Um dos mais importantes nomes da música popular das últimas décadas, autor de canções como “1999”, “Purple Rain” ou “Cream”, morreu esta quinta-feira. A notícia foi confirmada pelas autoridades do estado de Minneapolis e pelos representantes do músico, depois de informações que se referiam a uma “morte na propriedade” do músico. Prince, dono de uma criatividade ímpar, showman exemplar e influência fundamental nas últimas décadas, tinha 57 anos. Foi um visionário e um pioneiro, que, como poucos, juntou diferentes linguagens num estilo único, deixando um legado irrepetível na história da música pop ao afirmar-se como autor maior.

Já no passado dia 15, Prince tinha sido notícia quando foi transportado de emergência para um hospital no estado de Illinois. Contudo, um dia depois o músico veio publicamente esclarecer que “estaria tudo bem”, apesar dos relatos de uma “grave gripe” que o estaria a afetar. Na manhã desta quinta-feira, o corpo de Prince foi encontrado na sua propriedade, o Paisley Park, onde tinha também o seu estúdio. De acordo com as últimas informações das autoridades americanas, a polícia estaria ainda investigar as causas da morte, mas o artista terá sido encontrado inanimado num elevador.

Prince passou por Portugal pela última vez em Agosto de 2013, quando deu um concerto surpresa no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Antes, tinha sido o cabeça de cartaz do festival Super Bock Super Rock, em 2010 (um concerto que contou também com a participação de Ana Moura), motivando uma enchente no último dia do evento. Foi a tal noite que virou o mundo ao contrário e o encheu de pó, trânsito e outras maravilhas do género, mas e então? Era o Prince que estava entre nós, só isso interessava. Esteve no nosso país pela primeira vez em 1993, num concerto no antigo estádio de Alvalade. Em 1998 esteve no Pavilhão Atlântico — numa visita a Lisboa que incluiu uma passagem surpresa pela discoteca Lux.

Génio criativo, exigente perfeccionista, autor de canções pensadas ao detalhe e sem espaço para erros, Prince assinou uma carreira de quase 40 anos (fora o tempo que deu à música antes de ser profissional), vendendo mais de cem milhões de discos. Muito mais do que isso: juntou aos números e à fama o reconhecimento da crítica e de gerações de artistas que nele se inspiraram. Partindo do funk e do R&B, assimilou estéticas para depois as contaminar com o seu gosto e a sua visão, até criar uma expressão irrepetível e muitas vezes apropriada por quem nele encontrou uma obrigatória referência.

Outros músicos interpretaram canções escritas por ele, sobretudo mulheres. A mais popular terá sido “Nothing Compares 2 U”, tornada famosa por Sinead O’Connor, mas a esta lista convém acrescentar “Manic Monday”, pelas Bangles, “Stand Back” na voz de Stevie Nicks, “I Feel For You”, de Shaka Khan, ou “How Come You Don’t Call Me”, que teve direito a várias versões, talvez a mais reconhecida seja a de Alicia Keys.

Além de todo o trabalho que assinou no estúdio, do brilhantismo que levava para os discos que gravou e editou, Prince foi a figura pop total, o ídolo que juntava a música e a imagem — cuidada e reinventada à medida que a sua inspiração criativa assim determinava. O homem de roxo com talento de ouro. Foi o centro das primeiras capas dos seus álbuns, foi a estrela de videoclipes e protagonista no cinema, enquanto ator ou compositor de bandas sonoras. Neste último campeonato fez história com “Purple Rain”, de 1984, para o qual assinou também a banda sonora — com clássicos como o tema título, “Let’s Go Crazy” ou “When Doves Cry” — que lhe valeu um Óscar da Academia. Cinco anos mais tarde assinava também a música para o “Batman” de Tim Burton.

