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Olá, bem-vindos à Vixi Suave. Olé, bem-vindos ao debate parlamentar. Esta semana houve moção de censura ao governo, André Ventura tentou fazer uma pega de caras, o PSD de Montenegro recusou-se a ser o rabijador e Pedro Nuno Santos foi alvo de muitas farpas. António Costa continua a ser o mestre no toureiro e com maioria absoluta ganha sempre por capote. Assim prossegue a lide, onde quem não muge nem relincha, corre o risco de ficar para cabresto. Como diria o melhor fotojornalista do país, é o João Porfírio, naturalmente: ganda tourada.

Não nos arrogamos donos da palavra vergonha, nem assumiremos atitudes de forcado numa qualquer tourada parlamentar. E o senhor deputado fala, mas nem uma propostazinha apresenta. A pergunta que lhe deixo, senhor primeiro-ministro, é se vai aproveitar a oportunidade neste debate para agradecer ao Chega, apreciar essa ajuda que este lhe dá para se manter no poder.

Vou lhe dizer de uma forma ambientalista o que eu acho que lhe vai acontecer. A senhora é uma flor muito bonita que está no meio do campo e um dia desses vem uma vaca e come-a.

É um debate sobre se o Dr. Montenegro é um rio dois ou um rio três.

Se não fosse António Costa, não havia sol. A Praia da Rocha não existia, Caparica não vendia cachorros, nem provavelmente cerveja.

Não se demite, arrasta-se num perdão televisivo. Se traição inacreditável passar a ser designada como erro de comunicação lamentável, vamos conseguir evitar inúmeros divórcios em Portugal.

Nem sabia que se vendiam cachorros na Caparica. Se calhar em Nova Iorque vendem-se bolas de Berlim. Peço desculpa pelas metáforas, não sou tão bom como o Fernando Tordo com as metáforas. O Fernando Tordo era aquele que se aguentou durante o regime salazarista ou marcelista e depois fugiu exilado para o Brasil com medo da ditadura de Marcelo Coelho. Mas pronto, vamos a isto. Eu sou o Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador e comigo tenho o Diogo Teixeira Pereira da Rádio Observador e as jornalistas da seção de política, Rita Tavares e Rita Penela. Vai começar a Vixi Suave. A primeira sopa que temos aqui é uma sopa de rabo de boi. Isto hoje está muito taurino. Ainda bem que não há o Vítor Portay, que eu não sei se ele ia conseguir manter o teu nível de isenção, Diogo. Quem é que quer começar? Rita Tavares, sopa de rabo de boi.

É daquelas de pacotinho. A sopa de rabo de boi é sempre daquelas de pacotinho.

É de pacotes pré-feitas. Acho eu, se calhar há quem faça sem ser de pacotinho.

Esperamos aqui pelas metáforas.

Se calhar passamos à frente. Mas sim, foi uma tourada. Foi isso que o PSD disse para dizer que não queria entrar na tourada. A intenção do PSD era clara, não se misturar com o Chega. A intenção do Chega também é clara, aproveitar o momento político. A conclusão do PS também me parece um bocadinho lapalisada. Disse ao PSD que se abstendo-

Ao PPD/PSD.

PPD/PSD. Que abstendo-se mistura com o Chega, portanto que não consegue bem fazer aquilo de não entrar na tourada. Enfim, foi um bocadinho expectável desse ponto de vista, mas a política também se trata de aproveitar o momento e acho que é mais ou menos evidente trazer Costa ao Parlamento num momento de especial fragilidade para o governo como tem sido este. E isso não me parece uma ideia nada descabida, nem percebo às vezes a surpresa que é a questão da moção de censura, de facto, ser usada como um instrumento parlamentar.

Vamos a ver, em vez de forcado, se calhar o Ventura é o inteligente.

Estás cheio aí de-

Eu sou de Santa Terra e Magas.

Eu ia dizer que a nossa frequência chega lá perto dessa região.

Desde o início que chega a Santa Terra e Magas.

E portanto, se nos estiverem a ouvir depois dessa tua consideração, eu não me queria meter com um grupo de forcados.

Eles são os amigos dele.

Podemos saltar por cima da tourada?

Isto tudo para chegar a uma coisa que é: sendo isto tudo expectável e toda a gente ter feito aquilo que era o previsível e mais ou menos óbvio nesta altura do campeonato, também não sei se correu assim tão bem com as intenções do Chega, porque de facto depois olha-se para o debate todo como um conjunto e António Costa consegue contornar aqueles assuntos mais delicados. Como aconteceu com o caso Pedro Nuno Santos, que ele aliás conseguiu contorná-lo desde que ele aconteceu. Nem no PS lhe perguntam sobre o assunto. Houve duas reuniões da bancada parlamentar e os deputados não falam nisso. Há uma reunião da Comissão Nacional amanhã de manhã, vamos lá ver se aí já haverá perguntas, não sei. Mas a verdade é que se o debate correu bem, depois acho que há no governo, e isso tem sido claro, uma perceção de que as coisas não estão de facto a correr bem. No governo e no PS. Nós já tínhamos escrito aqui há uma semana e meia, aliás, até já tínhamos, é importante dizer que tínhamos o texto pronto antes da polémica Pedro Nuno Santos e até o publicamos na altura, que havia problemas na coordenação política que o PS se estava a queixar que existiam. E eu acho que esta semana António Costa mostrou que começou a correr atrás do prejuízo. Com a história de vir apresentar a agenda para o trabalho digno, a agenda do trabalho digno, que não é novo, evidentemente, que já era uma coisa que até vinha do fim da legislatura passada, mas que agora avança esta semana e foi hoje, esta sexta-feira, debatido na generalidade no Parlamento, portanto, a querer imprimir aqui um caráter reformista com a história do estatuto do SNS. E hoje há cartazes espalhados pelo país, do Partido Socialista, a garantir que está a cumprir os compromissos efetuados durante a campanha eleitoral.

Estes cartazes, cinco meses depois de conquistar uma maioria absoluta, já não parecem assim tão expectáveis nem previsíveis. Mostra, quanto a mim, que o PS tem alguma preocupação sobre a imagem pública que pode estar a passar destes primeiros 100 dias, faz hoje, do seu governo com maioria absoluta, que não estão a ser propriamente estáveis como António Costa garantiu tanto que faria se tivesse uma maioria absoluta, dizendo que isso era uma garantia de estabilidade.

