O autor do cartoon que o The New York Times (NYT) publicou na quinta-feira, 25 de abril — sem a sua autorização e sem revelar o seu nome — nega as acusações de antissemitismo. “É uma crítica à política de Israel, que tem uma conduta criminosa na Palestina, ao arrepio da ONU, e não aos judeus“, disse o cartoonista António numa nota publicada no jornal Expresso. No cartoon em questão, Donald Trump aparece representado com um kipá (símbolo judaico) na cabeça e uns óculos escuros sendo guiado por um cão com a cara do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu.

O cartoonista explica a leitura que fez para produzir o cartoon. “A política de Benjamin Netanyahu, quer pela aproximação de eleições, quer por estar protegido por Donald Trump, que mudou a embaixada para Jerusalém reconhecendo a cidade como capital, e que permitiu primeiro a anexação dos Montes Golã e depois da Cisjordânia e mais anexações na Faixa de Gaza, significa um enterro do Acordo de Oslo, representa um aumento da violência verbal, física e política“.

É uma política cega que ignora os interesses dos palestinianos. E DonaldTrump é um cego que vai atrás. A estrela de David [símbolo judaico] é um auxiliar de identificação de uma figura [Netanyahu] que não é muito conhecida em Portugal”, explicou ainda.

Mas António não critica apenas a reação de Trump e considerou “preocupante” a decisão do jornal americano de retirar o seu cartoon. Em declarações à SIC explicou: “Porque não é um jornal qualquer. O The New York Times ser vulnerável a grupos de pressão é uma coisa que não gostaria de ouvir. Mas pronto, é um facto. Provavelmente tem a ver com as suas linhas de financiamento, não sei. É um espetáculo triste”.

O presidente norte-americano, Donald Trump, reagiu ao que considera ser um “terrível” desenho do cartoonista António. Através do Twitter, Trump exige um pedido de desculpas do jornal dirigido a si. “O New York Times pediu desculpas pelo terrível cartoon antissemita, mas não pediram desculpas a mim por isto e por todas as notícias falsas e corruptas que publicam diariamente. Atingiram o nível mais baixo do ‘jornalismo’ e, certamente, um ponto baixo na história do The New York Times”, escreveu no Twitter.

De acordo com o Correio da Manhã, o filho mais velho do presidente dos Estados Unidos não ficou indiferente à situação e, tal como é hábito recorrente do pai, Donald Trump Jr. utilizou a sua conta do Twitter: “Não tenho palavras para o antissemitismo aqui exposto. Imaginem se isto não estivesse num jornal de esquerda?”

A polémica ficou instalada e as críticas começaram a chegar. De acordo com a CNN, não tardaram a ser feitas acusações generalizadas de antissemitismo e o NYT decidiu retirar o desenho do jornal e emitiu uma nota editorial, pedindo desculpa pela publicação do cartoon: “A imagem era ofensiva e foi um erro publicá-la”.  

No comunicado feito no domingo à tarde, o jornal adiantou também, de acordo com a notícia do Diário de Notícias, que a decisão de publicar o cartoon partilhado na edição impressa internacional do New York Times foi feita por um único editor que tomou a decisão sem supervisão. O NYT adianta ainda que “o assunto continua sob avaliação”. E informa que o cartoon foi disponibilizado pelo The New York Times News Service and Syndicate — plataforma de partilha de artigos do diário norte-americano e de outros 70 jornais do mundo — que entretanto o eliminou.

Ao Correio da Manhã, o autor do desenho, António, confessou-se surpreendido com a situação e com a polémica à volta da mesma: “Ninguém falou comigo. Não tenho qualquer colaboração com o NYT. É possível que tenham retirado do meu Facebook. Não sei. Amanhã [hoje] vou tentar saber o que aconteceu”. Mais tarde, em declarações à SIC, António adiantou que haverá uma “agência norte-americana que assume que foi ela que levou o cartoon ao The New York Times”.

Isso é uma compra normal. É um acordo entre as duas entidades. A questão é saber como é que chegou à agência americana. Agora, não é um ato de pirataria. Não acredito nisso”, disse ainda.

Não é a primeira vez que se gera uma polémica em torno de um desenho deste cartoonista português (do Expresso). Em 1992, um cartoon onde aparece o Papa João Paulo II com um preservativo no nariz também gerou polémica entre o público.

Expresso apela à liberdade de expressão e defende que cartoon “não inclui, nem propaga, qualquer mensagem antissemita”

O jornal Expresso já reagiu entretanto à polémica gerada em torno do cartoon. Num esclarecimento publicado no site do semanário, a direção apelou à “liberdade de expressão e de opinião” e à independência face aos “poderes políticos, económicos ou religiosos” para defender a sua posição:

O cartoon de António é um espaço de opinião onde, neste caso, o autor reflete a sua visão da política externa dos Estados Unidos. Entendemos que o mesmo não inclui, nem propaga, qualquer mensagem antissemita”.

Afastando assim a ideia de que a imagem do cartoonista é antissemita, a direção do Expresso assegurou que “jamais permitirá a publicação de qualquer mensagem antirreligiosa, seja qual for a religião” e garantiu que” nunca foi intenção retratar Israel ou a religião judaica e o seus fiéis de forma menos digna“, dirigindo-se aos membros da comunidade judaica “que se possam ter sentido ofendidos.”

A membros da comunidade judaica e aqueles que se possam ter sentido ofendidos e face à polémica gerada, o Expresso esclarece que nunca foi intenção retratar Israel ou a religião judaica e o seus fiéis de forma menos digna”, lê-se no esclarecimento.

A direção do semanário aproveitou ainda para relembrar, na nota de esclarecimento, que “o António é um colaborador do Expresso sendo um cartoonista galardoado internacionalmente com uma vasta obra publicada”.

[Atualizado às 17h35 com a nota de esclarecimento da direção do Expresso]