[o trailer de Purple Rain]

Prince Rogers Nelson nasceu em Minneapolis, no estado de Minnesota, a 7 de junho de 1958, a comprovar que alguns têm o nome certo mesmo que ainda não o saibam. Fez-se músico cedo, como compete aos génios que decidem mudar a história. O pai era pianista, a mãe era cantora de jazz e tinha seis irmãos. Em casa fez as primeiras demos e com os Grand Central, onde tocou com um primo, lançou-se nas coisas das bandas. À guitarra e ao piano, foi preciso pouco até começar a criar um estilo muito próprio. James Brown, Sly Stone, George Clinton, Jimi Hendrix ou Little Richard. Todos estes (mas não só) passaram pela lista de referências de Prince, às quais juntou uma capacidade rara de trabalhar as canções, estreadas em nome próprio em 1978, ano em que editou seu primeiro álbum, “For You”.

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A capa do primeiro álbum de Prince, “For You”, de 1978

O trabalho em estúdio seria uma constante. Lançou 39 álbuns e só desde 2014 editou quatro discos: “Plectrumelectrum”, “Art Official Age”, “HITnRUN Phase One”, “HITnRUN Phase Two”. Um vício de trabalho que começou nos tais finais de 70. Depois de “For You” haveria de apresentar “Prince”, para esclarecer dúvidas e marcar posição. Foi entre 1980 e 1984 que Prince conquista todas as atenções da pop. Primeiro com o arrojado “Dirty Mind”, dois anos mais tarde com “1999” (“Controversy” apareceu pelo meio) e em 1984 com “Purple Rain”. Entre todos estes discos surgiu uma lista de momentos históricos: “Little Red Corvette”, “Let’s Go Crazy”, “When Doves Cry” ou os fundamentais temas que deram nome aos três álbuns.

Habituou-se a fazer desfilar sucessos e assim continuou, fosse com “Raspberry Beret” ou “Kiss”. Com tudo certo e a seu favor, insistiu na superação face a si próprio (daquelas constantes que sempre o acompanharam). Chegou 1987 e o mundo viu “Sign o’ the Times”, o disco em que Prince deixa a banda anterior, os Revolution, e em que se atira ao mundo, aponta-lhe o dedo e culpa-o de tragédias sociais, de descriminação sexual e de questões de género que Prince acolhia como inspiração para temas como “If I Was Your Girlfriend”, “It”, “I Could Never Take the Place of Your Man” ou “The Cross”, onde a espiritualidade — e o lugar que ocupa no mundo — foram motivo principal. Tema, aliás, que haveria de repetir-se, inevitavelmente. O funk como droga psicadélica, máquina para fazer suar, enquanto se aceitam os instintos ou se procura mudar o mundo. E ainda hoje funciona como um sinal dos tempos, é pôr a rodar a faixa título e perceber como nada soa desatualizado, nada.

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Reinventou-se sem nunca se perder, entre a banda sonora de “Batman”, “Diamonds & Pearls” (seis singles perfeitos para dominar o mundo) ou o álbum sem nome que ficou conhecido como o “Love Symbol Album”. Pelos anos 90 a dentro, com gana e manias, mereceu-as todas, fez por isso. Será sempre fácil recordar o símbolo com os dois sexos e sem nenhum; pelas guerras com a Warner Bros, que não se esforçava o suficiente pelo sucesso dos discos; pelos New Power Generation, mais uma banda (que banda) a seguir o mestre. Mas irrecusável será ouvir outra vez “Cream”, “Get Off”, “My Name is Prince”, “Sexy MF” ou “Space”.

Décadas novas, como os fãs que conquistava sucessivamente, colecionava as duas coisas. No fim dos noventas era já um clássico, com tudo o que de bom a palavra pode ter. E tratou de o explicar à sua maneira. Um novo século surgiu-lhe à frente para o encher de álbuns. Contas feitas, desde 2001 lançou 16 álbuns. “Musicology”, “3121”, “Planet Earth”, sempre sem grande preocupação com os avisos e os grandes anúncios, sempre com a certeza de não querer errar. Ano após ano, disco após disco. Em 2014 começa a trabalhar com uma nova banda, as 3RDEYEGIRL — a baterista Hannah Welton, a guitarrista Donna Grantis e a baixista Ida Kristine Nielsen. Ficou popular, na altura, o critério e o processo de seleção que Prince fez questão de aplicar na altura de escolher quem o iria acompanhar. Concertos surpresa, listas intermináveis de canções para decorar em menos de nada, ao mesmo tempo que a postura se queria intacta e contagiante.