Diogo Teixeira Pereira, tua sopa de rabo de boi. É um governo de 100 dias ou um governo sem governo?

É um governo de 100 dias e um governo sem governo. Acho que é um pouco das duas coisas. Eu concordo com a Rita.

Também era o que faltava.

Sim, nunca me atreveria a discordar de ti de forma muito aberta. Tentarei ser sempre muito discreto, que é o que vou fazer agora a seguir. Se faz sentido arranjar aqui um pretexto para levar o primeiro-ministro ao Parlamento, numa altura em que não há debates quinzenais e em que isso parece difícil, eu tinha mais dúvidas sobre a eficácia desta moção de censura para o Chega e para os partidos da direita, porque se estamos com o governo fragilizado, e foi por isso que o Chega lançou esta moção de censura, por causa da questão do primeiro-ministro e do Pedro Nuno Santos e por causa da questão das maternidades, também que isso foi falado, a verdade é que isso falou-se muito pouco ontem. Não foi de maneira nenhuma o tema central do debate de ontem. Acabamos mais por ouvir-

Mas eu disse isso. Ele foi além e saiu desquiado.

É isso. E acho que se calhar perdeu-se mais tempo a discutir quem é que lidera a direita ou não do que propriamente a censurar o governo. E portanto, em termos de eficácia, se calhar André Ventura foi pra casa no fim do debate a fazer contas à utilidade do-

O que depois, na prática, não quer dizer que esteja tudo bem com o governo.

Não, de maneira nenhuma. Mas isso não foi exposto naquele debate.

Bom, ele teve ali 40 minutos ou 50 minutos de intervenção quando não tem deputados pra isso, em virtude do instrumento de moção de censura de ser o proponente. Falou meia hora, tanto como o governo ou como o PS, e depois ainda encerrou 10 minutos e o fim do debate foi dele.

Foi dele. É o que ele quer.

É uma espécie de debate quinzenal com André Ventura.

Mas também temos é que perceber até que ponto é que isso vai resultar, porque ter só a iniciativa e ter só o palco, se depois for só pra fazer barulho, não sei se resulta ou não.

Ou então postar uns videozinhos para o Chega. André Ventura arrasa, André Ventura destrói, André Ventura dá cabo.

Isso dá sempre. E a verdade é que André Ventura esteve na SIC Notícias, esteve na TVI nesse dia também, esteve aqui na Rádio Observador, deu uma série de entrevistas-

Principalmente isso, veio a um órgão de referência como a Rádio Observador.

Ocupou o espaço mediático, que é sempre importante nessa batalha.

Eu acho é que nós vamos perceber aqui pra frente, já percebemos que essa vai ser muito a estratégia do Chega, o de fazer barulho.

Ele aliás prometeu. Se for preciso, todos os anos faz uma moção de censura.

Agora, não sei se as pessoas ainda se chocam com o Chega e se vão continuar a chocar-se com o Chega e se isso vai continuar a ter efeito. É uma coisa que nós vamos ter que-

Se calhar, no fim das contas, vai estafar o Chega. Vai cansar.

Pode ter essa sobreposição mediática. Aliás, vai ali ao bar da Bafalda e diz: "Olha, queria um café e uma moção de censura, se faz favor." Rita Penela, tua sopa de rabo de boi.

Não, é a mesma e pela segunda semana consecutiva, não sei se é por estar a vir mais vezes quando o Diogo Teixeira Pereira moderar, mas ele parece que lê aqui as minhas notas. Desculpa, Diogo, vai.

Não, nós concordamos porque somos extremamente inteligentes.

Certo.

Faz uma pega vermelha.

Se calhar eu deixo-me fora disso, que fisicamente talvez não tenha capacidade para tal. Mas eu tinha aqui nas minhas notas que inclusivamente, daquilo que estava a ver, e eu não estive a trabalhar durante o debate, portanto assisti depois, mas que no fundo esta moção de censura e a dificuldade ou a estratégia usada, não dificuldade, mas a estratégia que seguiram para não dar palco ao Chega ou para tentar contornar aquilo que é a tentativa óbvia do Chega de ocupar o espaço mediático, só fez com que o governo saísse ali pelos pingos da chuva e a moção de censura ao governo, no fundo, foi tudo menos a moção de censura ao governo, porque falou-se muito pouco e depois sabendo também que internamente no PS parece um não tema, a questão do caos que parece instalado, que pelo menos sai cá pra fora, quer seja Marta Temido, quer seja Pedro Nuno Santos depois, não deixo de ficar surpreendida com o facto de não se questionar, nem internamente, nem depois, no Hemiciclo, com todos os deputados lá sentados, não se questionar de forma mais forte e mais insistente aquilo que se está a passar, porque no fundo faltam respostas acentuadas daquilo que consigo ver ou daquilo que me chama a atenção por aquilo que a Rita acabou de dizer. É preciso pôr cartazes lá fora a dizer que estamos a fazer o que prometemos na campanha eleitoral. Cinco meses depois de terem conquistado a maioria absoluta. Parece um gritar instabilidade pra fora. Os cartazes são claramente pra fora, mas pra dentro, obviamente, ou pra dar ali alguma sensação de segurança, que claramente parece não existir.

Eu proponho, em vez de moção de censura, uma noção de censura. Para começarem a ter um pouquinho noção, o governo, das dificuldades que enfrenta, quando não devia enfrentar porque devia estar em estado de graça, mas já tem um desgaste permanente, e um bocadinho de noção, um pacotinho de noção com esse café pra André Ventura também. Avançamos então pra sopa de bacalhau, não fugindo muito do tema, pelo menos na minha perspectiva, vocês é que saberão que bacalhau é que querem. Este vem da Noruega, se calhar ou não, ou então já é transformado em Aveiro. Mas Rita Tavares, há dois homens de Aveiro.

Estaria a bucha de Aveiro e há aqui dois homens de Aveiro em jogo desde esta última semana. Os dois já estão há muito tempo em jogo. Montenegro entrou agora na pista para as legislativas de 2026. Pedro Nuno Santos também já corria nessa pista pra as legislativas pós-Costa, que são essas, em princípio, se não forem antes. Mas já corria nessa pista há muito tempo e toda a gente o aponta como um dos mais prováveis sucessores a António Costa na liderança do PS. Este episódio da última semana é complicado, é difícil de gerir, se bem que ele ontem já veio

Dar um ar de sua graça quando viu a comunicação social numa iniciativa do ministério e disse: "Bom, agora pelo menos já sei o que faço para ter a atenção da comunicação social." Foi divertido, não sei se não é muito cedo para esse tipo de piadas.

