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Vivemos rodeados de estímulos: mensagens, notícias, vídeos curtos, música, trabalho, lista de tarefas e até o tempo livre parece ter de ser produtivo e instagramável. Mas será que o cérebro também precisa de momentos sem fazer nada? Doutora Mariana Sobral, diga-me que sim, o "tedio" pode fazer bem. Bom dia.
Sem dúvida. Bom dia. Estarmos aborrecidos de vez em quando não é o mesmo que sentir tristeza ou perda do prazer da vida. Mas de facto, num dia a dia saudável, nós precisamos de não ter necessidade de preencher cada minuto com um estímulo, ou seja, termos um espaço mental livre: uma caminhada sem ecrãs, olhar para a janela, esperar numa fila sem pegar no telemóvel. Tudo isso pode ser uma oportunidade para o cérebro abrandar e mudar de modo.
Quando diz mudar de modo, o que acontece ao cérebro?
É difícil explicar, mas quando não estamos concentrados num estímulo externo, há uma série de redes cerebrais que se ativam: a memória autobiográfica, pensarmos sobre nós mesmos, refletirmos. E, no fundo, não significa que o cérebro esteja desligado. No fundo, estamos a sonhar acordados. E é importante. Diz-nos a ciência, e isso sim com toda a certeza, o cérebro não foi feito para estar constantemente a receber estímulos.
Lá está. Portanto, temos de nos obrigar a estar sem fazer nada?
O obrigar aqui, acho que temos que sentir o descanso, não como uma obrigação, mas como uma tarefa que faz parte do nosso dia.
Dos outros estilos que temos no dia a dia.
Exatamente. Cozinhar sem pressa, ouvir música, ler ou até às vezes ficar simplesmente em silêncio. Ou seja, momentos sem exigência de desempenho e idealmente distantes do trabalho e todas as tarefas diárias.
Doutora Mariana, e que relação tem isto com a atenção? Por que sentimos tantas vezes que já não conseguimos concentrar-nos?
Porque a atenção é um recurso limitado, por mais estranho que pareça, apesar de nós estarmos realmente a alternar continuamente entre o telemóvel, o computador, as notificações, a responder a uma série de coisas. É importante, o descanso de qualidade tem mesmo de incluir pausas verdadeiras, ou seja, períodos em que não estejamos a responder a tudo. Nós podemos até ver uma série ao mesmo tempo com o telemóvel na mão, que é tão frequente.
Sempre frequente.
Imaginei, é verdade. Mas é importante pequenas escolhas, como desativar notificações não essenciais ou ter mesmo um período do dia sem ecrãs, podem ajudar com o tempo a criar esta margem.
E doutora Mariana, é esse descanso que ajuda a prevenir o tão conhecido burnout?
Sim, sem dúvida, é importante. O burnout está ligado, no fundo, a um estresse crônico em contexto laboral. E a partir do momento em que consigamos desligar psicologicamente o trabalho durante o tempo livre, estamos efetivamente mais protegidos, potencialmente com melhor sono, maior bem-estar e uma melhor recuperação até do quadro clínico. Temos que ter atividades de lazer, limites claros e momentos em que não estamos permanentemente disponíveis. Acho que isto é fundamental.
Doutora, há pessoas que quando param ficam inquietas ou a sentir-se culpadas. Parece que descansar é uma perda de tempo.
Sim, eu já ouvi falar imenso em slow living, que parece que é um conceito que está na moda, mas efetivamente as pessoas não param. E temos que ter em conta uma coisa: não precisamos de ser perfeitos, não precisamos de responder sempre, precisamos de nos proteger e precisamos de pensar ou de perceber que o descanso não é preguiça, é mesmo uma necessidade humana.
E há sinais de que o descanso já não é apenas falta de férias e que merece ajuda?
Sim, se for uma coisa persistente, com muita insônia, irritabilidade, perda de interesse, a tal dificuldade em funcionar, quer no trabalho, quer em casa, acho que podemos pensar logo de imediato no médico de família ou eventualmente no psicólogo e psiquiatra, para perceber, de facto, se há algum padrão, se há fatores desencadeantes, quais são os fatores protetores e de risco e depois se é necessário fazer uma intervenção, como medicação e psicoterapia. Isto vai variar.
E conselho prático gostaria de deixar para quem sente que tem de preencher todos os silêncios?
Eu acho que temos que começar devagar. Imagine, escolhemos 10 minutos do dia sem notificações e sem uma tarefa para cumprir. Caminhar, beber café, voltamos ao mesmo, estar em silêncio, alguma coisa que lhe seja agradável.
Doutora Mariana, muito obrigada por esta conversa, foi muito elucidativa. Saímos daqui com muitas mensagens objetivas. Obrigada. Até amanhã.
Até amanhã.