[Prince numa entrevista em 2011]

E tudo a partir de um trabalho de estúdio que se transformou num modelo, um exemplo que muitos quiseram seguir mas que todos perceberam ser difícil de repetir. Paisley Park, o complexo de estúdios que criou para construir a sua obra, transformou-se numa espécie de santuário de criação. Prince era prolífico, naturalmente (a palavra até parece pequena para a questão em causa), mas era-o porque assumia-se autor de uma obra própria, a mesma que ultrapassava em importância o nome que usava ou a imagem que apresentava.

Elencar sucessos haveria se tornar coisa natural. E, ao mesmo tempo que o fazia, nunca se deixou ficar por nenhuma época específica, nenhuma década ou rótulo definido. Foi o ambicioso que nos anos 70 se apresentou ao mundo, o mesmo que ganhou o estatuto de estrela mundial nos anos 80, o tal que na década de 90 pode ter mudado de nome ou assinar até com um símbolo, sem género e sem estereótipos, fazia assim a sua música e assim queria que ela chegasse mais longe, mesmo que isso implicasse não assinar como Prince também por questões legais, ao lutar contra um contrato do qual se queria livrar por lhe roubar o controlo total que tanto ambicionava. Nunca fez menos do que ser insubstituível. E sempre acompanhado de uma glória mediática que não o afastou do objetivo principal, ser mais e melhor.

A vida pessoal manteve-a sempre rodeada de considerável privacidade. Foi casado duas vezes — com Mayte Garcia (entre 1996 e 1999) e Manuela Testolini (entre 2001 e 2006) — e teve um filho do primeiro casamento, que morreu uma semana depois de ter nascido, vítima do síndroma de Pfeiffer. Haveria em breve de revelar mais, depois de ter chegado a acordo com a editora Spiegel & Grau para a publicação de um livro de memórias. Um dos títulos possíveis, apontados em algumas notícias que não tiveram confirmação oficial, seria “The Beautiful Ones”.

Controlador absoluto, haveria de exercer todo o direito que lhe assistia sobre a sua própria obra. Hoje encontram-se poucos vídeos oficias e com boa qualidade no YouTube. Pouco dado a redes sociais, tratava os serviços de streaming com pouca ou nenhuma amizade. Procurá-lo no Spotify é uma missão derrotada à partida, por exemplo. Entregava-se aos discos e aos concertos, tê-lo de outra forma não fazia sentido, pelo menos não para ele, o tipo excêntrico, tímido menos quando não o era, difícil de compreender mas adorado assim mesmo. O decidido que não encontrava ninguém com mais talento que ele próprio — a não ser Stevie Wonder, como fez questão de afirmar em diferentes ocasiões.

Foram todas estas marcas únicas que fizeram de Prince um artista completo. Estas e uma presença em palco difícil de explicar, impossível de replicar. Prince, o cantor sem erro, com toda a soul do mundo numa voz plena de técnica. Prince, expoente máximo da atitude rock’n’roll, imparável. Prince, um virtuoso da guitarra, instrumentista pleno de mestria mas com a clarividência que só abençoa uns quantos e que sabe quando deve entrar e sair de cena sem se sobrepor a nada nem a ninguém. Ser todas estas coisas à vez era coisa habitual, ainda o é. Juntar tudo como Prince fez, mais aquele falsete arrepiante no meio de “Purple Rain”? Vai ser difícil dar de caras com tudo isso outra vez. Pelo menos assim.

https://www.youtube.com/watch?v=1Lmq6RDn5O8