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Como é que Capitão Fausto e Boogarins fazem uma canção juntos?

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O MIL, Lisbon International Music Network, regressa aos debates e concertos, primeiro encontro marcado esta quarta, no B.Leza, às 22h, com Boogarins e Capitão Fausto. Estivemos no ensaio.

ANDRÉ CARRILHO/OBSERVADOR

Autores
  • Luís Freitas Branco
  • André Carrilho
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“Só nos conhecemos ontem”, arrisca Tomás Wallenstein, vocalista dos Capitão Fausto. “Foi hoje!”, defende o sempre alerta Benke Ferraz, guitarrista dos Boogarins, que fez carreira a pensar e compor de forma diferente, e decide apresentar uma tese inesperada a todos os músicos entorpecidos: “Em vez de uma jam, é muito mais interessante fazermos uma canção”.

Fazer uma canção, como quem, após uma noite agitada, decide num ato de coragem passear o cão de madrugada. Estupefactos, os músicos lisboetas ficam em silêncio perante a ambição desta banda de Goiânia, confins do Brasil, que em 2013 achou mais interessante fazer canções no quarto de adolescente que jogar consola, a despertar a atenção de uma editora norte-americana, e depois, passo a passo, digressão a digressão, dos portugueses. “Partimos sempre do princípio de criar música nova”, explica Benke ao Observador, na porta da sala de ensaios que junta pela primeira vez as bandas separadas por tanto mar.

Este é o jeito que estamos acostumados, não queremos uma jam, improvisar totalmente livre, queremos chegar a temas no momento, gravar e construir canções”.

A construção de canções acontece numa casa acostumada a esse artesanato, o Estúdio Haus, na Bica do Sapato, onde bandas como Dead Combo, You Can’t Win Charlie Brown, Linda Martini ou até Diogo Piçarra ensaiam e guardam o material. Os PAUS, outra da casa, testam o novo álbum no andar de cima, conhecem os brasileiros na pausa do cigarro, antecipando o encontro que acontece uns dias depois, tudo para aprimorar a festa de abertura do MIL, o Lisbon International Music Network, certame de concertos e palestras, de dia 4 a 6 de Abril. “O MIL quer fazer essencialmente o cruzamento entre pessoas, sejam elas artistas, ou profissionais da área”, justifica o organizador Pedro Azevedo, sobre o concerto esta quarta no B.Leza, às 22h, que junta os Boogarins a Capitão Fausto, Paus e The Legendary Tigerman. “Vai ser um espetáculo de abertura com a tentativa de juntar os princípios do festival”.

Quando a banda de Alvalade anunciou que a mocidade chegou ao fim, em 2016, marcou a última paragem na viagem psicadélica, rumo a um amanhã melhor, de radiantes canções pop, ficou cada vez mais distante da forma como alguns melómanos brasileiros descreviam estes moleques da terrinha: os Boogarins de Portugal. Ou por outro lado, seriam os miúdos de Goiânia os Capitão Fausto do Brasil? “Essas descrições fazem algum sentido no contexto de cada banda, o tipo de público e seguimento que têm”, confirma Tomás, acrescentando: “Claro que na altura de Pesar o Sol estivemos mais próximos musicalmente”. O novo álbum está no forno, com promessas de uma certa influência brasileira, pop rock com ginga de samba. “Se tivemos influência do Brasil não foi propriamente Boogarins, mas mais para trás, coisas como Cartola, choros, que incorporamos de forma a não ficar demasiado choro”, explica Manuel. “Continuam a ser as nossas músicas, é uma influência subtil, uma vibe”.

