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Museu Gulbenkian exibe as origens da coleção de arte islâmica

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Cerâmica, vidro, tapeçaria, pintura. A arte "orientalista" começou por atrair o jovem empresário Calouste Gulbenkian e agora pode ser vista numa exposição que abre ao público nesta sexta-feira.

A abrir a exposição encontra-se um conjunto de azulejos de Damasco que Calouste Gulbenkian comprou e doou ao Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa – pela primeira vez, esse painel é exibido no Museu Gulbenkian. Também no início do percurso, uma lâmpada de mesquita do século XVI que pertenceu ao rei dos Belgas e que este vendeu a Gulbenkian. São muitas as obras da atual Síria, do Egipto, da Turquia, do Irão, da Índia, da Indonésia, os territórios onde foram produzidas as primeiras obras de arte que o colecionador de origem arménia comprou e a que se convenciona chamar arte islâmica.

São cinco secções, marcadas pelas cores fortes das peças, o inusitado das formas, os detalhes trabalhados e os arabescos, sobretudo cerâmica, vidro, tapeçaria e pintura. Um percurso provavelmente deslumbrante para a maioria dos visitantes, talvez exótico, sob o título “O Gosto pela Arte Islâmica”. A exposição abre ao público nesta sexta-feira e mantém-se até 7 de outubro no edifício-sede da Gulbenkian, em Lisboa, com entrada pela Avenida de Berna.

Trata-se de uma das iniciativas que ao longo deste ano vêm sendo organizadas para comemorar os 150 anos do nascimento de Calouste Sarkis Gulbenkian (1869-1955), o “bilionário de origem arménia”, como o descreve num folheto informativo a presidente da Fundação Gulbenkian, Isabel Mota, “homem de negócios, colecionador de arte e filantropo”, que “soube fazer como poucos a síntese entre o Oriente e o Ocidente em todas as suas realizações”.

“Ele gostava de colecionar peças pouco óbvias”, conta a curadora Jessica Hallet, responsável pelo núcleo de arte islâmica do museu e curadora desta nova exposição, esclarecendo que “não se trata de uma exposição biográfica, mas sim sobre a formação da coleção no contexto geopolítico de fins do século XIX, inícios do XX”.

Também nas primeiras vitrines o visitante observa um panorama de Istambul em fotografias de 1880, que permitem constatar como era a cidade, então Constantinopla, na infância de Gulbenkian. Ele nasceu na principal cidade do então Império Otomano, parte da Turquia. Em 1896, perante o massacre arménio, a família partiu para Alexandria, daí para Londres, e em 1898 o jovem Gulbenkian iniciou a coleção de arte, com aquisição de objetos “orientalistas”.

Segundo Jessica Hallet, que trabalhou durante quase um ano e meio na preparação da mostra, um quarto da arte islâmica do empresário proveio de antiquários arménios, que, tal como ele, tinham seguido o caminho da diáspora. Esses antiquários enviavam-lhe por correio fotografias e desenhos de peças que queriam que Gulbenkian comprasse. Excertos da correspondência são agora exibidos numa parede de vidro.

“O Médio Oriente ocupou um lugar central no percurso profissional de Gulbenkian”, refere a folha de sala. “Esta exposição analisa o núcleo da sua coleção proveniente desta região, não só através da sua história de vida, mas também à luz da situação geopolítica em mudança: o declínio do Império Otomano, o colonialismo e as duas Guerras Mundiais.”

Se a maioria das peças provém da coleção do Museu Gulbenkian, muitas foram emprestadas pelo Museu do Louvre, pelo Metropolitan Museum of Art e pelo Victoria & Albert Museum. É o caso de uma tenda de cor verde, utilizada para transporte de figuras de elite em dromedários; caso de uma cortina encomendada pelo sultão otomano Mahmud II na primeira metade do século XIX para decorar a Mesquita do Profeta em Medina; ou de um vaso de cerâmica do início do século XIII com asas em forma de leão e decorado com periquitos.

Num dos textos de parede lê-se que o conceito de arte islâmica sofreu muitas interpretações a partir do século XIX. De “arte oriental” passou a “árabe”, “sarracena”, persa”, “turca”. “Na viragem do século, a grande quantidade de termos necessários para descrever de forma adequada as artes desta complexa cultura levou os académicos a procurar categorias mais abrangentes e a ensaiar designações religiosas, como ‘muçulmano’ e ‘maometano’. Também estes termos foram considerados redutores, já que apenas uma pequena porção de objetos e edifícios tinha funções religiosas. Este problema conduziu à adoção generalizada, após a II Guerra Mundial, do adjetivo ‘islâmico’, da esfera do Islão, e à crença de que objetos produzidos desde Espanha até à Índia, e desde os tempos do profeta Maomé até ao século XVIII, possuíam algo de intrinsecamente ‘islâmico’ que os ligava.” Nos últimos anos, acrescenta o mesmo texto, o termo tem sido contestado e debate permanece em aberto.

Particularmente curiosa é a última secção, onde se encontram panejamentos e tapetes persas – nos anos 20, eram considerados “objetos de grande prestígio” pelos colecionadores ligados à indústria petrolífera, como Gulbenkian, John D. Rockefeller e J. Paul Getty. Um dos exemplares é descrito como tapete de “combate de animais”, originário de Kashan, antiga Pérsia, de meados do século XVI. “Só há 16 tapetes destes no mundo, são muito trabalhados, feitos em seda, com um milhão de nós, ou seja, resultam de um milhão de movimentos de mão. Têm desenhos muito pormenorizados, precisamente devido à densidade de nós”, segundo a curadora.

Um gráfico exposto permite concluir que as aquisições de obras de arte islâmica realizadas por Gulbenkian, sobretudo cerâmicas e tapetes, foram tanto mais numerosas na década de 20 quanto o preço do petróleo então atingia máximos históricos, justificados pelo elevado aumento de consumo de automóveis, pelos exércitos europeus e pelos consumidores norte-americanos.

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