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Cinema

“O Rei Leão”: o digital aparou as garras do felino real da Disney

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A nova versão de "O Rei Leão" é tecnologicamente impressionante, mas uma nulidade em quase tudo o resto. Falta-lhe alma, calor emocional e expressão. Eurico de Barros dá-lhe duas estrelas.

O jovem Simba com os seus amigos Timon e Pumba numa cena de "O Rei Leão", de Jon Favreau

Autor
  • Eurico de Barros

Estreado em 1994, “O Rei Leão”, de Roger Allers e Rob Minkoff, representa um dos momentos maiores da segunda idade de ouro da animação da Disney (a primeira durou enquanto Walt Disney estava vivo), então capitaneada por Jeffrey Katzenberg. É uma história de animais sobre família, ambição, identidade e poder, que serve também como alegoria para o mundo humano; que combina tragédia de paladar shakespeareano com comédia burlesca, e animação tradicional e computacional para atingir enorme expressividade visual e impacto emocional; que tem uma banda sonora inspiradíssima de Elton John e Tim Rice, incluindo um punhado de canções inesquecíveis (“Hakuna Matata”, “Circle of Life” ou “Can You Feel the Love Tonight”); e que, curiosamente para a muito progressista Hollywood, faz a apologia de um regime monárquico benévolo e esclarecido (mesmo que representado por bichos).

[Veja o “trailer” de “O Rei Leão” original:]

Vinte e cinco anos depois, e inevitavelmente incluído na série de novas versões em imagem real com efeitos digitais de clássicos da animação que a Disney decidiu rodar para rentabilizar o seu riquíssimo acervo deste género, surge “O Rei Leão” em versão “realista”. Ou seja, todo ele feito por computador e com câmaras de realidade virtual, e assinado por Jon Favreau, que em 2016 realizou “O Livro da Selva” aquele que é, até hoje, o melhor de todos estes “remakes”. Se formos olhar para este novo “O Rei Leão” apenas pelo prisma da tecnologia, trata-se de um filme assombroso, como aliás já o citado “O Livro da Selva” já o era, desde a recriação de toda a envolvência natural da história, até aos mais ínfimos pormenores de composição física das personagens (ver, por exemplo, a perfeição da pelagem das jubas de Mufasa ou do Simba adulto, e como ondulam ao vento).

[Veja o “trailer” do novo “O Rei Leão”:]

Só que os computadores e a realidade virtual não podem fazer tudo. E no caso deste “Rei Leão”, não lhe conseguem nem dar alma e coração, nem a expressão emocional necessária, fundamental, que o realismo animal pedia. Há mais vibração dramática e voltagem emotiva num só plano do “Rei Leão” original de 1994, do nas quase duas horas deste “clone” distante, asséptico e híper-realista. O filme de Jon Favreau é uma proeza técnica e uma quase nulidade em tudo o resto. Foi-se a dimensão trágica, a agitação cómica, o esplendor musical, a exuberância cinematográfica, o antropomorfismo empático que operava a ligação e o efeito de identificação entre as personagens dos animais falantes com os espectadores. Para usar um lugar-comum com barbas, mas aqui perfeitamente apropriado, foi-se a magia.

[Veja entrevistas com o realizador e os atores:]

Com apenas James Earl Jones a repetir a voz do majestoso Mufasa, a maior parte do restante elenco não consegue emular a qualidade do original. Depois de um Jeremy Irons venenosamente cínico e aristocraticamente maligno em Scar, temos agora um banalmente ameaçador Chewitel Ejiofor; o inconfundível Matthew Broderick deu lugar a um deslavado Donald Glover no Simba adulto; John Oliver não consegue fazer esquecer Rowan Atkinson no fiel pássaro Zazu; e quem se safa melhor são Seth Rogen e Billy Eichner, respetivamente no javali Pumba e na suricata Timon, que protagonizam também os melhores momentos deste “Rei Leão” com“new look”. E Beyoncé, que dá voz, palidamente, à leoa Nala adulta, também canta uma das duas novas canções do filme, a indistinta “Spirit”, falhando assim duplamente a sua participação em “O Rei Leão”.

[Veja os bastidores do filme:]

Já que estamos a falar em canções, as da banda sonora do filme animado, que tão bem o serviam e ajudavam a ilustrar, sublinhar e prolongar musicalmente as situações da história e as emoções e os estados de espírito das personagens, surgem aqui como que apenas “coladas” casualmente ao enredo. E as três novas, a já citada “Spirit”, de Elton/Rice/Beyoncé, “Never Too Late”, de Elton/Rice, e “He Lives in You”, pedida “emprestada” à versão musical da Broadway de “O Rei Leão”, entram por um ouvido e saem pelo outro. É o total desalento na savana. Walt Disney podia ser um empresário e um comerciante, mas era também um homem culto e um artista. Como se pode ver por este “Rei Leão” para o século XXI, a sua preciosa herança está nas mãos de gestores, contabilistas, informáticos e técnicos de efeitos especiais.

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