O Diogo faz lembrar uma história, já volto a ti, Rita, que se contava na cantina em Coimbra, que era um senhor que estava lá há 40 anos e a primeira vez que chegou, partiu um prato. E em Coimbra, quando se parte um prato, toda gente bate palmas. E todo o supervisor, assim que ele partiu o prato, disse: "Olha, pode continuar que eles estão a gostar." E assim é Pedro Nuno Santos, ele acha de ele próprio: "Posso continuar porque a malta está a gostar."

Acho que ele está muito apostado em provar que teve razão antes do tempo com esta coisa de Alcochete, mas aqui não se trata de ter razão antes do tempo, trata-se de cumprir a hierarquia do governo e não é o ministro das infraestruturas que tem a gestão política deste dossiê, nem de nenhum dossiê. A gestão política do timing para as coisas serem apresentadas e uma coisa desta dimensão ser apresentada, está centralizado no primeiro-ministro, e ele ultrapassou. Não é aqui tanto uma questão de se ele teve razão antes do tempo ou não, mas acho que ele vai sempre jogar com essa questão. Mas a parte engraçada aqui é que, de facto, estão aqui estas duas figuras de Aveiro. Eles foram os dois cabeças de lista por Aveiro em 2015.

Quem ganhou, Rita?

Ganhou o Luís Montenegro.

O Luís Montenegro.

Em 2015 ganhou Luís Montenegro.

E ainda por cima era coligado com o CDS que era fortíssimo em Aveiro.

Sim. Agora Aveiro virou nestas eleições, mas naquela altura era uma diferença considerável, 40 e tal por cento e 20 e poucos do PS. E eram os dois, mas foi o primeiro combate eleitoral entre os dois, portanto essa derrota Pedro Nuno já tem frente a Luís Montenegro. Aqui no aeroporto-

É um grande azar, porque Luís Montenegro perdeu as eleições quase todas.

Quase todas, só ganhou agora.

Só ganhou a Pedro Nuno Santos.

Se calhar vai ganhar as mais importantes, não sabemos. As que interessam.

Quem ri por último...

Mas de facto é um combate interessante que se começou a travar na praça pública esta semana. Pelo menos nós os dois, Rui Pedro, tiramos esta conclusão, portanto é verdade. Se nós chegarmos lá é porque é assim. Mas nós assinamos um texto esta semana que mostra-

Um texto brilhante.

Brilhante, como tudo o que nós fazemos.

Isso é porque na ilustração puseram mais brilho.

Mas esse texto é sobre precisamente este combate que já está aqui, até porque na gênese desta questão, desta grande polêmica do despacho que o Pedro Nuno foi obrigado a revogar, está o fato de se ter ultrapassado um diálogo que António Costa tinha prometido ter com Luís Montenegro. Portanto, há uma ironia aqui. Esta luta estar no meio disto e o fato de Pedro Nuno ter avançado, e ficou claro nas declarações que ele fez na televisão, também nesse avanço estava ali a semente da irritação que Luís Montenegro lhe provoca e lhe provocou pela posição que teve face à questão do novo aeroporto e que ele partiu do princípio que ele estava excluído dessa negociação e que por isso é que terá avançado antes de ter o aval de António Costa.

E Montenegro é mais alto, mas Pedro Nuno Santos partilhou stories no box, portanto vai ser um combate interessante. Tu, além de nessa altura esperar ser editor da política em 2026, o que esperas? Qual é a tua sopa de bacalhau?

Antes de mais, não quero iniciar esse confronto contigo, pelo menos para já, enquanto não tiver o aparelho do meu lado. E portanto, temos essa conversa daqui a mais algum tempo. Eu estava a ler este artigo de que estavam a falar, da guerra de Montenegro com Pedro Nuno Santos, e estava aqui a pensar: se nós tivéssemos António Costa aqui na "vichyssoise" e se lhe fizéssemos uma das sobremesas que nós costumamos fazer pra ele escolher.

Carnopeixe.

O carnopeixe. A sobremesa é outra coisa. Estava completamente embaralhado. Se fizéssemos um carnopeixe ao António Costa, eu acho que ele preferia Montenegro a Pedro Nuno Santos. Eu estava a ler o artigo e estava a pensar: o António Costa com esta coisa de não confrontar o PSD com a história da regionalização, a história da conversa sobre o aeroporto, eu acho que António Costa quer mesmo é aborrecer Pedro Nuno Santos. E portanto, tudo o que for possível pra aborrecer Pedro Nuno Santos, António Costa vai preferir.

Na verdade, é que ele comprou mais depressa essa guerra do que uma com Montenegro.

Exatamente. E portanto, eu acho que isto vai ser muito animado e acho que o PSD até vai ter um caminho mais fácil em todo este processo de negociação, porque o que o primeiro-ministro quer mesmo é aborrecer Pedro Nuno Santos.

Rita Penela?

A minha sopa de bacalhau é outra, desculpem. Só para mudar um bocadinho. É uma sopa em águas de bacalhau e é a nova feira popular de Lisboa, que ficamos a saber na semana passada, no fim de semana, aliás, precisamente durante o congresso do PSD, que às Moedas à Renascença explicou que tinha abandonado o projeto. Não que fosse surpreendente, porque era uma das linhas do programa eleitoral, mas disse só isso. Portanto, abandonou o projeto.

Já tinha custado quanto a Fernando Medina?

Precisamente, era aí que eu ia chegar. É que pelas contas que nós estivemos a fazer, já vai acima de 5,8 milhões de euros Aqui o Observador que questionou a câmara sobre o que era suposto fazer aos projetos que já existiam, a tudo o que já tinha sido feito, qual era agora a saída possível, mas a resposta da câmara é que não há mais nada a acrescentar sobre o assunto. Eu, por acaso, gostava que houvesse, porque seis milhões de euros investidos não gostava, enquanto contribuinte e pessoa que não vive, mas trabalha em Lisboa, de ver desperdiçados. Pelo menos que nos expliquem o que vai acontecer àquilo que foi feito, quer ao nível de infraestruturas, quer acessos. Há uma série de coisas ao nível de transportes rodoviários e tudo mais. Mas Carlos Moedas não responde, nem sobre se já há equipas constituídas, se já há plano, se as câmaras envolvidas também, porque não é só Lisboa, é também Amadora e Odivelas, mas se os outros autarcas sabem alguma coisa, não conseguimos resposta, o que é uma pena. É a minha sopa em água de bacalhau, ficamos à espera que a câmara decida explicar o que vai fazer à nova feira popular.

