Com relativamente pouco tempo no mercado doméstico, a Realidade Virtual (RV) convence no sucesso surpreendente da compra de dispositivos (em especial os PSVR, que como dissemos há meses são os mais acessíveis do mercado), mas continua a não ter um único título que utilize a tecnologia ao ponto de se tornar um game-changer para o género.

Os constrangimentos técnicos atuais impedem que um jogo de RV consiga chegar perto da complexidade e realismo visual que os restantes jogos alcançam. Excetuando ambientes fechados e contidos, em que o esforço de processamento é reduzido e condicionado para uma melhor experiência visual, tudo o resto ainda soa excessivamente apenas como primeiros passos, sólidos, de um submercado que, por estranho que pareça, ainda está na sua infância.

Na tentativa de demarcar-se mais uma vez como a marca de maior sucesso no mercado VR, a Sony lançou a semana passada em exclusivo para a PS4 o jogo Farpoint, criado pelo “jovem” estúdio Impulse Gear. Apesar deste ser um jogo interessante, como falaremos um pouco mais à frente, parece-me que este objeto não é mais do que uma tech demo da tecnologia PSVR , mas fundamentalmente um companion para o novo acessório exclusivo da PS4: o Controlador de Mira.

Muito distante das armas-acessórios mais ou menos realistas que as últimas décadas viram chegar ao mercado das consolas, o Controlador de Mira é notoriamente uma extensão do branding dos comandos Move e da linguagem e design que a Sony quis impor em torno dos addons para a PS4: cilíndrico, depurado e com a bola luminosa na ponta.

Apesar de parecer, à primeira vista, tudo menos um avançado acessório de Realidade Virtual ou uma simples arma de brincadeira, o Controlador de Mira possui todos os botões e analógicos que um comando da PS4 possui, com um posicionamento ergonómico bem resolvido, que permitem serem premidos mesmo quando estamos com o PSVR colocado na cabeça, sem visão “real” daquilo que nos rodeia.

A perceção que temos quando utilizamos o Controlador de Mira pela primeira vez é que ele é extremamente natural. Quase instintivamente percebemos a distribuição dos botões pelo Controlador, o que permite um controlo quase automático e que demonstra as muitas potencialidades deste novo comando destinado à Realidade Virtual da PlayStation.

Farpoint é então o primeiro título a surgir no mercado a utilizar todas as potencialidades do novo Controlador de Mira. Uma experiência agradável de Realidade Virtual que evoca o ambiente de Starship Troopers de Paul Verhoeven, e no qual percorremos um planeta hostil onde a nossa nave se despenhou, habitado por muitas criaturas mistas de inseto e alienígena que nos querem saltar para a cara e matar-nos (Ridley Scott olha de soslaio mas deixa passar a referência).

Pelos problemas técnicos do RV actual já referidos, Farpoint acaba por sofrer de alguns problemas que o minimizam. O primeiro de todos, numa estratégia de diminuir as náuseas que muitos jogadores sentem, Farpoint não permite movimentos abruptos, levando-nos apenas a deslocar-nos para os lados sem virar muito a cabeça e o campo visual. Esta constrição criativa (associada ao peso do processamento) levou a que Farpoint perdesse toda a abertura que os restante shooters do mercado possuem, conduzindo-nos num corredor percetível, um carril por onde somos levados e onde se passa toda a ação.

Este é um jogo curto e é possivelmente aquele que melhor demonstra todas as potencialidades dos jogos bélicos na primeira pessoa em Realidade Virtual. É o passo mais sólido que algum estúdio deu neste género, demonstrando que os nossos sonhos mais intensos com este tipo de imersão neste tipo de jogabilidade não só é possível, como está aí ao virar da esquina.

No entanto, não deixa de soar embriónico. Sofre da injustiça de ser uma pedra de crescimento para este submercado e, apesar da sua execução ser extremamente bem alcançada em quase tudo o que propõe, não deixa de incorrer em algum tédio. Se têm um tremendo efeito de imersão na Realidade Virtual o susto e intensidade reais de ter criaturas a saltarem na nossa direção e de sentirmos o fulgor de controlar uma arma na nossa mão, onde a nossa mira “real” é aquela que surte efeitos em jogo, o enredo cliché e a curta duração do jogo tornam algo inglória a tarefa do estúdio Impulse Gear.

Farpoint é um bom jogo e muito bem executado, mas que tem sobretudo o condão de mostrar o Controlador de Mira como o melhor periférico de controlo de Realidade Virtual da atualidade, com as interações de rodarmos a arma no mundo real e poder ter esse movimento mimetizado em RV, para além da extrema ergonomia e potencialidades para os first-person shooters que este pode trazer. Este é, sem dúvida, o melhor jogo do género em Realidade Virtual, o que infelizmente ainda não diz muito. Mas deixa antever os próximos meses e as novas propostas de utilização da tecnologia e acessórios da PlayStation 4, vislumbrando a maturação que o submercado do RV pode vir a sofrer em pouco tempo.

Ricardo Correia, Rubber Chicken