Se fosse vivo, decerto que o tio Walt daria a sua aprovação à “Cinderela” realizada por Kenneth Branagh (estreia-se hoje), o novo filme da série de versões em imagem real de longas-metragens clássicas animadas da casa, que estão a ser feitas pelos Estúdios Disney.
Tirando o pormenor de, no reino onde Cinderela (a louçã Lily James, de “Downton Abbey”) e a família vivem, a harmonia multi-étnica ser de rigor, a fita de Branagh (escrita por Chris Weitz) podia ter sido feita nos anos 50 ou 60, de tal forma respeita, na narrativa como do ponto de vista cinematográfico, a animação “A Gata Borralheira”, de 1950 (embora sem o elemento musical). Algumas sequências quase que foram decalcadas desta, caso da da transformação da abóbora em coche, e dos ratinhos e outros animais em cavalos, cocheiros e lacaios pela fada-madrinha, interpretada por uma alourada e pândega Helena Bonham Carter.
“Trailer” de “Cinderela”
A opulência visual exibida pela produção, desde a variedade da paleta de cores até à riqueza e detalhe da direcção artística e do guarda-roupa (por cortesia, respectivamente, dos enormes e experimentadíssimos Dante Ferretti e Sandy Powell, ambos profusamente oscarizados) sublinham ainda mais a abordagem “velha escola” feita por Kenneth Branagh nesta “Cinderela” que enfatiza valores como a coragem e a bondade, sem pinga de ironia em segundo grau, desconstruções, revisionismos, leituras feministas, de “género”, freudianas e outras torturas que têm sido infligidas tanto aos filmes baseados em contos de fadas, como aos próprios contos de fadas. (Branagh até se dá ao luxo de ter um gesto liberal para com os vilões, ao emparelhar, no final, a Madrasta Má, que Cate Blanchett interpreta com saboreada perfídia, com o conspirador Grão-Duque de Stellan Skarsgard).
Entrevista com Lily James
A Disney, com esta “Cinderela” tradicionalíssima, parece querer mostrar ao mundo que, além de saber brincar com o seu universo, como fez em “Uma História de Encantar”, de Kevin Lima (2007), e de, se lhe apetecer, dar-lhe uma subversiva volta de 180 graus, como sucedeu com “Maléfica”, de Robert Stromberg (2014), ainda consegue fazer, e com todos os efes-e-erres, aquilo que lhe deu a reputação de que goza e a posição que ainda ocupa na indústria cinematográfica e na imaginação colectiva.
Aproveitando a estreia de “Cinderela”, recordamos uma selecção de 10 filmes de imagem real baseados em contos de fadas universalmente conhecidos, que os irmãos Grimm, Hans Christian Andersen, Charles Perrault e outros recolheram nos seus livros, bebidos da tradição popular, ou eles próprios imaginaram. Sendo que uns lhes são mais fiéis à letra e ao espírito, e outros mais livres e menos respeitadores na interpretação.
1. A BELA E O MONSTRO, de Jean Cocteau (1946)
Indo buscar inspiração às gravuras e ilustrações de Doré para os cenários, Jean Cocteau escreveu e realizou esta adaptação do conto de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, com Jean Marais e Josette Day nos principais papéis. O filme tem um ambiente denso e consistentemente feérico, com alguns brilhantes toques surrealistas, caso dos tocheiros com a forma de braços humanos no castelo do Monstro, mesmo que algumas trucagens estejam, naturalmente, datados e as interpretações, sobretudo a de Jean Marais, nos pareçam hoje algo afectadas. Philip Glass compôs uma ópera que está perfeitamente sincronizada com o filme e pode substituir a banda sonora.
“Trailer” de “A Bela e o Monstro”
2. OS SAPATOS VERMELHOS, de Robert Powell e Emmeric Pressburger (1948)
A dupla Powell/Pressburger pegou no conto de Andersen sobre um par de sapatos demoníacos que fazem dançar sem parar, até à morte, quem os calça, e transpô-la para o meio da dança. Uma jovem e brilhante bailarina (Moira Shearer) vê-se dividida entre o homem que ama, um compositor (Marius Goring), que escreveu para ela a partitura do bailado “Os Sapatos Vermelhos”, e o empresário de uma prestigiada companhia de bailado (Anton Walbrook), que tem ciúmes do compositor e não quer que ela desista de dançar. Martin Scorsese considera “Os Sapatos Vermelhos” como um dos mais belos filme a cores já feito (a esplendorosa fotografia é de mestre Jack Cardiff).
“Trailer” de “Os Sapatos Vermelhos”
3. O PEQUENO POLEGAR, de George Pal (1956)
Dois anos antes de ter realizado o clássico de ficção científica “A Máquina do Tempo”, com base no livro de H. G. Wells, George Pal assinou para a MGM esta versão musical e em tom de comédia do conto de fadas homónimo (as canções são da autoria de Peggy Lee), que inclui várias sequências animadas, recorrendo ai que eram as técnicas de efeitos visuais mais avançadas para o tempo. Russ Tamblyn, que alguns anos mais tarde faria parte do elenco de “West Side Story-Amor Sem Barreiras”, interpreta o Pequeno Polegar, enquanto Peter Sellers e Terry-Thomas são os vilões que tentam aproveitar-se do tamanho do herói para o pôr a roubar para eles.