Bom, nesse sítio pode ser uma sede de um partido ou algo do gênero. Fica essa sugestão, um parque de diversões.

E feira popular já foi as duas últimas semanas também.

Exatamente. Esperamos que, pelo menos para alguns, parece estar próximo o posto da morte político. Conosco temos a deputada e líder da juventude do Chega, Rita Matias. O partido esta semana apresentou uma moção de censura que acabou chumbada. Rita, bem-vinda. É precisamente por aí que vamos começar. Se a moção de censura do Chega fosse aprovada, o governo seria derrubado e, portanto, António Costa naturalmente teria que se demitir. Uma vez que a moção foi chumbada, André Ventura não devia retirar consequências e demitir-se também?

Antes de mais, começava por agradecer imenso ao Observador pelo convite para estar aqui hoje e por responder também à sua pergunta, dizer que não. Acho que, na verdade, deveria ter sido apresentada uma moção de confiança interna por parte do partido a André Ventura, porque esta foi uma oportunidade de se afirmar como líder da oposição. Saberíamos pelos cálculos políticos que era impossível o governo cair e o objetivo não era necessariamente esse. Aliás, quando apresentámos a moção, demos o exemplo de outros países em que é possível apresentar moções a determinadas pastas ministeriais. Infelizmente, em Portugal não temos essa figura regimental, mas era uma moção bastante balizada, com três pilares e, portanto, todos os partidos da oposição estavam de acordo com a moção, aliás, com os tópicos da moção. E lamentamos que depois a votação não tenha espremido este cartão vermelho que era necessário.

Admite então que era uma luta pela liderança da oposição, ou seja, que era uma forma do Chega se assumir como estando na frente da liderança da oposição, até porque o PSD acabava de mudar de líder.

Não era uma tentativa de atingir o lugar de liderança, porque com a humildade possível, acho que essa conquista já está feita.

Tem um sexto os deputados do PSD, não é?

Por enquanto. Não, mas na verdade era, de facto, mostrar que há questões absolutamente fundamentais para os portugueses que precisam de ser discutidas. A verdade é que estamos ainda em um modelo em que não há debates quinzenais. O primeiro-ministro vai ao Parlamento uma vez por mês e haviam respostas que precisavam de ser dadas, nomeadamente na área da saúde, a questão da crise nos combustíveis. Aqui também a situação de instabilidade governativa e, portanto, era hora de termos o governo todo lá sentado no Parlamento para mostrar e para justificar aquelas que têm sido as escolhas governativas.

O líder do Chega disse que se fosse preciso apresentaria uma moção de censura todos os anos. Isto não é um bocadinho brincar à democracia?

Não, na verdade é que, tanto quanto sei, já foram apresentadas cerca de 35 moções de censura ou moções de rejeição do programa de governo, das quais apenas uma, penso que apresentada pelo PRD, efetivamente resultou numa queda de governo. É um instrumento que tem como objetivo fiscalizar a ação governativa e esse é, por definição, o papel e a definição de oposição. Portanto, cabe a qualquer líder da oposição utilizar esta ferramenta.

E, portanto, vai ser utilizada assim como uma ferramenta regular pelo Chega. É isso nos próximos anos, como uma ação de fiscalização do governo. É essa a vossa intenção.

Se for necessário. Não temos por objetivo querer banalizar qualquer figura regimental, mas se voltarmos a verificar situações caóticas como a que verificamos nas últimas semanas, iremos utilizar. Veja-se que nas últimas semanas tivemos urgências a fechar dia após dia. Depois tivemos aqui um escândalo governativo.

Mas não temo exatamente essa banalização? O uso da figura em excesso não pode fazer com que quando for a sério, não haja propriamente um argumento, nem uma figura regimental suficientemente forte para censurar o governo.

Como eu disse há pouco, o Chega não está particularmente a banalizá-la. Foi uma figura, como disse, que já foi usada mais de 30 vezes nos últimos 46, 47 anos. Portanto, é uma figura que vai sendo utilizada com alguma frequência.

Não foi o Chega que disse que usaria todos os anos se fosse necessário. É por isso que eu fiz a pergunta.

Se fosse necessário, e continuaremos a usar esta e todas as outras figuras que considerarmos necessárias.

O deputado do Chega, Bruno Nunes, disse ontem numa mensagem dirigida à líder do PAN, e vou citar: "A senhora é uma flor muito bonita no meio do campo, um dia destes vem uma vaca e come-a". Reparo que está a sorrir. Parece-lhe uma linguagem aceitável para um debate parlamentar?

Se calhar não seria uma expressão que eu utilizaria, mas parece-me que foi uma metáfora utilizada para dizer que eventualmente o PAN, continuando a estar alinhado ao Partido Socialista, porque na verdade, atualmente o Partido Socialista tem dois partidos satélites, é o Livre e o PAN, portanto continuando neste caminho, o PAN vai acabar por ser engolido por esta maioria socialista.

Talvez possamos avançar para a questão da nova liderança do PSD. O novo líder disse no encerramento do congresso do fim de semana passado que não se vai associar a qualquer política xenófoba ou racista. Entende esta mensagem como um ataque ao Chega?

Não entendo na medida em que Luís Montenegro não foi capaz de dirigi-la e de nomear a figura ou a posição política que queria nomear. Luís Montenegro tem que justificar, no caso de efetivamente estar a dirigir estas palavras para o Chega, o fato de o PSD estar dependente de um partido com políticas racistas e xenófobas, pelos vistos. Nos Açores, é uma solução governativa que necessita do apoio do Chega e as políticas e o que o Chega pediu para essa solução governativa, nenhuma delas me parece ter um conteúdo xenófobo ou racista. Falávamos sobre a questão da redução do número de deputados e do número de membros de governo, que é uma das bandeiras do Chega desde 2019. Falávamos sobre a criação de um gabinete anticorrupção, sobre a redução da subsidiodependência na região, que é bastante elevada, portanto, medidas bastante sensatas e que em nada transcrevem qualquer prática xenófoba ou racista.

Mas acha ou não que era dirigido ao Chega?

