Foram as declarações do Papa João Paulo II durante um périplo por África, em 1992, que levaram o cartoonista português António a desenhar o sumo pontífice com um preservativo no nariz. Foi esse aliás o tema das suas declarações. Numa altura em que a Organização Mundial de Saúde e outras organizações se encontravam por todo o terreno africano a promover campanhas pelo uso de contracetivos de forma a evitar a infeção com VIH, o Papa vinha condenar o uso do preservativo, afirmando que não era solução para a epidemia da sida.

As declarações polémicas originaram um cartoon polémico, publicado na edição do jornal Expresso de 5 de Dezembro de 1992: o Papa João Paulo II com um preservativo enfiado no nariz. Durante a homilia, no Uganda, o sumo pontífice defendeu que “a castidade é a única maneira segura e virtuosa de acabar com a praga trágica” da sida.

De acordo com o artigo do jornal Expresso, publicado anos mais tarde, o Papa não chegou a usar a palavra “preservativo” no discurso, mas bastou a ideia implícita para servir de inspiração a António — que está envolto numa nova polémica, desta vez, com uma caricatura do presidente norte-americano, Donald Trump, e do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu.

O cartoon do Papa João Paulo II — que o autor considerou ser “uma polémica tremenda, ainda assim, com uma grande derrota para a Igreja” — foi alvo de um abaixo-assinado contra a sua publicação que chegou a ser discutido no parlamento. Mas esperava-se “um milhão de assinaturas, e os seus promotores conseguiram apenas 28 mil”, contou António numa entrevista ao Diário de Notícias, em 2010. O conversa surgiu a propósito de um outro cartoon polémico com o Papa Bento XVI, publicado em 2009, no jornal Expresso. É que nesse ano, a história repetiu-se. Desta vez, com o Papa Bento XVI. No avião, de visita aos Camarões, Ratzinger foi ainda mais claro do que o seu antecessor:

Não se resolve o problema ( da Sida) com a distribuição de preservativos. Pelo contrário, o seu uso agrava o problema”.

Um novo cartoon de António mostrava Ratzinger com um preservativo que envolvia toda a cabeçaNão teve tanto impacto como o anterior — um “sinal”, para António “de que a vida mudou”, disse na mesma entrevista ao DN, onde adiantou que apenas recebeu “duas cartas de fiéis mais fundamentalistas. “A igreja como não tem soluções fica encurralada na sua paralisia”, disse também.

Como forma de vincar a sua posição, além desta caricatura de Bento XVI, o Expresso republicou o do Papa João Paulo II, na edição em papel de 21 de março de 2009 — 17 anos depois da publicação original — “em nome do direito à opinião”. “Porque julgamos que esta é a única forma de preservar a liberdade de expressão, voltamos a publicar um trabalho de António suscetível de gerar acesa polémica”, escreveu o jornal Expresso.

O cartoonista foi esta segunda-feira acusado não de anticatolicismo, mas de antissemitismo. O The New York Times publicou na quinta-feira, 25 de abril — sem a autorização de António e sem revelar o seu nome — um cartoon Donald Trump aparece representado com um kipá (símbolo judaico) na cabeça e uns óculos escuros sendo guiado por um cão com a cara do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu. O desenho está a gerar alguma polémica: o jornal norte-americano retirou-o e pediu desculpa e o presidente dos EUA já reagiu, considerando o cartoon “terrível” e “antissemita”.