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E junta-se a nós Maria João Tomás. Maria João, muito obrigada pela disponibilidade. Uma primeira reação a este discurso, que foi muito igual àquilo que foram os dois anteriores, mas há alguma parte surpreendente?

Boa noite, obrigada pelo convite. Eu acho que o Biden está a justificar o injustificável, que é a retirada precipitada dos Estados Unidos do Afeganistão. Estão a correr imagens da quantidade de armamento que foi deixada pelas tropas americanas para os talibãs, de mão beijada, equipamento esse que é terra, ar e que dava para equipar muito mais do que o nosso exército.

Sim, mais do que um país.

Exatamente, tomáramos nós. Desde aviões, desde helicópteros, que eles não têm pilotos, mas já se começaram a ver uns tantos a voar, mas eles não têm pilotos suficientes nem treinados para pilotar aqueles aparelhos. Portanto, o Biden está a justificar o injustificável, que é a forma apressada, atabalhoada como ele largou o Afeganistão e entregou aos talibãs depois de uma derrota americana, porque isto é uma derrota americana, entregou tudo. Da primeira vez que os americanos entregaram o poder aos talibãs, entregaram-no como recompensa de uma batalha contra a União Soviética. Desta vez, entregaram o poder aos talibãs por uma derrota. Isto deixa os Estados Unidos numa posição contrária, numa posição de fragilidade.

Mas, Maria João Tomás, é de facto uma repetição daqueles outros dois discursos, e a verdade é que as críticas não se fizeram esperar logo da primeira vez que Joe Biden falou sobre o assunto, precisamente relativamente a essa desresponsabilização, de alguma forma, dessa, eu vou dizer até a expressão que até foi utilizada em Portugal, que é o sair de cabeça erguida desta guerra. Por que Joe Biden não muda o discurso? Não há maneira de o fazer? Não deveria ser diferente depois de tantas críticas?

Devia ser diferente, mas o que está a acontecer no terreno é exactamente ele estar a tentar justificar aquilo que é injustificável e que está a acontecer no terreno. Vêem-se notas e uma quantidade enorme de dinheiro. Eu acho que aquilo é dinheiro afegão, não penso que sejam dólares. Quem levou os dólares foi o Ghani. O presidente Ghani levou nas malas com ele e acho que deixou duas ou três que não cabiam no avião. Agora, o dinheiro que nós vemos nos filmes que estão a passar, que os talibãs filmam, eu penso que será dinheiro afegão que cabe em casas. Aquilo forra metros quadrados de casas, em altura para aí de dois metros. Imaginemos a quantidade de dinheiro afegão que ali está, para não falar nas armas. Há aqui uma saída muito precipitada. Houve muito tempo por parte dos Estados Unidos para fazer isto. Não nos podemos esquecer de uma coisa: isto realmente foi assinado entre o Trump.

Exatamente, e os talibãs.

Isto não foi só o Trump que negociou. Obama já estava a pensar e houve negociações para o fazer com os talibãs. Houve muito tempo por parte dos americanos para não saírem da maneira como saíram. E é de uma forma que enxovalha os Estados Unidos. Pior que isso, ele que está tão preocupado, porque diz que agora a preocupação dele é a Rússia e a China, ele está a deixar o lugar vago para a Rússia e para a China que tomaram o lugar dois dias depois. Terceiro aspecto importante: negociou com os talibãs, é certo, o Obama já tinha pensado em negociar com os talibãs. O Trump negociou efetivamente com os talibãs. E agora eu faço uma pergunta: o ISAF esteve presente no Afeganistão para conduzir o processo democrático. Houve eleições, ganhou o Ghani, teve como segundo o Saleh, e as negociações não foram feitas com o presidente que foi eleito democraticamente. Uma das batalhas dos Estados Unidos: criar uma democracia no Afeganistão.

Mas agora Joe Biden nega que esse fosse o objetivo. Esse podia ser um caminho, mas o destino final não era esse, era só neutralizar a ameaça para os Estados Unidos. É isso que ele tem dito nestas intervenções.

Certo, mas qualquer negociação de retirada das tropas no Afeganistão nunca deveria ser feita com os talibãs, mas com quem tinha sido eleito, de facto, democraticamente. E é por causa disso que o vice-presidente, o Saleh, que está neste momento em Panjshir, diz que é o presidente eleito do Afeganistão. Há aqui uma contradição enorme, há várias contradições. O Biden diz que a ameaça já não se justifica, por isso vai-se retirar. Mas não nos podemos esquecer que a missão do ISAF, durante muitos anos, foi tentar estabelecer e apaziguar primeiro o país, criar condições de segurança para que florescesse a democracia. Isto é uma contradição dos termos. Ele faz muitas contradições e está a tentar justificar e salvar o seu próprio discurso e está a tentar salvar aquilo que ele tem estado a fazer, que está a ser altamente criticado, inclusive pelos democratas, como é óbvio. Dentro do próprio partido, está a ser alvo de muitas críticas, mas os republicanos estão a atacá-lo com todas as forças que têm. Inclusive o Trump já veio dizer que se estas coisas correrem mal, se ele fosse presidente, já estavam a deitar bomba logo a seguir. Da parte do Biden, há uma série de contradições e o que não se explica é que tenha sido negociada a saída com os talibãs e não com o presidente democraticamente eleito. E sendo o vice-presidente, estando presente no Afeganistão e que não é reconhecido e são reconhecidos os talibãs. Há aqui uma inversão da ordem.

