Cinema

“À Procura de Dory”: no mar é que se está bem

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A Pixar joga pelo seguro nesta continuação de "À Procura de Nemo", mas leva a sua avante graças à excelência da animação, ao humor e a um polvo chamado Hank. Eurico de Barros dá quatro estrelas

Autor
  • Eurico de Barros

Os polvos estão entre os animais mais inteligentes da criação. São curiosos, têm memória, capacidade de aprendizagem, manifestações de pensamento conceptual, olhos estrutural e funcionalmente semelhantes aos dos humanos. Além disso, e entre outras qualidades, conseguem mudar de forma para escapar a armadilhas e possuem uma capacidade mimética superior à dos camaleões. E entre todos os animais invertebrados, são os únicos que brincam. Não admira, por isso, que no novo filme animado da Pixar, “À Procura de Dory”, a continuação de “À Procura de Nemo”, um polvo rabugento e interesseiro mas de bom coração (aliás, de três bons corações, porque esta é a quantidade de corações que os polvos têm) chamado Hank “roube” o filme à sua heroína, a azougada peixinho azul fêmea Dory, tal como ela “roubava” o protagonismo do original a Nemo, o pequeno peixe-palhaço.

[Veja o “trailer” de “À Procura de Dory”]

Hank, que tem a voz de Ed O’Neill (da divertida embora politicamente corretíssima série “Uma Família Muito Moderna”) , é um dos residentes do Marine Life Institute da Califórnia, parte oceanário, parte clínica e centro de investigação de animais marinhos, onde Dory, que continua a ter memória curta, embora menos do que em “À Procura de Nemo”, e anda em busca dos pais, vai parar, acompanhada por Marlin e Nemo. E ao procurar ajudar Dory, Hank revela toda a iniciativa, mobilidade, capacidade de camuflagem, resistência e rapidez de pensamento e reação de um soldado de uma força de elite. Que digo eu? De um herói de carne e osso do cinema de imagem real. Hank é o equivalente oceânico, animado e digital do Ethan Hunt de Tom Cruise dos “Missão: Impossível”. Com a vantagem de ser melhor ator do que ele.

[Veja a entrevista com Ed O’Neill e Ellen DeGeneres]

Passado um ano depois dos acontecimentos de “À Procura de Nemo”, e realizado por Andrew Stanton e Angus MacLane, um animador da casa promovido a co-realizador, que sucede a Lee Unkrich, “À Procura de Dory” não tem a originalidade, o arrojo e o brilho conceptual de “Divertida Mente”, a anterior longa-metragem animada da Pixar. Joga pelo seguro, repetindo o padrão narrativo de “À Procura de Nemo”, pois agora é Dory a fazer o que Marlin fez no filme de 2003, e cultivando os mesmos temas deste, bem como os que a Disney tradicionalmente acarinha: a importância da família, o valor da amizade e da entreajuda, o elogio da persistência, da vitória sobre as insuficiências e da superação das deficiências (basta recordar “Dumbo”). E felizmente, o filme fá-lo sem sublinhar a traço grosso nem forçar (demais) os sacos lacrimais.

[Veja a entrevista com o realizador Andrew Stanton]

A segurança de ir por caminhos já trilhados escolhida pelos autores de “À Procura de Dory” é compensada, como é de rigor na Pixar, pela excelência técnica, visual e expressiva, da animação computacional, pelo fino sentido de humor e pela comédia em repuxo contínuo, pela qualidade das interpretações vocais (praticamente todos os atores repetem as personagens de “À Procura de Nemo” – vão ver a versão original, nunca é demais insistir). E, claro está pela riqueza, variedade e potencial cómico das personagens secundárias e sua caracterização.

[Veja os bastidores da criação do filme]

Além do citado polvo Hank, a nova “estrela” da animação da Pixar, que até tem direito a destaque na ficha técnica final, há, entre outros, dois leões-marinhos “cockney” (e um terceiro apanhado dos carretos, que não fala), um tubarão-baleia fêmea cegueta, uma beluga com nervoso miudinho e o sonar interno em “panne”, e um mergulhão-fêmea zarolho chamada Becky que, se fosse uma companhia aérea, ia à falência no primeiro dia de funcionamento. A tradicional curta-metragem de complemento, “Piper”, de Alan Barillaro, cumpre simpaticamente e está em sintonia com o ambiente marinho do filme principal. Na altura em que escrevo, “À Procura de Dory” já lucrou, só nos EUA, 156 milhões de dólares em quatro dias de exibição, prevendo-se que se torne num dos filmes com maiores receitas deste verão, e de 2016. “La Mer” é de certeza a canção favorita da Disney e da Pixar este ano.

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