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Bem-vindos de volta ao "Realpolitik", uma conversa sobre política e atualidade todas as semanas aqui na Rádio Observador e em podcast. Eu sou o Miguel Pinheiro.
Eu sou o Sérgio Sousa Pinto.
Estamos aqui com um grande bronze, falo por mim.
Exato, ainda bem que falas por ti. Isso é prova que és amigo da verdade.
Hoje vamos falar sobre o estudo encomendado pelo governo sobre o futuro das pensões e que foi apresentado esta terça-feira. Vamos falar também sobre o caso de Jason Arday, o acadêmico de Cambridge que começou por ser um símbolo do wokeismo, depois tornou-se um símbolo do anti-wokeismo e morreu tragicamente há poucos dias. Mas antes, Sérgio, temos de conversar sobre as rentrées. O PSD já fez a sua rentrée, o PS já fez a sua rentrée. Esta quarta-feira à noite é o Chega. O que te impressionou mais? Isto foi tudo alta política. Espremendo tudo, e eu imagino que tenha sido espremer muito, o que fica?
Julgo que tudo aquilo que não foi fundamentalmente propaganda legítima aos feitos de cada um, reais e imaginários, o que conta é a notícia relativa à intenção do governo de entrar no capital da REN. Acho que é a questão substantiva e a novidade que justifica uma análise sobre esta decisão. Estou convencido que esta decisão é uma má decisão.
É uma má decisão?
Uma má decisão. Uma má decisão para o país, uma má decisão para os contribuintes, uma má decisão para todos os envolvidos. As três razões invocadas pelo governo para esta decisão, a saber, salvaguardar o interesse estratégico, participar nas gestões de investimento e baixar o preço da energia, ou deram mau resultado no passado, ou simplesmente já estão salvaguardadas pelo regulador, é a função dele. Para que serve o regulador? A REN é um monopólio natural, a regulação é muito importante, porque senão, monopólio natural em autorregulação, vivemos todos para um monopólio natural.
E é muito apertada.
E é apertada porque o papel da REN e o papel do regulador, que intervém inclusivamente nas próprias decisões estratégicas, qual é a remuneração compatível com determinados objetivos de investimento, todas essas funções cuja justificação é a defesa do interesse geral, do interesse público, do interesse dos consumidores, do interesse do país, já estão confiadas a uma entidade. Chama-se entidade reguladora. E agora o governo imagina que com os seus 13,7% vai interferir. Mas não vai interferir, porque é evidente que com 13,5% não é como ter uma golden share. Mas está em conflito natural, conflito não no sentido negativo, é conflito natural, conflito de interesses com o regulador, porque obviamente a expectativa da empresa é libertar-se do jugo do regulador.
Aliás, o Luís Montenegro gabou-se muito dos dividendos que se conseguem nas empresas.
Maravilhoso. À custa de todos nós e das empresas, porque é assim que os dividendos vêm.
Toma duas: ou quer baixar o preço da eletricidade e baixar os dividendos, ou então quer ter dividendos. As duas coisas é que são mais difíceis.
É aquela coisa inglesa, não podes ter um bolo e comê-lo. É impossível as duas coisas. E depois existe a tal justificação que é enigmática: salvaguardar o interesse estratégico. Já salvaguardámos várias vezes o interesse estratégico.
Dá vontade de começar a cantar o hino, não é?