Talvez não, porque depois Luís Montenegro conclui a frase e diz que estava a referir-se a António Costa. A verdade é que Luís Montenegro também não teve muita coragem de dizer a quem é que se dirigia. Esperava, honestamente, uma vez que Luís Montenegro reclamou para si o título de uma oposição musculada, forte, esperava também mais capacidade de nomear aqueles que-

André Ventura está sempre a dizer que é maltratado pelo PSD, que o PSD o maltrata. Falou agora novamente na questão dos Açores. Por que continua a dar a mão ao PSD nos Açores?

A verdade é que esta era a forma de fazer uma alternativa ao socialismo e os cidadãos dos Açores, da região autónoma, foram bastante claros, estavam cansados de socialismo. Não sei se o PSD é o parceiro ideal, porque até ver não reduziram o número de deputados nem o número de membros do governo, acima de tudo.

O Chega é que reduziu, porque tinha dois e um saiu.

É verdade. Conjunturas.

Perdeu metade da bancada.

Naquele caso, mas estamos certos que no futuro iremos ter ainda mais deputados.

Contemporaneamente, se acontecer a nível nacional, aliás, na Assembleia da República, o Chega está disposto ao mesmo, ser maltratado, mas manter o acordo só porque é uma alternativa ao PS.

Não, acima de tudo, a questão dos Açores, e não voltando a fantasmas do passado, dizer que o que aconteceu é que o Chega quis firmar e estar firme em algumas bandeiras e, portanto, qualquer pessoa, mesmo do Chega, que se permita vender aqueles que são os nossos valores, tem a porta da rua aberta. Portanto, vamos manter esta linha, seja nos Açores, seja aqui no governo da República, seja onde for.

Mas neste momento o Chega quer ou não ter um movimento de convergência com o PSD?

O Chega já percebeu que se calhar não vai conseguir ter esse movimento, uma vez que ontem o PSD se demitiu por completo do papel de oposição que tem.

A pergunta era se quer, não é? Porque aí vocês não estão a ter uma ação própria, não estão a decidir nada, está a dizer que está a reagir. O que é que o Chega quer? Quer procurar isso ou não?

O Chega não quer necessariamente procurar. O Chega quer fazer a oposição que os portugueses necessitam, trazer para dentro da Assembleia da República aquilo que António Costa ironizava, dizendo o megafone. Sim, o Chega quer ser o megafone das necessidades e das dificuldades dos portugueses.

Mas em convergência com o PSD ou não?

Se o PSD quiser, nós estamos disponíveis. Entenda-se que estamos disponíveis para conversar com o PSD ou com qualquer outra força que queira verdadeiramente-

Então a carta que André Ventura enviou em maio a João Cotrim Figueiredo e a Luís Montenegro continua válida para o Chega? Continua a estender a mão para uma convergência à direita?

Na medida em que é preciso olharmos realisticamente para os dados que temos, para as sondagens que temos, e percebermos que, por enquanto, não há capacidade de nenhuma maioria de direita sem que haja uma convergência. E, portanto, é tempo de se calhar começarmos a sentar, a dialogar e a tentar chegar a resultados olhando para os dados que temos.

O Chega tem aqui alguma marca de instabilidade também nestes meses. Dos 19 vereadores eleitos pelo Chega nas autárquicas de setembro passado, sobram apenas 14. O Chega já perdeu cinco vereadores e ainda pode perder mais. Também já perdeu um deputado nos Açores. Como é que os eleitores podem confiar num partido que já perdeu, na verdade, 16% dos vereadores eleitos?

Voltava ao que dizia referente aos Açores. É que a diferença, se calhar, entre o Chega e outros partidos políticos, é que aquelas que são as nossas bandeiras têm que ser defendidas independentemente de qualquer constrangimento pessoal, qualquer vontade, qualquer lua para a qual o autarca ou o deputado esteja virado. E, portanto, isto irá continuar a acontecer no país para todas as pessoas que se venderem.

Mas o Chega também falha aqui na escolha das pessoas que candidata aos cargos, ou não?

Falha na medida em que não conseguimos prever, não somos profetas, não temos uma capacidade de psicanálise de olhar para um autarca ou para um militante ou para quem se senta num lugar eleito, mas aquilo que esperamos é que alguém que diz que quer militar no Chega é que de facto tenha uma-

É psicanálise ou é falta de tempo para fazer esse tipo de triagem convenientemente?

Também pode ter sido alguma falta de tempo. Vejamos que o partido está em crescimento. Tivemos uma série de eleições de seguida e, portanto, se calhar houve aqui alguns erros de casting. Admitimos que sim. No entanto, não ficamos presos a esses erros e também não temos medo de errar, porque isso mostra que estamos no terreno. O Chega, ao contrário, se calhar, de outros partidos, quis fazer uma aposta nacional, ir a jogo em todo o país, porque reconhecíamos que era necessário alternativas também junto da população local e saberíamos que como partido só poderíamos crescer na medida em que fôssemos a voz dos portugueses também.

Mas na disciplina do Chega, que às vezes é muito rápida a condenar alguns membros, pelo menos aqueles que são críticos da direção, às vezes temos situações em autarquias, como juntas de freguesia, em que o Chega viabiliza até executivos e viabiliza documentos estratégicos do PCP ou da CDU. Por que para essas pessoas há dois pesos e duas medidas?

Não se trata de dois pesos e duas medidas.

Parece que há os amigos da direção e os inimigos da direção.

Não, a verdade é que antes de olharmos para uma proposta, não olhamos para o proponente Olhamos para o conteúdo e temos feito isso também na Assembleia da República.

Não tem problemas que seja do PCP. O Chega vota ao lado do PCP e não tem problemas com isso?

O Chega não vota ao lado do PCP por regra, não é algo que nós acordemos de manhã e pensemos: "Hoje vamos votar ao lado do PCP."

Mas é possível.

É possível se a ideia for o melhor para aquele conselho, para aquela freguesia ou até para o panorama nacional. Ainda ontem foi dito num debate, falámos sobre a questão das pensões para antigos combatentes. É uma luta que o PCP também tem travado e nós votamos ao lado do PCP porque reconhecíamos que a proposta era uma proposta válida e necessária. O PCP não foi capaz de votar ao nosso lado, portanto, na hora de escolher preconceitos ideológicos e barreiras políticas, o Chega prefere valorizar as ideias do que olhar para o proponente.

