Os mitos urbanos fazem parte da nossa história e são as versões modernas das lendas e folclores passados na oralidade, que serviram para educar crianças e jovens através do medo. Todos estes mitos têm algo de local e regional e vão sendo adaptados pela necessidade de tornar a história verosímil. Na minha adolescência, foi o primo do vizinho da colega de escola que tinha morrido ao ingerir Peta Zetas com refrigerante. O mito tornou-se tão forte que apesar da voz tentadora do Cândido Mota nos programas da RTP criarem em mim uma gigantesca vontade de as provar, sentia-me sempre demovido pela história da explosão intrabucal. Ainda que me agradem guloseimas apraz-me ainda mais a integridade estrutural do meu crânio e da minha cavidade oral.

Grande parte dos mitos urbanos conseguiam ser facilmente localizados, criando raízes em qualquer sítio onde eram disseminados – como é o caso da Mulher de Branco, mito globalizado que foi adaptado a Sintra numa curta chamada “A Curva”, pelo realizador David Rebordão. Há muitas outras histórias que, por uma série de constrições lógicas, ficam enclausuradas ao seu local de origem, sem nunca de lá saírem.

O crescimento da indústria dos videojogos que se viveu no início dos anos 1980, trouxe consigo um aumento das salas de arcadas, em especial no território norte-americano. E foi em 1981, em Portland, Oregon, que surge uma das mais misteriosas histórias em torno de videojogos: a máquina de arcadas com o nome Polybius. Com o mesmo nome do historiador grego que lançou alguns alicerces para o que viria a ser a estenografia, a criptografia e a telegrafia, esta máquina, alegadamente criada por uma empresa alemã de seu nome Sinneslöschen (tradução aproximada para “apagar emoções”), foi distribuída apenas na zona suburbana de Portland. A máquina era uma espécie de jogo de tiros com puzzles e que, segundo o mito, criava uma gigantesca dependência, levando a enormes filas de jogadores que esperavam a sua vez para a jogar e que muitas vezes se envolviam em cenas de pugilato por um lugar à frente.

Mas o mito não fica por aqui: é que muitos dos que jogaram a Polybius relataram ter ouvido o choro de mulheres enquanto jogavam e rostos grotescos na sua visão periférica. Para além disso o jogo estava alegadamente ligado à perda de memória, terrores noturnos, náuseas e tentativas de suicídio. Muitos dos jogadores afetados rejeitaram para sempre os videojogos e tornaram-se ativistas contra a indústria. Mas a cereja conspiracionista no topo deste bolo? É que a máquina, para além de não requerer moeda para jogar, apenas a inserção de alguns dados do jogador, era também monitorizada frequentemente por “homens de negro” que recolhiam dados das máquinas enquanto os jogadores se divertiam com Polybius, e que depois desapareciam sem proferir uma palavra que fosse.

Seis meses depois da alegada criação da máquina, todas as unidades foram retiradas do dia para a noite dos salões de arcadas de Portland sem deixar rasto da sua existência. Até hoje nunca foi encontrada prova alguma da existência de um exemplar da Polybius, e todos os meandros da história relembram algo que viria da caneta de Chris Carter, o autor de X-Files. Terá realmente existido uma máquina de arcadas construída para o Governo norte-americano para continuar as infames experiências do projeto MKUltra (onde a CIA testou o domínio mental, ao longo de décadas, com recurso a diversas drogas como o LSD) tornadas públicas nos anos 1970 por ex-agentes whistleblowers? E terá este alegado videojogo conduzido ao suicídio, à perda de memória, ao desaparecimento e à manipulação mental de muitos jovens de Oregon? Ou ainda, o mito tem algum fundamento ou é apenas uma história criada para assustar adolescentes que passavam dias inteiros nos salões de arcada?

Polybius The Goldbergs

“Age of Darkness” — Episódio 21 da primeira temporada da série The Goldbergs (2014)

Descontruindo o Mito

Quase todos os mitos têm uma origem comum: a extrapolação de um facto ou factos que são exponenciados de forma fantasiosa e quase sempre sem provas factuais. Mas em 2006, Brian Dunning, um investigador e escritor do site Skeptoid, conseguiu descobrir três factos distintos cuja soma poderá, ou não, ser a justificação para o mito de Polybius, a mais aterradora e misteriosa lenda em torno dos videojogos. E alegadamente, a mais mortal.