Podemos fazer isto melodicamente. O interesse estratégico foi sempre acautelado de uma forma extraordinária pela grande competência do Estado em tudo o que é meter-se. Aliás, quem quiser debruçar-se sobre o Estado e a sua capacidade de gerir o que quer que seja, basta olhar para os subsistemas públicos, porque esses não são responsabilidades do Estado, e ver a obra que tem sido produzida no Sistema Nacional de Saúde, podíamos ir para a escola pública, também podemos criar umas harmonias com os subsetores do Estado. Portanto, não se percebe a razão, não se percebe de onde é que vem o dinheiro. Não se sabe, mas o valor daquilo a preço de mercado na bolsa, na sexta-feira anterior, era 324 milhões. E eu pergunto: um país com a carga fiscal insuportável do nosso, um país com um rácio dívida PIB de 90%, de repente decide que vai enterrar dinheiro na REN. Para quê? Para duplicar funções com o regulador, para dizer que vai fazer aquilo que já compete ao regulador fazer e, em qualquer caso, não poderá fazer. As pessoas têm que perceber que os 324 milhões não é a mesada que o mundo, Deus, o cosmos alocou Portugal. Não, isto é o dinheiro do país, pago duramente com impostos esmagadores, que por sua vez estão a travar a economia, que não gera riqueza suficiente para andar a comprar empresas. É só perceber esta coisa. E não faz sentido que compre. O Estado tem que sair das empresas, não está lá a fazer nada. É por isso que existem reguladores. Os reguladores, em áreas críticas ou monopólios naturais, servem para proteger o interesse geral. O governo não está satisfeito com o regulador Em vez de gastar 324 milhões, a custo zero troca o regulador. Nada disto faz sentido. As pessoas sabem que a REN não é quem nos vende a energia, é quem cuida do transporte da energia. E, portanto, quando os preços de energia sobem ou descem, isto tem a ver fundamentalmente com a formação dos preços no mercado grossista e depois no mercado da baixa tensão. A REN não tem nada a ver com isto. Um grande economista de quem eu gosto muito, que é o Pedro Santa Clara, usou uma imagem que eu acho muito boa. Ele dizia que isto é como o Estado comprar ações da Brisa para baixar o preço dos automóveis. Nada disto faz sentido. O problema que está aqui subjacente é uma filosofia estatista. E aqui insisto, não se consegue distinguir. Aliás, consegue, porque eu ouvi o José Luís Carneiro na rentrée do PS a criticar isto, a dizer: "Por que foi comprar à família Ortega e não comprou em bolsa? O preço foi melhor? Então se foi melhor, qual foi? Isto é o nosso dinheiro, temos a obrigação de saber por quê, onde, de que maneira." Se calhar o senhor Ortega estava descapitalizado, deve ser o segundo homem mais rico do mundo ou o terceiro.
O PS não seria contra uma posição do Estado na REN. Pode questionar alguns detalhes.
Primeiro, não são detalhes. Segundo, não sei se o PS está desejoso de voltar pra REN. Se o PS está desejoso de voltar pra REN, o PS também já esteve desejoso de voltar pra TAP, e eu disse que isso era um erro.
Não, certo.
Felizmente, não carrego o peso de querer prazer pra ninguém.
Coitadinho, era só o que mais faltava. Agora, uma das coisas, para mim, aquilo que é mais preocupante é que não se trata apenas da REN.
Essa é a questão de fundo.
A privatização da REN foi muito contestada. Existe muita boa gente que entende que aquela empresa em concreto é uma empresa que não deveria ter sido privatizada.
Mas eu adiro esse ponto de vista. Nós não podemos analisar as questões em abstrato. Nós estamos sempre confrontados com problemas concretos. Problemas são analisados em abstrato pela classe filosófica. Nós, os escribas e comentadores, o que nós fazemos, e os políticos, e os jornalistas, o que nós temos que olhar é pra realidade como ela se põe diante de nós. Ou seja, avaliar as circunstâncias concretas que presidiram à decisão de alienar a REN. A REN foi alienada dada a situação do país e a necessidade de liquidez.
Claro.
Nem sequer houve uma discussão teórica sobre se é boa ou má ideia. Cada um tem o seu ponto de vista. Muitas decisões foram tomadas em estado de necessidade.
De tal maneira que a decisão de saber a quem vender foi puramente pelo preço e por isso é que foi parar aos chineses. Mas tu até poderias argumentar: muito bem, passada essa situação de aperto, agora temos a possibilidade de voltar a ter a REN.
Já reparaste que passamos uma oportunidade de dizer mal do Passos?
Não se compreende. Mas o problema é que existe aqui um plano mais abrangente, que ainda não foi devidamente explicado às pessoas. Luiz Montenegro entende que o Estado deve ter uma presença em várias áreas da economia, em várias empresas. Não sabemos até onde é que vai esse plano, quantas empresas, quais, como.
Mas já sabemos uma coisa. É aqui que entra em cena o fundo soberano.