Um riff “tipo Queen”

Se fosse um elevador, o ponto de partida seria o tempo ou a bola, como é uma sala de ensaios, as primeiras conversas, a testar o terreno, são introduzidas pelos bateristas calmeirões Ynaiã Benthroldo e Salvador Seabra. É uma batida, onde os baixistas, Raphael Vaz e Domingos Coimbra, decidem-se juntar ao paleio, criar a quatro um groove mlandro, que passa uma hora nesse registo hipnótico, a percorrer as mesmas galerias do “Corredor Polonês”. E como no hino de “Let There Be Rock”, dos AC/DC, depois da luz e do som, “There was a guitar”. Manuel Palha atira um riff, um abre-latas de Rickenbacker, uma proposta de caminho que não é bem Angus Young mas tem aquele estilismo de laca de um Brian May. “O riff é tipo Queen, Stadium Rock”, comenta o guitarrista, “mas por alguma razão fica bem”.

No centro, de shortinho e pochete com a mensagem “Foi Mal” — a música de existencialismo sensual dos Boogarins — o maestro Benke grava no telemóvel a conversa de instrumentos, desenfreado de um canto da sala para outro, como quem quer pegar de primeira o touro que por ali apareceu. Dinho, o vocalista, improvisa vozes, uiva, ecos do fundo do poço, sempre distante, lá em baixo, ou lá em cima, tudo no telemóvel, da mesma forma que fizeram o álbum Lá Vem a Morte. Sussurra no tom que tem tanto de angelical como de maldoso, a lembrar o corte e costura de “Lá Vem a Morte. Pt. 2”, a mesma música que começou no Porto.

“Isso foi quando a gente tocou no Maus Hábitos pela primeira vez”, lembra Benke. “Durante o soundcheck, estávamos gravando a passagem de som, a bateria do Ynaiã e guitarra de Dinho, som bem alto do PA, e quando fui montar essa experiência nova, saiu essa colagem eletrónica”. Entre Austin, Porto, Goiânia e a escadaria do prédio da namorada de Dinho, o terceiro álbum da banda é criado totalmente na mobilidade de quem faz mais de 200 concertos ao ano, fluído, orgânico e esquizofrénico.

Sempre ágil, Francisco Ferreira, de camisa de seda e dedos leves, encontra a sua forma primordial de participar no ensaio, que é florir as coisas, engendrar nas teclas uma sequência singela, inserir um sentido de humor e leveza ao pesado groove. Os nove músicos, apinhados, trocam de lugar, trocam de instrumento, uns saem outros entram, aparece um tipo suspeito, pinta de dealer, que traz drogas pesadas num saco: kebabs e kinder buenos. Benke afasta-se e começa a trabalhar no resultado, na entrada do estúdio, compenetrado no laptop, de auscultadores a ver o subir e descer das ondas negras, a colagem de sons que profetizam o qeu aí vem.

Conversamos com os músicos e apresentamos esses métodos, que são toscos de certa forma, mas que como tudo nas artes, faz parte de um processo de aprendizagem e amadurecimento”, indica, continuando: “Se você está treinando, nem que seja com a gravação do celular e está sempre aprimorando isso, quando chegar com equipamento ao estúdio o resultado vai ser mais satisfatório”.

“Às vezes gravamos uma coisa no iPhone para não esquecer, e depois soa muito melhor que na gravação”, concorda Manuel, a observar atento o método de trabalho móbil dos brasileiros. “Manual foi o disco de estúdio, o Lá Vem a Morte foi mais colagem, e vamos vir com próximo disco de estúdio, é um ciclo interminável”, garante Benke.

Os Boogarins são um pilar central da nova música independente brasileira, que já falamos em detalhe por aqui, avalanche de sons que confluem em São Paulo, em comunidades como o estúdio Red Bull, onde Elza Soares grava agora o novo álbum, e os Capitão Fausto passaram uma recente temporada. “Estivemos dezoito dias em São Paulo, estávamos completamente imersos na cena de São Paulo”, garante Tomás. “Nós acordávamos, íamos para o estúdio, fazíamos a pé o caminho, depois saíamos no fim da tarde, e o resto do tempo era passear, conhecer a cidade, beber e comer”, recorda Manuel, com uma passagem memorável na RISCO, editora dos Terno. “Obviamente que em tamanho não podemos competir, mas cá também se sente uma certa cena efervescente”.