O primeiro facto é que existem dois casos noticiados em Portland no ano de 1981 de dois jovens que tiveram de ser hospitalizados em consequência (indireta) dos videojogos. O primeiro foi um rapaz de 12 anos que teve problemas digestivos ao estar 28 horas seguidas a jogar Asteroids (na tentativa de quebrar o recorde mundial), enquanto era seguido por uma equipa de reportagem da televisão local. O segundo caso aconteceu exatamente no mesmo dia e na mesma sala de arcadas, que desenvolveu uma enxaqueca incapacitante após jogar Tempest, da Atari, cujos efeitos luminosos poderão ter despoletado um ataque epilético. A probabilidade de dois jovens colapsarem quase em simultâneo no mesmo dia e na mesma sala de arcadas é pequena, e contribuiu para mistificar os efeitos “nefastos” dos videojogos. Relembremos que estávamos ainda em 1981, quando o mercado dava os seus primeiros passos mais “a sério”.

O segundo facto que constituiu, hipoteticamente, o nascimento deste mito foi uma operação iniciada pelo FBI apenas dez dias depois dos colapsos dos dois jovens. Esta operação não tinha nada de sobrenatural, misteriosa ou originária em alguma divisão secreta dentro do FBI. As visitas dos “homens de negro” a muitos salões de jogos tinham em vista uma operação em massa no estado de Oregon contra ações criminosas e fraude levadas a cabo por alguns donos destes salões, que criavam esquemas de apostas/retorno monetário pelo desempenho dos jogadores em dados jogos.

O terceiro e último facto encontrado por Dunning para esclarecer o mito de Polybius reside num caso de pirataria de máquinas de arcadas que ocorreu na década de 1980, quando a empresa VEB Polytechnik, oriunda da Alemanha de Leste, começou a produzir e a vender máquinas baseadas em clones de jogos bem conhecidos, das quais a máquina Poly Play foi a que teve o maior sucesso por conter uma cópia do Pac-Man no seu interior. Depois de uma série quebras de copyright e outras tantas falhas técnicas de uma máquina mal construída, quase todos os seus exemplares foram retirados dos salões de arcadas, sem qualquer mistério: as Poly Play, construídas a partir de clones russos de CPUs conhecidos, quebravam uma série de leis autorais em quase todo o mundo ocidental.

simpsons

“Please Homer, Don’t Hammer’em” — 18º episódio da 18ª temporada da série The Simpsons (2006)

O Mito persiste?

O mito de Polybius existiu na oralidade nas duas últimas décadas do século passado, acabando por inspirar a realização de filmes como The Last Starfighter, realizado por Nick Castle, de 1984, no qual um rapaz é contratado por “homens de negro” pela sua destreza a jogar um videojogo. Também Matt Groening nos The Simpsons refere este mito urbano no episódio “Please Homer, Don’t Hammer‘Em” em que uma máquina de Polybius encontra-se ao lado de Bart num salão de arcadas. E ainda no ano passado na sitcom The Goldbergs conseguimos ver em plano de fundo uma rapariga enfeitiçada por uma máquina Polybius, durante dois breves segundos da série.

Polybius é sem dúvida um dos mitos mais apaixonantes sobre os videojogos que existiram até hoje. O primeiro registo escrito sobre o mito surge no site coinop.com, em 1998, quando um utilizador anónimo refere estar na posse da ROM (a placa de memória eletrónica do videojogo) em sua casa. Sem qualquer fotografia, descrição da máquina ou do próprio jogo, existe uma tremenda especulação em torno do seu aspeto, levando a que dezenas de pessoas tenham lançado na internet máquinas construídas por si e que alegam publicamente ser uma Polybius original. Mesmo pela internet foram surgindo uma série de websites que tentaram recriar o videojogo (pela parca descrição que o próprio mito contém) e que lhe associam os avisos de efeitos de possíveis alterações mentais.

Parece-nos que a explicação de Dunning sumariza na perfeição o nascimento do mito de Polybius. Mas e se estes fatores forem excessivamente coincidentes e, cedendo a algumas tendências conspirativas, a máquina Polybius tenha realmente existido como prolongamento das experiências da CIA, e a justificação que temos hoje é apenas um cover-up da própria história? Será o Polybius um mito perfeitamente justificado ou uma verdade altamente coberta? Quem sabe? Mas já que a Scully e o Mulder vão regressar este ano, só nos resta esperar. É que a Verdade está aí fora.

Ricardo Correia, Rubber Chicken