O grande fundo soberano, que ainda não está constituído e que, acima de tudo, nós não sabemos de onde é que virá esse dinheiro. O Estado pôs agora 43 milhões sob os seus para poder, imagina-se, subsidiar esta compra, mas vai ser preciso mais. Mais do que o dinheiro, porque como dizia o doutor Mário Soares, o dinheiro arranja-se, qual é o objetivo? E temos agora um PSD que entende que o lugar do Estado é pilotar a economia.
O objetivo é uma tragédia nacional, que está inscrita geneticamente, por razões que me ultrapassam, em todos os partidos, que é o estatismo. Portanto, todos os partidos têm uma compreensão do Estado e um entendimento do relacionamento do Estado com a economia e com os agentes económicos protetora, resgatadora. Tirando as barbearias, padarias e não sei o quê, tudo é estratégico e, portanto, não se pode deixar. Esta história do fundo soberano é de tal maneira absurda que eu nem percebo como é que ela germinou na cabeça dos nossos governantes. Eu imagino uma sala com uma data de pessoas com ar sisudo e grave a debater o fundo soberano. Não houve nenhum que dissesse que o rei vem nu. É preciso explicar às pessoas o que é um fundo soberano. Lembras-te, aqui há uns anos, a grande polêmica em torno da prospecção de petróleo no Algarve? Havia a hipótese de haver petróleo no Algarve, ninguém sabe se há ou se não há. Alguns, mais entendedores do assunto do que nós, acharam que era preciso ver ao largo do Algarve se havia petróleo. Claro, os ambientalistas, positivistas, higienistas, trapezistas, a malta que almoça no Gigi, enfim, revolução nacional. Petróleo no Algarve, eu aqui a comer uma dourada de €200 e meter aqui à frente um trambolho. Se se descobrisse petróleo no Algarve, como é evidente, que fosse esse um recurso que tem o valor que tem, Portugal ia ganhar muito dinheiro. Como os recursos são finitos, em vez de a atual e próximas gerações gastarem todos os proventos daquele maná, esse sim oferecido por Deus, que plantou ali aquele magnífico crude em frente a Albufeira, faz-se o quê? Em vez de entrar para o orçamento e ser logo dilapidado em loucuras, constitui-se um fundo soberano. E esse fundo soberano depois é aplicado nos mercados financeiros, vai crescendo.
E multiplica-se.
Multiplica-se e de repente tens uma almofada, uma reserva, um colosso, como o fundo mais conhecido é o Fundo Soberano da Noruega, justamente por causa do petróleo do Mar do Norte, por isso é que eu me lembrei do petróleo do Gigi. E assim constitui-se um fundo soberano, que é uma espécie de reserva nacional, que está ali e que pode servir em caso de necessidade, às gerações atuais e às gerações futuras, porque é uma riqueza que nós não criamos, que nós não geramos.
E que vai desaparecer.
E que vai desaparecer. Coisa diferente é um país endividado, um país pobre, um país sem grandes recursos naturais, um país com uma carga fiscal esmagadora sobre os indivíduos, sobre as empresas e sobre a economia, decidir que vai criar, que só pode ser com o dinheiro dos contribuintes, um fundo soberano. O custo de oportunidade, ou seja, o erro de não abater a dívida, o erro de não baixar os impostos e a estupidez absoluta e injustificável de extorquir mais dinheiro para entrar no capital de empresas onde, por definição, o Estado não deve estar. Nós falamos da Efacec e da TAP, mas a lista nunca mais acabava.
Claro.
E há até empresas de sapatos: "É preciso salvaguardar o emprego em Fornos de Algodres. As confeções também vão ao ar. Onde é que está o nosso Fundo Soberano? Fundo Soberano, vai salvar os sapatos de Alvaiázere, salva os sapatos de Alvaiázere, que estão lá 152 postos de trabalho." Isto serve para transformar o país inteiro numa enorme clientela do poder político.
Mas acho que há um outro ponto, e continuando a imaginar essa reunião em que estão a tentar ter ideias, dá-me a sensação de que este governo, de que Luís Montenegro chegou ao governo sem um plano. E, portanto, estão a improvisar. Há umas semanas a Economist tinha um artigo muito giro a propósito do novo primeiro-ministro inglês e sobre esta questão dos 100 dias, o que é que vão fazer nos primeiros 100 dias. E o argumento do artigo era o de que os primeiros 100 dias são efetivamente os momentos em que os governos, pelo menos no Reino Unido, tomam as grandes decisões. E eles davam exemplos. O Tony Blair, a independência do Banco de Inglaterra foi decidida ao quinto dia.
