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10 anos depois, Marco Silva regressa ao futebol português. O técnico de 49 anos está agora num dos maiores desafios da carreira: orientar o Benfica, numa altura com muitos pontos de interrogação ao redor do emblema encarnado. Marco Silva deixou a Inglaterra com uma marca bastante louvável. É o segundo treinador português com mais jogos na Premier League, mas o caminho nem sempre foi debaixo dos grandes holofotes. Como jogador, Marco Silva iniciou a carreira nos juvenis do Clube Desportivo Cova da Piedade e na carreira, enquanto sénior, representou emblemas como Belenenses, Estoril, Salgueiro e, por fim, o Estoril Praia. Foi também no emblema estorilista que iniciou a carreira enquanto treinador. A pergunta que pode sobressair nestes momentos de análise ou sequer de balanço de carreira é a seguinte: como é que estas experiências moldaram Marco Silva enquanto pessoa e enquanto treinador? Nesta análise tenho João Fortes Rocha, licenciado, mestre e doutorando em História Moderna e Contemporânea pelo ISCTE e também pela Università di Pisa. É também autor de obras “Estoril Praia, 80 Anos, 80 Figuras” de 2019. Este ano lançou uma nova obra biográfica, “Marco Silva, Um Percurso Mágico”. João, muito bom dia, bem-vindo à Rádio Observador. Este Marco Silva, que surge 10 anos, uma década depois, no campeonato português e pela porta de um candidato ao título, quem é este Marco Silva? E já agora, se é a altura ideal para não só regressar a Portugal, mas também para assumir um clube que lhe é muito querido.

Muito bom dia, João. Muito bom dia a todos os ouvintes da Rádio Observador. Respondendo diretamente à questão, é o momento ideal, porque é uma altura em que era preciso mudar um pouco aquilo que eram os objetivos de carreira e lutar por títulos e novamente chegar a competições europeias. Acho que faz todo o sentido para o percurso do Marco e da sua equipa técnica. E portanto, acredito que o Benfica é um clube que, com a sua grandeza, irá proporcionar todas as condições para lutar pelas quatro competições em que está envolvido nesta temporada.

Mas já agora, falou desse aspeto bastante importante no futebol e em todos os desportos coletivos individuais, a conquista de troféus, a conquista de títulos. Sabemos, tanto o Everton como propriamente o Fulham, na última parte da presença do Marco em Inglaterra, que eram sempre emblemas que não estavam propriamente perto dessas conquistas, mas também tinham outro lado, que era essa competitividade numa das melhores ligas do mundo. Sente que essa competitividade que ganhou na última década é algo que ele vai usar bem no Benfica?

Sem dúvida. E acho que na forma de jogar do Benfica já é visível a intensidade com que o Benfica está a jogar, apesar do empate de domingo, mas a intensidade é perfeitamente visível, que é diferente e o paradigma da equipa também é diferente. E nessa perspectiva, dizer que naturalmente a Premier League, na opinião de muitos e na minha também, é o campeonato mais competitivo do mundo, mas também há momentos de carreira em que é preciso olhar para outro tipo de situações. E eu entendo que o curso para o Lisboa e Benfica, à semelhança daquilo que é o Sporting Clube de Portugal e daquilo que foi o Olympiacos, são clubes que proporcionam essa hipótese de estar em competições europeias e de lutar por competições. Portanto, acredito que é um momento muito oportuno para este regresso a Portugal, pela porta de um dos maiores clubes nacionais. E portanto, acho que o timing é perfeito, porque o ciclo no Fulham foi terminado com um fim de contrato e com uma proposta de renovação, portanto, não foi interrompido a meio de nenhum contrato. E portanto, foi uma circunstância muito feliz para o Lisboa e Benfica e para o Marco, este regresso ao campeonato português.

Vamos agora olhar mais atentamente a esta obra. Fala não só daquilo que é o percurso do Marco desde os juvenis do Clube Desportivo Cova da Piedade, também a presença em vários emblemas, muito aqui na região de Lisboa, o caso do Belenenses, o caso do Estoril, o caso do Odivelas também. Eu pergunto-lhe, e até porque o título sugere isso, “Marco Silva, Um Percurso Mágico”. Pergunto-lhe que momentos mágicos, que momentos marcantes é que realça, acima de tudo do percurso enquanto juvenil e júnior no Cova da Piedade?

No seu percurso como jogador, o que eu realço é a liderança que o Marco foi desenvolvendo em vários contextos e sobretudo como capitão de equipa no Estoril Praia. Antes da chegada ao Estoril Praia e na oportunidade que tive de falar com antigos companheiros de equipa do Marco, o fator a destacar foi a responsabilidade com que o Marco encarou todos os desafios enquanto jogador. Naturalmente que no futebol de formação, o momento mais significativo foi a transição do Cova da Piedade para o Belenenses O Belenenses com uma forte tradição e sobretudo nos anos 90, ombreava sempre com o Benfica e com o Sporting nos campeonatos nacionais de juvenis e de juniores. Portanto, essa transição foi fundamental e a chegada a Belém foi decisiva para o Marco depois tornar-se profissional enquanto jogador.

