“Em Chamas”

Na Coreia do Sul de hoje, Lee Jong-su, um rapaz saído da universidade, com poucos meios de subsistência e ambições de ser escritor, ressente-se que Hae-mi, uma amiga de infância com quem vai para a cama, ande na companhia de Ben, um jovem, rico e misterioso “playboy” que conheceu quando passava férias em África. Um dia que estão os três a beber e a fumar erva na casa que o pai do rapaz, preso e a aguardar julgamento por agressão a um funcionário municipal, tem na aldeia, Ben confessa-lhe o seu passatempo: pegar fogo a estufas abandonadas. Poucos dias depois desta revelação, Hae-mi desaparece sem deixar rasto. Adaptando um conto de Haruki Murakami, que por sua vez se inspirou noutro de William Faulkner, o coreano Lee Chang-dong (“Oásis”, “Poesia”) assina aqui um magnífico e enigmático filme, rico de várias camadas de significado. “Em Chamas” é um “thriller” esquivo, oblíquo e movediço que lembra Patricia Highsmith, uma história de solidão, confusão e crispação existencial que evoca Antonioni, mas também uma fita sobre os males, as frustrações e os dilemas de uma nova geração de sul-coreanos, escrita com regra e esquadro, soberbamente interpretada e filmada, e com uma explosão de fúria na ponta do seu longo e sinuoso pavio dramático. Um dos melhores filmes do ano, sem hesitações.

“Sinónimos”

O jovem Yoav é um judeu nascido em Israel, mas execra o seu país, o seu governo, a sua cultura, a sua identidade. Não quer ter absolutamente nada a ver com eles, pretende renegá-los definitiva e radicalmente. Por isso, instala-se em Paris com a intenção de se tornar francês, e o seu primeiro acto é recusar-se a falar hebraico e aprender a língua daquela que ele escolheu como a sua pátria de acolhimento, comprando um dicionário. Este filme autobiográfico do israelita Nadav Lapid, autor dos excelentes “O Polícia” e do “A Educadora de Infância” original (teve recentemente um “remake” americano com Maggie Gyllenhaal), que faz de Yoav, interpretado por Tom Mercier, o seu “alter ego”, é um daqueles casos de um bom e aliciante conceito mal concretizado. A maneira que Lapid tem de transmitir a vertigem anímica, psicológica e emocional de Yoav, a sua intensa auto-flagelação e a sofreguidão com que se quer integrar noutra cultura e fazer tábua rasa do passado (chega a “dar” as histórias da sua vida ao seu único amigo francês, um “fils à papa” que quer ser romancista mas não tem ideias) é através de um permanente desatino narrativo e cinematográfico que roça por vezes o absurdo, e acaba por se tornar insuportável. “Sinónimos” ganhou o Festival de Berlim deste ano, e terá sido mais por razões políticas do que outra coisa.

“John Wick 3 — Implacável”

Keanu Reeves continua no seu curioso percurso em que tanto aparece em pequenas fitas independentes, como em filmes de género “mainstream” e em grandes produções e “franchises” de ação. É o caso da série “John Wick”, cujos dois primeiros filmes fizeram mais bilheteira que um bom punhado dos títulos em que Reeves entrou nos últimos anos. Realizado mais uma vez pelo ex-duplo Chad Stahelski, esta parte 3 põe o super-assassino profissional interpretado por Reeves, acompanhado pelo seu fiel cão, a tentar sair de Nova Iorque vivo, depois de um prémio de 14 milhões de dólares ter sido lançado pela sua cabeça, o que atrai um verdadeiro exército de assassinos de todas as raças, credos e feitios. Sequências de acção elaboradíssimas e ultraviolência em jato contínuo são de rigor. No elenco de “John Wick 3-Implacável” aparecem também Halle Berry, Laurence Fishburne, Ian McShane, Anjelica Huston e Mark Dacascos, veterano do cinema de acção e artes marciais de série B.

“3 Rostos”

No seu quarto filme feito à revelia das autoridades iranianas, Jafar Panahi volta a pegar num volante, já não de um táxi como no anterior, “Táxi”, mas agora de um jipe todo-o-terreno. Leva companhia, a grande atriz iraniana Behnaz Jafari, e vão ambos numa viagem claramente reminiscente das que fazem os protagonistas de alguns dos filmes de Abbas Kiarostami, de quem Jafar Panahi foi assistente e é discípulo. Jafari recebeu um vídeo feito num telemóvel em que Marziyeh, uma jovem aspirante a atriz que vive numa remota aldeia junto à fronteira com o Azerbaijão, diz que a família não a deixa seguir o seu sonho e parece suicidar-se por enforcamento numa caverna. Preocupadíssima, Jafari arrebanhou Panahi para a conduzir até lá, averiguar da veracidade do vídeo e saber se a rapariga é morta ou viva. Uma vez chegados ao seu remoto destino, realizador e atriz vão viver uma série de peripécias cómicas, insólitas e dramáticas. “3 Rostos” foi escolhido como filme da semana pelo Observador, e pode ler a crítica aqui.