Avolução.
A devolução, 14º dia. Salário mínimo, primeiro mês. Ao fim de oito semanas, a Lei dos Direitos Humanos. Ao fim dos primeiros 100 dias, a criação de um presidente da Câmara de Londres. Depois dá o exemplo do Cameron. Decidiu que iria haver o referendo sobre o Brexit ao 21º dia. A Theresa May decidiu um Brexit duro ao 82º dia. O Boris Johnson decidiu no primeiro dia aumentar a imigração. Ou seja, o ponto deles é: um governo tem força para tomar decisões e para implementar o seu plano, aquilo que o vai definir para a história, nos primeiros 100 dias. Depois começa a perder capital político. E a verdade é que Luís Montenegro, se contarmos de 2024, o primeiro governo, já passaram 870 dias. Se contarmos do segundo governo, 2025, passaram-se 441 dias e não há plano. E quando não há plano, há invenção. E o Fundo Soberano é uma invenção. Temos que ir pro intervalo, desculpa. Já me estou a respirar no cangaço. Já voltamos para falar um bocadinho mais. Vindos de volta ao Realpolitik, Sérgio, pra acabarmos aqui a rentrée.
Já estou a ser vítima de censura.
Como sempre.
Como é habitual. Quero uma T-shirt também.
Preparem o alicate e a faca aquecida.
Não, eu queria dizer que, primeiro dizer que eu acordo contigo, porque realmente, o próprio Luís Montenegro está a teorizar este modelo político que assenta em não ter condições para governar e mesmo assim continuar lá sentado a fazer fundos soberanos. Eu vi. Tendo designado os temas do dia, alguém me obrigou a ouvir do princípio ao fim o discurso do primeiro-ministro, e o primeiro-ministro explicou que seria realmente ideal ter maioria absoluta, mas não há problema nenhum em não ter. Não há problema nenhum em não ter, porque o país continua a ser transformado Profunda e metodicamente. Do seu ponto de vista, no fundo, tudo vai dar ao mesmo. A prova que não vai dar ao mesmo é que não tendo conseguido encontrar no quadro parlamentar um modelo estável de sustentação do governo e de diálogo franco e leal, como ele consegue manter, por exemplo, com o CDS, que está no governo. Mas é possível ter um diálogo franco e leal com partidos que não estejam no governo, desde que exista confiança e desde que exista uma preocupação comum com o interesse nacional e desde que exista disponibilidade para ceder, porque é impossível uma negociação em que não haja cedência de ambas as partes. É assim que se governa em condições. Coisa diferente é guerrear contra todos, não conseguir acordos nenhuns, levar os assuntos ao Parlamento, tudo ser derrubado e no dia seguinte ir para o Pontal explicar que maioria absoluta ou à volta dela.
Sim.
Nada nos impedirá de dar a Portugal um fundo soberano.
O governo queria privatizar a TAP 100%, como não tem maioria absoluta, não consegue, mas é indiferente. Queriam uma reforma do regime laboral.
Não, passou a defender.
Certo.
Por exemplo, pessoas como eu. Eu sempre defendi e defendo a privatização integral da TAP. E achava que o governo ia dizer assim: "Bem, infelizmente, neste caso, o Partido Socialista é outro e o Chega, que é também um patriota da aeronáutica. Bom, não querem, eles não querem, mas eles não têm razão, porque a solução ideal era vender 100%." Não, eles dizem: "Isto está uma maravilha, vamos vender 44, não sei que por cento, não sei o que ficamos lá a fazer."
Certo. Sim, mas quer dizer-
O remanescente vai ser vendido a quem? Por que preço? Quem é que quer uma empresa e um investimento daquela ordem de grandeza quando não tem qualquer palavra ou qualquer decisão? Não sabemos.
O Luís Montenegro dizer-nos que é indiferente ter maioria ou não ter maioria, só para se passar por reformista.
Não, mas uma coisa é certa: vamos ter o fundo soberano. Bom, e então com o fundo soberano, agora lembrei-me desta sobre o fundo soberano.
