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"La Bamba", uma canção tradicional mexicana que Ritchie Valens reinventou ao ritmo do rock nos anos 50, voltou a ser um enorme sucesso em 1987, interpretada pelos Los Lobos.

E fez parte da banda sonora de um filme que faturou e que se fartou nesse ano, "La Bamba", a história da breve vida de Ritchie Valens ou então Ricardo Valenzuela.

Um músico de origens mexicanas que conseguiu chegar às tabelas de vendas e que viria a morrer num trágico acidente de avião quando tinha apenas 21. Era 21 que ele tinha?

Acho que era 21 anos.

Foi nesse mesmo acidente que morreu Buddy Holly. Já aqui falamos no Cassete 60 desta data fatídica que ficou pra história.

Ficou pra história como o dia em que a música morreu.

Precisamente.

O escolhido para interpretar o papel de Ritchie Valens no filme foi um jovem ator chamado Lou Diamond Phillips, e é por causa dele que hoje começamos o Uma Coisa Leva a Outra com "La Bamba", porque hoje é o aniversário do ator. Parabéns, Lou Diamond Phillips, que hoje faz 60 anos e nunca mais fez nada de jeito.

Também estás a exagerar, não? Porque eu lembro-me dele, não me lembro dele em mais nada. És capaz de ter razão.

Mas parabéns ao Lou Diamond Phillips, onde quer que ele esteja, está provavelmente na Califórnia, numa mansão gigantesca. Mas "La Bamba", a música, não foi o maior êxito de Ritchie Valens.

Não foi, não, senhora. Esse lugar é ocupado por uma canção que o malogrado músico escreveu para a namorada Donna.

Esta canção foi dedicada à namoradinha do liceu, Donna Ludwig, chegou ao número dois da Billboard, era lado A de um single que tinha no lado B, "La Bamba". Mas mesmo assim, acho que é justo sublinhar os méritos do lado A das coisas.

Lembrei-me agora de outra, não Donna, mas Dona, que foi muito cantada em Portugal nesse ano de 1987, graças à telenovela "Rock Santeiro". É outra dona, dos Roupa Nova.

Gosto muito.

Bem, e aqui estamos sempre a revelar que aquela canção, que achavam que era daquele artista, afinal era de outro. E com esta passa-se a mesma coisa. Não se trata de um original dos Roupa Nova, mas da dupla Sá e Guarabyra, que tinha composto a canção três anos antes.

E foi um produtor musical da Globo que convenceu os Roupa Nova a gravarem a canção, porque a banda, quando ouviu este tema, até disse: "Nem pensar".

Mas lá os convenceram com o argumento de que era a música da protagonista feminina, a viúva Porcina.

E valeu a pena, porque o sucesso da telenovela significou o sucesso da música, que foi a segunda mais tocada no Brasil em 1985.

E o sucesso de Regina Duarte, a viúva Porcina, no Brasil e em Portugal.

Que era a cara da Globo na altura, mas a recente associação ao presidente Jair Bolsonaro afundou a cotação de Regina Duarte a pique, sobretudo no meio artístico, que é, digamos, tendencialmente de esquerda. Mas mesmo dando esse desconto, a senhora não parecia lá estar muito equilibrada.

Aliás, a atriz assumiu no final de 2019 que tinha enlouquecid-- não, assumiu a pasta da cultura, foi isso. Mas também não ficou lá muito tempo. Dois meses depois, mais coisa, menos coisa, saltou do barco ou foi empurrada, já ninguém sabe.

Mas nem todas as passagens de artistas pelo Ministério da Cultura foram tão céleres nem tão infelizes.

Pois não. Olha, este senhor passou por lá. Entre 2003 e 2008, Gilberto Gil foi Ministro da Cultura no governo de Lula.

Depois, felizmente, voltou à música. Eu não posso fazer uma avaliação do desempenho político de Gilberto Gil, mas digo já que prefiro sempre o músico.

Isso é porque esta música nunca te sai da cabeça.

Mas eu, quando ouvia isto, não fazia ideia de quem era o Gilberto Gil.

Mas sabias o que era o Sítio do Picapau Amarelo, que era uma série brasileira infantojuvenil marcante com a Emília, que era uma boneca de trapos.

Tens de acrescentar, Judite, o Visconde Sabugosa, feito de sabugo de milho, o Saci Pererê e a Cuca, que por acaso é a alcunha que a minha mãe usa pra me chamar.

Olha!

Bem, já vou ter pesadelos hoje com a Cuca, por muito que goste desta música de Dorival Caymmi.

Olha, eu tinha muito medo da Cuca, que era, aliás, um jacaré com uma cabeleira loira e um ar aterrador.

É verdade. A série era inspirada na obra homônima de Monteiro Lobato, autor que morreu em 1948, mas que tem sido alvo de um processo de reinterpretação por causa de algumas personagens politicamente incorretas.

Monteiro Lobato, que se candidatou por mais de uma vez à Academia Brasileira das Letras, uma espécie de Senado para os figurões das letras brasileiras, apelidados de imortais. Bom, mas nunca entrou.

É, foi barrado. A mim acontecia muito nas discotecas da Margem Sul. E não foi o único. Clarice Lispector, por exemplo, também nunca entrou na academia.

E Guimarães Rosa, autor de "Grande Sertão: Veredas", entrou, mas morreu poucos dias depois, não é?

Sim, morreu. Creio que foram três dias depois, morreu de um ataque cardíaco. Se calhar, não devia ter entrado. Mas sabem quem é que atualmente ocupa a cadeira número 20 da academia? É Gilberto Gil. Vamos ouvir outra do mestre.

O amor da gente é como um grão. Uma semente de ilusão.

A Academia Brasileira de Letras foi fundada em 1897 e entre os seus fundadores estavam Machado de Assis e Olavo Bilac.

Olha, não sabia que ele era assim tão velho. Até está bem conservado, Olavo Bilac.

Não é esse Olavo Bilac, mas o Olavo Bilac original, poeta e jornalista brasileiro, que, por estranho que pareça, tem um busto em Setúbal. Eu desconheço a ligação do poeta a Setúbal, mas se está lá é porque tem de estar.

Já estou a imaginar o outro Olavo Bilac a mandar fazer um busto em bronze para colar ao lado do outro Olavo Bilac.

Ora, vamos ouvir um bocadinho do Olavo?

Só do brasileiro.

Claro.

Se tiver mesmo de ser.

E já rendido, vê-te jogar, deso tudo.

Bem, esta foi um bocadinho batota, porque é uma música que associamos mais a Paulo Gonzo, embora tenha sido popularizada neste dueto com Olavo Bilac.

Eu gostava muito do Paulo Gonzo era quando ele cantava em inglês. Ainda te lembras disso, Judite?

Lembro.

Então olha lá.

You say you need somebody in your life. So do I. So do I.

Já eu gosto do Paulo Gonzo a cantar esta canção escrita por Pedro Abrunhosa.

São duas da tarde e ainda estava a dormir. Foi bom teres falado, estou mesmo a sair. Essa voz meliosa logo pela manhã. Bate-me com mais estilo que um guronzá.

Já não me lembrava disto.

É uma bela canção sobre a melhor maneira de acordar.

E das poucas, senão a única, que tem guronzá na letra a rimar com manhã.

Se fosse Dalvila, também rimava. Rimar, rimava. Mas não seria igual.

Olha, sabem que mais? Esta é a verdadeira canção sobre as vantagens de um bom despertar.