Desapareceu o Portugal rural que Júlio Pomar retratou em “Gadanheiro”, pintura de 1945 que faz parte do acervo do Museu do Chiado, em Lisboa. Quantos gadanheiros existem hoje, num país que nunca como hoje teve tão poucos milhares de trabalhadores na agricultura? Mais: quantas pessoas saberão que um gadanheiro é alguém que ceifa com uma gadanha? 

Trata-se de uma das primeiras obras do pintor nascido em Lisboa em 1926, considerado um dos precursores do neo-realismo português e reconhecido pelo grande público como autor do retrato do Presidente da República Mário Soares.

O “Gadanheiro” é uma pintura com 70 anos e ao longo de sete décadas foi exibida em várias cidades portuguesas, mas não só: também em Brasília, São Paulo, no Rio de Janeiro, em Bruxelas e Paris. Em 1995, seria adquirida pelo Estado ao galerista Manuel de Brito.

Nesta nova secção do Observador, sobre os mistérios e significados dos quadros mais célebres e importantes de sempre, explicamos o que está por detrás das pinturas.

1. O azul está lá de propósito?

Em conversa com o Observador, Júlio Pomar refere-se a uma das cores predominantes em “Gadanheiro” como mero acaso. “O que lá está é sempre investido pelo sentido que cada um quiser dar”, resume, acrescentando que a escolha dos tons fortes de azul foi “uma pulsão”. A pulsão tem um contexto: o quadro foi pintado no verão de 1945, em Évora, durante a IX Missão Estética de Férias, organizada pela Academia Nacional de Belas Artes e coordenada por Dordio Gomes. Exposto nesse ano nos salões da Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, o “Gadanheiro” mereceu a Mário Dionísio um artigo na revista Seara Nova com título elogioso: “O princípio dum grande pintor?”.

2. Um rosto político

“O pintor não fecha mais os olhos diante da realidade”, terá declarado Júlio Pomar no ano em que pintou o “Gadanheiro”. Artista engajado, pintor de matriz marxista, ou assim considerado, tinha 19 anos e voltava-se para os trabalhadores rurais do Alentejo, pintando um rosto escurecido e sofrido, mas não curvado. “Nesta pintura inscreve-se vigorosamente a noção de força de trabalho, aliada a uma forte consciência social, que liga uma posição estética à oposição política”, escreveu o historiador de arte Pedro Lapa, antigo diretor do Museu do Chiado.

3. Cinema na pintura

Não é apenas na camisa. Também nas calças, na paisagem, no movimento da gadanha. Segundo Pedro Lapa, o “Gadanheiro” recorre a “um esquema de iluminação característico do cinema expressionista alemão” e colhe sugestões de Thomas Hart Benton, que pintou a Grande Depressão nos EUA. Essa relação “manifesta-se no esquema cromático e sobretudo no movimento ondulante de toda a composição”.

4. Rebentar a tela

Passará a ser uma constante na obra de Júlio Pomar: os limites da tela muitas vezes ultrapassados pelas figuras ou objetos. Aqui, ficam de fora a mão, o chapéu, o pé esquerdo e a lâmina da gadanha. “Essa posição da figura, quase a rebentar a tela, a querer sair do quadro, será uma referência para não se aceitar as coisas como são”, explica o pintor. Não poderia ser mais clara a mensagem política de oposição a uma ditadura que tinha começado 19 anos antes, no ano em que Pomar nascera.

Título: Gadanheiro
Autor: Júlio Pomar (n. 1926)
Data: 1945
Técnica: Óleo sobre aglomerado de madeira
Dimensões (cm): 122 (altura) x 83 (largura)
Coleção: Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado (MNAC), Lisboa