E vão cinco. São cinco as datas em que John Cleese, membro vitalício dos Monty Python, vem atuar ao Coliseu de Lisboa, entre 3 e 7 de Maio de 2020. É um potente quebrar de jejum por parte de um artista que nunca tinha atuado no nosso país. Se calhar até ao fim da leitura deste texto já vão ter sido marcadas mais meia dúzia de datas. Esgotarão, certamente. E o porquê é simples: é imperdível ver um dos comediantes mais incontornáveis de sempre, cujo percurso atravessa pelo menos três gerações de fãs. Por isso, se Cleese se quiser mudar para cá, dividir um T10 com Madonna, Cantona e o guitarrista dos James, que esteja à vontade.

Lembro-me bem da primeira vez que vi Monty Python. Cresci numa casa que cultivava esse hábito tão anos 80 que era o de gravar filmes da televisão – e depois colocá-los em caixas, com a capa tipo videoclube arrancada da TV Guia. Numa noite, fiquei encarregue pela minha irmã de pôr a gravar um filme que ia dar a desoras na RTP 2 do qual nunca tinha ouvido falar. Chamava-se “A Vida De Brian”. Fiquei vidrada logo com a cena inicial, de uma visita a uma manjedoura. E até hoje a longa metragem sobre o tipo banal que é confundido com Jesus Cristo é o meu filme de Natal.

[o trailer de “A Vida de Brian”:]

A tour que traz John Cleese até nós chama-se “Last Time To See Me Before I Die” (“Última Oportunidade De Me Ver Antes De Eu Morrer”), uma piadola que pode muito bem concretizar-se – o britânico já chegou aos 80 anos. Mas a tendência para dar nomes provocatórios às suas digressões não vem de agora. No final de 2009, o humorista estreava em Oslo “A Ludicrous Evening with John Cleese… or How to Finance Your Divorce” (“Um Serão Ridículo Com John Cleese… ou Como Financiar Um Divórcio”). O título era mesmo literal: um acordo de divórcio catastrófico que o obrigava a pagar 12 milhões de libras (à altura, perto de 20 milhões de euros) à sua terceira ex-mulher forçou-o a sair da reforma. “No meu 70.º ano de vida vou estar a passar dois meses por ano a fazer um trabalho que não me interessa e que provavelmente é um pouco espiritualmente esgotante só para alimentar a besta”, disse sem pudor em entrevista. “Preferia estar a beber café, a ler livros e a escrever. Mas agora não posso pagar esse privilégio”.

Por mais incontornáveis que sejam os Monty Python – e Cleese é o grande protagonista daquele que é talvez o seu sketch mais famoso de sempre, o “Papagaio Morto” – a carreira do ex-aluno de Cambridge tem muito mais sumo além disso. Quando o quinteto se dissolveu, John usou o execrável dono de um hotel rural no qual ficou com os restantes Python como inspiração para criar uma das britcoms de maior sucesso de sempre, chamada “Fawlty Towers”.

[alguns dos melhores momentos da série “Fawlty Towers”:]

Em 1989 reúne-se com Michael Palin para escrever e co-protagonizar a comédia “Um Peixe Chamado Wanda”, pela qual recebeu uma nomeação para um Óscar de guião. Depois disso já foi “Q” na saga James Bond, o Rei na trilogia de Shrek e Nearly Headless Nick na saga Harry Potter. Atualmente estreou a segunda temporada da sitcom da BBC “Hold The Sunset” – a história de um homem que a sua vizinha, ambos reformados, que decidem partir para uma nova vida na ilha mediterrânea de Gozo, mas cujo plano cai por terra quando o filho adulto de um deles regressa a casa depois de um divórcio. As reações têm sido, na melhor das hipóteses, mornas. No agregador de opiniões Rotten Tomatoes “Hold The Sunset” tem o consenso de 56 por cento da crítica especializada – e apenas 25 por cento do público.

Visionário nas questões e estilos do seu percurso na comédia, há que não esquecer que Cleese é mesmo assim um idoso conservador (apesar de politicamente se identificar como liberal democrata). Disso são prova as suas posições polémicas sobre o Brexit, do qual foi fervorosamente a favor durante todo o processo do referendo. “Não quero ser dirigido por uma cambada de burocratas europeus porque pensam sempre neles primeiro”, considerou. Mas a frase da maior polémica e que partiu o coração de alguns fãs foi mesmo “Londres já nem sequer é bem uma cidade inglesa”. Porém, nem este exacerbado patriotismo foi suficiente para o manter a viver no Reino Unido. Há dois anos mudou-se para a ilha caribenha de Nevis, culpando o que acha ser o ar cada vez mais irrespirável causado pelos jornalistas do seu país natal – especialmente no rescaldo da decisão de sair da UE.

A luta de Cleese com aquilo que considera ser o discurso dominante não se fica pela crítica aos media. O politicamente correto é outro dos seus ódios de estimação, que até o levou a deixar de fazer espectáculos e conferências em universidade norte-americanas, que considera terem sucumbido a essa pressão. No programa de Bill Mayer explicou que o politicamente correto “começa como uma ideia mais ou menos decente que dá completamente para o torto e é levada ao absurdo”. E exemplificou:

“Fazes piadas sobre os suecos e os alemães e os franceses e os ingleses e os canadianos e os americanos, mas não podes fazer sobre os mexicanos? É porque são tão frágeis que não conseguem tomar conta deles próprios? Isso é muito condescendente.”

O seu trabalho com o psiquiatra Robin Skynner (com quem escreveu Life And How To Survive It) leva-o a defender que a comédia pressupõe que alguém pode ficar melindrado e que é impossível proteger toda a gente o tempo todo de sentimentos negativos.

Concorde-se ou não com a visão de John Cleese sobre o mundo, muita da sua obra cómica moldou a nossa maneira de encarar a vida. Nem que seja porque nos treinou um importante músculo: o do sentido de humor. Na sua autobiografia So, Anyway… (em Portugal editada pela Editorial Planeta) explica:

“Um bom sentido de humor é sinal de uma perspetiva saudável, e é por isso que as pessoas que se sentem desconfortáveis perante o humor são convencidas ou neuróticas. (…) Como a maioria das manifestações do comportamento humano, varia num espectro do amoroso ao odioso. Este último produz piadas raciais maldosas e provocações selvagens; o outro,  produz brincadeira afectuosa, e o tipo de humor inclusivo que diz ‘não é absurda a condição humana? E estamos todos no mesmo barco.´”

A vinda de Cleese a Portugal daqui a seis meses deverá ser mesmo, tal como apregoa o cartaz, a derradeira oportunidade. Os Monty Python já assinaram oficialmente a sua certidão de óbito, com dez espectáculos de despedida esgotados na O2 Arena em 2014. Mas a verdade é que este óbito metafórico já existia, na prática, desde o óbito real do membro Graham Chapman, em 1989. Coube a John fazer o tributo fúnebre de Chapman. Optou por adaptar o texto do sketch “Papagaio Morto”. E acrescentou: “Adeuzinho a ele, o sacana parasita. Espero que frite. E a razão pela qual acho que devia dizer isto hoje é porque ele nunca me perdoaria se eu não o fizesse, se desperdiçasse esta oportunidade de vos chocar em seu nome”.

[o discurso de John Cleese no funeral de Graham Chapman:]

A solução é rir até ao fim. O fim de Chapman. O fim de Cleese. E o nosso próprio fim também. Que pelo menos cheguemos todos a Maio de 2020.

Susana Romana é guionista e professora de escrita criativa