A ansiedade, a pouco e pouco, acumulara-se e, face às circunstâncias, foram engrandecendo o sábado que aí vinha. A culpa estava na bola oval e no que, durante a tarde e nos relvados, as seis melhores seleções de râguebi da Europa fizessem com ela. Entre passes à mão, boleias em corrida ou pontapés para a fazer aterrar noutros metros de relva, o Torneio das Seis Nações, uma espécie de campeonato europeu de futebol, mas de râguebi, iria decidir-se no último dia de competição — e quatro seleções ainda o poderiam conquistar. Tudo dependia do número de ensaios e dos pontos que fizessem.

Por isso chamaram a este dia o Super Sábado. Porque a Inglaterra, a Irlanda e o País de Gales, caso vencessem os seus jogos, tinham hipóteses de vencer. Até a França as tinha, caso o azar batesse à porta dos outros e a sorte entrasse em casa gaulesa para montar um cenário favorável. Quatro das seis equipas do torneio chegavam à derradeira jornada com a matemática a dizer-lhes para acreditarem no triunfo. Agora vamos aos porquês.

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À entrada para este dia, três destas seleções tinham seis pontos — os ingleses, os irlandeses e os galeses. Cada vitória no Seis Nações vale dois pontos e, se todas vencessem as partidas, acabariam o dia empatadas. Cedo, portanto, se começou a tirar o pó aos critérios de desempate: em caso de igualdade nos pontos, a coisa decidiria-se através da diferença de pontos marcados e sofridos. Se ainda assim não se desatasse o nó, entraria nas contas o número de ensaios conseguidos por cada seleção.

Depois foi deixar o râguebi fazer o resto. E já escrevemos que este era o Super Sábado, certo? E foi mesmo. Primeiro, porque jogos a decorrerem em simultâneo é coisa que o calendário do Seis Nações não ditou e, como tal, os tres encontros do dia aconteceriam como no dominó, um a seguir ao outro. E desde o início da prova que se sabia que a ordem seria o País de Gales-Itália (13h30), depois o Escócia-Irlanda (14h30) e, no final, o Inglaterra-França (17h). À entrada para esta última jornada, a vantagem nos pontos e nos ensaios estava com os ingleses.

Justo ou não, portanto, os galeses sabiam que, em Roma, teriam de vencer pelo maior número de pontos possível para dificultarem depois a vida a irlandeses e ingleses. Os italianos ajudaram, sobretudo, na segunda parte, e o País de Gales saiu da capital transalpina com uma vitória por 61-20. Ou seja, para o troféu não ir parar às mãos dos galeses, a Irlanda teria de vencer a Escócia, pelo menos, por 21 pontos, e a Inglaterra a França por 16.

A margem seria pouca, pois os irlandeses que vestem de verde fizeram uma visita aos escoceses e de lá saíram com uma vitória por 40-10. Trinta pontos de diferença. Seriam valiosos, eles e placagem de Jamie Heslip, irlandês que, nos últimos minutos do encontro, deu uma patada na bola que Stuart Hogg tinha nas mãos e fê-la cair, impedindo o defesa escocês de marcar um ensaio regular — que teria encurtado a vantagem para 25 pontos (ou 23, caso o pontapé fosse, depois convertido).

Isso sim, foi valioso. Inglaterra e França sabiam que seria ali, no estádio de Twickenham, estádio-mor do râguebi inglês, que tudo se decidiria ali. E, sobretudo, os anfitriões sabiam que teriam de vencer por 27 pontos para acabarem o dia em festa. Não era fácil e, talvez por isso, as duas seleções montaram o melhor jogo desta edição da prova. Fartaram-se de marcar ensaios (foram 13, ao todo), houve muitas jogadas à mão e corridas desenfreadas, porque os erros e as falhas a defender também foram muitas.

Os ensaios sucediam-se e, nos últimos cinco minutos, a Inglaterra só precisava de mais um para chegar aos tais 27 pontos. Os franceses, contudo, aguentarem-se e a diferença no marcador (55-35) ficaria nos 20. Lembra-se da tal placagem de Jamie Heaslip num jogador escocês? Impediu o ensaio que não foi, mas que se tivesse sido teria feito da Inglaterra a nova campeã do torneio das Seis Nações.

O cabisbaixo invadiu os ingleses, a indiferença pairou nos gauleses e, longe dali, na Escócia, no estádio de Murrayfield, os milhares de irlandeses que permaneceram nas bancadas, à espera do resultado, viram os jogadores da Irlanda a reentrem em campo de fato e gravata para receberem o troféu. O caneco pelo qual tiveram de esperar mesmo até ao fim. Já sabíamos que este sábado seria super. E louco, acha que foi o suficiente?