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As raízes da história de uma jovem maltratada pela família da madrasta é antiga. Mas talvez ainda mais do que se pensava. Sabe-se que a Walt Disney, que criou a verão mais conhecida, preferiu a versão de Charles Perrault, escrita em 1697, com menos pormenores mórbidos e sangrentos do que a dos Irmãos Grimm, talvez a mais famosa. Mas já se encontraram histórias “cinderélicas” na China, quase mil anos mais antigas.

Mas a Cinderela (ou Gata Borralheira, a diferença é tão ténue que ambas se confundem) pode não ser francesa, nem alemã ou chinesa. As revelações dizem que a menina rica escravizada pelas meias-irmãs e a sua mãe é grega, e tem relações com o Antigo Egito. Vamos então ouvir o conto, de acordo com as explicações do ABC.

Era uma vez na Grécia uma jovem mulher chamada Ródope. Pela sua imensa beleza, os piratas egípcios raptaram-na para a vender como escrava em África. Ródope foi depois comprada no Egito por um homem bondoso, mas pouco atento às mulheres que viviam na sua casa.

Todas as outras faziam pouco de Ródope por ser de nacionalidade diferente. Durante dias e noites, as outras mulheres obrigavam Ródope a realizar as tarefas mais pesadas da lida da casa. Mas a jovem grega tinha amigos: um bando de passarinhos, um macaco e um hipopótamo muito velho. Um dia, o imperador preparou um grande banquete em Mênfis e convidou toda a gente do reino. Mas as mulheres más da casa proibiram Ródope de aceitar o convite. Só que a bela mulher também queria assistir à festa, por isso vestiu a roupa mais bonita que tinha e calçou umas sandálias de ouro que encontrou. Pouco antes de fugir de casa, um falcão roubou as sandálias de ouro de Ródope, que ficou devastada por não poder ir ao banquete.

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Voando pelo império, o falcão levou as sandálias de ouro até ao imperador. Este acreditou que aquele era um sinal divino de que deveria ir em busca da dona daqueles sapatos. Por isso ditou uma regra: “Todas as donzelas do Egito deveriam calçar as sandálias e quem for a dona deles será a minha esposa”. E partiu em busca da mulher da sua vida e encontrou Ródope, a quem os sapatos serviram. Casaram e viveram felizes para sempre.

Mas não, este não foi, no entanto, o fim da história. A lenda correu até à Grécia e foi entretanto polida com pormenores menos românticos. Algumas versões assumem que Rópode não se casou, mas que fugiu para se dedicar à prostituição.  Entretanto, já no século XVII, Giambattista Basile, um escritor italiano, modificou a história. Foi pelas suas mãos que as mulheres más se transformaram nas meias-irmãs sem coração e na madrasta e que o falcão se dividiu entre a fada madrinha e a magia negra. Na história italiana, o final era ainda demasiado sádico: Basile assumiu que Cinderela tinha assassinado a madrasta quando a tampa de uma arca caiu em cima madrasta malvada.

Perrault aperfeiçoou-a, tornando-a mais adequada à infância e menos aterradora, numa versão que agradou mais à Disney em 1950. Mas, ironicamente, Walt Disney endureceu o final feliz de Perrault (onde todos se perdoam e acabam por encontrar o amor verdadeiro) para um final onde só Cinderela e o príncipe acabam realmente de bem com a vida.