Pensões.
Eu tenho que dizer isto.
Ainda vais ao fundo soberano mesmo.
Sim, na sua manifestação elétrica, ou seja, na REN. Repara, o poder político, ou seja, entre governo e Parlamento, não tem nada a ver com REN. Não tem nada a ver com a assembleia geral da REN e com os acionistas e com o representante do Estado, que na posição do senhor Ortega, um dia vai bater à porta e vai dizer: "Aqui estou, para defender o interesse estratégico, para baixar os preços, para fazer uma boa aplicação. Aqui estou eu." Chega à assembleia geral. O que é que está fora da decisão da assembleia geral? 40% do preço da energia. E agora passo a citar: custos de interesse económico geral, subsídios à produção renovável, convergência tarifária dos ilhas autónomas, IVA, imposto especial de consumo, taxa não sei o quê, contribuição ao audiovisual, tudo isto, 40%. Quem é que decide isto? É a REN? Não. Quem é? É o governo. Onde? No Orçamento de Estado. Portanto, o governo tem o poder todo. O governo tem o poder legislativo, o governo tem o regulador. O Estado, o interesse público está de tal lado, está muralhada, a REN está muralhada. Mas não. Graças a mais algum militante do PSD mais dotado, vai representar-nos a todos nas assembleias gerais da REN, com grande proveito para o país, mais uma vez, não se mexendo naquilo que toda a gente sabe que é preciso mexer: baixar a dívida. E porquê baixar a dívida? As pessoas têm que perceber que baixar a dívida também não é uma coisa abstrata, de dizer: "O Estado, mais dívida, menos dívida, o que é que isso tem a ver com a minha vida?" Tudo! Tem a ver tudo com a vida das pessoas. Tem a ver com o preço a que o país se financia. Tem a ver com o preço a que os bancos financiam. Tem a ver com o juro que nós pagamos pelas nossas casas. Tem a ver com o risco que nós excluímos de passarmos pela ordália dos anos 2009. Ter a confiança dos mercados financeiros.
Alguém tem que pagar a dívida.
Vamos financiar-nos ao preço mais barato possível. Todos os países têm que se financiar, não há nenhum país que não se financie nos mercados. Aliás, um dia destes temos que ter as aflições dos Estados Unidos, porque eu acho que é um tema ótimo para nós aqui trocarmos algumas ideias. Quer dizer, tudo isto é crítico para nós e é crítico para os nossos filhos. E tu queres falar agora do próximo tema, que é a questão da Segurança Social.
Quero, sim, senhor.
O problema da Segurança Social.
Já vi como fizeste esta transição incrível.
Épa, isto parecia-
Atenção
...realmente, até eu que não percebo nada de futebol, digo que isto parecia a Espanha a jogar.
Completamente. O tiki-taka do comentário jornalístico.
Repara, quer dizer-
Pensões
...a viabilidade da Segurança Social depende do crescimento da produtividade do país. Por quê? Porque a dinâmica demográfica é negativa. Se nós cada vez temos pessoas, felizmente, que vivem mais anos, se cada vez temos mais idosos, cada vez temos mais pensionistas e se cada vez temos menos gente a trabalhar por causa da questão demográfica, nascem menos pessoas há algumas décadas, então é preciso que a riqueza produzida, porque um desses indivíduos que vão descontar para pagar as pensões dos outros, seja uma ordem que produza mais riqueza. Ora, o crescimento da riqueza que cada um produz chama-se produtividade. Por hora, produz mais e melhor. Ora, como é que nós mexemos na produtividade do país? Nós temos que contribuir para que o país se modernize, para que as empresas invistam, para que as empresas possam manter a mão de obra qualificada pagando salários decentes, em vez de assistirem a esta hemorragia para o estrangeiro. Nós precisamos de libertar a economia Uma das formas de libertar a economia é acabar com o cupo. Não é a única, antes fosse, então tínhamos a salvação para todos os problemas, não só: "É baixar os impostos, é preciso baixar os impostos." Mas o governo não vai baixar os impostos. O governo vai refastelar-se nas cadeiras da Assembleia Geral da REN. Para quê? É o custo de oportunidade, que se reflete na economia e, portanto, reflete-se também no problema que vamos tratar, que é o problema da Segurança Social.
