O compositor norte-americano de 81 anos Philip Glass, conhecido sobretudo pelo seu trabalho vanguardista no campo da música minimal, compôs mais uma sinfonia inspirada pela música de David Bowie. Depois de criar peças inspiradas pelos discos Low (em 1992) e Heroes (em 1996), os primeiros dois álbuns da chamada “fase de Berlim” do camaleão da pop, Glass decidiu compor uma sinfonia inspirada pelo primeiro álbum dessa aclamada trilogia berlinense, Lodger.

A sinfonia tem como título “Sinfonia nº 12, Lodger”, fazendo referência ao nome do primeiro dos três discos gravados por David Bowie em Berlim, na segunda metade dos anos 1970, com a colaboração do produtor Tony Visconti e do compositor e produtor Brian Eno.

A peça sinfónica será tocada ao vivo esta quinta-feira, dia 10 de janeiro, no Walt Disney Concert Hall de Los Angeles. Para assegurar a “estreia mundial” da interpretação da sinfonia em palco, foram convocados o compositor e maestro John Adams e a Orquestra Filarmónica de Los Angeles, além dos pianistas Marc-André Hamelin e Orli Shaham, o organista James McVinnie, as sopranos Zanaida Robles e Holly Sedillos, a mezzo-soprano Kristen Toedtman e a cantora Angélique Kidjo.

Não se sabe, por ora, se a sinfonia será apresentada (com ou sem a mesma formação e maestro) noutras cidades e noutros países, ou até se dará origem a discos, como aconteceu com sinfonias inspiradas em Low e Heroes.

[Eis um álbum duplo resultante da interpretação das sinfonias que Philip Glass compôs a pensar em Low e Heroes, pela Orquestra Filarmónica de Brooklyn, a Orquestra dos Compositores Americanos e o pianista e maestro nascido no estado do Ohio Dennis Russell Davies:]

Em declarações ao jornal The New York Times, Philip Glass explicou que a decisão de compor mais uma sinfonia inspirada na obra de David Bowie deve-se “a um compromisso” assumido perante o músico inglês já falecido e Brian Eno, “de pegar em três álbuns que gravaram juntos e transformá-los em sinfonias”. No caso de Lodger, o compositor explica que mais do que a música e os ritmos presentes no disco ficou sobretudo interessado “pelas letras, pelos poemas”.

 Quando cheguei ao Lodger, não encontrei um interesse especialmente grande na parte musical do disco; o interesse estava no texto. (…) Achei que devia fazer uma sinfonia de canções. Mahler, claro, era o maior de todos a fazer isso. Usei sete dos textos, não usei a totalidade dos dez textos do disco. Isso levar-me ia a compor uma sinfonia com mais de uma hora de duração e não o queria fazer”, referiu.

Confessando-se “abismado pelo tamanho dos públicos” para os quais tem tocado nos últimos anos, Philip Glass garantiu que nunca imaginou “que esta música” que faz “viesse a ser aceite da forma como o tem sido”. Já John Adams, a quem Glass confiou a condução da orquestra de Los Angeles nesta primeira interpretação da peça em palco, afirmou que “uma coisa central na música do Philip é que é totalmente original, é imediatamente identificável como sendo dele e isso é uma coisa extraordinária. Isso é uma coisa muito pouco comum, na verdade. É simplesmente impressionante o que o Philip fez, que foi pegar em materiais muito, muito simples e num modo simples de expressão para criar algo original”.