A abertura foi ao som do tema que deu título ao último disco, Everything Now, mais bem recebido pelo público do que pela crítica, muito por culpa de um single orelhudo (precisamente esse) que cativou milhões. Quem esperava que a banda canadiana (talvez já a maior de entre as melhores do pop-rock indie deste século) prosseguisse daí para um concerto centrado no último álbum enganou-se. Dificilmente alguém o esperaria, na verdade — os trunfos do novo trabalho são poucos e ainda menos conhecidos do público europeu — e os Arcade Fire também não forçaram em demasia. Se não gostam, não gostam, parecia dizer a banda aos portugueses. Win Butler já o dissera em março, em entrevista ao jornal inglês The Guardian. Estava em paz: “Parte de mim espera que este seja o nosso ‘disco horrível’. Porque, se o for, talvez sejamos a maior banda de sempre. Se o for, estou em paz”.

Pugilistas do rock

Pouco passava das 21h desta terça-feira quando as luzes se apagaram e nos ecrãs começaram a aparecer as letras “EN”. De repente, os Arcade Fire começam a sair de uma das portadas do Campo Pequeno. Em fila, saltitando e cumprimentando as pessoas no percurso, dirigiram-se ao ringue como pugilistas experimentados. O ringue era na verdade o palco, colocado no centro da arena e que se transformaria durante mais de duas horas em cenário quase circense, por onde os muitos Arcade Fire (a banda é extensa, a parafernália de instrumentos impõe respeito) correriam, saltariam, saíram para voltar a entrar, saíram para cantar e tocar junto ao público, saíram para subir a um poste (caso de um percussionista que, mais afoito, achou que o som do tambor ganharia com a altitude).

Abertas as hostilidades, os Arcade Fire recuariam ao passado. Butler e companhia sabem que foi graças a ele que conseguiram chegar aos estádios e aos festivais e que foi através dele que conseguiram a comunhão que tanto lhes é cara (já organizaram marchas, já pediram ao público para se vestir com “fardas” específicas em concertos…), a transcendência onomatopeica entoada a plenos pulmões. Oooooh-oooooooooooh e aaah-aaah, claro, com os telemóveis quase todos levantados na plateia a registar o momento.

[As imagens do concerto que os Arcade Fire deram esta segunda-feira em Lisboa:]

15 fotos

“Rebellion” dava o tiro de partida pós-Everything Now, deixava a eletrónica sintetizada e saltitante do último disco para um regresso ao primeiro álbum que apresentou uns Arcade Fire a soar a Arcade Fire — chamados de indie (fruto dos tempos) mas com uma originalidade e um apelo pop para as ancas que os canadianos saberiam capitalizar. Win Butler, de calças brancas, casaco de ganga, chapéu na cabeça, microfone na mão e guitarra levantada como se esta fosse símbolo espiritual (é, é), acabava com as dúvidas, a pinta é a mesma de há dez anos. O momento seria melhor do que quando chegou “Haiti” (e a acústica começou a dar sinais de que se estava, de facto, no Campo Pequeno…) mas “No Cars Go” viria resolver tudo, com uma interpretação inatacável da banda e Butler em cima de uma coluna a cantar e a arranhar o primeiro “obrigado” da noite.

Uma escorregadela “Oh Orpheus”

Apenas moderadamente revisitado tendo em conta que a banda está na Europa para o apresentar, Everything Now seria quase todo despachado de seguida, numa sequência muito pouco entusiasmante a que o público reagiu mornamente (mas feliz, claro, a noite era de consagração) com “Electric Blue” (interessante o início de batidas tribais, menos entusiasmante os falsetes e tom afetado da voz de Régine Chassagne; talvez fosse da acústica) e a dançante “Put Your Money on Me”, esta ainda assim mais sólida, com um final em que se repetiu várias vezes o mantra “Put your money on all your money on me”, qual retrato do consumismo contemporâneo a que a turma de Butler torce o nariz. Menos eficaz foi a interpretação de “It’s Never Over (Oh Orpheus)”, canção de Reflektor que caberia em Everything Now e que conseguiu soar ainda menos interessante ao vivo.

O melhor é mesmo voltar ao concerto em que se foi feliz, terá pensado a banda. Vai daí ruma-se às várias “Neighborhood” (primeiro a #4, depois a #2 e #1, no final do concerto a #3) de Funeral, que terão avivado a memória de uns Arcade Fire que há 13 anos as tocavam, ainda semi-desconhecidos, para espanto de milhares de pessoas no festival de Paredes de Coura, a que voltarão este verão…

Mais impressionante do que a qualidade das primeiras canções — já amplamente conhecida — é a forma como os Arcade Fire organizam o caos (uma big band a tocar sem regras mas a remar para o mesmo lado) e fazem tudo parecer natural. Os músicos saltitam, cantam, fazem movimentos coordenados (não é possível ser-se tão cool sem muito profissionalismo — e o crescimento da máquina Arcade Fire a isso obriga). A forma como conseguem envolver o público em canções que narram os encantos e desencantos da vida com uma força divina é (só) a cereja no topo do bolo de um concerto feito missa, em que o líder da banda também exorta os fiéis a celebrar a vida (“Tenho uma sorte imensa em poder estar aqui e trabalhar com os meus amigos. Não se esqueçam de dizer aos vossos amigos que os amam”, diz). Carpir lágrimas? Afinal, estamos a falar de uma banda que, na hora da morte de David Bowie, decidiu organizar uma marcha musical e festiva para o celebrar…

A melancolia e “Rebel Rebel”

Um regresso a Suburbs — com “Suburbs”, “Ready to Start” e “Sprawl II (Mountains Behind Mountains”) — prolonga o êxtase coletivo mas a dança volta cheia de classe com “Reflektor” e “After Life”, que fazem depois a ligação a Everything Now ao som de “Creature Comfort”. Parecia que tudo tinha terminado, já tínhamos visto os Arcade Fire transformarem os objetos mais inusitados em som quando a banda regressa para o encore e Win Butler, ao longe, numa plataforma junto ao público, entoa a belíssima “We Don’t Deserve Love”, o momento mais bonito da noite de Everything Now a par da abertura-single, onde todas as feridas do mundo se mostraram finalmente expostas sem gospel indie como curativo.

https://twitter.com/Szewczukasia/status/988544296105201665

Ouve-se percussão feita com garrafas de vidro e o resto do encore (nova versão de “Everything Now” e “Wake Up”) já só serve para a despedida, com Butler a pedir ao público para responder aos seus cânticos no mesmo tom. Todos juntos, com a Preservation Hall Jazz Band, os americanos cantam e tocam (ainda se ouviu, meio indistintamente, uma homenagem a Bowie com “Rebel Rebel”), percorrem o corredor que os levará à saída, sorriem e despedem-se do público num concerto a que só faltou melhor acústica e melhores canções novas para ser o melhor da banda em Portugal nos últimos anos. Mas foi bom, muito bom. No verão há mais, onde tudo começou.

Texto corrigido às 10h35: o último concerto dos Arcade Fire em Portugal, antes desta atuação no Campo Pequeno, aconteceu no festival NOS Alive de 2016 e não no Rock in Rio de 2014, como por lapso escrevemos na versão original deste texto.