Novamente olhando para a lista de emblemas que representou, como já referiu, foi no Estoril onde passou mais temporadas seguidas, desde a temporada 2005 até à temporada 2010/2011, mas para trás ficaram, como já referiu, Belenenses, Atlético, também o próprio Braga B, Salgueiros e também Odivelas. Ou seja, estamos a falar aqui de emblemas que não só estavam em Lisboa, como o caso do Estoril, Belenenses e também o próprio Atlético, mas também emblemas já com o seu nome no futebol português. Pergunto-lhe: por que o Marco nunca conseguiu, por exemplo, dar o salto para uma aventura no estrangeiro enquanto atleta? Foi por decisão própria ou porque ele achava que estava melhor nos campeonatos portugueses?

É curiosa essa pergunta e também eu relato um episódio no livro até então desconhecido, quando se dá a saída do Belenenses, antes do Marco ir para o Atlético. Há um período em que o Marco vai para a Inglaterra, para o Tranmere Rovers, um clube da cidade de Liverpool, onde curiosamente depois volta passado mais de 20 anos a Liverpool para orientar o Everton e vai à experiência para o Tranmere. É um episódio curioso. O Marco chega à primeira divisão enquanto jogador, quer no Belenenses, quer depois em Campo Maior. Depois também teve a oportunidade, quando há aquela leva de jogadores portugueses que vão para o Chipre em 2006, 2007, também tem um convite para ir para o Chipre. Mas pesou muito a relação sentimental com Estoril Praia, o facto de querer continuar em Portugal, e também um fator que de certa forma terá impedido de fazer mais jogos na primeira divisão enquanto jogador, foram as lesões nos joelhos. Foi sempre um atleta muito fustigado por lesões nos joelhos e está descrito por vários antigos companheiros de equipa, inclusivamente o Diogo Luis, que nos dá o prazer de falar para o livro e que refere precisamente isso, que as lesões foram um impedimento para que a carreira não tivesse alcançado patamares superiores. Mas essa carreira de jogador permite-lhe depois alavancar qualidades enquanto líder, que hoje em dia são bem vivíveis na função que desempenha.

E essas qualidades que agora referia, concretamente essas seis temporadas ao serviço do Estoril Praia, já eram com esse objetivo de no final da carreira ser um treinador ou era essa característica da liderança que já o acompanhava ao longo da carreira, mas que era algo natural e que nunca foi sequer quase equacionado para ser usado nos bancos enquanto orientador de uma equipa?

O Marco Silva já no Odivelas e com 28 anos, já tinha o segundo nível de treinador feito. Portanto, eu julgo que sempre se preparou para esse cenário, sempre esteve em cima da mesa. Já enquanto jogador, tinha uma inteligência tática também muito vivível e depois a capacidade da liderança no balneário fazia um antever que pudesse enveredar por esse caminho. Naturalmente, depois o sucesso da carreira, isso é algo que advém com os resultados, mas as características inatas de liderança e de conhecimento tático já eram bem vivíveis. Há aqui um episódio também curioso, que o João Coimbra, agora adjunto do Bruno Pinheiro no Académico de Viseu, refere. Ainda enquanto jogador, o professor Neca pediu ao Marco para ir observar um adversário, neste caso o Gil Vicente, e o Marco chegou com um relatório ao treino altamente detalhado sobre a forma como o Gil Vicente jogava. Portanto, vê-se bem que enquanto jogador já tinha claramente essa perspetiva ou de integrar uma equipa técnica, ou de ser diretor desportivo, ou de ser treinador principal. Já ganhou ferramentas fundamentais.

Falou agora do rigor que o Marco já tinha enquanto atleta, ainda no tempo do Odivelas, e eu quero dar o salto já para a carreira de treinador, mas para a primeira experiência no estrangeiro. Foi no Olympiacos. Apenas em uma temporada, o Marco realizou 48 jogos, 36 vitórias e a conquista do campeonato grego. Foi a primeira experiência no estrangeiro de Marco Silva. Pergunto-lhe como é que este sair da zona de conforto e aplicar os conhecimentos técnico-táticos do futebol português, que é muito rico, como nós sabemos, nesses conceitos da técnica e da tática, como é que esta experiência além-fronteiras o moldou para aquilo que o Marco Silva é hoje?

Indo a esse ano de 2015, eu acho que o Marco e a equipa técnica fizeram algo diferente, porque o Olympiacos é um clube historicamente habituado a ganhar, apesar de, por exemplo, não ter sido o campeão grego nessa temporada, nem sempre ganha, mas o objetivo era ganhar e ganhar de forma diferente, mais dominante. E foi isso que aconteceu, com 17 vitórias seguidas, com 28 vitórias em 30 jogos, até com o recorde de pontos. Portanto, foi um ano muito bom numa primeira experiência no estrangeiro e em que o Marco, com a bagagem que tinha do Sporting, com a conquista do título da Taça de Portugal, devolvendo os títulos ao Sporting oito anos depois, chegou à Grécia e impôs um futebol altamente atrativo e dominante. Para além da conquista do campeonato, há a registar também que foi a primeira vitória de sempre de um clube grego em Inglaterra para a Liga dos Campeões. O Olympiacos ganhou ao Arsenal do Wenger por 3x2 em Londres e foi uma sequência de vitórias seguidas, de gols marcados e de pontos conquistados que foi histórico naquele contexto da Grécia. Portanto, acho que a sua pergunta corresponde muito bem àquilo que aconteceu. Esse conhecimento tático do treinador português, e já tinha sido referido também pelo Leonardo Jardim e pelo Vítor Pereira, e depois houve o Pedro Martins, mas esse conhecimento tático da equipa técnica toda e da sua liderança trouxeram um paradigma diferente ao Olympiacos.