E o governo já disse que não vai, apesar de ter encomendado este estudo.
Já se percebeu que é para a gaveta, que vai direitinho para a gaveta.
Aliás, o estudo foi apresentado a 18 de agosto, que, como se sabe, é precisamente o dia em que o país está atento.
A este tipo de coisas.
No meio de agosto está desejoso de ler 600 páginas sobre a sustentabilidade da Segurança Social. O estudo pareceu muito realista, porque, por um lado, diz-nos uma coisa que nós já devíamos saber, que é a de que isto é cada um por si. Se as pessoas estão na ilusão de que vão ter o Estado a pôr-lhes a mão por baixo quando chegarem à reforma, desiludam-se. Portanto, quem puder arranjar uma solução para si, arranje. E depois, ao mesmo tempo, o estudo reconhece um bocadinho que nós somos um país pobre.
Também foi uma descoberta de 600 páginas para descobrir isso.
Não, mas quero dizer...
Imagina o tipo que usaram o Word.
Porque aquelas propostas são, de facto, muito poucochinho. Se calhar as pessoas podiam, quando fazem compras no supermercado, criamos um sistema em que arredondam, em vez de pagarem €24,50, pagam 25 e os cêntimos...
Mais uma invenção portuguesa, certo? Mais um caminho original português. Fazer o que os outros fizeram e correu bem? Não. Fingir que se fez alguma coisa? Sim.
Até há uma ideia que há na Alemanha, que é criar uma conta logo desde que as criancinhas nascem, em que o Estado vai pondo €15 por mês ou algo parecido, e em que depois pegamos nas notas que a avózinha dá ao netinho no Natal.
As do Salvador.
Exato. O netinho vai pôr naquela conta, mas ao mesmo tempo com o reconhecimento de que aquele dinheiro que ali está, as pessoas podem precisar dele para a vida delas e, portanto, podem levantá-lo. Enfim, mas tudo isto é um bocadinho deprimente no sentido em que se nem um grupo liderado por Jorge Bravo, que é conhecido por ter ideias claras e diferentes.
Mas atenção, que estás a esquecer um detalhe da maior importância. O PCP já veio alertar que esse bando de energúmenos representam marionetas do grande capital e dos mercados financeiros.
E do neoliberalismo de casino.
Atenção!
Certo.
Pronto, depois não digas que não foste avisado.
Certo. Mas se até aqui há uma desistência, e depois que vimos no governo, uma desistência de sequer tentar ter esta conversa adulta com as pessoas, é sinal do que vai acontecer. Vai haver uma diferença cada vez maior entre o último salário e a pensão, portanto, as pessoas vão receber-
Vão para a miséria. Mas ó Miguel, eu pergunto o seguinte: se não se resolver o problema do crescimento económico e da produtividade do país, que é a mesma coisa, como é que vai ser possível financiar a Segurança Social, a não ser esmagando os nossos filhos com impostos?
Certo.
Nós temos de ter uma conversa. Já que o país não consegue conversar sobre isto, já que o governo, confrontado, primeiro não aborda o assunto. Nós não somos obrigados a ser especialistas em Segurança Social. Nós há anos que ouvimos pessoas a dizer que a Segurança Social está estável e cheia de saúde.
Apesar das pessoas continuarem a dizer.
E outros a dizerem que a Segurança Social é insustentável. Então agora o governo, provavelmente para tirar teimas, pediu uma equipa que produziu 600 páginas de meditações. Os Marco Aurélios da Segurança Social também fizeram os seus pensamentos. Agora, nós sem lermos as 600 páginas, porque eu próprio estou de acordo com os banhistas, não é coisa que me apeteça agora devorar.
Mas olha, já tenho. Vou dedicar-me a isto.
Pronto. Agora vou-te perguntar o seguinte: como é que é possível, num país onde as pessoas pagam os impostos que pagam, terem poupança para investir num pé-de-meia que se vá somar aos seus descontos para a Segurança Social?
Claro.