A Rita tem escrito sobre esta matéria e é uma das vozes do Chega que mais fala sobre isto. Recentemente, nos Estados Unidos, o aborto foi considerado ilegal ou restringido em 21 estados, na sequência de uma decisão do Supremo. Em Portugal o aborto também deveria seguir este caminho, ou seja, deveria ser considerado ilegal. Eu não lhe vou dizer interrupção voluntária da gravidez, depois vai começar a dissertar sobre o que é a interrupção. Eu estou mesmo a perguntar se deveria ser considerada ilegal esta prática.

Ainda bem que reconhece que não é possível interromper uma gravidez.

Não, não estou a reconhecer isso, eu sei, depois me hei de dar com isso, não temos tempo.

A verdade é que o aborto não se tornou ilegal nos Estados Unidos e essa mensagem tem sido difundida pelos mídia, por muitos influencers, e é preciso explicar. A única coisa que aconteceu nos Estados Unidos-

Em alguns estados, sim.

Em alguns estados poderá começar a tornar-se, porque o que foi reconhecido é que o aborto não é um direito constitucional e foi remetido para a esfera estadual. E portanto, é preciso desconstruir esta falsa ideia que o Estado-

Estes 21 estados não eram todos iguais. Alguns tinham sido um processo de legalização, outros algumas restrições.

Mas entenda-se também, em matéria de aborto, os Estados Unidos têm sido, ou é, até muitas vezes mais permissivo do que muitos estados na Europa e eventualmente até em Portugal. Portanto, acho que a mediatização deste tema não é suficiente.

Acha que não faz sentido? Ainda ontem uma menina de 10 anos, grávida de seis semanas, foi obrigada a viajar centenas de quilómetros para interromper a gravidez noutro estado dos Estados Unidos. Não é ilegal em alguns estados? Como assim? É ilegal por isso é que uma criança de 10 anos tem de sair ou o Chega não está por dentro destes casos reais que existem, de facto e que estão à vista?

O Chega está por dentro e por acaso em matéria de aborto, e ainda bem que podemos falar, o Chega reconhece acima de tudo que nesta esfera não têm sido dadas alternativas às mulheres. Uma das coisas que fazem crer é que o aborto é um direito da mulher, mas que alternativas é que são dadas a uma mulher que seja violada ou que seja abandonada pelo marido ou pelo companheiro, que se veja numa situação de dificuldade? Por exemplo, uma das causas principais para o aborto em Portugal são as dificuldades económicas. Que soluções é que a sociedade civil ou o Estado têm oferecido a estas mulheres que veem como único caminho o aborto? Não têm sido muitas.

Mas qual era a alternativa para esta criança de 10 anos?

Não conheço o caso em particular, confesso.

É uma criança de 10 anos.

Noticiado ontem em todo o mundo. É uma criança de 10 anos, violada, que acabou por engravidar nos Estados Unidos. À seis semanas de gravidez não podia interromper.

Se acontecesse em Portugal, esta criança devia ser obrigada a levar a gravidez até ao fim?

Não vejo como uma questão de obrigação, a título pessoal, sabe que sou pela vida e que lamento que uma nova criança tenha sido impedida de nascer.

Mesmo que seja de uma outra criança de 10 anos.

Lamento imenso e acho absolutamente lamentável e condenável que uma criança se veja nessa situação e isto remete-me para outra esfera, que eu não vou dissertar demasiado porque não temos tempo, mas que é uma esfera do trabalho que temos que ter pela promoção da dignidade humana. Aquilo que eu queria mesmo sublinhar é que frequentemente tentam empurrar o Chega para o partido retrógrado, para o partido que é contra as mulheres e o trabalho que o Chega tem feito na Assembleia da República, e não só, tem sido um trabalho positivo, tem sido um trabalho de arranjar alternativas. Ainda no Orçamento do Estado apresentámos propostas.

Rita, no programa do Chega, e só para ir mais ao encontro daquilo que o Chega defende, é dito que nos termos constitucionais a inviolabilidade da vida humana em todas as suas fases e dimensões, com todas as consequências jurídicas daí decorrentes. Isto significa que perante isto o partido não devia tentar legislar no sentido do aborto ser também ilegal?

Como estava a dizer, a abordagem que o partido tem tido do ponto de vista de projetos legislativos e de propostas, projetos de resolução, tem sido de construir uma alternativa, porque a verdade é que a narrativa dominante, a população não está preparada para retrocedermos. E não basta, o Chega não tem por objetivo apresentar um projeto que até possa ser aprovado, que não seria, e que reverta o aborto, mas que as mulheres continuem a achar que o aborto é uma solução. O trabalho que nós temos que fazer é um trabalho cultural, de mostrar que toda a vida é um bem, de tentar apoiar uma mulher em situação de fragilidade. E portanto, ao contrário do que querem passar, não temos um gosto por infligir dor à mulher. Nós não queremos é que ela passe por uma dor maior.

Concorda com a posição do líder do Chega quando diz que é eticamente a favor do aborto, mas diz ser incapaz de permitir que em Portugal haja um processo-crime contra uma mulher que abortou. É isto que a Rita também pensa?

Esta tem sido a posição oficial do partido, que se vê com dificuldade de criminalizar uma mulher. Há quem divirja e pense que é uma não solução.

Concorda com essa posição?

É uma não solução.

É uma não solução. É mais ou menos o sketch de Marcelo Rebelo de Sousa do não é permitido, mas pode-se fazer. É esta a solução do Chega.

Não. A solução do Chega é a posição que André Ventura já partilhou várias vezes, de não querer criminalizar as mulheres.

Mas é a da Rita também? Ou é a favor da criminalização?

O meu objetivo não é criminalizar uma mulher. E esta resposta é quererem encostar-me à grade, porque as mulheres vão ouvir e vão pensar isto. A questão não passa por criminalizar a mulher, passa por dar-lhe alternativas e portanto, respondendo: sim, quero criminalizar uma mulher, quem me ouvir lá em casa, isolando, vai achar que o meu objetivo é condenar aquela mulher. Não, aquela mulher à partida já está condenada pela sociedade, que não deu alternativas, que não esteve ao lado dela, eventualmente num momento difícil.

O que estamos só a dizer, só para ficar de uma forma clara, é no caso de uma mulher abortar, se deve ou não ser ilegal e, portanto, criminalizar essa situação.

