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Olha-se para ela e sente-se de imediato uma espécie de contradição. Daquela figura jovem e franzina, cabelo loiro e olhos azuis, nascem melodias pop negras e pesadas. Com 19 anos de idade, Aurora Aksnes é um diamante em bruto, tem na postura e no talento dois argumentos que podem fazer dela um fenómeno da pop escandinava. O público começa agora a conhecê-la, mas a crítica já a escolheu.

Aurora não é uma jovem adulta comum, isso percebe-se facilmente quando nos fala sobre a música que gosta de ouvir. Ao contrário da (esmagadora) maioria das pessoas da sua geração, ela tem na lista de favoritos autores como Leonard Cohen; e contou-nos que o último disco que ouviu com encanto foi a banda sonora do filme “American Beauty” (“A Beleza Americana”, 1999).

São sons e referências antigas que a inspiram a construir música com a data de hoje, ora em modo acústico ora com base eletrónica. Ao contrário das referências, vive no mundo moderno, promove-se com eficácia pelas redes sociais e aposta nos vídeos bem encenados e produzidos, que lhe rendem milhões de visualizações.

Esta quarta-feira atuou pela primeira vez em Portugal, no Musicbox em Lisboa, num evento exclusivo Vodafone/Spotify. Eram mais os curiosos que os conhecedores ou fãs, mas todos ficaram rendidos. Aurora tem uma voz que percorre quase todas as notas, sem hesitações.

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Usa as mãos e os braços e o corpo como extensão da voz, com elegância e sem timidez, que vem ao de cima quando a música para. Essa fragilidade de quem (ainda) não sabe o que dizer quando os instrumentos se calam, uma falta de jeito que faz rir o público, mas que a embaraça. Mas é também esse riso (e não gozo) que lhe dá força para seguir em frente e até, para um breve encore, que fechou pouco menos de uma hora de música.

Ao vivo e em disco, Aurora é uma das promessas da pop alternativa europeia e tem no vídeo desta canção a melhor das demonstrações. Escura, violenta, graciosa e encantadora. Na entrevista que se segue, percebemos porquê.

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© Miguel Soares/Observador

Ouvi a tua música pela primeira vez na semana passada e pensei: “Uau, de onde é que veio esta rapariga?” É a primeira vez que estás em Portugal?

Não, estive cá quando tinha 8 anos. A passar férias. Estive aqui, [em Lisboa], e à beira-mar. Foi muito bom.

Como está o tempo na Noruega?

(risos) Muito frio. Muito escuro e nublado. Adoro isso.

Gostas disso?

Adoro o inverno. Gosto muito do frio.

Tens um lado um pouco negro, não é? Tens apenas 19 anos, mas há algo em ti que é muito negro.

Também acho… Eu gosto de chamar à minha música “pop-negra” (dark-pop).

“Pop-negra”?

Sim, porque lhe está associado um certo lado negro, nas letras ou nas histórias que servem de inspiração às canções. Há sempre algo um pouco… negro.

E de onde é que vem esse lado negro?

(risos) Penso que muitos artistas noruegueses têm um lado negro, porque temos os invernos escuros e o tempo escuro…

E o frio…

Somos inspirados a ser um pouco negros. Quando era criança, era bastante sensível a sons e pessoas e alterações de humor – se alguém estivesse zangado ou triste, isso também me faria ficar zangada ou triste –, isso afetava-me muito. E foi por isso que comecei a tocar piano e a escrever canções. Tudo me afetava muito e escrever canções ajudava. Nem têm de ser os meus sentimentos ou as minhas experiências…

Queria fazer-te uma pergunta acerca disso, porque enquanto a tua música e as tuas letras parecem um pouco tristes, tu não pareces estar triste. Não sei, eu olho para ti e nos teus vídeos não pareces ser uma rapariga triste. Sinto que há, de certa forma, uma contradição na forma como te exprimes, enquanto artista e compositora, e a forma como te apresentas, a tua postura, nos teus vídeos. Não sinto que estejas triste.