Como é que é possível? Então quer dizer, as pessoas vivem vidas que não são vidas. As pessoas vivem ali miseravelmente, a ver se podem comprar aquela coisa e aguentar-se até ao fim do mês. Uma classe média que está estraçalhada. E depois, fazer descontos brutais, o empregador fazer descontos brutais, toda a gente faz descontos brutais. Em cima temos que poupar, porque já sabemos que a nossa velhice vai ser uma velhice desamparada. O melhor que nos pode acontecer é ficarmos doentes, porque assim somos internados e o hospital toma conta de nós e dá-nos uma ração. Como é que é possível criar isto tudo? Isto não é possível. E não são precisas 600 páginas.
Mas esse é que é o ponto, de facto, é que não é propriamente como se surgisse quando as pessoas se reformam, milagrosamente, uma pensão. E então, vocês têm aqui uma pensão milagrosa e agora façam a vossa parte, que é poupar um bocadinho, arredondar nas contas do supermercado para pouparem algum dinheiro. Não As pessoas já fazem descontos brutais e os empregadores também.
É a nossa poupança no nosso modelo social. É a nossa poupança, verdadeiramente.
Não havendo uma conversa séria sobre isto, parece que, em certo sentido, existe uma responsabilidade das pessoas. Quando é o peso dos impostos que impede que elas consigam poupar mais do que aquilo que já poupam. De facto, como tu dizes, para podermos entrar na reforma.
Eu prefiro mil vezes o modelo europeu ao sistema americano, sinceramente, não há comparação possível. Mas o sistema americano, lá está, não há proteção social comparável à europeia, mas em compensação os impostos são mais baixos e as pessoas quando querem investir a sua poupança. A poupança não é ter uma meia gigante cheia de notas debaixo da cama. A poupança é pegar naquilo que nos sobrou no fim do mês e aplicar numa coisa qualquer, ou num produto financeiro, ou numa casa. Aqui na Europa, e sobretudo no sul da Europa, como os mercados financeiros, imagine-se uma pessoa andar a poupar dinheiro para meter na Bolsa de Lisboa.
Sim, claro. Em nota.
O que é que se faz aqui em Portugal com os nossos casas. O que é que isso contribui para o problema? Para o problema de termos um preço da habitação elevadíssimo, porque a nossa reserva de valor nacional é o imobiliário. Tens dinheiro? Bomba. Lá vai mais uma entrada para uma casinha que vou ficar a pagar. E tu pensas: "Pronto, já não estou a gastar o dinheiro, tenho aqui um compromisso financeiro que me obriga a poupar e no fim vou ficar com esta casa." Isto em Portugal agora chama-se ter duas casas.
Sim, uma especulação imobiliária.
É um país de Elon Musks imobiliários. Sempre que tenho um tostão, vou comprar um casero.
Temos seis minutos só para tocarmos o último tema do Jason Arde. Eu não vou contextualizar, as pessoas sabem do que estamos a falar, se não sabem, também o Google ajuda rapidamente. Que lição é que tu tiras daqui? Ele começou por ser um símbolo da chamada DEI, de diversidade, o mais jovem professor negro na Universidade de Cambridge. Depois percebeu-se que era um fantasista, que além de ter inventado e plagiado o trabalho académico, tinha inventado episódios de vida, que veio a comprovar-se que eram totalmente falsos. Acabou por ser despedido, ou por se despedir de Cambridge. Obviamente, este assunto foi tratado em todos os jornais ingleses, e não só, e ele foi encontrado morto há uns dias. Um final completamente trágico. Há alguma lição a tirar disto?
