Pablo Picasso pinta “La Gommeuse” em 1901, ano em que nasce Marlene Dietrich. O pintor espanhol está em Paris, tem 19 anos e vive na boémia enquanto a futura atriz vem ao mundo em Berlim, batizada Marie Magdalene Dietrich.

É no quadro de Picasso que Marlene Dietrich se viria a inspirar quando em 1930 protagonizou O Anjo Azul, de Josef von Sternberg. Quem o diz é a historiadora de arte Elizabeth Gorayeb, da Sotheby’s. A filial nova-iorquina da leiloeira vendeu “La Gommeuse”, a 5 de novembro, por 63,5 milhões de euros – não sabe a que colecionador privado.

Elizabeth Gorayeb, também responsável pelo departamento de arte moderna da Sotheby’s, explica que Picasso interrompeu a estadia em Paris pouco depois de pintar o quadro, no segundo semestre de 1901, e que a pintura terá ficado na posse do negociante de arte Ambroise Vollard. Este terá vendido “La Gommeuse” a um negociante de Nova Iorque, que por sua vez o vendeu a Von Sternberg – sendo esta, em tese, a ligação com a pose sensual da atriz alemã no primeiro grande filme em que entrou. “O semblante místico da modelo de Picasso é familiar na personagem de Dietrich”, diz a historiadora de arte.

O retrato de uma bailarina de cabaret, de cabelo escuro e farto, nariz afilado e uma atitude erótica, contém um outro aspeto curioso, só descoberto há cerca de 15 anos.

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Em 2000, o milionário do petróleo William Koch, então proprietário de “La Gommeuse” (o quadro já foi vendido e revendido pelo menos sete vezes), mandou fazer um restauro durante o qual se descobriu no verso da tela uma outra pintura até então nunca referida: o retrato do marchand e anarquista Pere Mañach, que organizou a primeira exposição de Picasso em Paris, naquele ano de 1901, na galeria de Ambroise Vollard.

“Recuerdo a Mañach en el día de su santo” é a inscrição que se lê sob uma caricatura com cabeça de homem e corpo de mulher. O remoque pode sugerir a insatisfação de Picasso com o desempenho de Mañach na venda das suas criações.

1. Os lábios sugerem erotismo

Picasso chegara pela primeira vez à capital francesa em 1900. No verão do ano seguinte, ainda com 19 anos e fascinado com a cidade, passou a viver de noite e a dormir de dia. Frequentava cabarets e cafés-concertos e aí terá descoberto a modelo do quadro: uma “gommeuse”, beldade diletante ou artista de cabaret. O vermelho forte dos lábios, tantas vezes símbolo de desejo sexual, não será um acaso. Os olhos semicerrados sugerem igualmente ousadia e erotismo ou são resultado de uma noite de álcool? Diz-se que o deboche parisiense de Picasso, na companhia de Pere Mañach, pode também ter sido uma reação ao suicídio do amigo catalão Carlos Casagemas, que com ele fizera a primeira viagem a Paris.

2. Será um cabaret ou o atelier?

Mais de metade do fundo surge em cor neutra, para que o nosso olhar se foque no corpo e no rosto da retratada. O azul forte da parte de cima pode ser uma memória da própria beldade. Será que ela está no atelier do pintor, no Boulevard de Clichy, com uma imagem por trás que também figura na tela? Ou será que está em palco, com bailarinos em fundo? A mensagem é “propositadamente obscura e misteriosa”, analisa Jeremiah Evarts, leiloeiro da Sotheby’s. Em todo o caso, note-se que a personagem está isolada. Uma análise da Sotheby’s sublinha que naquela época Picasso criou vários retratos de mulheres sozinhas.

3. Azul e absinto

O retrato pertence ao “período azul” de Picasso, entre 1900 e 1904, durante o qual pintou sobretudo em tons de azul. As sombras são azuladas, além da óbvia parte superior da cena, e até o umbigo de artista tem uma pincelada dessa cor. A historiadora de arte Elizabeth Gorayeb interpreta o enevoado azul: “Uma mulher que é o símbolo da vida noturna de Paris aparece envolta numa bruma de absinto e tentação.” A bebida de origem suíça muito procurada pelos boémios do fim do século XIX, terá tido em Picasso um ávido consumidor.

4. Gauguin nos contornos?

O trabalho de Paul Gauguin (1848-1903), que nos últimos anos mostra as mulheres e as paisagens do Pacífico Sul, pode ter servido de inspiração a Picasso nesta pintura. Não é difícil constatar as semelhanças. “Este nu, colocado à esquerda, em primeiro plano, está isolado por um contorno forte que sublinha a autonomia da mulher na composição”, lê-se no catálogo do leilão. “O corpo está enquadrado por um fundo dividido entre claro e escuro de uma forma que recorda as fórmulas usadas por Gauguin.”

Título: “La Gommeuse”
Autor: Pablo Picasso (1881-1973)
Data: 1901
Técnica: Óleo sobre tela
Dimensões (cm): 81,3X54 cm
Coleção: Privada