Asghar Farhadi está em Espinho a participar no FEST – Festival Novos Realizadores Novo Cinema e, neste sábado, sentou-se à conversa numa mesa redonda com vários jornalistas portugueses para falar um pouco sobre o novo filme “Todos lo saben” (a ser lançado em Espanha em Setembro) e muito sobre cinema – desde os clichés e das expectativas que o Ocidente impõe aos cineastas iranianos até à forma como as séries estão a “matar” a sétima arte. Pelo meio, explicou como o cinema pode derrubar muros (até os da censura) e como as emoções não têm nacionalidade. No futebol, a história é outra. Vai estar cá durante o jogo do Mundial que, esta segunda-feira, vai por frente a frente Portugal e Irão e aí o amor à pátria (e a assumida admiração por Carlos Queiroz) fala mais alto.

Aos jovens, o cineasta de 46 anos, que já arrecadou dois Óscares de Melhor Filme Estrangeiro com “Uma Separação” e “O Vendedor”, deixou um conselho: “Apenas faz o teu filme. Se ele não ganhar prémios, não significa que é um mau filme. Significa apenas que o júri dos festivais não se conectou com ele. Mas o teu filme continua a ser teu e outras pessoas podem gostar dele.” Este foi o resultado desta mesa redonda.

[o trailer de “Todos lo Saben”:]

Em Cannes, apresentou o “Todos lo saben” e, mesmo antes de ser exibido, já havia uma espécie de relutância perante o filme – porque o é espanhol, porque é protagonizado por grandes estrelas como Penélope Cruz e Javier Bardém…
Quando um realizador trabalha com outra cultura e noutra língua e faz um filme diferente de todos os que já havia feito, todos reagem de forma negativa. Mas eu precisava deste desafio, de ir para outros países e testar a minha capacidade. Soube desde o início que as pessoas iam reclamar por não ser um filme iraniano, por ser feito por grandes estrelas. Mas eu tentei fazê-lo como fiz os meus outros filmes, não alterei a minha visão por ter mais financiamento ou aqueles protagonistas. Não quero fazer filmes noutros países como se fosse um turista, quero trabalhar na minha cultura. Mas, por vezes, encontro uma boa história e acho que vale a pena ir lá. E eu adoro Espanha e estava à espera da oportunidade de ir lá, de viver lá, de conhecer as suas pessoas e a sua cultura.

Foi difícil trabalhar numa língua e cultura diferentes?
No início sim. Foi como saltar para uma piscina sem saber a sua profundidade. Mas foi mais um desafio do que um grande problema. E eu superei-o. Estou feliz porque não sabia qual ia ser o resultado, mas quando o filme foi exibido no grande ecrã em Cannes, os espanhóis aceitaram-no como um filme espanhol. É claro que quando vou para outro país, não posso escrever sobre todo o seu contexto, porque há coisas que não me são próximas. Tenho é de encontrar o espaço comum entre a minha cultura e a outra. Nós imaginamos que as pessoas à volta do mundo são muito diferentes entre si. Mas se convivermos com muitas delas, vemos que são muito semelhantes. A emoção, que é essencial ao cinema, é a mesma. A relação entre um pai e um filho ou entre um casal é semelhante. O amor e o ódio têm o mesmo sabor em todo o lado. As formas de expressão é que são diferentes – no meu país, pai e filho abraçam-se constantemente para mostrar afeto, mas no Japão talvez nem se toquem. Eu fiquei muito surpreendido quando fui a Espanha, porque senti que era outra versão do meu país. São países tão próximos ao nível emocional, ao nível do respeito pela família, da música, da literatura, da comida. E isso deixou-me mais confortável para fazer este filme.

A grande maioria no Ocidente só vê parte do cinema iraniano – aquele que tem uma abordagem política. Mas o trabalho de Farhadi como realizador não é político, é mais moral…
Quando o teu filme é sobre as pessoas, sobre a sociedade, há sempre um aspeto político por trás. Mas eu não me considero um realizador político, porque não falo diretamente sobre a política. A moral é a minha maior preocupação. Os meus filmes giram todos em volta de um dilema. Quando os vemos, dizemos “É este que está certo”, mas perguntamo-nos o porquê de ele estar certo. Procuramos a razão e é aí que entramos no campo da moral.