Começaria, se calhar, por criminalizar um médico que se disponha a tirar uma vida, porque isso é absolutamente contra o código deontológico dos médicos. E portanto, estou aqui a fugir à resposta que querem que eu dê, porque lá para casa vai passar a mensagem errada. E a mensagem que eu quero que passe é que-

Já percebemos que tem uma posição divergente a do líder do partido, mesmo que não a diga com as palavras todas, e também daquilo que é a linha oficial do partido. Escreveu também, já falou um bocadinho disto, que é preciso ir mais além, que estão 15 mil vidas por nascer e 15 mil mulheres a passar por um sofrimento atroz. O que lhe pergunto também é se esse sofrimento atroz de uma mulher, no caso que falámos aqui, por exemplo, uma criança violada, obrigar a manter a gravidez também não é uma violência e não é um sofrimento para essas pessoas?

Eu não sei se já tiveram a oportunidade de ver, por acaso também não trago presente nenhum estudo, mas há imensos estudos que mostram que depois de um aborto, as mulheres têm mais tendência para ter depressões. Muitas delas arrependem-se de uma decisão que infelizmente não é reversível, mesmo que nós até queiramos chamar interrupção. A verdade é que aquela vida em particular nunca mais pode ser retomada. E portanto, isto é o que eu digo, que de facto é um drama, porque há 15 mil vidas que ficam por nascer, mas também há 15 mil mulheres que ficam marcadas para sempre com essa decisão.

Mas no passado haverá um sofrimento também na decorrência de não ser permitido fazer a escolha dela relativamente a isso, à gravidez.

Pode haver um sofrimento, mas haverão naturalmente muitas opções. O exemplo mais clichê que lhe posso dar e que toda a gente refere sempre é Cristiano Ronaldo, uma criança que poderia ter sido abortada pela mãe e que trouxe mais sofrimento quando nasceu, na medida em que era uma família pobre e que ainda agravou mais a condição de pobreza, mas a verdade é que hoje é a fonte de sustento e o orgulho daquela família. Portanto, isto poderiam ser aqui um conjunto de argumentos infindáveis.

Escreveu também, se calhar podemos passar já para outra fase. Disse em fevereiro, num debate na televisão com Joana Amaral Dias, que faltam mais vozes femininas no espaço público para defender uma ou outra forma de se defender a mulher numa perspectiva mais conservadora. Que perspectiva conservadora é que é esta? Que papel é que a mulher devia ter e não tem?

A mulher devia ter o papel que quiser ter e infelizmente isso não é possível. Vemos aqui uma forma de defender a mulher que muitas das vezes passa por colocar a mulher numa competição ou numa tentativa de superposição ao papel do homem. O que nós defendemos é um papel de complementaridade, olhando para a natureza do homem, olhando para a natureza da mulher.

Mas quem complementa quem?

Ambos complementam-se, como eu estava a dizer, reconhecendo as características que um homem tem, que uma mulher tem.

E quais são as características que a mulher tem nesse papel? Tem algumas mais específicas?

No papel de ser mulher?

Sim. Por exemplo, na dinâmica de um casal. Tem algum papel específico, por exemplo...

Cada caso é um caso. Descrever aqui um papel é difícil, mas uma mulher naturalmente-

Só para tentar perceber qual é a abordagem mais conservadora, se é a mulher ficar em casa.

Não, de todo. Aliás, muitas das vezes tentam colar-nos a esse discurso, uma vez mais, como eu dizia, retrógrado, e não passa por isso. Passa pela mulher poder fazer aquilo que quiser. Mas dando o exemplo da mulher querer ficar em casa, não é um direito conseguido para as mulheres. Atualmente, uma mulher que queira ficar em casa para se dedicar à educação dos seus filhos, se não tiver recursos económicos, não o consegue fazer. E portanto, de facto, é uma conquista que também precisa de ser feita.

Para o homem ou só para a mulher? Se o homem querer ficar em casa também.

Exatamente. Também há muitos homens, também há muitas famílias monoparentais que têm apenas o pai a cuidar dos filhos e que também nos fazem chegar muito as suas mensagens e que também precisam de ver esses direitos conseguidos. Como eu dizia, é uma visão de complementaridade, não é uma visão de dizer o homem é superior ou a mulher é superior, ao contrário de outras visões.

O que antes observasse a mulher era sempre complementar nesse aspeto e o homem o principal.

De todo. É uma complementaridade em que estão ambos a complementar-se na sociedade.

Como é que está o processo de constituição da Juventude do Chega? Era para existir eleições, não voltou a existir. Como é que está esse processo?

Neste momento vamos ter um conselho nacional no final do verão, que já foi anunciado, e um dos objetivos do congresso é precisamente criar os regulamentos de uma série de organismos dentro do partido, nomeadamente dentro da Juventude.

Por que está a atrasar tanto?

Porque é o processo natural, não faz sentido colocarmos todos os distritos em eleições quando ainda não temos comissões instaladoras em todos os distritos.

Já expulsaram os neonazis todos? André Ventura dizia que havia algumas inspirações.

Não só na juventude, mas em todo o partido, é um trabalho que temos feito de todas as pessoas que de facto não são democratas.

Mas André Ventura está com medo da juventude do Chega. Por que não permite essas eleições o mais rapidamente possível e por que continua a manter a Rita de forma numa nomeação direta a coordenar a juventude do Chega?

Na verdade, coordeno na medida em que sou membro da direção nacional, aliás, um cargo para o qual fui eleita. Escolhida por André Ventura, referendada no congresso do partido e aprovada agora até por larga maioria. E portanto, a juventude foi sendo adiada, como eu dizia, porque em primeiro lugar, para ir a eleições é necessário um regulamento base que tem que ser aprovado pelos órgãos máximos do partido. Não podemos ir em eleições e num distrito as regras são umas, noutro distrito são outras, portanto para uniformizar o processo. E depois, como eu lhe dizia Tentámos criar uma comissão instaladora em todos os distritos para que todos pudessem ir a eleições e criarmos tudo a uma só voz. Senão acontecia como no partido, que foi um processo natural e do qual não temos nenhum arrependimento, em que houve distritais que tiveram eleições primeiro, depois outras mais tarde, e tentar que chegassem ao mesmo ponto foi bastante difícil. Portanto, atingimos apenas um patamar de maturidade, diria eu, que está atingido. Agora vamos esperar pelo Conselho Nacional, ver os nossos estatutos aprovados e começar a trabalhar enquanto juventude oficial.

