes, um desenho que faz lembrar precisamente essa letra, que é tipo uma ferradura.

Que giro. E como é que isto se forma?

Vamos lá tentar explicar outra vez, que isto às vezes é mais fácil ver no mapa do que explicar assim por voz. Temos a corrente de jato, a famosa faixa de ventos muito fortes e vários quilômetros de altitude, que se desloca sempre de oeste pra leste, portanto, do lado-

Da esquerda pra direita.

Exatamente.

Sim, exatamente.

Sim. Do lado da América pra cá, se quiseres, fica a muitos quilômetros de altitude, desloca-se nessa direção e traz as depressões e as frentes meteorológicas pra o nosso lado. Ali do lado de Da Gronelândia. Essa corrente, já dissemos aqui várias vezes, há alturas em que ondula, não anda de forma direita e muito depressa. Ondula. E ondula, às vezes, muito acentuadamente. Quando essa ondulação acontece para norte, associada a uma região de altas pressões em altitude, altas pressões é quando está normalmente mais calor, ela fica rodeada por duas ondulações a sul. Imagina uma ondinha assim, uma coisa assim, as ondinhas. E quando essas ondulações vêm para sul, ficam associadas a depressões. Vista no mapa, esta configuração, imagina uma onda para baixo, duas para cima, parece a letra ômega.

Pronto, vai acima, vai abaixo e vai ao centro.

Sim, sempre em redondo.

E o que acontece ao tempo?

Naquela parte central, dominado pelas altas pressões, o ar tende a descer e dificulta a formação de nuvens e favorece períodos prolongados de estabilidade atmosférica. Dependendo da estação do ano, isso pode traduzir-se por dias consecutivos de calor.

Que é o que nós temos agora, mais ou menos.

Exatamente. E no inverno pode também persistir o frio, o nevoeiro e aquelas inversões térmicas. Dos outros dois lados da letra ômega, pode acontecer precisamente o contrário. As pressões podem ficar com o seu movimento condicionado, não andar, e ficam ali paradas e começa a chover vários dias consecutivos. E esta particularidade do fenômeno, a mesma configuração atmosférica, pode favorecer o tempo seco numa região, chuva persistente noutra. E há outra consequência, como a circulação habitual de oeste para leste fica muito perturbada, portanto elas não passam, algumas depressões podem deslocar-se mais lentamente ou até seguir percursos pouco habituais, incluindo movimentos de leste para oeste, ou seja, virem do lado de lá para cá.

Da direita para a esquerda.

Agora virem da Rússia para o nosso lado. E é por isso que os meteorologistas estão atentos à evolução destas altas pressões agora sobre o Norte da Europa e das pressões em altitude que poderão afetar a Península Ibérica e o Mediterrâneo nos próximos dias, porque se a circulação evoluir por esta configuração semelhante à letra ômega, vão persistir estas instabilidades, estas danas sobre as regiões mediterrânicas. É aqui que entra o bloqueio ômega. Os modelos mostram uma grande ondulação da corrente de jato, com as altas pressões a deslocarem-se para o norte da Europa, para a Escandinávia, o ar frio a vir para a Península Ibérica, isto favorece a formação de uma dana e depois a corrente de jato, estando ali, pode ou não formar o tal bloqueio e vamos ver como é que isto vai ou não condicionar todo o tempo que estamos aqui. É só ir olhando para os modelos e ver se a letra se está a formar ou não.

O ômega.

O ômega.

E vemos também onde é que nós estamos nesse ômega, não é também importante.

Convém estar na patinha do lado de lá.

Exato, do lado de lá. E agora vamos à curiosidade: a nuvem gigante de Marte que nasce todas as manhãs e morre pouco depois.

É uma descoberta científica verdadeiramente extraordinária. É obviamente da NASA, é recente, é de ontem à tarde. Em Marte existe uma nuvem que pode atingir 1800 km de comprimento. Ela forma-se de manhã.

Nem percebe que é uma nuvem, parece só nevoeiro.

Ela forma-se de manhã, cresce muito depressa e desaparece logo poucas horas depois. Esta nuvem surge junto ao Arsia Mons, que é um vulcão com cerca de 20 km de altura, tem mais do dobro da altitude do Monte Everest, só para comparação. A nuvem é formada por cristais de gelo a partir do vapor de água. Há vapor de água em Marte. A sonda da Mars Express, da Agência Espacial Europeia, acompanha este fenômeno já há vários anos e agora percebeu mesmo como é que isto se forma. Os cientistas já sabiam que os ventos, ao encontrarem o enorme vulcão, tinham que subir, porque batiam nele, só que os modelos meteorológicos convencionais não conseguiam reproduzir como é que se formava a nuvem. Esta investigação, publicada agora a 7 de outubro, na Nature Geoscience, tem uma explicação. Na Terra, as nuvens formam-se habitualmente com a ajuda de partículas microscópicas, como poeiras ou sal, que servem de suporte à formação de gotículas de água ou de cristais de gelo. Neste caso, as simulações indicam que o vapor de água transforma-se diretamente em cristais de gelo, não precisa dessas partículas. E então isto chama-se nucleação homogênea. E há números extraordinários nesta descoberta, que segundo os investigadores, o ar que sobe junto ao vulcão pode arrefecer 30 graus em apenas 10 minutos.

Olha lá.

E esse arrefecimento extremamente rápido cria condições favoráveis à formação da nuvem. Depois, à medida que as condições atmosféricas mudam, a nuvem desaparece. E o processo repete-se na manhã seguinte, durante vários meses do ano marciano. Portanto, tens aqui uma nuvem de 1800 km que nasce e desaparece todos os dias.

E é muito fria.

E é muito fria. Pronto, e aqui tens.

E assim terminamos o "Quente e Frio" de hoje. Em Portugal, os próximos dias, Filomena, serão marcados por temperaturas elevadas, mas a mudança aproxima-se. Primeiro descem os termômetros, depois poderá regressar a chuva. Não é assim?

É. Se estivesses em Marte, tinhas uma nuvem todas as manhãs.

Não estou. Ainda bem, porque lá está mais frio ainda. E assim terminamos o "Quente e Frio" de hoje com a Filomena Martins. Está de regresso. Até amanhã.