Não, não estou triste agora. Eu sou uma pessoa feliz e também tive uma infância feliz, mas o que me inspirou a escrever músicas foram as coisas tristes e os acontecimentos tristes.

Como a música do Leonard Cohen?

Bom, sim. E adoro-o. Gosto tanto dele.

Li algures que foi um dos teus primeiros momentos de admiração.

Foi sim. Suponho que seja por isso que as minhas músicas são tristes. Se eu estou triste, isso vai transformar-se numa música. Ou se acontece alguma coisa triste, escreverei acerca disso. E pode ser que o esconda e a maioria das pessoas não perceba esse lado negro. Suponho que tu tenhas conseguido.

Sim, acho que consegui.

Mas a maioria das pessoas não consegue.

Isso perturba-te?

Não.

É simplesmente assim que as coisas são?

Eu escrevo música para mim mesma. E também para as pessoas que não têm ninguém com quem falar, porque a música pode ser uma grande amiga nos tempos em que precisamos de ser compreendidos. A música é incrível. Se precisarmos de chorar ou sentir alguma coisa, a música é excelente para isso.

Para ti fazer música é uma catarse?

Eu consigo criar…

Algo único?

Sim, sim. É algo que me ajuda, sem dúvida. E penso que é por isso que escrevo música, acima de tudo. Porque preciso de o fazer. E nunca foi o meu objetivo ir para o palco ou lançar as minhas músicas. Apenas queria escreve-las, como um passatempo, como alguém que escreve um diário. Mas depois aconteceu, de qualquer modo, não faço ideia como é que vim aqui parar.

Eras muito nova quando escreveste a tua primeira canção. Que idade é que tinhas, lembras-te disso?

Sim, tinha 9 anos. E escrevi uma canção sobre perder alguém. E foi essa a minha primeira canção.

E depois nunca mais paraste…

Não, porque era bastante fácil encontrar uma forma agradável de contar as minhas histórias. Porque numa canção não nos limitamos a escrever uma história, temos de a compor de forma a que soe bem, com ritmos, padrões e coisas assim… E gosto particularmente de todo o trabalho que está por trás do ajuste de uma história a uma canção.

Tu escreves as letras e a música?

Sim, as letras e a melodia.

Que instrumentos é que tocas?

Toco piano e um pouco de baixo.

Li algures que não te sentias muito confortável em palco. Porquê?

Bom, penso que ninguém se sente confortável em palco. Ou sentem? É muito assustador estar num palco. É muito estranho. Especialmente porque nem sequer era um sonho que eu tinha. Eu nunca sonhei subir a um palco, nem quando era criança. Foi estranho de repente estar num palco. Nem sabia o que fazer, estava só a cantar e a tocar piano. E foi muito estanho, mas agora já dei muitos concertos e tocamos quase todos os dias.

Todos os dias?

Quase. E viajamos quase todos os dias. E uma pessoa habitua-se a isso. Torna-se cada vez menos assustador atuar. Ainda fico nervosa, porque é uma coisa assustadora. Ficamos estranhos, quando estamos num palco à frente de muitas pessoas. É assim que as coisas são. Mas agora sinto-me mais à vontade do que antes. Porque já treinei um pouco. Mas não gosto de falar entre as canções.

Então começas a tocar e não paras?

Não… por algum motivo acabo sempre por falar, mas digo coisas muito estranhas, que nem se adequam. Acho que é mais o pânico e depois digo qualquer coisa e fico “ok, esqueçam isso, vamos tocar mais algumas canções e eu vou parar de falar”.

Ao mesmo tempo tu és um pouco tímida, penso que há algo de teatral em ti, os teus vídeos ilustram isso muito bem. Tiveste alguma experiência ou treinas a forma como te moves ou é algo natural?

