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"Marie Magdalene Dietrich" é a voz dela que estamos a ouvir. Nasceu há 121 anos em Berlim e foi o Anjo Azul.

Queres tu dizer este Anjo Azul?

Não, esse é outro Anjo Azul, é dos Da Vinci, mas se era para trazer música portuguesa, podíamos trazer os Anjos, que eu acho que não são azuis. Um clássico. A Vanessa está a adorar, mas os Anjos, não sei se lembram, caíram do sétimo céu. Lembram-se dessa banda? Foi aqui que os irmãos Rosado se deram a conhecer ao mundo. Eu sei que não se lembravam e não se queriam lembrar.

Estás forte hoje, Bruno.

Isto está bom. Lembras-te desta banda ou não, Vanessa?

Sim.

Lembras-te? Gostavas? Tinhas posters deles?

Lembro-me, só sei que existiam.

Vagamente. Ok, muito bem. Isto descambou um pouquinho para a pressa. Estávamos aqui a falar de Marlene Dietrich, uma das maiores estrelas do cinema do século XX, conhecida pelos papéis marcantes nos filmes do realizador alemão Josef von Sternberg, como o tal "Anjo Azul", "Marrocos" ou "A Imperatriz Vermelha".

Dietrich começou na Alemanha, mas o sucesso internacional de "O Anjo Azul", onde cantava a canção que começámos por ouvir, levou-a para os Estados Unidos, mais precisamente para os estúdios Paramount, onde, nos anos 30, veio contracenar com Cary Grant, Gary Cooper e James Stewart.

No final dessa década, Dietrich e muitos outros atores e atrizes célebres foram considerados pelos proprietários de cinema como veneno de bilheteira. Vedetas que, em vez de atraírem espectadores, os afastavam das salas de cinema e que ainda por cima eram pagos a peso de ouro por esses mesmos estúdios.

Katherine Hepburn foi uma das estrelas às quais se colou esse rótulo de veneno de bilheteira, mas ela não se importava. "Se não me estivesse a rir tanto, estava para chorar", dizia. Mae West, que verdade seja dita, já tinha conhecido melhores dias, também desvalorizava os ataques das exibidoras de cinema. Segundo a atriz, o problema não eram os atores, mas os filmes. Dizia que naquela altura o único filme que tinha feito algum dinheiro, tinha sido a "Branca de Neve e os Sete Anões" e que se lhe tivessem dado o papel de Branca de Neve, o filme teria feito o dobro.

Vamos então imaginar Mae West a cantar isto.

Esta é a voz da Branca de Neve, Adriana Caselotti, a voz da Branca de Neve no filme. E se havia estrelas muito bem pagas no mundo do cinema, Caselotti não era uma delas. Pelo trabalho no filme, que rendeu milhões à Disney, recebeu $970. Na altura não era uma ninharia, mas era muito pouco, tendo em conta as receitas que este filme da Disney gerou.

A atriz e cantora só teve mais duas participações em filmes. No entanto, em 1994, a Disney atribuiu-lhe o estatuto de lenda da Disney. Quanto à canção "Someday, My Prince Will Come", teve uma vida auspiciosa, apesar de nem sequer ter sido nomeada para os Oscars, como viria a acontecer com inúmeras outras canções do universo da Disney.

E na lista das melhores canções do cinema americano, na categoria de filmes da Disney, esta só perde para a canção do filme "Pinóquio", "When You Wish Upon a Star".

Esta, que passou a ser a música oficial da Disney, reconhecemo-la facilmente, e que ganhou o Oscar de melhor canção original em 1940. Entretanto, aqui já nos desviámos de Marlene Dietrich e temos de sublinhar o seu papel durante a Segunda Guerra Mundial. Não foi um papel artístico. Também foi, mas foi, sobretudo, cívico. Dietrich criou um fundo para apoio aos refugiados que fugiam de uma Europa em guerra, tornou-se cidadã americana e renunciou à nacionalidade alemã e durante o conflito, fez inúmeros espetáculos para levantar o moral das tropas aliadas.

E o que os soldados gostavam de "Lili Marleen".

Após a Segunda Guerra Mundial, Marlene Dietrich ainda participou em filmes de grandes nomes do cinema, como Orson Welles, Alfred Hitchcock, Billy Wilder, mas dedicou-se quase exclusivamente às atuações como artista de cabaré, ainda em digressões pelos Estados Unidos e pelo resto do mundo.

Quem a acompanhou nessa aventura musical foi o nosso Burt Bacharach, que escolhia o repertório e fazia arranjos que se adaptassem à voz de Dietrich, como esta "Go Away From My Window".

O último filme em que Marlene Dietrich apareceu foi História de um Gigolô, de 1978, protagonizado por David Bowie. O músico disse que só aceitou o papel como um favor ao realizador, David Hemmings, e porque lhe disseram que Marlene Dietrich participava no filme. Curiosamente, os dois nunca estiveram lado a lado, porque Bowie filmou as cenas em Berlim, onde vivia na altura, e Dietrich foi filmada em Paris.

Além da participação no filme, Dietrich também cantava o tema que dava título em inglês a esta película, "Just a Gigolo".

A canção foi popularizada por Louis Armstrong em 1931 e teve muitas outras versões, incluindo a que será a mais famosa, de Louis Prima, também conhecida como "I Ain't Got Nobody", e que ainda teria uma versão de David Lee Roth. Mas "Just a Gigolo" e "I Ain't Got Nobody" eram duas canções diferentes que Louis Prima juntou numa só.

"Just a Gigolo" era de origem um tango. "Schöner Gigolo, armer Gigolo" era esse o título original do filme com David Bowie, composto por um italiano e com letra de um austríaco.

Marlene Dietrich morreu em Paris, onde viveu os últimos anos, em 1992, aos 90 anos, resguardando-se dos olhares do mundo e mantendo a imagem glamorosa dos filmes que tinha feito 60 anos antes.

Há dias lembrámos Edith Piaf e a canção que mais associamos à cantora francesa, "La Vie en Rose", mas a própria Marlene Dietrich se apropriou desta canção, cantava em quase todas as atuações e é com a vida em tons de cor-de-rosa que fechamos o programa de hoje com Marie Magdalene Dietrich.