Agora com sinal reforçado em Lisboa 98.7 FM No Porto 98.4 FM Cultura / Literatura Seguir Raduan Nassar vence Prémio Camões de 2016 O escritor brasileiro venceu esta segunda-feira o Prémio Camões de 2016. Com apenas três obras publicadas, Nassar é o 12º brasileiro a receber uma das mais importantes distinções da língua portuguesa. Ana Cristina Marques Texto Tiago Pereira Texto 30 Mai 2016, 19:12 i Antonio Cruz/Agência Brasil/wikimedia commons Antonio Cruz/Agência Brasil/wikimedia commons O vencedor do prémio Camões é Raduan Nassar. O escritor brasileiro com 80 anos tinha sido um dos 13 finalistas do Prémio Man Booker Internacional: foi, juntamente com José Eduardo Agualusa, o único a representar a língua portuguesa na respetiva competição. Nassar sucede à escritora portuguesa Hélia Correia, vencedora do Prémio Camões de 2015, e torna-se no 12º brasileiro a receber aquele que é tido como o mais importante prémio literário com vista a distinguir autores da língua portuguesa.Apesar da marcante ausência de vida literária há cerca de duas décadas, Nassar recebeu esta segunda-feira a distinção, com o júri a elogiar a “complexidade das relações humanas” presente nas suas obras. O anúncio do vencedor aconteceu no decorrer de uma conferência de imprensa com o secretário de Estado da Cultura, Miguel Honrado, e o júri. Raduan Nassar nasceu em 1935 em Pindorama, em São Paulo, onde passou a infância. Já na adolescência mudou-se para São Paulo onde viria a estudar direito e filosofia. A estreia na literatura aconteceu em 1975 com “Lavoura Arcaica”. Seguiu-se “Um Copo de Cólera”, publicado em 1978, e “Menina a Caminho”, de 1997, que reúne contos por ele escritos nas décadas de 1960 e 1970. Com apenas três obras por si assinadas, o autor tem livros traduzidos em países como Espanha, França e Alemanha.Francisco Vale, da Relógio D’Água, a primeira editora a publicar livros de Nassar em Portugal, recorda a “escrita muito criativa e surpreendente” do autor, a mesma que entrou “em rutura com o neorealismo brasileiro”. “Ele criou uma linguagem e um universo inteiramente novos.” Se em Um Copo de Cólera Francisco Vale elogia o facto de o escritor contar a mesma história na perspetiva feminina e masculina, na obra A Lavoura Arcaica sublinha a “parábola sobre si próprio” numa “escrita completamente invulgar”. Já o “Menina a Caminho” é o livro mais presente na memória de Afonso Cruz, escritor português que destaca o tipo de linguagem presente nos contos, mas também “as descrições muito fortes”.“Tanto no personagem de «Lavoura Arcaica» que foge da solidão e do fechamento, como no casal de «Um Copo de Cólera» o que me interessa é a capacidade de Raduan Nassar fazer retratos complexos em tão poucas páginas”, diz ao Observador o escritor Francisco José Viegas, acrescentando que prefere “Lavoura Arcaica” “pela sua densidade, um certo tom barroco, antigo, ou pela melancolia libanesa, que ele herdou da família (nota-se que leu o Corão)”.Francisco José Viegas salienta ainda que Nassar é “um dos grandes escritores brasileiros de hoje, embora retirado. Essa fuga dos holofotes e dos salões da literatura fez dele um mito, um autor de culto”.O Prémio Camões, já na sua 28ª edição, premeia todos os anos um autor de língua portuguesa, tendo sido instituído pela primeira vez em 1989 por Portugal e Brasil. No primeiro ano a distinção foi atribuída a Miguel Torga. “Uma ótima decisão, uma grande escolha”José Eduardo Agualusa, leitor entusiasta da obra de Raduan Nassar, classificou a entrega deste prémio como “uma ótima decisão, uma grande escolha, e é a última das grandes figuras literárias que ainda não tinha recebido o prémio”. Acrescenta ainda: “Na verdade, agora vai ficar ainda mais difícil de entregar o Prémio Camões porque todos os nomes históricos já o receberam.”O escritor angolano recorda ao Observador que Nassar “é um homem que tem uma obra muito escassa, três livros” mas aponta o essencial: “Os dois romances que fez são fantásticos, são marcos importantíssimos da literatura brasileira”.Sobre o Prémio Camões, José Eduardo Agualusa considera que “tem que servir também para dar a conhecer autores que não são tão conhecidos fora do seu espaço”. Raduan Nassa encaixa na perfeição neste perfil, diz: “Embora seja extremamente conhecido e venerado no Brasil, não é conhecido em Portugal, apesar de ter os três livros aqui publicados. E os prémios também têm que servir para cumprir esta tarefa”.Sobre aquilo que diferencia Raduan Nassar, o que faz da escrita do brasileiro algo único, Agualusa refere a “densidade psicológica das personagens, a forma como os cria é marcante e é difícil não nos prendermos à sua evolução”.