Não, não. Eu não tenho coragem suficiente para ter um coreógrafo. Acho que me iria sentir muito embaraçada se tivesse uma dança preparada, anteriormente.

Um esquema…

Não faço isso, de todo. Mas se vais cantar e estar num palco à frente de pessoas e se não queres que elas sintam que foi um erro vir ao teu espetáculo, tens de dar tudo de ti. E eu quero dar tudo, todas as vezes que canto. E aí tens de cantar com todo o teu corpo. E não conheço outra forma de cantar. No início comecei a brincar com o piano, era apenas eu. Depois arranjei uma banda e, no primeiro ensaio, comecei a mover-me muito. Foi muito estranho. Eu nem sabia antes do meu manager me perguntar porque é que o estava a fazer e eu nem me apercebi daquilo. Mas depois ele disse-me para continuar a fazê-lo. Eu nem sabia que o estava a fazer, mas suponho que estava simplesmente habituada a ter o piano e como já não o tinha… não sei. Tenho de cantar as canções com o meu corpo todo. Tenho as minhas mãos, os meus dedos e as minhas expressões faciais com os quais posso contar as minhas histórias. Preciso de usar isso tudo, senão não sentiria que era real.

Que tipo de música costumas ouvir?

Costumo ouvir bandas sonoras de filmes, como um piano que se ouve baixinho como música de fundo… sons baixinhos, sons atmosféricos.

Música ambiente?

Sim, sim. Faz-me sentir como se o tempo tivesse parado. É muito agradável. E adoro o Cohen e o [Bob] Dylan, claro.

Gostas dos “clássicos”. Também gostas da música mais recente, da música da tua geração? A Escandinávia é muito prolífica em música pop e eletrónica, com grandes artistas e bandas.

Sou fã de muitas bandas, mas nunca as ouço.

Porquê?

Não sei. Não é o tipo de música de que eu preciso. Eu preciso de música que me acalme e que me faça esquecer tudo e todos à minha volta. E nisso o Cohen e as bandas sonoras ajudam. São coisas que me acalmam.

Qual foi o último álbum que ouviste ou compraste? Lembras-te?

Hoje?

Hoje ou ontem…

Penso que foi… já ouviste falar do filme “American Beauty”?

Sim.

A banda sonora do filme acerta mesmo e cheio. É muito tranquila, muito simples. E estou sempre a ouvi-la.

Tens vários singles e um EP [Running with the Wolves] e estás a preparar o primeiro álbum?

Está feito. [sai em março de 2016]

Está feito? O que é que podemos esperar dele? Vais tocar algumas canções hoje [quarta-feira, no Musicbox], espero eu.

Sim, vou. É simplesmente mais de mim. Estou tão entusiasmada por lançar um álbum. É muito mais fácil seres criativo com a tua música e fazeres o que queres, quando estás a criar música para um álbum. Com os singles, há sempre muitas opiniões de outras editoras – porque neste momento estou a ser acompanhada por três editoras e tenho a banda, por isso… são muitas pessoas que têm algo a dizer acerca da minha música. É um bocado difícil, mas estou a habituar-me a isso e eu também sou um pouco “mandona”, por isso, luto para que a minha opinião seja ouvida. Mas sou eu quem tem a última palavra.

Foste tu que compuseste todas as músicas?

Sim.

E falas da banda. Quem são eles?

Bom, hoje só trago comigo o Martin e o Magnus, um baixista e um guitarrista. E o Magnus está também a tocar bateria.

E tu estás a tocar piano?

Bom, não. É muita coisa para transportar (risos). Normalmente temos outro músico, o Alf, nas teclas e uma rapariga no sintetizador. E todos cantam, porque não gosto de ter a minha voz no fundo das faixas. Não gosto quando não é feito ao vivo. Por isso, eles têm de saber cantar para fazerem parte da banda. Para mim, é muito importante que tudo seja feito ao vivo, porque é tudo mais real.

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© Miguel Soares/Observador

Tradução de Xénon Cruz.