Mas acha que há uma pressão sobre os os cineastas do Médio Oriente para fazerem cinema político?
Sim, sim. Talvez isto não aconteça pela mão de países como o vosso ou Espanha. Mas na França, nos países da Escandinávia, nos Estados Unidos, quando conhecem um cineasta que veio do Médio Oriente, veem-no como alguém que está a fazer filmes porque quer informar a audiência do que se passa no Médio Oriente. Mas esse não é o nosso trabalho! Faço filmes porque adoro cinema. Se queres informações, podes ir ao Google. Às vezes, torna-se mesmo incómodo. Com isto não quero dizer que não fazemos cinema político, mas muitas vezes quem vê os filmes não tem conhecimentos suficientes acerca do que se passa naquele país e está à espera que o filme lhes confirme o que os media lhe transmitiram. Um dos motivos pelo qual eu fiz este filme espanhol foi achar que deveria fazer um filme sem qualquer ligação ao meu país, para ver qual seria a reação do público. Quando vou a algum lado, fazem-me sempre imensas questões acerca da política do Irão, mesmo com a pouquíssima informação que têm. E é tão aborrecido, eu quero falar é de cinema. E agora, com este filme espanhol, isso já acontece. Já me questionam acerca de cinema! [risos]

Ainda assim, acha que cinema pode ser uma arma política?
Sim, para o bem e para o mal. Há muitos filmes que não são arte, são instrumentos, armas políticas. Matam outras culturas e outros estilos de vida. Por outro lado, também depende muito de quem vê o filme – se gostas de temas políticos, vais ver todos os filmes através desse ângulo. Por exemplo, no meu último filme, um espanhol questionou-me se eu tinha pesquisado acerca da situação política espanhola. Eu respondi-lhe que li livros acerca do tempo de Franco, mas nada mais. E ele disse-me que eu estava a abordar um tema político atual, com o meu filme. Mas eu só descrevi a vida em Espanha numa pequena vila, ele é que encontrou um ângulo político.

Já alguma vez foi afetado pela censura no seu país?
Quem quer fazer filmes, tem de enviar ao comité [de censura] algumas páginas do guião para eles lerem. O cinema comercial nunca é alvo de censura, não se preocupam com ele. Estamos a falar daqueles filmes em que um realizador realmente quer passar uma mensagem. A parte boa é que como o comité também é constituído por pessoas que trabalham no mundo do cinema, realizadores, eles facilitam a vida aos cineastas. Quando já nasceste e cresceste lá, acabas por arranjar maneira de contornar a situação. Isso não quer dizer que não seja um grande problema. E, de certa maneira já está dentro de mim, a autocensura. Mesmo que não me aperceba.

Na masterclass do FEST disse que basta que duas pessoas saiam da sala onde é exibida a nossa peça ou filme, para que se considere que a obra falhou.
O primeiro grande objectivo é fazermos com que a audiência se sente em frente à nossa obra. Se alguém sair, perdemos. No teatro, não é preciso criar uma grande drama e torná-lo rápido para convencer as pessoas a ficar. Isto porque as pessoas que vão ao teatro têm mais paciência, foram ao teatro para aprender. Mas grande parte das pessoas que vão ver um filme ao cinema vão lá para se entreter. É por isso que é preciso convencê-las. Quando trabalhei em teatro, quando era mais novo, não investia muita energia nisso. Mas no cinema isso já me preocupa. As séries mudaram o gosto e o ritmo da vida das pessoas. E isso não é bom. Se hoje as pessoas virem um filme de Kobayashi, de John Ford, de Truffaut, talvez pensem “Porque é que é tão aborrecido? Porque é que não avança mais depressa?”. Mas esse não é um problema do filme, é um problema do nosso gosto que foi mudado pelas séries.

Mas o que pensa ao certa acerca do boom das séries?
Na verdade, não podemos fazer nada quanto a isso. A Netflix, a Amazon estão a fazer imensas séries e eu gosto e vejo. Mas sei que isso pode matar o cinema. Quando vês televisão, não tens tempo para pensar e analisar o que está a acontecer – és apenas um espectador.

E se a Netflix quisesse trabalhar consigo e lhe fizesse uma proposta?
Já o fizeram. [risos] Eles ofereceram-se para financiar o meu último filme mas eu recusei. Disse-lhes: “Se um dia quiser fazer uma série, eu falo com vocês. Mas isto é cinema.” Os filmes são feitos para serem vistos no grande ecrã. Se eu lhes der o meu filme, fico logo sem problemas no que toca ao financiamento, mas ele passa a ser visto na TV, em pequenos ecrãs. E eu não fiz este filme para o pequeno ecrã.

Nos outros filmes que fez, retrata o Irão contemporâneo evocando diversas expectativas sociais e religiosas que estão sobre o homem e a mulher no Irão.
Estamos num período muito importante da História do Irão. O sistema é muito religioso, faz parte das pessoas. Há pessoas que discutem temas apenas da perspetiva religiosa, outras não – e isso cria um grande conflito entre elas. Esse é um tema muito importante para mim. Aliás, a religião, a política, e a moral são temas inseparáveis.

