Tricky regressou a Portugal para apresentar o novo trabalho Skilled Mechanics, um ano depois da última apresentação na Casa da Música, no Porto. O músico de Bristol esteve na Aula Magna, em Lisboa, para mostrar como se dá uma aula de costas – à traição – e, mesmo assim, se ensina muito a uma plateia ávida de lições. No limite do quarto de hora académico de atraso e com a turma a assobiar pelo professor, o veterano do trip hop subiu ao palco e deu início à palestra prometendo algo que não iria cumprir com “I’m not going“. O desenho no quadro estava feito: Tricky veio com mágoas partilhadas para mostrar, mas sem assistentes para o ajudar.

Skilled Mechanics é um trabalho de grupo, no qual também participam DJ Milo e Luke Harris e que junta outros timbres que funcionam bem na teoria, mas que falharam à aula prática de ontem. Faltaram as vozes de Ann Dao, Francesca Belmonte, Oh Land, a cantora dinamarquesa que empresta a voz a “I’m not going“, da cantora chinesa Ivy ou da moldava Xdare (Renata Platon). As ausências fizeram-se notar, mas Tricky não se perdeu na matéria. Afinal, sabe-a de cor.

A aula de mecânica para peritos mostrou as peças do motor de Tricky: mágoas, dores, desejos não cumpridos. I’ll be your hero, I’lI be your superman (de “Hero“) não foi um grito, foi um denso e intenso murmúrio envergonhado, que se estendeu a quase a toda a performance.

O alinhamento manteve as vozes femininas (graças à arte de DJ Milo) e enveredou por sonoridades intimistas que faziam o cantor dar as costas à plateia e contorcer-se em palco, numa combinação de movimentos que parecia coreografada para o afastar das luzes da ribalta. Eis Tricky sem mulheres em palco: desamparado e acabrunhado no seu mundo rítmico e palavroso.

Os ritmos dançavam entre o trip hop, o rock e a pop e o público acompanhava com o balançar da cabeça e do corpo e, sobretudo, com muitos assobios e alguns aplausos. As palmas foram especialmente sonoras quando ecoaram os primeiros acordes de “Overcome”, do seu álbum de estreia Maxinquaye (1998).

Mas o melhor viria logo a seguir, com “Valentine”, she was real, real like concrete. My funny valentine. Dele e de todos quantos assistiam, no breve instante em que Tricky, de olhos fechados, dá o peito às balas. Está à boca de cena, o lugar certo para dar uma lição de vulnerabilidade em direto para os lugares doutorais: enrola a T-shirt, faz que a tira e encosta o microfone ao peito. “And I feel…”, diz. E o público também sente, uma estranheza tocante que nos arrasta para o seu mundo claustrofóbico.

Por duas ou três vezes, Tricky esconde-se atrás da bateria de Luke Harris, em sofrimento, numa performance no limite do suportável. Sempre que o cantor sai de cena, entra o assobio, a reclamação. Mas se o professor sofre os alunos não se ficam, se é para sofrer que seja em conjunto. E, oh “Boy“, com esta é sofrer a sério. É uma das canções mais autobiográficas de Adrian Thaws, o verdadeiro nome do cantor e remete para a sua infância difícil.

I dream I’m drowning, Asthma, I can’t breathe, canta o britânico, confirmando o que ouvimos à entrada: “não podemos ficar muito perto dele, porque é asmático”.

Slip into the darkness, But I don’t leave, continua, ainda em “Boy“. A escuridão vem já de seguida. A lição está a acabar quando num solo de guitarra, os pupilos sentados nos doutorais saltam para o espaço do mestre a convite do próprio, com “Here my dear”. Em menos de nada, muitas cadeias vazias e muita gente no palco, de telemóvel em punho, a sufocar o cantor asmático.

Turn the fucking disco lights off!, grita o britânico do meio da pequena multidão que invadiu o palco.

Chega o breu solicitado e apenas uns flashes de telemóveis disparados ao cantor, visivelmente irritado com os aparelhos, trazem luz à sala. O fim está próximo. Batem as onze horas quando o som é desligado, sem direito a encore. Sem oportunidade de voltar a pedir a “I’m not going” da abertura.

A luminosidade voltou à sala. Slip into the darkness, but I don’t leave, é só um eco que já não cumpre a promessa. Tricky, o traiçoeiro, foi-se mesmo embora.