Antes de terminar, queremos ainda aqui ir a um tema. O Chega faz recorrentemente feroz ataques ao Familygate e ao nepotismo que existe no Partido Socialista. O seu pai era assessor do grupo parlamentar de que faz parte, o seu irmão foi candidato a autarca e o seu tio também. Isto não é um exemplo de nepotismo? Vários, até.

Confesso que não esperava essa pergunta. Não, estou a brincar. Naturalmente que esperava. Não diria, de todo, porque, para começar, um partido em formação naturalmente que tem bastantes círculos íntimos e próximos na sua constituição. A seguir, o caso particular da minha família é um caso que é bastante público. O meu pai era assessor de André Ventura porque fez uma coligação na altura das europeias, aliás, com o partido ProVida, coligação essa que permitiu ao Chega candidatar-se às eleições europeias, uma vez que o partido ainda não estava constituído. Posteriormente, fruto também do caminho que foi feito para as legislativas, André Ventura reconheceu nele a capacidade para trabalhar como assessor político. Num caminho absolutamente paralelo, eu fazia militância no partido Chega, nunca fui militante do partido ProVida.

Mas isso todos os outros elementos de outros partidos com certeza dirão: "Fiz um caminho paralelo ao do meu pai, ao do meu tio, ao do meu primo". Portanto, os argumentos aí são os mesmos. Por que é que no vosso entender é nepotismo no outro partido e no Chega não é? É só porque o Chega é um partido novo?

Não, de todo. Também porque nepotismo é quando não vemos absolutamente nenhuma capacidade ou nenhum currículo para a pessoa.

Muitos dos casos do Familygate no governo, alguns até se tinham conhecido na JS, cada um seguiu o seu caminho e depois um estava com a mulher do secretário de Estado.

Como, por exemplo, o caso de Ana Catarina Mendes e o irmão? Não foi o caso.

Sim, eles fizeram caminhos paralelos no PS. Ele até entrou antes dela e é muitas vezes apresentado como sendo o irmão que foi puxado para secretário de Estado, quando, na verdade, até foi um bocadinho ao contrário. Fizeram percursos paralelos. Ela própria foi até dirigente da JS. E o irmão também, a nível distrital, e estiveram sempre caminhos diferentes. Portanto, essa questão que o Chega muitas vezes critica é exatamente igual à vossa.

Mas a questão é que há uma questão no partido Chega que, como expliquei, foi absolutamente transparente.

Por que é que depois o seu pai saiu? Foi o reconhecer de que aquilo não era a situação ou que estava ali em causa uma conflitualidade?

Não, a transparência foi toda. A nomeação do meu pai foi feita por André Ventura num período anterior. Eu não era deputada, no entanto, já era militante do partido Chega. Fiz a minha militância base na distrital de Setúbal, fui a um congresso, apresentei uma moção sobre inverno demográfico, foi uma moção aprovada por unanimidade, e daí André Ventura convidou-me.

Rita, teve que voltar a nomear nesta legislatura, ou não?

Teve que voltar a nomear nesta legislatura, sim. No entanto, é André Ventura que nomeia os assessores e, portanto, nomeou novamente, porque reconheceu o trabalho que foi feito na legislatura anterior.

Podia ter tido aí o cuidado de não o fazer, uma vez que a Rita ia ser deputada.

Repare-se que também o grupo cresceu bastante, temos muitos mais assessores conosco e todas as pessoas com experiência e com capacidade de trabalho e com vontade, acima de tudo, devem ser mantidas. E foi nesse espírito que foi. Quando começou a ser notícia, para mostrar que, de facto, em questões de transparência, não temos qualquer problema, foi afastado e não é nosso assessor atualmente.

Muito bem, vamos avançar agora para o segmento Carne ou Peixe, em que tem que escolher uma das opções. Vamos ver como é que se safe nesta matéria, para ver se consegue aqui não ficar com fome. Rita Matias, preferia filiar na juventude do Chega o líder da JSD, Alexandre Poço, ou o líder da JPD, Francisco Camacho?

Preferia filiar os dois, seriam dois bons contributos.

Não consegue escolher um dos dois?

Não. Até porque um deles foi meu dirigente, o outro é meu colega.

Muito bem.

Preferia ser ministra num governo liderado por Nuno Afonso ou liderado por Luís Montenegro? Questão difícil.

Tem que escolher um. Não escolheu na primeira, pelo menos nesta vai ter que escolher, ou não?

Diria Luís Montenegro. Se André Ventura saísse do Chega, preferia ficar no partido para o ajudar a reerguer ou seguia André Ventura para um novo partido? Espero que André Ventura nunca o faça, mas acredito na causa do partido Chega, ficaria no partido.

Muito bem, agora avançamos para a última fase, que é a sobremesa, e gostava que me explicasse qual é o nome da música e o porquê de ter trazido esta música para o nosso programa.

Então, a música que vos trago hoje é do The Weeknd, chama-se Save Your Tears For Another Day. É uma música toda ela muito dramática emocionalmente, mas de facto a escolha não se prende por essas questões. Foi uma música que em Portugal teve um grande boom comercial no verão passado, uma altura em que nós estávamos em pré-campanha para as eleições autárquicas e, portanto, foi uma música que foi acompanhando muito a campanha e que, no fundo, o título diz tudo: guarda as tuas lágrimas para outro dia, e tornou-se quase um mote de sobrevivência num caminho que é conturbado, não só pelas dificuldades do dia a dia, como também por muita da oposição que vai sendo feita, umas vezes mais leais do que outras. E portanto, foi mesmo aqui um mote de sobrevivência que acabou por ser transposto para o meu dia a dia, é uma música com que acordo todos os dias.

Lágrimas foi também o que vimos no congresso do Chega em Évora, que só à terceira que André Ventura conseguiu eleger a sua direção e teve de chorar primeiro. Também essas lágrimas foram salvas. Obrigado, Rita. Nós regressamos, como sempre, com o Vício e Suave na próxima sexta-feira.

Save your tears for another, save your tears for another day. Save your tears for another day. I made you think that I would always stay. I said some things that I should never say. Yeah, I broke your heart like someone did to mine. And now you won't love me for a second time. I don't know why I run away. Oh, girl, I make you cry when I run away. Girl, take me back 'cause I wanna stay. Save your tears for another. I realize that I'm much too late and you deserve someone better. Save your tears for another day. Save your tears for another day. I don't know why I run away. I make you cry when I run away. Save your tears for another day. Oh, girl, I said save your tears for another day. Save your tears for another day. Save your tears for another day.