E, na maior parte das vezes nos seus filmes, os conflitos surgem de pequenos mal-entendidos. Essa pode ser uma metáfora para a vida real e até para os conflitos de larga escala?
Esse é um grande problema atual e não é exclusivo do meu país. Atualmente falamos muito e temos muita tecnologia que nos conecta, mas não nos entendemos. E quanto mais falamos, mais mal-entendidos criamos. Não ouvimos o suficiente. Outro problema deve-se à linguagem. Às vezes não conseguimos transmitir as emoções, a sua complexidade, através de palavras. E isso gera grandes mal-entendidos entre culturas, populações, casais. Eu acredito que grande parte das guerras no mundo advém disto.

Sobre “O Vendedor”: qual foi a sua inspiração para o argumento desta história em que a cada dez minutos surge um novo dilema.
Eu tinha uma imagem na minha cabeça que vem já dos tempos da faculdade em que, num cenário do teatro, alguém iluminava à vez partes diferentes de uma casa. Nunca se via o todo. Até que, do nada, a luz surgia e finalmente víamos a casa inteira. Sempre que pensava nessa imagem, pensava que era isso que eu faço nos meus filmes – iluminar os espaços escuros da vida. Passei dois anos a procurar uma boa peça que se adequasse [à história que tinha imaginado para “O Vendedor”] e encontrei a peça do Arthur Miller. E, no início, incluí a cena da iluminação de que falei. O problema é que na altura em que tive esta ideia, já estava a trabalhar no filme espanhol. Mas, a certo ponto, fiz uma viagem ao meu país entre as pesquisas que andava a fazer em Espanha e senti “Eu quero fazer um filme no meu país, não em Espanha”. E foi uma decisão muito difícil porque toda a minha equipa estava à minha espera lá, já havia um grande plano. Falei com o Javier e ele ficou triste, mas aceitou. No dia seguinte comecei logo a escrever “O Vendedor”. Num ano fiz o filme e, logo a seguir, voltei a Espanha.

Em 2017, faltou à cerimónia de entrega dos Óscares como protesto contra a “Muslim Ban” de Trump. Nas declarações que escreveu e que Anousheh Ansari leu quando “O Vendedor” foi anunciado como vencedor, disse que “os cineastas podem usar as suas câmaras para captar qualidades humanas comuns e quebrar estereótipos de várias nacionalidades e religiões”. Esse é um dos objetivos em todos os filmes que faz?
Eu não faço filmes apenas por causa disso, mas é algo em que eu acredito muito. À volta de todo o mundo, criam-se vários estereótipos sobre os países. Por exemplo, há um estereótipo em volta da vossa cultura: falam de Portugal apenas da perspetiva do futebol. Mas há tantas outras coisas. No que toca ao Médio Oriente, há uma imagem muito pouco clara e os media realçam as diferenças entre culturas. É isso que cria o medo. Por exemplo, na América acham que os iranianos são muito perigosos. Já os iranianos, acham que a América quer atacá-los. Isto porquê? Porque os media estão constantemente a falar das diferenças. Mas quando eles veem os filmes uns dos outros, apercebem-se que até são muito similares entre si. A arte pode falar das semelhanças enquanto os políticos falam das diferenças. Os políticos fazem-no pelo poder, porque precisam de um inimigo. Olhem para o Trump – está constantemente a falar de outras culturas, de outros países.

Viveu durante algum tempo em Espanha, para fazer o seu último filme. Mas é a primeira vez que vem a Portugal?
Estive cá, no Porto, há cerca de 10 anos para um festival – foram só uns dias. Mas no Irão as pessoas conhecem este país por causa do Carlos Queiroz. Eles adoram-no, é como se fosse iraniano. Tem uma excelente personalidade, é muito inteligente e conhece o meu país muito bem. E também percebe de cinema. Quando recebi o prémio em Cannes ou nos Óscares, ele enviou uma mensagem nas redes sociais a dar-me os parabéns. E o Cristiano Ronaldo também é muito famoso lá, claro. [risos]

E esta segunda-feira, quem é que acha que vai ganhar?
Acho que vai ser um jogo muito difícil. Há uns tempos, pensava que nunca conseguiríamos ganhar com Espanha e Portugal no nosso grupo. Mas com Carlos Queiroz e esta equipa, temos muita esperança. O problema é o Cristiano Ronaldo. [risos] O treinador não o disse, mas acho que três dos nossos jogadores vão ficar a cobri-lo. A questão é que na segunda-feira vou ver o filme com os portugueses e se quiser festejar não posso. Acho que vou acabar por ir para o meu hotel e vejo-o lá sozinho. [risos]