Toda a mistura cura

Nesta edição do MIL, é evidente a presença de brasileiros entre os palestrantes, com membros do SIM São Paulo, Mais Um Discos, Brazil Music Summit e o Festival Bananada, em Goiânia, e com destaque para a conversa “Brazil And Portugal: Building The Bridge”, esta quarta, às 16h30, no Polo Cultural Gaivotas (Rua das Gaivotas, 6). “Um festival com grande foco na lusofonia tem que ter no Brasil seu principal parceiro, é o mercado lusófono mais desenvolvido”, justifica o organizador. “Há um potencial de negócio brutal no outro lado de oceano, o objetivo é que isto seja uma porta de entrada dos brasileiros para a Europa e saída dos europeus para o Brasil”, acrescenta, concluindo que, “como músicos portugueses, temos que ter ambição em tocar e fazer dinheiro no Brasil.”

“Tá rolando uma letra aí velho”, diz Dinho para um surpreendido Tomás, o outro possível candidato neste ensaio para encaixar versos entre notas. “Primeiro eu canto e depois você chega chegando?”, pergunta o vocalista de imponente afro, começando sem medos a recitar em frente a todos os curiosos.

“Medo são asas cortadas
eu vivo longe do chão
Toda a mistura cura
Nada se mexe não
Eu escolho viver sonho
Cada um dos seus demónios”

E sem darmos por isso, passam três horas e temos quase uma canção, de corpo e alma. “Nós somos um bocado mais calculistas, ou seja, também temos este início, este arranque das coisas, mas depois não é assim que gravamos e avançamos”, analisa Manuel. “Há bocado o Fernando [Dinho] escreveu uma letra em dois minutos e começa a cantar, é uma coisa que eu não faço”, assegura Tomás.

São formas diferentes de fazer nascer uma canção, o parto natural de tocar e gravar ao mesmo tempo. Ou a operação detalhada, com hora marcada e tudo bem ensaiadinho, na sala de estúdio com um médico de confiança. “Normalmente debatemos muito até que essa coisa inicial se transforme e transforme, até se calhar estar muito longe daquilo que era originalmente, e os cinco sentimos que é o caminho certo”, garante-nos Manuel. “No Brasil por exemplo”, continua Tomás, “marcamos imensos dias de estúdio e ao fim de segundo já tínhamos gravado mais de metade do disco”.

Neste fim-de-semana de Páscoa que antecedeu o MIL, além dos Boogarins receberem três bandas portuguesas, ainda marcaram um Open Call”, um convite para qualquer músico, amador ou profissional, conhecer os bastidores da fábrica de canções de Goiânia. “É meio que uma conversa também, tentar incentivar as pessoas de mesmo jeito que a gente aprendeu muito com o processo de gravar e como isso abriu portas para conseguirmos compor melhor”, explica Benke. “Espero que as bandas e músicos consigam encontrar parceiros que as consigam fazer crescer fora do território onde elas se inserem, que consigam um agente, ou até um manager internacional, queremos que as bandas cresçam através do MIL”, considera Pedro Azevedo sobre a programação.

No final, feitas as contas, são quatro horas a ruminar um groove, à procura de um riff reluzente, teclas singelas, uma letra que reitere esta vontade inderrubável de estar sempre a voar, cabeça no ar e pés longe da terra, digressões de 6 mil dias, muitos meses, muitas horas, sem parar. “Toda a mistura cura/ Nada se mexe não” e as duas bandas vão soltar em breve esta canção no imenso da internet, mais uma agulha no palheiro, afiada, suficiente para perfurar, ser encontrada e glorificada. Afinal foi assim que começaram os Boogarins, de um quarto refundido para o resto de mundo, armados de telemóvel na mão. E assim nasce uma canção.

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