Sim, talibãs que dizem que o novo governo no Afeganistão já está praticamente composto e vai ser concluído nos próximos dias. Vai ser anunciado esse governo. Vamos ver qual será a reação internacional, obviamente. Mas Maria João Tomás, eu gostava também de lhe perguntar se não há aqui um bocadinho de provocação neste discurso, porque ao mesmo tempo que se diz: "Esta guerra não é nossa, nós não queremos estar presentes", há aqui esta sede de vingança, de alguma forma, por aquilo que aconteceu no atentado terrorista da passada semana.

Ele está aqui a pôr muito foco no ISIS-K, portanto, no ISIS do Khorasan. Ele está a pôr muito foco aí, porque eles reivindicaram o ataque e está a pôr aí muito foco, que o foco do possível ataque terrorista seja deles, ou seja, confiando que os talibãs vão conseguir manter o país coeso e vão conseguir manter a ameaça terrorista afastada. Esse foi um dos pontos-chaves da negociação americana com os talibãs das três administrações, sobretudo a do Trump e agora a do Biden, foi manter a ameaça terrorista longe. A China e a Rússia pediram o mesmo aos talibãs. Só que os talibãs vendem-se. Vendem-se por quem lhes paga mais. E se da primeira vez tiveram lá a Al-Qaeda, porque também lhes pagava para eles lá estarem, desta vez não me admirava nada que deixassem entrar ou fingissem que não viam a entrada de outros grupos para além do ISIS-K. O ISIS-K não tem organização, não tem uma base, tem várias bases, está disperso por todo o Afeganistão, e há muita deserção dos talibãs para o ISIS-K.

E lembrando até aquilo que o próprio Joe Biden falou no discurso, a questão de os talibãs terem, nessa ofensiva, ainda na altura em que os Estados Unidos controlavam grande parte do território, mas em que os talibãs já tomavam conta de algumas províncias, quando libertaram todos os presos de uma dessas províncias, também libertaram precisamente algumas figuras importantes desse grupo.

Do ISIS-K e de outros grupos também. Os americanos aqui assim também têm uma quota parte de culpa nisto, mais uma. É todo o processo, os Estados Unidos estão envolvidos nisto de uma forma muito negativa. E a forma como ajudaram a libertar os presos, fez com que realmente saíssem e fossem em liberdade líderes deste ISIS-K que tinham sido presos exatamente por ameaça terrorista. Há aqui uma série de contradições. Eu acho que o Biden está a justificar esta mess, esta confusão toda que ele criou no Afeganistão. Havia muito tempo para fazer uma retirada como deve ser. Não se justifica a quantidade de armamento, nem de dinheiro que deixaram às mãos dos talibãs. Os Estados Unidos não saem de cabeça erguida nisto, antes pelo contrário, saem muito comprometidos com o próprio futuro do Afeganistão e com o próprio futuro do terrorismo mundial. Vão cobrar muito aos Estados Unidos por aquilo que se vai passar a seguir. Não só internamente no Afeganistão, mas também externamente com ataques terroristas. Esperemos que não haja muitos, porque sabemos que quer os talibãs, quer o ISIS-K, e então o ISIS-K usa o medo como tática. Aliás, os talibãs também o têm feito. Estão a correr nas imagens do Sunday, da CNN, aquela peça daquele pivô, daquele jornalista a discursar com os talibãs todos atrás, super armados e ele petrificado de medo.

Sim, há uma série de testemunhos que já circulam também de ameaças de morte, de tentativas de coação, de alguma forma, que depois não se traduzem naquilo que será o tal discurso oficial dos talibãs, mas também depois parece que há aqui muito pouca organização interna dos membros.

E é esse o meu receio. O meu receio é que os Estados Unidos estão a pôr demasiado empenho e demasiada fé que os talibãs vão conseguir defender o Afeganistão e criar uma estrutura de Estado. Os talibãs não têm estrutura de Estado, não têm um exército, têm milícias, e milícias que estão afetas a várias etnias e a vários códigos de honra. Portanto, nem todos se regem pelos mesmos princípios. Uns são mais fundamentalistas, outros são menos fundamentalistas, portanto, nem todos se regem pelos mesmos princípios e perante uma determinada situação poderá haver mais que uma solução. Além de que há muitos talibãs que estão a sair das fileiras dos talibãs, descontentes com este acordo feito com os Estados Unidos, porque segundo se sabe, foi criado um corredor para evacuar o resto dos americanos que estão no Afeganistão. E o acordo feito agora, eu vi isto, isto carece que seja confirmado e validado segunda e terceira vez, mas eu vi isto a passar no CNN e vi na CNN, mas carece ser confirmado pelo menos duas e três vezes. E há muitas fações dentro dos talibãs que estão descontentes com este acordo que foi feito agora para retirada dos americanos, dos que ficaram lá no Afeganistão. Há muito descontentamento que facilmente vai para o ISIS-K. Os talibãs não têm estrutura de Estado para aguentar o Afeganistão. E depois têm demasiadas armas e não sabem o que fazer com essas armas. Não me admirava nada que eles de hoje para amanhã fizessem dinheiro a vender essas armas, e se calhar fizessem dinheiro a vender essas armas, provavelmente a grupos terroristas. Não me admirava nada, porque os talibãs, acima de tudo, são senhores de guerra. Sempre foram senhores de guerra, sempre viveram para a guerra e negociaram com a guerra. O ISIS-K também são senhores de guerra. Estamos aqui a criar as condições ideais para haver uma situação de guerra no Afeganistão.

Maria João Tomás, especialista em assuntos do Médio Oriente e também professora da Universidade Autónoma. Muito obrigada pela participação e pela análise a este discurso de Joe Biden