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A situação nesta hora não pode estar controlada, porque de uma certa forma a manifestação ainda não acabou completamente. Os últimos estão a chegar à Place de la Nation, num caminho muito específico entre a Praça da República e a Praça da Nação, que é, entre aspas, mais fácil para poder seguir as manifestações e ter intervenções tanto da polícia como dos bombeiros. Mas sim, de facto, estamos a assistir a uma manifestação em Paris e fora de Paris mais consequente do que o habitual e vi que já há um apelo para nova manifestação na próxima quinta-feira. Agora estamos numa realidade um tanto lógica. Os movimentos chamam à manifestação e com alguma razão, essas solicitações, esses pedidos, essas exigências, essa luta, entre aspas, do mundo do liceu e da universidade para ter simplesmente mais meios em termos de professores, em termos de material, mas também no acesso depois ao que é a etapa complementar, ir para a universidade ou ir para uma formação técnica. Todas essas questões já estão há muito tempo no ar e, portanto, essa manifestação é aquela que já todos aguardavam há um certo tempo. Relembro que a França está já em campanha eleitoral, embora as presidenciais sejam apenas marcadas para maio de 2027. A situação é o que nós conhecemos, sobretudo no fim da manifestação, claramente pessoas que não são estudantes, que não são alunos do liceu, que nem são pessoas ligadas aos movimentos, por exemplo, dos professores, que participam para partir, para realmente monopolizar essa presença de muitas pessoas e a mobilização da polícia para claramente chegar ao confronto. Portanto, estamos na fase dois de qualquer manifestação que infelizmente acontece aqui em Paris e noutras cidades. Estamos agora na fase em que uns vão pra casa e os outros continuam pra partir.

Ok, e era mesmo aí que eu ia perguntar. Sabendo que as eleições estão aí à porta, também já não falta assim tanto, você acha que estas manifestações podem dar alguma força, seja a qualquer um dos lados, seja de direita, seja de esquerda, você acha que algum dos lados políticos beneficia com estas manifestações?

Eu posso já dizer quem perde, e quem perde não é apenas o governo, porque nós estamos no último mandato do presidente Macron, que não se pode recandidatar, e a própria capacidade que ele tinha numa espécie de centro político também está a desaparecer. Portanto, todos os candidatos liberais pagam e vão pagar. Relembro que dois dos candidatos às presidenciais francesas foram primeiros-ministros franceses e um deles até foi ministro da Educação. Portanto, esses claramente são aqueles que estão a viver momentos mais difíceis, além do governo, que dá o sentimento de não conseguir ter mão no desenvolvimento desta situação. Depois, mais do que essas forças de esquerda, como por exemplo, o Partido Socialista ou a Place Publique, são os extremos que vão beneficiar. E por uma parte da população ver novamente manifestações, novamente estragos, novamente a polícia mobilizada ou a bater ou a ser batida, traz um sentimento de falta de conforto que beneficia muito claramente mais a extrema-direita do que mesmo a extrema-esquerda, embora ela também faça dessa luta uma forma de pôr em dificuldade qualquer governo e de ficar associada a uma luta que ela defende ser importante e com alguma justeza. Mas, de facto, é isso que está a acontecer. É um aproveitamento por parte de quase toda a classe política, sobretudo nos extremos, do que é uma luta que é necessária, porque de facto, a educação, o ensino, os meios, as condições, o próprio programa que é suposto facilitar os alunos do liceu para terem acesso ao ensino superior e que funciona supermal. Tudo isso são preocupações que devem ser debatidas e meios que devem ser encontrados, onde nós sabemos que a resposta do primeiro-ministro vai ser forçosamente que não há meios para, e portanto, se derem alguma coisa à educação, é porque vão tirar a outro ministério.

Ok. E tendo em conta o histórico das manifestações em França, que já se sabe que escalam muito rapidamente, acha que a situação ainda pode escalar mais do que está agora? Ainda por cima agora também com a adesão dos alunos universitários. Antes era só os do secundário, agora também tem os universitários. Acha que essa situação ainda pode escalar mais? Acha que os confrontos com a polícia, vandalismo, pode agravar?