João, vamos agora debruçar-nos só muito rapidamente, até porque estamos a ficar sem tempo, sobre alguns depoimentos. Já falou desse testemunho do Diogo Luís acerca do Marco enquanto companheiro de equipa, também enquanto, e passo a citar algumas palavras do Diogo Luís, "um jogador aguerrido, que cruzava bem e que apenas o joelho não lhe permitiu ir mais longe na carreira". Mas pergunto-lhe, até porque o livro tem depoimentos também de Pep Guardiola, de José Mourinho, do próprio Carlos Queiroz, qual é o depoimento que pode ser mais marcante, quer para o Marco, mas também para o leitor?

Eu acho que é uma excelente questão e eu diria talvez do Tiago Ribeiro, porque foi o primeiro presidente que apostou no Marco Silva e o Tiago descreve a forma como o via enquanto atleta, capitão de equipa, depois o trabalho que fizeram durante três meses como diretor desportivo e depois, finalmente, a aposta para treinador. E esse depoimento do Tiago Ribeiro, também o do Carlos Janela, é bem detalhado, porque o Carlos Janela conheceu o Marco enquanto atleta no Belenenses, ele era diretor desportivo do Belenenses e depois cruzaram-se outra vez, já numa fase posterior, no Estoril Praia. Talvez esses dois depoimentos sejam muito relevantes para se compreender a forma como esses dirigentes com muita bagagem viam o Marco Silva naquele momento.

Faço-lhe apenas mais duas questões e a primeira é quase que uma pergunta de sim ou não, até porque estamos a ver agora um futebol no contexto de seleções em que muitos treinadores, tipicamente de clubes, casos, por exemplo, os de Thomas Tuchel, de Zinedine Zidane, o próprio Jorge Jesus, que parece que viraram um pouco as agulhas para o futebol de seleções e ambicionam treinar uma seleção nacional. Daquilo que conhece do Marco e daquilo que pôde estudar para a elaboração desta obra, o Marco algum dia na carreira poderá vir a treinar uma seleção nacional?

Eu gostava que sim e que fosse a de Portugal, mas daqui a alguns anos.

Mas tem essa ambição? Mais do que a ambição, a curiosidade de treinar uma equipa fora do contexto de clubes?

Se ele tem essa ambição, eu não consigo responder, porque nunca lhe fiz essa questão. Mas, naturalmente, eu gostava, primeiro, que o "mister" Jorge Jesus ganhasse o Campeonato Europeu e o Mundial e que um dia sim. Eu acho que tem esse perfil. Acho que sim, mas daqui a alguns anos. Acho que o futebol de clubes ainda tem muito a oferecer ao Marco Silva.

Faço uma última questão, mas neste caso olhar para a primeira questão que lhe fiz acerca do Benfica e sabemos, e o próprio Marco Silva admitiu isso na apresentação, ser um adepto confesso do Benfica Eu pergunto-lhe se o desfecho da presença do Marco no emblema encarnado, quer seja positivo ou negativo, se pode marcar o resto da carreira dele enquanto treinador?

Sim, sem dúvida. Acho que um clube como o Sport Lisboa e Benfica marca sempre a carreira de um jogador ou de um treinador e acho que o que acontecer nesses dois ou três anos terá influência.

Mas com o acrescer de ser algo que é lhe muito caro, ou seja, treinar aquele que, e volto a insistir nesta ideia, o emblema que Marco Silva apoia, que é adepto confesso, como já tinha admitido na apresentação.

Sim, embora eu também ache que naturalmente a questão sentimental existirá, mas acho que aquilo que conta é o dia a dia, o treino, as metodologias, a forma de estudar os adversários. Portanto, o profissionalismo é intacto e a questão sentimental não entra a partir do momento em que o trabalho começa a ser desenvolvido. Acho que as questões desportivas é que vão estar sempre mais em cima da mesa e estes 20 dias que faltam para acabar o mercado também serão muito importantes naquilo que será o desfecho desta época desportiva. Mas diria que o primeiro objetivo agora é entrar na fase de grupos da Liga Europa e que depois, em maio, faça-se o balanço desta época.

João Fortes Rocha, autor do livro biográfico "Marco Silva: Um Percurso Mágico", já está disponível para leitura e também acerca de Marco Silva, o técnico português que vai ter essa segunda mão da terceira preliminar de acesso à fase liga da Liga Europa, já na próxima quinta-feira frente aos escoceses do Hearts. João, mais uma vez, muito obrigado por estar na companhia da Rádio Observador.