“Age de acordo com a tua idade”. É essa a mensagem de Russel Crowe face às atrizes que, a partir de uma certa idade, se queixam da falta de papéis substanciais no grande ecrã. Numa entrevista à edição australiana Women’s Weekly, dada no final de dezembro de 2014, o ator argumenta que a ideia de que as mulheres não conseguem papéis numa fase mais avançada da vida não é real.

“A melhor coisa na indústria em que estou — filmes — é que há papéis para pessoas em diferentes fases da vida”, disse. “Para ser honesto, acho que as mulheres que dizem isso [que os papéis acabaram] são aquelas que aos 40, 45 e 48, ainda querem interpretar a [rapariga] ingénua e não conseguem perceber porque não estão a ser escolhidas como as de 21 anos”, disse em entrevista. “Se estivermos dispostos a viver na nossa própria pele, podemos trabalhar enquanto ator. (…) A questão é que temos de estar preparados para aceitar que há diferentes fases na vida. Não posso ser o ‘Gladiador’ para sempre [referência ao filme de 2000 em que foi protagonista]”.

O The Women’s blog, associado ao jornal The Guardian, conta que a internet reagiu de forma negativa aos comentários do ator e escreve a propósito da “indústria mais superficial do mundo” que obriga as atrizes a submeterem-se a operações plásticas. Também o Sydney Morning Herald desaprovou o sucedido e apelidou as declarações de “sexistas”. Num artigo publicado a 5 de janeiro, chega a enunciar comentários semelhantes mas com outros protagonistas — é o caso de Robert Downey Jr que disse, na Universidade de Cambrige, “[Feminismo] é tudo a fingir, filho” (“make believe”, em inglês). A lista continua com contribuições menos felizes de John Lennon, Mel Gibson e Alec Baldwin, entre outros.

A questão em torno dos papéis que a indústria de Hollywood disponibiliza às mulheres mais velhas tem sido debatida nos últimos anos por várias atrizes bem-sucedidas, diz o Telegraph. Helen Mirren, é uma das vozes que mais se tem insurgido, usando de forma recorrente a fama para protestar contra o facto de os papéis femininos de substância “secarem” à medida que o tempo passa.

Em 2010, a atriz disse, numa cerimónia de entrega de prémios, que via muitas carreiras de colegas serem postas de lado enquanto as de atores menos talentosos progrediam: “Vi demasiadas colegas brilhantes que trabalharam sem parar nos seus 20, 30 e 40 apenas para descobrir um completo deserto nos seus 50, e falta de trabalho significa falta de rendimento”. “Fico ressentida por ter testemunhado, durante a minha vida, a sobrevivência de alguns atores muito medíocres e o desaparecimento profissional de atrizes muito brilhantes”, acrescentou.

Já Meryl Streep — que chegou a dizer que a carreira, no seu tempo, tinha os dias contados aos 40 anos –, concorda com as declarações de Russel Crowe, no sentido em que atrizes mais velhas não devem ambicionar os papéis de jovens mulheres. Aos 40 anos, Streep ficou consternada por lhe terem oferecido, em ocasiões distintas, três papéis de bruxas, os quais viria a recusar. Questionada sobre o motivo porque agora estava feliz ao dar vida à bruxa em “Caminhos da Floresta”, respondeu: “Porque sinto que é apropriado à minha idade. Senti que estava na altura e não estava quando tinha 40 [anos]”.

Citada pelo Telegraph, num artigo publicado esta quarta-feira, acrescentou ainda: “Eu tinha uma espécie de reação política contra o conceito de as mulheres mais velhas serem demonizadas e de a idade ser esta coisa horrível e assustadora. Eu apenas não gostava disso. Não gostava quando era uma rapariga pequena e não gosto agora”.

Mais recentemente foi a atriz britânica Rose Byrne quem falou do assunto. Numa entrevista à Edit Magazine, a estrela de “ Vizinhança” e “Dou-lhe Um Ano” explicou o quão difícil é para uma mulher vingar na indústria cinematográfica. “Detesto parecer um disco riscado em relação a isso, mas se comparar a minha carreira com a dos meus contemporâneos masculinos, sinto que eles têm muito mais oportunidades para representar os papéis principais (…), ao passo que os papéis das mulheres, enquanto esposas e mães, são limitados”. Porque representar é difícil, sobretudo na condição de mulher, explica.