“Trailer” de “O Pequeno Polegar”
4. A LENDA DA FLAUTA MÁGICA, de Bretaigne Windust (1957)
Baseado no conto alemão “O Flautista de Hamelin”, recolhido pelos irmãos Grimm e que também é referido por autores com Goethe e foi posta em poema por Robert Browning, este filme foi originalmente feito para televisão, tendo depois também exibição cinematográfica, e recorre à música de Grieg na banda sonora. Van Johnson interpreta o flautista mágico, que depois de não ser pago por ter livrado a vila de Hamelin de uma praga de ratos, leva consigo todas as crianças ao som da sua música, que apenas pode ser ouvida por estas e pelos animais. Em 1972, Jacques Demy fez outra versão musical desta história, com Donovan no papel do flautista.
https://youtu.be/Dab20Kt7AYE
Excerto de “A Lenda da Flauta Mágica”
5. A PRINCESA COM PELE DE BURRO, de Jacques Demy (1970)
Quase 25 anos depois de ter sido o Monstro no filme de Jean Cocteau, Jean Marais interpreta o rei que quer casar com a filha (Catherine Deneuve, a Princesa com Pele de Burro) nesta versão para crianças e adultos do conto de Perrault, onde a música tem também um papel central, composta por Michel Legrand. Jacques Demy dá aqui largas à sua estética muito inspirada nos musicais de Hollywood, mas também influenciada pela cultura pop, e que impôs em filmes anteriores, como “Os Chapéus de Chuva de Cherburgo” e “As Donzelas de Rochefort”, recorrendo a efeitos especiais artesanais e adoptando propositadamente um tom “naif”.
“Trailer” de “A Princesa com Pele de Burro”
6. A COMPANHIA DOS LOBOS, de Neil Jordan (1984)
Ou “O Capuchinho Vermelho” entra na puberdade e encontra os lobisomens. Um conto da escritora Angela Carter, que também co-assina o argumento com o realizador Neil Jordan, está na origem deste intrincado e elíptico filme de terror onírico, organizado como uma série de sonhos que vão abrindo para outros sonhos, e carregado de simbologia sobre a passagem da idade da inocência para a adolescência, e de referências ao despertar da sexualidade. Com Sarah Patterson no Capuchinho e Angela Lansbury na Avózinha. As sequências de transformação dos lobisomens de “A Companhia dos Lobos” estão entre as melhores já vistas no cinema fantástico.
“Trailer” de “A Companhia dos Lobos”
7. AUTO-ESTRADA DO INFERNO, de Matthew Bright (1996)
E se o Capuchinho Vermelho fosse uma adolescente americana “white trash” com pais drogados e delinquentes, que foge da família de acolhimento onde foi colocada, para se meter estrada fora e ir viver com a avó, que mora muito longe? E se o Lobo Mau fosse um assassino em série que dá boleia à insuspeita Capuchinho no seu camião? E se em vez de um Lenhador, a história tivesse um par de polícias que procuram prender o Lobo e salvar a Capuchinho? Este filme de culto com Reese Witherspoon e Kiefer Sutherland, e produção de Oliver Stone, é um sério candidato ao título de Versão Mais Iconoclasta em Filme do Conto do Capuchinho Vermelho.
“Trailer” de “Auto-Estrada do Inferno”
8. BRANCA DE NEVE, de Michael Cohn (1997)
Sigourney Weaver compõe uma Rainha/Bruxa Má magnificamente arrepiante e erótica nesta “Branca de Neve” que, pela sua cerrada atmosfera de terror e pelos ambientes (a rodagem decorreu na República Checa e na Baviera), está muito próximo em espírito do conto dos irmãos Grimm, e da atmosfera de crueldade sádica que predomina em grande parte dos contos populares tradicionais (aliás, o título original é “Snow White: A Tale of Terror”). Rodado para televisão, “Branca de Neve” acabou por ser exibido nas salas de cinema fora dos EUA, não sem antes Sigourney Weaver ter recebido um merecido Emmy de Melhor Actriz num Telefilme ou Minissérie.
https://youtu.be/KOlQ75fhWKE
“Trailer” de “Branca de Neve”
9. PARA SEMPRE CINDERELA, de Andy Tennant (1998)
Eis uma variante do conto da Gata Borralheira com pozinhos pós-feministas e personalidade de comédia romântica, passada na França do século XVI, com a participação dos próprios irmãos Grimm, aos quais a história é contada no século XIX por uma descendente da heroína, interpretada por Drew Barrymore. Esta Gata Borralheira é tudo menos uma rapariga passiva que se resigna à sua sorte, já que tem interesses intelectuais, sabe muito bem o que quer e até trata o Príncipe como seu igual. Entre os anacronismos (assumidos) do filme, conta-se Leonardo Da Vinci, que substitui a Fada Madrinha. Anjelica Huston faz muito bem a Madrasta Má.
https://youtu.be/SMMx37Co61Y
“Trailer” de “Para Sempre Cinderela”
10. A RAPARIGA DO CAPUZ VERMELHO, de Catherine Hardwicke (2011)
Hardwicke, realizadora de filmes sobre o que significa ser adolescente nos tempos que correm, como “Treze-Inocência Perdida” e “Os Reis de Dogtown”, e de “Crepúsculo”, o primeiro, e único aproveitável, da série baseada nos livros de Stephenie Meyer, dá aqui uma hábil volta à história do Capuchinho Vermelho, tratando-a como uma “dark fantasy” . Nesta versão, e entre outras alterações, não há um lobo mas sim um lobisomem, que aterroriza a aldeia onde Capuchinho (Amanda Seyfried) vive com a família e namora um jovem Lenhador. O elenco do filme, produzido por Leonardo DiCaprio. conta também com Julie Christie e Gary Oldman.
“Trailer” de “A Rapariga do Capuz Vermelho”