Nós estamos claramente com esta primeira grande mobilização, um ou dois pontos acima do que é habitual. Portanto, há mobilização. E o fato de se juntarem os estudantes a isso também vai dar força. Agora estamos perto das férias e essas férias é o que o governo espera também para tentar ver a situação acalmar. E estas férias, que são obviamente tradicionais e importantes, têm geralmente como primeira consequência diminuir a própria mobilização Também vejo mal outros setores da sociedade virem a trazer o apoio, eventualmente, mas virem eles próprios a quererem manifestar. Portanto, o que é muito lógico, e mais uma vez a aguardar a resposta do governo, a aguardar também algum posicionamento dos partidos mais centrais, o que se espera é qual é a resposta que pode ser dada, porque de fato, há um problema que é fundamentalmente consequente, que é o enfraquecimento da qualidade do ensino de forma geral. Agora, a mobilização também tem a ver com os números e atualmente, pouco ou muito, estamos a falar de 25% dos estabelecimentos mobilizados. Só 25%, não estamos a falar nem de 50%, nem de 75%. Portanto, é preciso também compreender que essa mobilização também pode ter a sua própria limitação.

Ok. Agora apenas para terminar. Ontem, infelizmente, tivemos a situação do jovem que perdeu a mão. Há algum relato de hoje de situações idênticas? Não digo de perder a mão, mas de confrontos diretos com a polícia ou mesmo de vandalismo, incêndios. Há algum relato?

Isso são duas coisas diferentes. A esta hora, que eu saiba, não houve algo de tão grave e, sobretudo, de uma realidade humana tão grave. Agora, incêndios, estragos, é automático e nem pouco por parte dos manifestantes. É muito por parte daqueles que, de fato, vêm para partir. É preciso ser muito claro nesse sentido. Há claramente nas mobilizações, pode haver excessos por parte de quem está na luta e quer defender os seus ideais, mas há um limite, que muitas vezes é apenas esse confronto primeiro com a polícia que está ou a impedir de passar ou a dirigir a própria manifestação. Agora, quem parte, quem incendia, quem depois fica no choque, são pessoas que não têm rigorosamente nada a ver com o movimento, têm a ver com a vontade de partir, a vontade de roubar, a vontade de utilizar esse tipo de manifestação também para, muitas vezes, naquela ideia de lutar contra o estabelecimento, lutar contra o governo, contra as entidades oficiais.

Ok, então só pra ver se percebi. O senhor acha que a manifestação de um modo geral é boa? É boa no sentido de que realmente o sistema de educação em França não está bem, mas os excessos que se veem nesta manifestação já é de pessoas que vão para a manifestação mesmo com esse intuito, já não tem nada a ver com a educação, simplesmente vão para a manifestação com o intuito de arranjar sarilhos.

A luta é justificada, o meio numa democracia de lutar passa pela possibilidade de manifestar, e assim é autorizada e é assim é organizada. Agora, claramente, a questão dos excessos tem a ver com uma parte muito pequena de pessoas que vêm, essas, sistematicamente para estragar, para distúrbio, com intenções que vão desde muito individuais a roubarem e a partirem, ou então essa ideia organizada de lutar contra as instituições e claramente essa noção de poesia e revolução é para eles uma forma de o conseguirem. Agora, mais uma palavra, nós estamos a falar de Paris ou outras cidades, estamos a falar provavelmente entre 250 mil a 400 mil manifestantes sobre todo o território. Aqui em Paris, esse espaço entre a Praça da República e a Praça da Nação é a única que tem distúrbio, o resto está tudo normal. Os putos na escola, as pessoas nos parques, estão nas empresas. Quer dizer, é isso que é preciso compreender. A noção de manifestação é algo que não mexe forçosamente com toda a sociedade e é por isso que alguns utilizam, inclusive a presença maciça da imagem e da imprensa e das redes sociais para tentar aproveitar-se do movimento.

Ok. Muito obrigado, Hermano Sanches Roux.

Bom trabalho e boa continuação.

Obrigado. Continuação, obrigada.

Obrigado, até mais.