Antigamente, os antigos preocupavam-se com as lições que se podia tirar da experiência humana, mas fundamentalmente achavam que o sentido para a vida estava na contemplação. Quer dizer, nós temos que contemplar o fenômeno da vida à nossa volta, observá-lo. Isso por si só justificava a existência. Nascemos para contemplar. E a verdade é que uma pessoa olha para este episódio inglês. E eu, no meu modesto exercício contemplativo, só tenho duas coisas a dizer. Primeiro, a universidade fracassou. Quem o validou foi a universidade. Quem fracassou foi a universidade. Quem merecia ter sido vítima do bullying brutal de que este ser humano foi vítima, portou-se bem, portou-se mal, foi vítima de um bullying desumano. Repara, antigamente, outra vez voltando aos tempos antigos, as pessoas eram lapidadas. Não vale a pena citar o episódio bíblico. Apareciam 20 ou 30 ferozes cidadãos, não eram cidadãos, coitados, mas enfim, protocidadãos, ou sei lá o que fosse, nativos, indígenas, pessoas que iam vagar, e atiravam pedras a uma pessoa e ela era assassinada e morria debaixo de uma montanha de pedras. Eram lapidadas. Hoje em dia, as pessoas continuam a ser lapidadas, só que já não é com pedregulhos atirados por gente com uma ideia elevadíssima de si própria. É tudo, é o filho, é a mãe, é o homem do talho, é o surfista, toda a gente tem tempo para ir à rede social sem perceber nada de nada. Toda a gente opina sobre tudo, sempre num tom irado, revoltado, zangado, pré-insurrecional. Aqui, o objeto da ferocidade da multidão, da turba, jornais incluídos, foi o indivíduo. O indivíduo morreu, matou-se, não quis aguentar. Neste mundo global, unido, desunido em tudo, mas unido no ódio contra mim. Não quero continuar aqui. Matou-se. Pronto, parabéns. Estivemos todos bem.
Sinto que há aqui um ponto que é a questão das universidades. A Spectator escreveu um artigo em que percorre as várias loucuras das universidades inglesas.
Mas há um preço que vai ser pago pelas universidades.
Não, claro.
Em desprestígio.
Não, mas já está. Eles contam o caso na London School of Economics de uma professora que é também profissional da dança do varão e que tem como único tema de investigação académica os profissionais de Da dessa do verão. Conta que em Exeter é possível frequentar um mestrado e um doutoramento em magia e em ciências ocultas. Fala de uma licenciatura em e-sports. Conta-nos que na Universidade de Edimburgo é explicado aos alunos do curso de matemática que o grande objetivo da matemática é a descolonização. É descolonizar.
Esta é extraordinária.
Pronto. E conta o caso de um professor de Literatura Inglesa, um especialista em Shakespeare, que escreveu um artigo numa das principais revistas que existe sobre Shakespeare, a propósito do quarto centenário da publicação da primeira grande obra a reunir peças do Shakespeare, em que ele diz que acha que não se deveria estar a dedicar energias, num momento de emergência internacional, à produção de ainda mais investigação acadêmica sobre um livro com 400 anos.
Mas esta é uma pessoa que está a proteger os seus interesses.
Não quero falar sobre Shakespeare.
É um idiota. Naturalmente que o idiota tenta proteger-se das pessoas mais capazes. É a única explicação. Que uma faculdade seja compatível com um discurso antiliberdade, antipensamento, anti-história, antitradição, anticonhecimento acumulado. Onde é que ele apareceu? Apareceu nos Montes Apeninos, numa gruta? Não, apareceu nos centros, na luz que ilumina o universo, nas universidades. Isto só mostra a crise profunda do ensino universitário. E o que vai acontecer? Vai demorar tempo. Essas universidades vão pagar um preço horrível, porque os alunos hoje vão para lá para receberem como o gado recebe uma marca. Um sabre a dizer: "Herdade Miguel Pinheiro." Lá aparece HMP. As pessoas vão para essas universidades para saírem com uma marca: Oxford.
Claro.
Essa marca, essas marcas vão acabar. Vão acabar porque se autodestroem, porque ninguém tem a coragem moral de travar este declínio. Porque existem tantos adjetivos novos para aplicar às pessoas que querem resistir à destruição da cultura e da civilização, que ninguém se presta a esse serviço. Tu já ouviste falar de uma coisa giríssima chamada-
Uma coisa que me vais contar em cinco segundos.
Sim. A Bíblia Politicamente Correta de Oxford.
Não.
Jesus já não se encontra com um cego, cruza-se com um invisual.
Percebo.
Porque cego, como calculas.
Não se pode.
É uma palavra que nós já não aplicamos às pessoas que são visuais.
O Reino Unido está a discutir este assunto. Acho que era interessante também tentarmos perceber como é que as nossas universidades estão hoje em dia. Se calhar íamos ter algumas surpresas também. De qualquer forma, Sérgio, voltamos para a semana. Isto agora acabou as férias. Para a semana estamos cá.
Cá estaremos.
Não é?
É a vida.
Então vamos a isso. Um abraço.