Em 1990, um repórter da revista Time foi até Minneapolis perceber de que forma é que o facto de Prince ter instalado ali um complexo de produção fílmica e musical tinha ajudado a mudar o panorama musical da cidade e do estado de Minnesota. Por essa altura, o ícone pop tinha acabado de gravar um álbum com o mesmo nome de um filme que não ficou na história do cinema, Grafitti Bridge. Mesmo o disco, apesar de ter sido mais bem recebido do que a película, merecia desconfiança do repórter da Time, que o apelidava de “tonto”.

Em Minneapolis, Prince deu corpo a um complexo projeto musical que também era uma marca clara da sua personalidade. Paisley Park, assim se chama o local (onde foi encontrado morto), tem avançados estúdios de gravação, um bunker com prémios e gravações de músicas que nunca foram lançadas e uma casa. Nela, escrevia a Time em 1990, Prince tinha três camas e um espelho por cima de uma delas.

Na altura da reportagem, Prince já tinha dado ao mundo um dos maiores sucessos da música do século XX, “Purple Rain”, incluído no álbum homónimo (1984). Mas ainda estava para dar aquele símbolo, misto de masculino e feminino, que adotou como nome artístico durante quase toda a década de 1990. O tal símbolo, batizado Love Symbol, granjeou a Prince a honra de ser conhecido apenas como The Artist (o artista).

Além de ser uma forma de assumir não tinha fronteiras de género, o símbolo serviu para dar dores de cabeça à Warner, a companhia que sempre lhe tinha editado os discos — e que Prince achava que lhe queria limitar a liberdade artística. Para que a imprensa pudesse escrever sobre ele, a Warner teve de mandar disquetes aos jornais com o Love Symbol.

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Esse atrito com a Warner, que o levou a editar dez álbuns como The Artist até o contrato expirar, foi uma das várias querelas que Prince teve com a indústria musical ao longo dos anos. No YouTube vai ser difícil encontrar músicas dele. Nos serviços de streaming como o Spotify e o Apple Music é impossível.

Ao contrário de muitos artistas pop/rock que começaram por disponibilizar música na internet e entretanto se arrependeram (como Taylor Swift), Prince nunca foi favorável a este sistema. Em 2007 criticou o YouTube e o eBay por filtrarem conteúdos pornográficos e não se darem ao trabalho de impedir outras pessoas de publicar e vender música com direitos. Em 2010, numa entrevista ao Daily Mail, disse que a internet não servia para artistas. E em 2015 não deixou praticamente nada online. Atualmente só se encontra a música de Prince num serviço de streaming, o Tidal.

Da vida privada de Prince sabe-se pouco. Mas o que se sabe é revelador de um homem desempoeirado, de gostos próprios pelos quais não pede (nem tem de pedir) desculpa. Por exemplo, o superstar teve um gnomo amarelo no meio da sala de estar, que cobriu com borboletas. Tinha também uma grande gaiola com pombas, talvez a inspiração para “When Doves Cry”. E uma das suas refeições preferidas era esparguete com sumo de laranja.

Com uma música que misturava os sons de Jimi Hendrix com as influências de James Brown, do RnB, do disco e da cultura negra, Prince foi um artista multifacetado nos géneros musicais, nas temáticas, nas excentricidades e nas polémicas. Muitas das suas letras são abertamente sexuais, outras têm um conteúdo marcadamente político. Algumas vezes, isso fez com que o seu nome aparecesse nas parangonas pelas polémicas que causou. Mas, no fundo, Prince era apenas um artista a querer ser reconhecido pelo trabalho que fazia. “Não sou diferente de ninguém. Sim, tenho fama, riqueza e talento, mas não me considero de maneira nenhuma melhor do que qualquer pessoa que não tenha fama, riqueza ou talento. As pessoas fascinam-me. São fantásticas! A vida fascina-me! E não me fascino mais com a minha vida do que com a de qualquer outra pessoa.”